crónica do pedal a Santiago


Três dias, cinco bicicletas, muitas mochilas, duas ladies e três ciclistas malucos. Começava assim o “Plano Ciclístico até Santiago de Compostela” ou “Uma Trip do Carago”, como lhe preferiu chamar o tasqueiro. Poderia dizer que tínhamos resolvido finalmente fazer alguma coisa, que o nosso lado aventureiro falou mais alto que a preguiça, que o cagaço e todas as outras desculpas (para cruzar os braços) juntas, mas a verdade é que mais alto o que falou mesmo foi a vontade de andar de bicicleta, da conversa fiada, de amigos que ficamos, já que eu pouco os conhecia, do tempo de ignorar o relógio, o telefone, a esposa e o filho, raras chances de ficar à toa por um caminho em nada aleatório. De chegar lá, afinal. Por alguma razão se desiste mas nós fomos e vencemos, as subidas, as pedras, a sede, a lentidão. Nada que se pareça com aquela sensação que temos do objectivo alcançado. Não somos melhores nem piores, fomos capazes. Não quero convencer ninguém a nada, nem dar palmadinhas nas nossas próprias costas, quero mesmo é convidar todos a percorrer o mesmo caminho. Como foi? Incrível.

Engraçado, que antes da viagem descobri existirem perguntas padronizadas e que me foram feitas. Antes de mais nada, vamos a elas e às suas respostas politicamente correctas:

1 – Vais pagar alguma promessa?

Não, decidi viajar de bicicleta por prazer, para experimentar novas sensações e conhecer pessoas e lugares.

2 – Quanto tempo de viagem?

O tempo é relativo. Sabe-se que na física t = d/v, ou seja, quanto maior a velocidade, menor o tempo, até mesmo porque a distância é uma constante, relativa mas é. Logo, o nosso plano foi cumprir parte do Caminho nos dois dias disponíveis. No primeiro de Viana até Redondela e no segundo até Compostela.

3 – Quantas horas de pedal?

Isso aí só saberíamos no dia. Contas mal feitas, foram… muitas!

4 – E como voltarão?

De comboio, isto é, se nos deixarem colocar as bicicletas no porão da carruagem e se a CP mantiver a ligação de Vigo ao Porto.

5 – Vocês são loucos!

Sim, se querer viver a vida e gozar dela é ser louco, então somos!

Mas vamos ao que interessa…

Então, e por imperativos logisticos, preservar os espíritos e as forças do grupo, tivemos de alterar o plano. Assim, em vez de cumprimos a rota tradicional, decidimos ir por Viana, entrando no Caminho propriamente dito em Valença.

Após uma curta noite de sono, a minha foi em claro, o despertador dispara,  era hora de levantar. Corpo ainda pesado de sono porém a alma levitou-me, eufórico pela novidade. Banhos tomados, estômagos forrados, hora de prender os últimos penduricalhos na bicla e partir no nevoeiro, cumprindo o trajecto num ritmo bem tranquilo entre Viana e Valença, paralelo ao mar e ao Rio Minho. Uma vez chegados a Cerveira, haveríamos de fazer uma pausa em casa dos pais de um dos companheiros de route, para almoçar, refrescar e degustar meia melancia que já nos havia proporcionado boas risadas.

Demoramos a retornar à estrada, e antes de chegar a Valença tivemos um ensaio da beleza e dureza do que iríamos encontrar em cima de uma bicicleta cheia de tralha. Despedimo-nos de terras lusas e entramos na Galiza, iniciando o Camiño propriamente dito pelas ruas íngremes e medievais de Tui. A minha bicicleta era agora um veículo internacional.

Podem crer, foi bom sentir o peso da bicla nos braços quando fui obrigado a descer as escadas e passar o pequeno túnel do Convento das Clarissas Enclausuradas. Depois o caminho passou a ser feito por belas trilhas rurais, bosques, pontes medievais, subidas e descidas por atalhos de pedra, gravilha e pó. Após sair de Porriño chegou a pior parte do Caminho, uma longa e feia recta que rasga uma horrível zona industrial. Neste ponto do percurso o grupo já se havia desagregado porque a diferença de ritmos entre os bravos do pelotão e as majoretes era abismal.

Antes da descida alucinante para Redondela, vai Lau, onde iríamos pernoitar, tivemos o primeiro grande prémio de montanha com um metro de língua para fora e o milagre do dia. Após uma longa e extenuante subida que nos deixou de rastos, vários quilómetros percorridos mais a empurrar a bicla do que a pedalar, assim, no meio do nada, eis que surge o milagre. Não, não era uma visão, era mesmo real. À beira da estrada uma máquina de bebidas frescas esperava a nossa chegada que, à custa duns euritos, nos retribuiu com o justo prémio pelo nosso esforço. A chegada a Redondela fez-se já com as luzes ligadas, em velocidade e ferocidade. Após a chegada das ladies, e finalmente com a fome saciada, fomos então dormir e repor um pouco das energias para encarar o dia seguinte cheios de pica.

Com mais de 90 km nas pernas, saltamos da cama com uma disposição magnifica para atacar bem cedo os oitenta e tal que ainda teríamos pela frente. Depois das trouxas, as nossas e a das majoretes, arrumadas e amarradas às biclas de carga, que eram basicamente duas, a minha e a do Lau, após um pequeno almoço reforçado, o objectivo passava por impor um ritmo mais forte do que o do dia anterior. Portantos, combinamos que o grupo seguiria a dois ritmos diferentes, nós na nossa onda e elas até onde as pernocas as levassem, tendo como ponto de encontro Santiago, ou Vigo, onde iríamos dormir. Nesta parte do percurso, mais do tipo bêtêtê, encontramos trilhos exigentes, de sobe-e-desce cansativo porém recompensado com uma vista lindíssima. Quem está numa bicicleta pode parar, observar, ouvir os sons, sentir os cheiros e realmente experimentar cada sensação do momento. A Ria de Vigo, a Ilha de S. Simon, Árcade e a medieval Ponte de Sampayo, paisagens lindíssimas, povoados medievos de encantar e descidas perigosas.


Depois, bem, depois é que foram elas. Estes Romanos eram mesmo loucos, disso não tive dúvidas. Num dos bosques mais bonitos do caminho, de Canicouba até Briallos, a estrada romana deu-nos cabo do toutiço. Pedras enormes gastas pela erosão do tempo que não nos deram tréguas. Se as biclas já pesavam toneladas as baterias depressa estavam a descarregar. A determinada altura paramos para descansar e comer, e na busca por amendoins ou bolachas Maria demos conta que afinal nas pesadas trouxas das senhoras carregávamos cremes e utensílios de beleza! Mas, enfim, somos cavalheiros e por elas esperamos para continuar a empurrar as burras de carga, calçada acima e por bastante tempo. Depois as trilhas amenizaram um pouco o nosso esforço dando uma certa tranquilidade e um certo ar bucólico ao local.

Encontramos muitos peregrinos que prosseguiam o Caminho a pé. Mais tarde decidimos parar para tomar um café, e acabámos também por aconchegar a alma com um pouco de humildade ao conviver com dois peregrinos, pai e filho, oriundos da longínqua região de Natal, no Brasil.

Depois de um constante sube-sube, sígue-sígue, bendita a hora que avistamos a Taberna “O Muiño” à entrada da vila termal de Caldas de Reys. Era chegada a hora de atestar o depósito, deixar as bichas descansar e desenferrujar um pouco o portinhol.

“Precioso, ballé. Bem, e agora como é que me levanto!”

Mas o que tem de se ser tem muita força, e logo, logo, tivemos de recomeçar o caminho e a sequência: pedala um pouco, desce e empurra a bicicleta, pedala um pouco, desce e empurra a bicicleta… Pedala mais um pouco e empurra novamente, e assim vai até ultrapassar outro obstáculo. Talvez esse trecho tenha sido o mais cansativo da viagem, fisicamente e emocionalmente. Fisicamente pelo relatado anteriormente, e emocionalmente porque as majoretes, deixadas para trás fazia tempo, nos ligaram entretanto a informar que não iriam ter pedalada até Compostela. Foram direitinhas para Vigo.

Incrível era ver aquela plaquinha indicando o caminho e a distância remanescente, que renovava o ânimo no espírito, pois progredíamos e conseguiríamos ir até aonde nossos sonhos permitissem. Pausa para mais um descanso e algumas fotos.

“Falta pouco! Ufa!”

Eis que, após mais alguns minutos de pedalada, finalmente chegamos ao nosso destino. Passamos a Porta da Faxeira que dá acesso à Rua do Franco, onde o fervilhar de peregrinos e forasteiros que circulam pelas ruas é animado, entre tasquinhas e restaurantes com tapas de encher o olho. Calmamente circulamos pelo meio do maralhal com aquele sorriso e ar de satisfação, até que desmonto da “Etielbina” tiro os sapatos sujos e ponho os pés de molho na Praça do Obradoiro repleta de gente.

O que ganhei com a viagem?

Momentos com amigos, momentos divertidos, convertidos. Experiências novas. Novos lugares, novas sensações. Vi e vivi que quando se quer se consegue. As dificuldades existem, como as que encontramos, o segredo é saber como lutar contra elas.

Existem caminhos que só se descobrem vivendo e eu segui pelo mesmo caminho. O próximo já vem a caminho. Até lá.

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Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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2 respostas a crónica do pedal a Santiago

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apenas pedalar ao nosso ritmo.

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