oh-iii oh-aiii, fui comprar um…

… dois, três, quatro… uma carreta de manjericos  😀

Este ano o calendário volta a lixar-nos o feriado, mas não é por isso que vamos deixar de fazer uma rusga pela cidade. Agarrem o manjerico, o alho porro e o martelo, e saiam à rua com umas loiras fresquinhas para celebrar o São João.

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um fim de semana em cheio

No sábado fui à aldeia, por um caminho duraDouro. Com um brilhozinho nos olhos voltei às curvas pelas velhas estradas património, EN108 e EN222. Se nos primeiros quilómetros para o interior o vale do Douro se apresentava fresco e enevoado, lentamente a manhã foi ficando mais amena e luminosa. A panorâmica ao longo do rio retomou as cores e a brisa foi me trazendo de volta os aromas característicos da primavera. Ao Lugar do Castelo, a pequenina aldeia da minha mãe, levei uma lágrima e a flor, a quem é e sempre foi uma flor. À minha espera os sorrisos calorosos de sempre e um renovado comentário de espanto.

– Vieste de bicicleta e já cá estás? Deves estar com fome!

Na mesa uma valente travessa de massa, tão amorosamente servida pela minha querida Tia Sílvia, sempre preocupada em me alimentar bem. Desta vez não fui para ficar, nem para deixar ficar uma bicicleta. Depois de duas pratadas bem servidas, das cerejas e do cafezinho, um par de horas passadas à conversa para abafar as saudades e digerir o repasto, retomei a estrada em direcção ao Porto. O vento quente já batia forte, de frente, mas eu sabia pró que ia. Sem qualquer senso de urgência teria uma boa mão cheia de horas a pedalar, invariavelmente difíceis, constantemente contemplativas. Parei sempre que tive vontade de fazer uma fotografia, trincar uma bucha e encher o cantil no estabelecimento comercial de Dona Mariazinha com uma mine preta, fresquinha a estalar.

– Então hoje veio sozinho? Olhe que o Moscatel está no frigorífico…

Um aéreo e vinte centimetros por uma garrafinha de Super Bock e duas bananas é fuel low cost, mais barato que um litro da outra super. Ok, não é combustível que chegue para carburar até chegar a casa, mas tem aditivos suficientes para seguir satisfeito. E como cheguei bem à hora de jantar, lá estava a sopinha e um arrozinho de feijão malando que me souberam tão bem como me soube aquele dia. Uma maravilha.

 

No domingo troquei de montada e fui iNBiCLAR numa roda de bicicletas, amigos e cervejas a copo. É que um gajo não anda pedala a àgua!

 

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fotocycle [229] fim de semana à porta…

… dia santo na estrada!

 

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algures no caminho

Há duas formas de começar isto. O inverno está no ar ou a primavera foi um ar que lhe deu. Dizem os entendidos que as estações estão num estado de transição. Eu diria que é depressão e que o tal ciclone dos Açores deve ser bipolar! A natureza manda mas não lhe dou ouvidos e não permito que me obrigue a ficar a mandriar no maldito sofá.

Como é costume num rotineiro sábado de manhã, teria feito uma pedalada para treinar ou mesmo para comutar, mas não o fiz. A manhã foi reservada para uma pedalada um pouquinho mais compridota. Para percorrer estradas conhecidas e outras nunca antes pedaladas. Para pedalar com um sensível senso de lazer, numa jornada de redescoberta enquanto este primaverno transforma o azul em cinzento.

O panorama matinal era bastante nublado. Os céus nunca se abriram de maneira significativa mas a necessidade de deixar fluir as endorfinas e me sentir renovado é mais forte. A  pedalada é um ritual importante para mim e nos dias em que não dá mesmo para pedalar algo parece faltar, sinto-me um pouco vazio, até culpado.

Fugir do constrangimento rodoviário, explorando novos lugares, dando outro sentido ao caminho. Pedalar por este mundo como observador constante. Porque num recanto da estrada, num lugar bem conhecido do caminho se pode redescobrir algo que outrora passou despercebido. É isso que eu adoro no ciclismo, esses momentos de uma nova descoberta.

Cruzar rotas que bem conheço com novos mundos. Proporcionar uma nova aventura, renovando a experiência. Invadir uma rota popular onde caminhantes e ciclistas procuram abrandar a vida para alcançar no seu âmago o significado dela. Viajar pelo seu próprio pé, sonhando acordado, incessantemente.

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uma pedrinha na engrenagem

Previ uns dias de férias para esta altura do ano, dias esses pensava eu serem primaveris… “-Oh que crente!”. Estando mesmo ao virar da página do calendário, seria de esperar tudo menos este clima típico de latitudes nórdicas, perfeito para gastar esses preciosos dias dentro de museus. Onde já se viu isto, nós aqui a bater o dente e os nórdicos a viver um verão antecipado! Assim, as pedaladas resumiram-se a umas voltinhas ao bairro, enquanto o quintal ia sendo dizimado por saraivadas e enxurradas.

Para os derradeiros dias de ócio programei a visita às minhas propriedades, num rodopianço pelo Douro. Nos planos estava nova estirada até às Mós, à terra dos meus avós, pernoitar para voltar no dia seguinte, passando pelo Lugar que tem um lugar reservado no meu coração. Isso, mais coisa menos coisa, era coisa para repetir as quatro centenas de mil metros pedalados da nossa recente volta santa. No dia previsto fiz-me à estrada acompanhando pelo mais belo rio do mundo. Não tive a companhia de nenhum dos amigos da vida airada, que se baldaram ao repto. Ainda bem, pois afinal não seria boa companhia.

Ainda a digerir o pequeno-almoço, saio de casa nas calmas. Com mais ou menos a distância do meu commute diário, cinco mil metros pedalados, algo no meu mais profundo foro íntimo estava a deixar-me desconfortável. Cedo constatei que era a demonstração prática da expressão “estar sem posição”. Ajeito a postura no selim e coloco a mão logo abaixo do bandulho.

– Que raio, esta dor agora não vinha nada a calhar. Devem ser gases! Soltem-se os prisioneiros.

A transgressão aos bons costumes consistiu em aliviar a acumulação gasosa na região abdominal através da emissão, não silenciosa mas inodora, de quatro traques.

Para que se saiba, o meu pequeno-almoço resumiu-se a um pão com manteiga, uma banana mais a habitual medicação para controlar os diabretes, tudo empurrado com um galão morninho, não descortinando neste meu rotineiro menu o vilão para o meu mal-estar.

Entretanto o desconforto diminuiu e pisei a N108, o meu tapete até à Régua. Bebo os primeiros goles de água e volta a mesma sensação estranha. Coloco a mão no abdómen e sinto a pança inchada.

– Não devia ter saído sem aliviar a tripa. Tenho de parar.

A sensação de fraqueza era enorme. Não me parece cortês abrir aqui uma luz para revelações sobre as minhas necessidades fisiológicas. Um ciclista do “World Tour” com necessidades súbitas não é nada que já não tivesse sido testemunhado “Live” pela Eurosport. Aliviei alguma carga a coberto da mata e, como experimentava ligeiras melhoras, decidi continuar a pedalada, mesmo com aquela impressão de pança dilatada. Entretanto volta a dor, ainda mais forte, agora acompanhada de náuseas. – Será que é isto que sentem as grávidas?!

Passei pela barragem e percebi que naquelas condições não iria longe. Já contava os quilómetros que faltavam até ao café mais próximo, na esperança que já estivesse aberto. Ufff… e estava! Mon Réve de Paris, assim chamado o estabelecimento comercial, sinceramente bastava-me uma retrete para realizar um sonho.

Largo a bicla no alpendre, entro de rompante com o chocalho dos cleats a bater na tijoleira e a chamar atenções sobre mim. Subo as escadas e entro no WC. Mais uns segundinhos e largava a carga ao mar ali mesmo, à frente da clientela.

Livre dos resíduos tóxicos do pequeno-almoço, chegam os arrepios e os suores frios. A dor está localizada mas não passa e convenço-me que tenho de ligar para casa. Com o pronto-socorro e a médica de família a caminho, resigno-me e considero a missão “Rodopiar o Douro” abortada, ao quilómetro 27!

Numa triagem à sintomatologia, o xôtor Google apresenta-me a suspeita número um:

– Muito prazer, eu sou a tua vesícula biliar.

A vesícula biliar está bem ali, do lado direito, atrás do fígado. É um pequeno órgão ao qual não damos muita importância até que uma pedrinha decide emperrar a engrenagem para então termos a noção que ela existe. Na dor, cada órgão vai ficando mais palpável, mais real.

Entre os problemas que podem afectar este órgão, o mais comum é a formação de pedras. Tenho observado algum histórico no meu círculo familiar e de amizades, e constato que ter pedras na vesícula não é privilégio de pessoas mais velhas. Quando este problema de saúde surge a cirurgia para a remoção da vesícula é tiro e queda. Não faz assim tanta falta e, aparentemente, vivemos bem sem ela.

Diz-me o xôtor Google que o chá de barba de milho faz muito bem às crises de vesícula! Até pode fazer, mas não havendo tal coisa em stock no Mon Réve de Paris fez-se uma infusão de cidreira que fui bebericando aos poucos para depurar o sistema. Novo sprint para o WC. Uma chatice.

Já acomodado no veículo de assistência, debruçado sob o abdómen, nenhuma inclinação no banco me dava posição para atenuar o sofrimento. Recuso a ida ao hospital, afinal ainda me restava um dia útil, de férias. Uma vez estendido na minha confortável caminha, nada me inibia de passar o tempo agarrado à campainha pedindo à enfermeira para me dar miminhos e paninhos quentes.

Após mais umas quantas chamadas do Gregório, um pouco antes da hora do lanche, finalmente sentia melhoras. Forrei o estômago com uma torrada seca e uma chávena de chá quente. A disposição já era outra, talvez porque a minha querida vesícula deu ordem de soltura à pedrinha.

Nisto as dores passaram, completamente. Depois de me certificar que me aguentava nas canetas, quando fui à casa de banho escovar os dentes, vou um pouco mais além nos desejos e só recebo olhares de reprovação depois de mais um delírio.

– Já me sinto bem melhor, acho que amanhã vai dar para ir… Ok, Ok… Eu fico!

O Homem – máquina, uma parte é a combinação complexa de órgãos e músculos, a outra é a bicicleta. Uma delas é infinitamente ajustável e adaptável, o outro é um ciclista, um ser humano. O ideal é a união perfeita entre as duas separadas entidades, actuando em harmonia e determinação, excepto a realidade que geralmente é desigual. Quando um deles falha, a pedalada não tem o efeito desejado.

“Não tropeçamos nas grandes montanhas, mas nas pequenas pedras.” Augusto Cury

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fotocycle [228] cinzento

Há dias em que o Porto acorda assim, no prenúncio matinal de uma canícula, uma viagem nublada com intenso sabor a Porto, que é da cor que o olhar entender ver nele, quando os passeios à beira rio sob a clássica morrinha sabem melhor. Aproveito cada momento.

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fotocycle [227] evolução, a marcha para o progresso

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Porto-Fátima-Porto, uma santa volta

Nas minhas pedaladas pós-laborais casualmente encontro o jovem Jacinto  em pedaladas recreativas mais a sua mui querida Branquinha. Bem, a probabilidade de o encontrar a pedalar uma das suas bicicletas no eixo marginal Matosinhos/Freixo são fortes, pois o Jacinto nas suas alegres e bem pedaladas 69 primaveras não está para ficar prostrado no sofá ou num banco de jardim a bater umas cartas.

– Então Jacinto, como vai isso? Esse joelho está melhor?

– Está melhor. O que me mata é estar parado, quando pedalo nem o sinto.

Conversa vai, conversa vem, disse-me o jove que estava a planear nova pedalada a Fátima, no 12 de Maio, para depois regressar de “quimboio”. Logo ali me fiz de convidado a acompanhá-lo. Esta espécie de “bicigrinação”, cumprir os duzentos e poucos quilómetros a pedal entre o Porto e Fátima, já se tornou uma clássica, como tal era mais pelo passeio e pelo convívio. Entretanto, o Manel Couto e o Rui intrometeram-se no plano e elevaram a fasquia para um nível épico.

– Bamos e boltamos? É, ou bai ou racha.

– Autonomia total? Bamos?… E fomos.

O ciclismo de longas distâncias requer apetrechos extras, kit de sobrevivência, vestuário reforçado e pede faróis. O roteiro estava traçado e o desvario teria alguns condimentos saborosos. “Ó pra lá” com a luz do dia e “ó pra cá” sob o céu estrelado. Seriam apenas 18 horas de rabo sentado num selim a rodar as pernocas por mais de 400km. Das 24 horas planeadas para a longa jornada, quatro ou cinco seriam gastas com as bicicletas encostadas a descansar. Foi mais ou menos assim.

Meeting point às 6 da matina. Sob um manto de nuvens suspeitas, quatro animosos amigalhaços encontram-se, tiram a selfie da praxe e dão ao pedal ao longo da margem esquerda do Douro. São Pedro não se fez rogado e à passagem da comitiva pela sua devota Afurada abençoou os convivas com uma valente molha. Refugiados sob o alpendre da esquadra local, ficam a fazer companhia ao polícia de plantão e só meia hora depois retomam difinitivamente a pedalada.

Ainda poucos se aventuravam a colocar o nariz fora de portas e estes bicicgrinos já levavam um bom pré-aquecimento. A manhã estava frescota e húmida e só a espaços o sol aclarava o dia. Esperançados em aproveitar a Nortada, não demorou muito a sentirem a sua infalível pseudo-força. Aquela ventania fria que no verão desalenta os banhistas, é uma benesse para os ciclistas que rumam a sul. Sim, sabe bem quando sopra forte pelas costas, mas é um martírio quando se pedala contra.

– “Ó pra lá” o bento está do nosso lado, “ó pra cá” é que bai ser!, diz o Paulo ao pessoal.

Rumo ao sul, as primeiras horas de pedalada foram cumpridas a bom ritmo. Nota amarga para o manto florestal que desapareceu e para os pinhais sepulcrais de troncos calcinados à espera do golpe final da motoserra. Já a praga do eucalipto renasce espontaneamente das cinzas.

Às tantas o Couto desistiu de dar música à malta e guardou a grafonola chinhoca. O Jacinto seguia ao seu ritmo, dando asas à sua veia poética e ia fazendo as suas reportagens, “Isto é assim”. O Rui mantinha-se introspectivo e focado na estrada. E eu? Eu começava a sentir um certo desconforto no cano de escape, digamos assim. O hemorroidal estava em modo crise!

A estrada nacional 109 não é nada de especial. No seu longo trajecto, de piso nivelado e muito degradado, é enfadonha e agitada q.b.. O motivo de maior interesse é a passagem pelas vilas. A opção da bicicleta como veículo de eleição na estrada é um modo de vida. São velhos e novos, homens e mulheres, que nas suas pasteleiras do século passado desempenham a sua independência, a sua liberdade na mobilidade. Amiúde, passamos por nativos ciclistas onde a bicicleta é sempre um bom tema de conversa…

– E a senhora, também vai a Fátima?

– Ah! Eu, não, eu venho do cemitério.

Parados num semáforo, percebe-se o som de distintivos cliques do desencaixe dos cleats para deixar os Sidi provarem o alcatrão. Um grupeto equipado a rigor e nas suas máquinas velocarbónicas, topam-nos e interagem nas conversas. Assim que cai a luz verde do semáforo, o “Alfa-Pendular” arranca e acelera a toques de urgência, transpirando. O grupeto passa por mim a zunir, em direcção à capital, e um dos prespicazes sprinters tem tempo de ler os dizeres “Randonneurs Portugal” no meu colete laranja, pedindo-me: – Oh pá, manda cumprimentos à Lenita.

Pois precisamente à mesma hora, os meus amigos randonneiros, entre eles a receptora da mensagem, estavam a dar o litro num brevet bem durinho, o Brevet Cávado ao Tâmega 400. A encomenda foi mais tarde entregue na caixa de comentários do FB da nossa heroína, que certamente aplicaria uma carochada de todo o tamanho no pódio mensal da Divisão Velopata, mais propriamente na categoria Jersey Melhor Fêmea Ressabiada, caso fizesse parte de tão restrito e ressabiado clube, p’stá claro.

Na Figueira da Foz, os vaidosos cicloturistas deixam a ponte sobre o Mondego para trás e detêm a pedalada para morfar. Mais ou menos dentro do tempo estimado, esticam as gâmbias debaixo da mesa, dão ao dente e eu dei algum descanso aos glúteos. O Jacinto besunta o joelho direito com uma espécie de betume, pomada analgésica ou lá o que era aquilo:

– Ai se a minha médica sabe disto! Ironizava.

Mas não tardou muito a voltarmos a espalmar o rabo no selim, cada vez mais desconfortável. Ainda intrigados com a conta apresentada, suspeitando que nos haviam metido a unha, pedalávamos agora mais para o interior, aguentando as rajadas de vento lateral. O jovem herói seguia no seu ritmo e, a seu lado, o Paulo maçava-o ainda mais:

– Mais cedo ou mais tarde havemos de lá chegar, ai havemos, havemos.

Depois do desvio habitual na Guia, e depois de um gelado como sobremesa, neste caso como sobreselim, mais à frente depois do cruzamento do Barracão, a estrada outrora esburacada apresenta agora um fofinho tapete negro. Aqui e ali, grupos de peregrinos na berma esquerda que iam aumentando, sendo que num desses encontros resolvo sacar do telemóvel para os enquadrar numa fotografia. Se fosse uma bídio-reportage poderiam escutar a sempre simpática saudação e animado incentivo do Couto.

Nisto, um jipe da Gêénérre surge sorrateiro ao meu lado e o xõr guarda no lugar do morto tem este diálogo comigo:

– Xôr ciclista, não sabe que tem de circular o mais à direita?

– Aããã… Onde! Como! Quem! Mas xôr guarda, estou a circular à direita!

– O xôr está no meio da estrada…

Óbalhamedeuje, vejam lá na foto se estou no meio da estrada?

E no momento em que lhe ia relembrar o nº 3 do artigo 90 do Código da Estrada:

“Os condutores de velocípedes devem transitar pelo lado direito da via de trânsito, conservando das bermas ou passeios uma distância suficiente que permita evitar acidentes” …

– Ainda por cima o xôr ciclista vai de telemóvel na mão…

– Ups!

Aí o xôr ciclista calou-se, meteu a viola no saco, e seguiu viagem.

Batiam as 17 badaladas quando os romeiros alcançaram o prémio de montanha da Serra de Santa Catarina e, satisfeitos, desceram por entre um mar de peregrinos, entre um rio de ciclistas, a ultrapassar uma fila de carros em águas estagnadas.

Chegamos ao Santuário, o “ó pra lá” estava concluído. Não demoramos mais de uma hora para as devidas formalidades, fotos e preparos. Estava uma ventania gelada e quando uma mais afoita rajada nos deita as biclas ao chão, decidiu-se:

– Bamos já para casa.

Reforçada a armadura, o “ó pra cá” estava em acção. Retomou-se a mesma estrada para a descer e entrar na N113, até Leiria. O objectivo seria alcançar a N109 para norte, mas entretanto a N1/IC2 atravessou-se no nosso caminho. A opção é certa, a dúvida é capciosa. Se o arrependimento matasse… Nem sei como saímos dali vivos. O trânsito era infernal e nada os impedia de acelerar. Tal como nós. Quatro ciclistas em fila, encolhidos e assarapantados à espera de encontrar uma placa com os dizeres “BARRACÃO”, para sair daquele turbilhão.

Finalmente escapamos daquela estrada e calcamos alcatrão conhecido, o mesmo que havíamos feito no sentido inverso. Mas algo roncava e não era motorizado. Era o estômago mesmo. Qualquer aroma a comida no ar captada pelas narinas nos impelia os narizes em todas as direcções a espreitar menus. No aconchegado Restaurante Carreira (Carnide) fizemos um repasto à maneira e um brinde à amizade.

Entretanto a noite caiu, o vento amainou e o frio apertava bem. Vesti tudo o que levava, até uns saquinhos de plástico cedidos pela simpática senhora do restaurante eu enfiei nos pés. Passados uns minutos já estavam morninhos. Já os meus comparsas de aventura em bib-shorts e pernas ao léu foram batendo o dente. Satisfeitos e com os focos apontados ao alcatrão, passamos pela Figueira da Foz à conversa para, com um pequeno engano lá pelo meio, no topo da Serra da Boa Viagem reagruparmos. Agora e sempre que surgisse uma pendentezinha, a subitida era já ultrapassada a um ritmo bem mais pesaroso.

Com praticamente um terço da distância por percorrer, logo voltaram as longas rectas da Tocha a Mira. Nesta altura já não se sente as pernas, quando muito sono e a desconfortável tortura do selim, que para mim já não era tão desconfortável assim. Do nada, um motor rosna, tenso, ameaçador à distância. Eu vi logo, o Fittipaldi saia de uma esplanada a queimar borracha. Café  aberto na madrugada significa uma tosta mista e um abatanado, e isso era algo de que eu estava bem necessitado. As paragens fazem-se agora mais demoradas para deixar o corpo descansar.

Os nossos heróis continuam firmes. O jovem Jacinto seguia o velho truque de se ir deixando ficar para trás, muito ao de leve, muito aos poucos, segurando garbosamente os seus ímpetos em nome da sobrevivência, e do rabo. Após um derradeiro esforço, avisa-me que ouviu os conselhos do seu joelho e decidiu aproveitar a reconfortante boleia do comboio urbano das quatro da manhã em Aveiro. Pedalar quase 350 km de uma assentada é desde logo um feito. Parabéns amigo Jacinto, somos gratos pela tua companhia, entusiasmo e inspiração. Outras mega loucuras virão.

O Homem-máquina, metade é a combinação complexa de articulações e músculos, a outra é uma bicicleta. Uma delas é infinitamente ajustável e adaptável, o outro é um ciclista. O ideal é uma união perfeita entre as duas separadas entidades, actuando em harmonia e vontade, excepto a realidade geralmente desigual, que envolve joelhos massacrados, costas doloridas e ombros queixosos.

Despedidas feitas, os três da vida airada aumentam o ritmo, puxando à vez na tentativa de aquecer o motor e distrair a soneira. Até ao dia clarear nada mais se passou senão pedalar com andamentos adequados às necessidades, evitando ter de levantar as nalgas do selim, evitando um desgaste extenuante e desnecessário. As pernas já reclamam descanso e até as subidas mais ligeiras, nos momentos em que a cadência das pedaladas fica reduzida ao mínimo indispensável, é precisa concentração máxima para enxergar as curvas, os cruzamentos e eventuais condutores matinais. À passagem por Ovar caem as primeiras pingas que refrescam ainda mais a carcaça. Faltavam cumprir cinquenta e poucos quilómetros.

Amanheceu, e a visão da cama de casa cada vez mais perto assustou-me. O manto de nuvens negras no horizonte prometia uma banhoca, muito antes de chegar a entrar na banheira. Contornada a praia do Cabedelo na Foz do Douro, já só faltava atravessar o rio para a escalada final da íngreme rua de D. Pedro V. Sentindo a meta já bem perto, com a luz de reserva bem acesa, veio o momento zen. Se São Pedro nos abençoou a partida haveria também de nos abençoar à chegada, na sua Afurada

Quatrocentos e tal mil metros depois, felizes e triunfais, famintos e cansados, após um dia inteirinho a dar ao pedal, eis que os nossos protagonistas se abrigam no mesmo abobadado alpendre da PSP da Afurada, param o registo no Strava e dão por concluído o giro para finalmente terem o merecido descanso.

E agora vou-me repetir:

Para algumas pessoas, estes tipos não passam de um grupo de cotas malucos metidos a radicais. Como assim!? Então, se pedalar por sete ou oito horas, até Fátima, fazem-no apenas por puro prazer e vontade, dar meia volta e voltar da mesma forma ao ponto de partida, é o quê? O mais importante não é o quanto pedalaram. O que importa é curtir a pedalada, apreciar a paisagem e o espírito de grupo. De outra forma eu não saberia descrever esta mistura de adrenalina, vento, sorrisos soltos, sol, curvas, natureza, chuva, esforço, contentamento, sacrifício, ar puro, sono, silêncio, escuridão, carros acelerados, pernas pesadas, vontade e puro prazer.

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teaser – uma santa volta

“E a senhora também vai a Fátima?

“Eu! Ah, não, eu venho do cemitério.

 

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de bicicleta com a luz ao fundo do túnel

Tenho colegas que ainda se admiram quando me vêm chegar a pedais para trabalhar!!! E o que lhes digo?

Olha, a maneira como eu vejo isso, é que qualquer um pode fazer isso. Não é sobre como está a minha condição física ou há quanto tempo pedalo. Para começar precisas de uma bicicleta e algum equipamento, mas no final do dia o facto mais importante é que com determinação suficiente, qualquer coisa pode ser feita. É a tal força de vontade, quer seja para pedalar um quilómetro para o trabalho quer seja para correr uma maratona. Tento dizer que não comecei a pedalar 200 km’s de uma assentada. É em pequenas etapas que vamos progredindo. Vamos superando as dores e as subidas. Vamos apanhar chuva e vento de frente. Vamos suar e cheirar mal. Todas essas coisas são fáceis em comparação com a dificuldade de nos desafiarmos, saindo da nossa zona de conforto. A parte mais difícil é sempre dar o primeiro passo, a primeira pedalada, para fazer algo que nunca fizemos antes. Depois disso, tudo é fácil.

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