
A expressão “não há almoços grátis” significa que nada na vida é verdadeiramente gratuito; tudo tem um custo, explícito ou implícito. Mesmo, quando ao domingo de manhã a visita à Citânia de Briteiros é de graça e, para lá chegarmos dando aos pedais pagamos o preço através de tempo e esforço.

Já lá tinha ido a pedais com o Jorge, mas como aconteceu a um sábado e já estávamos com o tempo contado para o resto da voltinha, não se justificava termos de despender 5€ cada bilhete para tão pouco. Assim, ali mesmo ficou combinado que voltaríamos lá a um domingo, e levaríamos o nosso amigo Pawel que aprecia bastante conhecer as belezas da nossa terra. Com o commute a Porto – S. Bento, seguiu-se uma hora de comboio até Braga onde seria o inicio do nosso itinerário poupando-nos as pernas para quilómetros mais interessantes. Só que até Briteiros ainda teríamos de partir alguma brita. Na senda de colecionar mais alguns quadradinhos para a sua caderneta, o Pawel desenhou um percurso alternativo, mas repleto de surpresas.

Embrenhados no mapa urbano bracarense, evitamos as avenidas circulando calmamente pela concorrida Ecovia do Rio Este. Depois, à saída da cidade, não evitamos alguns enganos de percurso mas lá demos com a loja de bicicletas Firstbike que o Jorge fazia questão em conhecer. Não conheceu pois ainda estava fechada, mas já valeu a pena passar por lá só para admirar e fotografar o magnífico mural velocipédico, obra de odra trip.

Enquanto as ruas mantinham o tapete de paralelepípedos mais ou menos alinhados a coisa até que ia correndo bem, mas quando subitamente o pavimento muda de figura, para terra com sulcos e gravilha, adaptamos os carretos às dificuldades. Nisto, o declive do terreno empina-se para além das duas dezenas de graduação positiva e aí, o desenrascado betêtê passa para um embaraçado pétêtê. A primeira a queixar-se foi a corrente da Maneirinha que saltou e encravou quase me fazendo estatelar no soalho. Depois a lentidão na progressão, aliada ao calor que já se sentia, fez-nos perder algum tempo precioso.

A cerca de 20 kms de Braga, na sinuosa descido da N309 em direção a Guimarães, surge a indicação da Citânia de Briteiros convidado a fazer uma visita. Fomos recebidos pelo simpático barman/recepcionista que, enquanto nos servia um cafezinho nos fornecia um mapa turístico com informações úteis. Deixamos as biclas a descansar no hall da recepção e autoguiados pelo mapa entramos numa espécie de portal temporal para a civilização da Idade do Ferro.

Este espaço é um verdadeiro museu a céu aberto A rota bem identificada cobre todas as principais descobertas e estimula o visitante a explorar por conta própria esta cidade neolítica. Trata-se de um grande Castro (um tipo de povoação da Idade do Ferro, característico das montanhas do noroeste da Península Ibérica – Galiza, Minho e Douro) com traços culturais celtíberos. A “cidade” fortificada apresenta três muralhas de proteção, tendo sido construída no alto do Monte de São Romão, em torno de uma nascente.

Os caminhos rochosos são ingremes e ladeiam múltiplas casas de planta predominantemente circular. O local arqueológico bem preservado exibe dois exemplares de habitações completas com telhado tradicionais de palha, o que dá para criar uma ideia de como seriam. A caminhada é dificultada pelo declive e pela erosão natural dos caminhos, mas é gratificante pela envolvência da natureza, das árvores autóctones e da fauna existente.

As vistas da “acrópole” no topo do castro são espetaculares. Oferece-nos uma visão fabulosa do vale do Rio Ave, e das serranias que, ao longe, circundam o vale. Quem estiver interessado pode ainda estender a caminhada e ir até às ruinas de um banho público, descoberto durante a construção de estradas na década de trinta do sec.XX. Os artefactos do local estão em exibição tanto no Museu da Cultura Castreja, na vila de Briteiros. São uma prova extraordinária da existência de um importante povoado primitivo.

A Citânia de Briteiros, no Monte de São Romão, foi descoberta pelo reconhecido arqueólogo Francisco Martins Sarmento, ilustre conterrâneo e visionário, muito à frente do seu tempo, que ao fazer a descoberta foi comprando os terrenos adjacentes à medida que ia escavando, descobrindo mais vestígios, habitações e artefactos da época. No Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, podemos concluir a visita conhecendo parte do espólio recolhido nas escavações, bem como, ficar a conhecer melhor a vida de Martins Sarmento, amigo próximo de Camilo Castelo Branco.

Finda a visita à Citânia, continuamos a pedalada até ao Porto via Santo Tirso, por ruas empedradas e estradas esburacadas. Em suma, por velhos caminhos, nunca antes pedalados por nós mas para enriquecer sobretudo a curiosidade do nosso amigo polaco. No fim do dia ficou a satisfação de mais uma volta em conjunto, lenta mas gratificante.

Agradecimentos ao Jorge e ao Pawel pelo convite e companhia.






























































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