can’t miss [182] jn.pt

O Jornal de Notícias trás hoje publicado um excelente artigo de divulgação das diferentes mobilidades da cidade, no caso testemunhos de quem não anda de carro no Porto. Desmistificando algumas ideias preconcebidas de quem só utiliza o automóvel nas suas deslocações, para e do trabalho, quatro testemunhos demonstram com o seu exemplo que a utilização de outros meios de transporte (a correr, de trotinete, em skate ou de bicicleta) são não só mais saudáveis, ambientalmente sustentáveis, mais económicos, como ajudam a criar medidas na redução do grande fluxo e como enganam o congestionamento automóvel na cidade. De uma forma simples, provam como é possível tornar-se menos dependente do automóvel, podendo-se usufruir de uma cidade diferente, de uma cidade viva e moderna.

Fintar o trânsito de trotineta, bicicleta ou a correr

Deixam o carro em casa porque não querem enfrentar o trânsito. Poupam tempo, paciência e ainda subtraem na conta do final do mês. Na cidade do Porto, há quem escolha ganhar qualidade de vida na ida para o trabalho. Vão de trotineta, bicicleta, de skate ou a correr, para evitar o carro a todo o custo. São apenas 16,5% dos portuenses, face aos mais de 60% que continuam a usar o carro como meio de transporte. […]

 

(lê o artigo completo em: https://www.jn.pt/nacional/reportagens/interior/fintar-o-transito-de-trotineta-bike-skate-ou-a-correr-8913194.html)

Já agora, e aproveitando a oportunidade desde postal, volto à minha cartilha e deixo o testemunho diário de um ciclista urbano:

“Optar pela bicicleta para o trabalho, para os afazeres diários ou para um simples passeio, tem se tornado mais popular entre as pessoas. No Porto e arredores, apesar de diversas dificuldades enfrentadas pelos ciclistas, os exemplos multiplicam-se a cada dia.

É o meu caso. Todos os dias, após o pequeno-almoço, saio de bicicleta para o trabalho. A saudável rotina de pedalar até ao centro da cidade, faça sol ou faça chuva, já dura há vários anos. A minha residência dista cerca de quatro quilómetros do meu local de trabalho e para chegar ao serviço levo aproximadamente 15 minutos, nas calmas. Além de poupar tempo, o uso da bicicleta tem outros inúmeros benefícios. Ao optarmos pela utilização diária da bicicleta para o trabalho, pensamos na nossa qualidade de vida, poupamos na carteira, contribuímos para o meio ambiente, e é menos um carro a circular na cidade. Ficar preso no trânsito, para além de um contratempo é burrice.

A minha escolha nem sempre é compreendida por algumas pessoas. Depreendo isso pela forma como alguns automobilistas me ultrapassam e viram à minha frente. Outros consideram que pedalar na cidade é bastante perigoso! Crêem que sou louco ao pedalar em dias de temporal! Além das actividades diárias na bicicleta, pedalo dezenas de quilómetros por semana por puro prazer. Acredito que se não fossem as dificuldades que enfrento muitas outras pessoas fariam o mesmo.

O número de automóveis que circula nas cidades aumentou muito. Os gestores municipais perceberam esse problema e olham agora para a bicicleta como uma opção válida de mobilidade. Bem ou mal, existem hoje mais ciclovias, há mais estacionamentos para bicicletas espalhados pela cidade, a legislação rodoviária reconheceu direitos à bicicleta e decretou deveres ao ciclista. Ainda há muitos buracos na estrada mas, mesmo assim, a pedalada vale a pena.”

 

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circular por aí a jogar à cabra cega

Circular nesta altura do ano, no início da manhã ou no final do dia, quando o sol está mais baixo no horizonte, pode ser ofuscante e causar problemas a quem anda da estrada, estejamos na qualidade de automobilistas, peões ou ciclistas. Todos os anos, nesta época, a determinadas horas do dia, o sol está mais baixo no céu e pode provocar encandeamentos. A visibilidade, ou a falta dela, é muitas vezes um factor que pode contribuir para o acidente. Confesso que nem sempre é fácil em tais circunstâncias reagir com rapidez, mas os acidentes influenciados pelo brilho solar podem e devem ser evitáveis.

Talvez todos nós já tenhamos vivido uma situação semelhante, levar subitamente com o sol em cheio nos olhos ao ponto de nos “cegar”, mas o “talvez” não é desculpa para acções negligentes dos automobilistas. A falta de visibilidade é perigosa na medida em que as pessoas podem, repentinamente, deixar de ver com o brilho do sol que incide directamente nos olhos e tornar impossível enxergar a sinalização, quem segue ou se atravessa à sua frente. Embora seja mais perigoso para os condutores, o encadeamento pelo sol pode ser também um problema para os ciclistas. Um ciclista pode ferir um peão ou outro ciclista, mas para os automobilistas a história é bem diferente. Se não forem cuidadosos podem ferir gravemente outras pessoas.

Como ciclistas, devemos ter em atenção quando vivemos situações destas. Somos vulneráveis na estrada e dependemos da capacidade do condutor para nos ver e evitar nos derrubar. Alguns automobilistas não sabem adaptar a sua condução às condições climáticas extremas. Não importa o quão ofuscante é o contra-luz, se está nevoeiro ou chove a potes, eles continuam à mesma velocidade, como sempre. Registo demasiadas vezes a pouca evidência de tomada de precauções extras para evitar acidentes. Baixar a pala do lado do condutor de modo a bloquear o sol ajuda, mas na maioria dos casos a pala proporciona pouca melhoria. Deve-se sempre abrandar a velocidade, sobretudo nestas condições, para tornar mais fácil reagir caso alguém encoberto pela luz do sol se cruze no seu caminho. Não deve haver excepções. Uma casualidade destas pode ser fatal e nunca será em tempo algum desculpa legítima para aumentar a sinistralidade.

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ciclofilia [142] Fabrico Nacional

Episódio 11: Órbita

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fotocycle [218] impressões

Na bicicleta desfruto das ruas, das mesmas ruas que me guiam para o trabalho. Na bicicleta olho o Porto como uma cidade em movimento. Desvendo nas paredes da minha cidade a arte urbana que sai à rua. Arte provisória, tradicional e abstracta, camuflagem do desocupado e do decrépito. A pé e na bicicleta invado os recantos, apodero-me das paredes como as heras ou as mãos de um artista. Aproveito cada momento.

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da série: dona Etielbina vai para a aldeia [parte II]

(continuação)

Com um brilhozinho nos olhos voltei às curvas da EN108. A velha estrada património liga-me a Frende, leva-me até ao “Castelo”, a um lugar de afectos, à aldeia dos meus avós, à terra da minha mãe. Assim que passei a barragem senti o vento quente que me batia forte, de frente. Lentamente, o sol foi expondo a agradável palete de cores que me iria acompanhar neste Outonão, ou Verono, o que lhe queiram chamar! Eu sabia pró que ia. Sem qualquer senso de urgência, pela frente iria ter cinco a seis horas de pedalada para pouco mais de cem quilómetros, invariavelmente difíceis, constantemente contemplativos. Sabia também que depois de um Verão e Outono severamente secos (já choveu, mas não o suficiente) a tristeza e revolta me iriam devastar os sentimentos. Na panorâmica pedalada ao longo da marginal do Douro, o trecho desde Rio Mau até Entre-os-Rios só me trouxe o cheiro a queimado e a vista enegrecida. Do que antes era verdejante e pleno de vida estava triste e inerte. Transposto o Tâmega, felizmente a paisagem retomou as cores naturais e os cheiros característicos.

Dona Etielbina não me perdoou. Parecia castigar-me por tê-la negligenciado, mas se o carrego e a roçadura me dificultavam a progressão, eu estava a borrifar-me para ela. Eu não tinha muita pressa! Parei sempre que tive vontade de fazer uma fotografia, de trincar uma bucha e encher o cantil. A excursão estava tão agradável que depois da Pala, onde o asfalto é mais custoso, sentia-me como que levado ao colo. As mudanças mais levezinhas da velha bina têm o benefício de me aligeirar o peso das pernas e de tornar o meu ritmo mais vagaroso e deleitado. Especialmente na parte onde se suam bem as estopinhas, aproveitei cada bocadinho de chão. O ciclismo através de lugares tranquilos, estradas desertas, num mundo de paz e silêncio, sem nenhum horário para cumprir, é retemperador. Mas as nádegas exigiam uma trégua e o selim aproveitou, ou terá sido ao contrário!? Propositadamente, planeei a já tradicional paragem na mercearia de Dona Mariazinha. Comprei-lhe duas bananas, que foram comidas ali mesmo, pusemos a conversa em dia, de como vai a vida, enquanto saboreava o inevitável copinho de Moscatel. E claro tirei a fotografia da praxe, sentado à porta, no relaxe.

A manhã estava longe de acabar e o ciclista teria ainda muito que pedalar. Sozinho, enfrentando a lestada que soprava cada vez mais forte, continuei a rodar os pedais ao longo da mesma estrada, a subir e a descer, a curtir e a viver… quando sou abruptamente interrompido do meu devaneio porque um saco plástico trazido pelo vento se enrolou na corrente e não queria sair. Prontes, lá se foi a delicada afinação que Mister Barbosa lhe tinha deixado. A partir daqui Dona Etielbina teve uma mudança de humor, algumas engrenagens saltavam e rangiam, mas aqui o ávido ciclista não se importunou com a mudança de ritmo e continuou a impulsionar os pedais. Parou e fotografou, pedalou e reclamou, parou e almoçou. Chegou lá como um passageiro de uma viagem captadora de todas as emoções.

Após reviver momentos inesquecíveis juntos, deixei a velhota na sua nova moradia, lar doce lar, confortável na sua reforma dourada, preparada para me receber, com ela descer ao rio, me esgueirar por estradas e estradões desertos, me transportar pelo fascinante mundo das montanhas, me ajudar no enquadramento das fotografias, me levar a ver paisagens, sentir os cheiros, os sabores, as subidas, as descidas, os trilhos, as pessoas… A mui antiga, ogre e sempre leal Dona Etielbina vai ficar por ali, disponível, à minha espera, sempre que eu volte a um Lugar que tem um lugar reservado no meu coração.

Depois fui apanhar o comboio.

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da série: dona Etielbina vai para a aldeia [parte I]


Conhecemo-nos há 15 anos. Comprada na Etiel em parelha com a bicla da Maria, segundo o meu código ético da época, foi nela que voltei ao duro selim e retomei isto de “dar umas pedaladas”. As BêTêTê´s dos anos 90 eram diferentes das actuais, não só na desmultiplicação como na geometria. Para além do seu resistente quadro de alumínio, das rodas MAVIC e grupo SRAM, pouco resta dos seus dotes originais. Aos poucos foi recebendo uns mimos, ganhou diferentes personalidades, umas mais arrojadas, outras condizentes com as necessidades polivalentes do dono: da estrada ao campo. Foi nela que definitivamente virei um ciclista, fortuito, entusiasta, constante, porque a vida é mais gostosa a pedalar. Com uns requintes de malvadez, fiz dela o meu veículo diário, adaptada a diferentes funções. Me manteve em forma e afastou a melancolia dos dias curtos. Juntos fizemos mais de ______ (favor preencher) quilómetros! Sei lá eu quantos! Já nos perdemos, retomamos o caminho, demos memoráveis trambolhões, rimos, conversámos e nos divertimos. Roda(va) que e(ra) uma beleza, mas a idade não perdoa! Devido ao uso e abuso que aqui o je lhe proporcionou, apareceram-lhe as artroses e o reumático. Depois chegaram as outras. Com a entrada em cena das concorrentes, a velha companheira acabou pendurada a um canto na garagem. Os anos foram passando desde a derradeira vez que nela sentei o rabo e lá foi ficando, negligenciada, porém guardada. Apenas relembrada numa ocasião para me safar e ser o meu veículo de substituição! Dona Etielbina resistiu estoicamente, e como recompensa pelos serviços prestados à comunidade saiu da garagem e da cidade para ir viver na aldeia a reforma dourada a que tem direito.

E é então que passados mais de seis meses em hibernação na clínica do Dr. Barbosa, dona Etielbina livrou-se dos salamaleques, ganhou uma camada de pó e transmissão novinha em folha. Ficou impecábel, pronta a botar os pneus na estrada e me levar pelas curvas e contracurvas desta vida.

(continuará um dia destes)

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a distância que protege

Saquei esta foto do registo Strava de um amigo quando pedalava pela zona rodoviária da Vilariça, julgo que na EN102… Entretanto fez-me uma correcção: São vários os sinais que estão espalhados mas pelas estradas municipais de Torre de Moncorvo 😉 […] se fores à Foz do Sabor vês lá estes sinais! E sim, era bom que fossem colocados mais destes sinais, tanto na nacional 102 como nas Municipais de Foz Côa”. Numa via (EN102) onde o controlo de velocidade deveria ser mais apertado, esta sinalização seria de extrema importância para os ciclistas que nela circulam.

É do meu agrado confirmar que existe a preocupação de se espalhar este tipo de sinalização nas nossas estradas, procurando estabelecer uma melhoria na segurança, no civismo e mentalidades, de ambas as partes. Principalmente nas minhas pedaladas extra-urbanas, tenho notado que o respeito pelas regras é mais evidente, tanto por automobilistas como por ciclistas. Aos poucos a bicicleta é vista como um meio de transporte como outro qualquer e não como uma coisa estranha que circula na estrada.

No entanto ainda verifico total desconhecimento das regras por parte de quem comanda um acelerador. Vou, portanto, relembrar o que diz o Código da Estrada:

Artigo 18.º
Distância entre veículos

[…]

3 – O condutor de um veículo motorizado deve manter entre o seu veículo e um velocípede que transite na mesma faixa de rodagem uma distância lateral de pelo menos 1,5 m, para evitar acidentes.
4 – Quem infringir o disposto nos números anteriores é sancionado com coima de € 60 a € 300.

[…]

Por isso meus amigos, se houver bom senso e respeito de parte a parte, então a convivência nas estradas só pode melhorar.

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Gerês revisitado, um brevet que ficará registado

Chegou o dia de revisitar o Gerês em mais uma voltinha “randoneira”, o último brevet da época dos Randonneur Portugal. Com a mesma emoção e entusiasmo de sempre, lá fomos pedalar pelos encantos do Gerês e voltar. Coisa pouca, pouco mais de 200 quilómetros na companhia da Lenita, do Luís, do Mário, do Frinxas, do… Várias horas no selim, bom divertimento e cheias de peripécias para contar.

Desta vez, não tive companhia na curta viagem de carro para Esposende. Adormeci Desleixei-me um pouquinho nos preparativos e cheguei à Delegação Marinhas da Cruz Vermelha mesmo à hora do depart. Preparada a dona Tripas, feito o bikecheck e tratados os papéis, colete no corpo e capacete na tola, dou conta então que só tinha uma das luvas. Da sua congénere nem uma pista. Não estava na mochila, não estava na mala do carro nem na malinha Sport Billy! Com isso nem prestei atenção ao breefing da praxe. Enfiei a luva solteira no bolso do casaco, alapei o rabo no selim e dei lesto ao pedal para não perder o segundo grupo de randonneiros que já se fazia à estrada, em direcção a sul. A paisagem permanecia escura, a estrada molhada, mas não se perspectivava chuva.

Isto de manhã não é fácil. Nos primeiros quilómetros estabelecemos um rimo adequado e foi com os olhos no trio da frente que, após a nossa passagem por Fão, distraídos no paleio, falhamos a viragem à esquerda e a saída da EN13! As geringonças que supostamente nos deveriam orientar na estrada estavam também sonolentas! Refeitos do pequeno engano, formamos um pequeno grupeto e seguimos com cuidados redobrados. À conta do intenso nevoeiro que se verificava e do asfalto escorregadio, nem arrisquei pegar na tele-objectiva. A primeira fotografia foi apenas registada no primeiro pit-stop, em Amares, bem como a primeira carimbadela no cartãozinho amarelo.

Com cinquenta quilómetros pedalados em pouco mais de duas horas, o ritmo estava bom. E se não permaneceu assim, foi porque a partir dali a estrada iria empinar e o panorama iria melhorar. Ao contrário do brevet do ano passado, pedalado em Março, a temperatura agradável e o bem esboçado colorido outonal  só tornaram a viagem ainda mais fascinante. Com a subida de nível, a neblina ficou para trás e um sol quentinho surgiu para nos aquecer o canastro.

O bucólico ambiente, a vida rural, os cheiros, os sons, nada me tirava do pensamento aquela malga de sopa a ferver que sabia me esperar no Nosso Café. Foi numa cadência determinada que cavalguei pelo paralelo da aldeia de Rossas. Tirei o sapato do cleat, encostei a Tripas à parede, registei a passagem e só descansei quando me sentei ao balcão para emborcar uma mini e uma generosa sandes de presunto, enquanto a sopinha ia arrefecendo. Não hajam dúvidas que de todos os brevets em que participei este é o meu PC (posto de comer) favorito… Ah, e antes que me esqueça: lembram-se de no início desta história ter contado que me faltava uma luva!? Pois bem, assim que tiro o capacete da tola a dita luva desaparecida reapareceu!… na minha cabeça!

Depois da barrigada de riso e do repasto, continuamos a nossa sedutora jornada. A certa altura a chuva também quis aparecer mas, se assim se pode dizer, foram uns pingos de pouca dura. E agora vou-me repetir. Nada mais tranquilo e estimulante que vadiar por um reduto de silêncio e paz.

Depois da passagem por Vieira do Minho viramos ao encontro da bacia hidrográfica do Cávado. A cada curva da saborosa descida íamos descortinando uma vista deslumbrante sobre o rio, a tranquila albufeira da barragem da Caniçada e as serras da Peneda e do Gerês. Claro que a paragem para tirar retratos da ponte foi inevitável. Metade do percurso estava concluído, mas sabíamos bem o que teríamos pela frente, uma horinha de escalada bem durinha. Bendita gasolina sopa.

Passagem pelo Santuário de S. Bento da Porta Aberta, mas pelo que pude ver a porta estava fechada! O vislumbre das vertentes da serra cobertas pelo negro dos incêndios deixou-nos tristes. Raio de gente que se diverte a atear fogos. É que não encontro outra forma de explicar que haja fogo naquelas vertentes senão alguém que premeditadamente o tenha feito. A certa altura as forças já me falhavam. Esta Tripas é bem mais exigente que a gOrka, a minha bicla levezinha que me trouxe no ano passado.

Decidimos parar no mesmo miradouro estratégico, recuperar o fôlego, trincar uma maçã e pousar para a fotografia.

Depois de ter sido surpreendido na estrada por um rebanho de cabrinhas, reencontrei o grupo no Parque de Cerdeira, terceiro posto de controlo, também o local marcado para reforçar o almoço. Estes intervalos são sempre um bom pretexto para conviver, reencontrar quem já está de saída e quem ainda está a chegar. Continuamos para o controlo seguinte, uma etapa bem longa.

A grandeza da Barragem de Vilarinho das Furnas, a envolvência paisagística do Parque Nacional da Peneda-Gerês deixa-nos sempre deslumbrados. Aproveitamos o momento e uma turista para enriquecer o nosso álbum fotográfico. Retomar a pedalada logo após o almoço, ainda por cima com a dura ascensão da encosta da Serra Amarela, é complicado. Lentamente, fomos esticando e rodando as pernas, conversando e nos deixando encantar com a panorâmica. Desta vez o tempo estava de feição, tornando visível o cenário montanhoso que dali se pode ter.

Chegamos ao topo, à aldeia de Brufe. A muito pitoresca aldeia de Brufe é um local de visita obrigatória, pela sua história, património rural, pelas casas de granito, os espigueiros, as eiras e moinhos de água. Gostaria de lá ter ficado mais tempo, mas o pessoal estava com vontade de descer e só tive tempo para uma fotografia artística.

Iniciamos com cuidado a descida por uma estrada em muito mau estado, o que viria a ter as suas consequências na bicicleta da Lenita. Reparado o furo lá continuamos até ao cruzamento onde no ano passado errei o percurso. Desta vez não segui o instinto mas a roda dos companheiros. A pedalada seguiu tranquila, apenas aqui e ali assombrada pelas buzinadelas de alguns automobilistas nervosos e no mínimo ignorantes. Só para os lembrar: desde Janeiro de 2014 que o Código de Estrada, art.90, prevê que os “ciclistas podem circular a par na via, tal não cause perigo ou embaraço ao trânsito”… OK!

Chegamos a Anais com o depósito a entrar na reserva e, seguindo a dica de um randonneur experiente e conhecedor das melhores pastelarias da zona, desviamo-nos um bocadinho do percurso para tratar de adocicar o sangue. E é aqui que sem querer começou o meu épico descuido do dia, e do qual só iria dar conta no terceiro posto de controlo, na Vila de Punhe, passados vinte quilómetros e já de luzes ligadas. “Mas, cum carago! Perdi o diacho do cartão brevet!”. O bolso lateral e a tampa da malinha Carradice estavam abertos e nada do cartão para o voltar a carimbar! Quer dizer, fiz todo aquele percurso de mala aberta, o raio da cartolina evaporou-se! Resignado, voltei ao selim para cumprir a derradeira etapa, de volta a Marinhas, ao ponto de partida. Dei conta da minha chegada e da minha grave falha. Sem apresentar o cartão não poderei ter o brevet homologado. Paciência.

Era chegada a hora de voltar a casa. Abro a mala do carro, tiro a roda da frente da bicla, prendo a bicla no suporte do tejadilho do carro, guardo a roda da frente na mala do carro e arranco. Assim que me preparo para entrar na N13 alguém buzina e me chama! Era o Pedro, avisando-me que eu tinha a mala do carro aberta! Aberta não, escancarada!

Definitivamente, eu não fecho bem a mala!

No regresso a casa, vim o caminho todo a matutar, onde raio teria deixado o cartão! Sim, recordo tê-lo visto aquando da paragem em Anais mas depois não o vi mais!… Paciência. O que realmente me interessa é que foi mais um dia proveitoso, por caminhos fascinantes e em excelente companhia. Assim como assim, um dia ainda entrarei para os anais da história dos Randonneur Mondial, não pela conquista de um qualquer super randonnée mas por andar por aí a espalhar cartões BRM!

Um especial agradecimento pela maravilhosa companhia e espirito de gupo: Lenita, Luis e Mário. E se por um acaso tremendo alguém encontrar um pedaço de papel amarelo parecido com este mas sem os últimos dois carimbos, está convidado a me acompanhar numa francesinha especial.

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reciclando [34] o gosto pelo pedal

De acordo com o que escreveu um velocipedista urbano nas redes sociais, nomeadamente no grupo Ciclismo Urbano em Portugal, onde refere a circunstância, aspecto, ou… “visão rara no Porto: três bicicletas paradas num semáforo vermelho (e três selins brooks. haverá relação causa/efeito? já sabemos que os MAMIL(*) não param)…” acendeu o grupo para a discussão e celeuma sobre o que veste um ciclista, como equipa a sua bicla, como se comporta no meio rodoviário, “como é, vais para o trabalho ou andas mas é a treinar!”

Não sou grande entendido nas relações humanas mas desde que recomecei a pedalar percebi que os seus utilizadores, embora focados na mesma prática de dar ao pedal, detêm algumas características e comportamentos muito distintos uns dos outros. Na estrada nunca encontrei uma comunidade tão unida e receptiva quanto a dos guerreiros do asfalto. Nas montanhas, os aventureiros de todo o terreno têm uma espécie de conduta, de auxílio e partilha invulgares. Quando definitivamente optei pela bicicleta para ir e vir do trabalho, para definitivamente ser o meu modo de transporte urbano, conheci a Massa Crítica, pessoal fixe com quem troco muitas informações a respeito das biclas, das experiências, apetrechos, rotas, sucessos, dicas, lugares porreiros para pedalar e por aí fora. Com ou sem licra, nunca fiz parte exclusiva de um grupo. Gozo do prazer de pedalar, sob o aço ou outra fibra, sem a necessidade de me integrar numa tribo. No mundo das bicicletas, uma característica interessante e que me atrai é que não existe distinção entre nós, ou pelo menos não deveria. Comigo não existe essa coisa dos esteriotipos. Para mim todos os que pedalam e com quem pedalo são tipos fixes. O gosto pelo pedal é o ponto comum e isso é quanto basta. A única distinção que existe dá-se na diferença de comportamentos, e andamentos, mas nisso dos comportamentos eu sempre tive de me ajustar.

Ahhh… como Middle-Aged Man, que sou, muitas vezes ILycra tipo MAMIL(*), qual espécie invasora com a respeitosa barriguinha, confesso que de vez em quando não me equipo de lycra, de vez em quando não paro nos vermelhos, de vez quando não uso capacete… agora o que não é de vez em quando é dar ao pedal mas preferencialmente com o rabo bem assente nos meus estimados selins Brooks!

Bom fim de semana

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fotocycle [217] o Outono está no ar…

… e o ar está mais frio do que inferno! As estações estão finalmente no seu natural estado de transição, e nós ainda em estado de choque!

Volto para casa. Pedalo com um sensível senso de lazer, numa jornada de redescoberta, enquanto o Outono transforma rotas que conheço muito bem em novos mundos, caminhos repletos de cores, tapetes de folhas ocre, cenários entre o verde e o amarelo, paisagens de ferrugem e ouro. Por alguns dias, este mundo permanecerá mágico e então desaparecerá, substituído por céus pardos e árvores estéreis. Independentemente disso, continuarei a pedalar e a percorrer este meu mundo, transcendente, como um participante contemplativo, um observador constante.

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