fotocycle [231] a liberdade e o tempo

Diariamente vadio pela minha cidade no selim da minha bicicleta. Não há vidros fumados, interior climatizado ou cromos da rádio. Entre a sinfonia de ruídos urbanos e o vento nas fuças, ouço conversas, risos e espirros. Sente-se o cheiro da chuva na terra, dos charmes perfumes e das sardinhas assadas. Com o corpo em movimento, quase todos os sentidos são seduzidos. Descubro os pontos turísticos, as expressões nos rostos e os confins do horizonte. É das mais simples e agradáveis formas de explorar a cidade, especialmente a que amamos. Aproveito cada momento.

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reciclando [40] furos e remendos – revisão da matéria dada

Eu já nem me lembrava da última vez que tive de vergar a mola à beira da estrada para trocar a câmara de ar a uma das minhas binas.

Sorte, ou talvez não, foi na volta doméstica do sábado passado que tive honras do primeiro furo de 2018.

Sorte, ou talvez não, subitamente o pneu perdeu o ar da sua graça depois de pisar o chão esburacado da avenida dos frondosos plátanos e dos chalés e solares antigos da Praia da Granja.

Contabilizados que estão quase cinco mil quilómetros de pedalada na conta corrente do eStrava, do corrente ano 2018 de sua graça, o facto de ter pisado tanto chão sem um furinho para amostra não tem só a ver com a sorte, mas também com a opção dos últimos espécimes de borracha preta. Schwalbe de seu nome tem sido a minha escolha, mais que acertada.

Posto isto, e posta a roda em su sítio, lembrei-me de remecher nos arquivos deste mofado blogue para uma revisão da matéria dada, no que a furos e remendos diz respeito, reciclando este postal educativo.

 

“Oh pai, o pneu da minha bicla furou! Posso levar a bicicleta da mãe?”

O telefonema já me prevenia que mais tarde iria despender uns minutinhos de puro entretenimento. Em casa dei conta que estava em rotura de stock, no que a câmaras-de-ar virgens dizia respeito, e aproveitei para reciclar a câmara furada, tirar umas fotos à operação e reciclar também uma resma de dicas sobre um assunto que é sempre chato.

kit anti-furo
Consoante a possibilidade e necessidade, vira a bicicleta de rodas para o ar, só porque pode dar jeito e facilitar a operação. Neste caso foi a da frente, a mais fácil de tirar, o que para o efeito apenas desapertei o aperto rápido. Se porventura as rodas estiveram apertadas com um parafuso, terás de estar munido com a respectiva chave inglesa. Outro pormenor é aliviar os travões. No caso, a bicla como tem V-brakes foi necessário soltar os braços que sustentam as pastilhas do travão. Com a roda fora e um jogo de alavancas de pneus, retirei o pneu do aro, parte por parte, até que um dos lados do pneu ficou solto do aro. Depois de sacar a câmara é bom não esquecer de tactear a parte interior do pneu, pois o causador da massada, um espinho, um caco de vidro ou de plástico, pode ainda estar lá e voltar a causar danos. Caso encontres alguma coisa roga-lhe uma praga e atira-o para bem longe.

remendo lindooo
Com a câmara cá fora e a bomba na mão, é dar umas bombadas de ar lá para dentro para encontrar o furo. Quase sempre se encontra com facilidade mas o velho truque de mergulhar a câmara em água e procurar a fuga pelas bolhinhas é infalível. Faz uma marca sobre o orifício e depois raspa com lixa até deixares de ver a marca. A finalidade de lixar é deixar a borracha rugosa para mais facilmente fixar a cola que se vai aplicar logo em seguida. Aplicada uma generosa dose de cola em cima e à volta do furo, numa área maior do que o remendo que irá aplicar, deixa-a secar um pouco. Aplica também um pouco de cola na parte interior do remendo e coloca-o sobre o furo, pressionando com firmeza durante alguns minutos.

pump up the volume
Antes de voltares a colocar o pneu é aconselhável que verifiques também o aro e a fita de protecção, assim como dar outra apalpadela no interior do pneu de modo a não haver nada esquecido lá dentro. Volta a inserir a câmara no pneu, introduzindo primeiro a válvula no orifício do aro. Depois, bombeia um pouco de ar na câmara, apenas o suficiente para dares um ajuste do pneu no interior do aro com os dedos e certifica-te que a câmara não ficou torcida ou trilhada. Volta a colocar a roda na forqueta, ajusta a patilha do aperto rápido e o travão. Finalmente enche o pneu na pressão indicada e, caso tenhas vontade, sai e vai dar umas valentes pedaladas de satisfação.

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fotocycle [230] momento zen

… aqui o menino idolatra a sua bicla, a boa vida e a calma vastidão do oceano. Um refugio para o bulício enervado da urbanidade. Na bicicleta aproveito cada momento.

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cutucar a onça com vara curta

Diz que o verão está aí mas só mesmo no calendário. Ao sair de casa, para uma espécie de treino / commute dominical, para a casa paternal, olho para cima e um céu pardacento me cumprimenta. Primeiro dia de Julho e ainda não fiz um dia de praia. Tsss…

Diante dos meus olhos as nuvens parecem irritadas e aí me lembro da má previsão do dia. Um vislumbre de tempestade iminente faz-me acelerar a pedalada. Não é esta atmosfera amorfa e gelatinosa que me deixa de pé atrás. Começo mais lento do que o normal, inspiro e os pulmões que se enchem de ar húmido.

Em pouco tempo tenho a companhia do mar. O vento rodopiante me abraça e derrete levemente as gotas de suor que escorrem pela testa. Perdido em pensamentos, na luta desigual contra a ventania, a visão da intempérie pairando no horizonte parece-me ainda distante. Praias desertas de gente, maré vaza e um mar estranhamente calmo.

Passo pela meta mas não detenho a pedalada. Apesar do risco, ainda é muito cedo para parar. Tenho tempo para continuar e dar meia a volta na Granja. Sem hesitar mantenho a cadência, à bolina, contra o vento e em direcção à tempestade.

Com os sentidos em alerta máximo, cheiro a presença da chuva que promete abater-se sobre mim, em breve, a qualquer momento. Desafio o São Pedro para uma corrida. O suor escorre pelas minhas costas. O calor e a transpiração retida no spandex, faz o meu corpo se sentir como numa panela de pressão.

Chego ao ponto de retorno e detenho-me o minuto suficiente para um gole de água e uma fotografia. Quando aquele vento me chicoteia, meio de lado, do lado do mar, uma espécie de pânico a roçar o medo me surge. Uma espécie de formigueiro desce pelo corpo enviando choques eléctricos que activam as pernas.

Estando agora a pedalar para norte, o boost energético é tal que parece ter sido atingido por um raio. Com a estrada aberta à minha frente sinto a fúria da natureza a empurrar-me. A tempestade lambe as minhas costas, e aquele vento sulista a ajudar gasto menos de metade da energia.

Faço uma careta desafiadora à tempestade. Só mais um quilómetro o céu enche-se de fúria. O primeiro estrondo de um trovão faz tremer o céu e nisto chego, mesmo a tempo de vencer a tempestade e de me esconder. A vitória é minha. Ufa… Livrei-me da chuva mas não me livrei do chuveiro.

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quando as biclas ficavam em casa [1] chamavam-lhe Bolinhas

Era assim aos domingos à tarde. Sempre que o sol convidava e o meu dono estava de folga, eu os levava a passear por estradas sinuosas, para lugares distantes, desconhecidos e cheios de histórias para lhes contar. Roncava e rodava, carregado a subir montanhas e a descê-las sem medo. E quando vinham os primos eram sete, bem apertadinhos.  Acelerava até onde podia, até onde o motor ia porque aquecia, até que parava à sombra para me arrefecer e os deixar esticar as pernas. Ficava estacionado a observá-los com os meus redondos faróis, fazendo companhia nas brincadeiras dos irmãos e dos seus carrinhos de plástico. Os catraios pareciam alegres, entretidos nas suas brincadeiras de faz-de-conta. Em poucos minutos o chão de terra ganhava desenhos de estradas que levavam para todos os lugares que a imaginação lhes permitisse, só não voavam porque afinal um carro não voa, ou voa? Eles eram engenheiros de miniaturas, construtores de estradinhas com os seus carrinhos viajantes de mil e um lugares.

Um dos meninos é chamado para ajudar a tirar as cestas de dentro de mim. Contrariado por ter que parar os seus jogos, o Paulo lá cedeu reclamando baixinho…

– Porquê eu, sou sempre eu!

O raio dos pássaros embirravam comigo ou eu embirrava com eles. Um deles chegou mesmo a pousar na minha branca e reluzente capota, e acho que com segundas intensõe…

– Ouve lá, e se fosses pousar as patas no… Buzinadela com ele!

– Não vês que me lavaram esta manhã!?

Não é que seja vaidoso, e nada convencido, mas tenho a certeza que aquela carrinha top model que acabou de estacionar me deu um pisca-pisca. Quem sabe se não trocamos umas buzinadelas ou uns sinais de luzes! Mas, e se ela for como as raparigas que não gostam de brincar com carrinhos. Vendo bem ela nem é para a minha cilindrada!

Ouço um chamamento familiar e os rapazes correm para o desejado lanche. Na manta estendida no relvado estão as guloseimas e todas as coisas boas que a mamã lhes preparou com tanto carinho. Não, não vou ficar para aqui a babar-me porque sei que no regresso me vão encher o depósito. Acho que vou aproveitar o ponto morto e tirar uma boa soneca…

Oupa… já estou a trabalhar e mal tive tempo para escovar o pára- brisas. Já estão todos cá dentro! De primeira engatada, faço-me de novo à estrada. Os miúdos não se calam, todos falam e cantam, mas não perdem pela demora. Já, já, vão estar todos a dormir, embalados pelas curvas, na calma da minha pequena potência. E não tarda nada, eles estarão de volta a casa e eu de volta à minha garagem.

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oh-iii oh-aiii, fui comprar um…

… dois, três, quatro… uma carreta de manjericos  😀

Este ano o calendário volta a lixar-nos o feriado, mas não é por isso que vamos deixar de fazer uma rusga pela cidade. Agarrem o manjerico, o alho porro e o martelo, e saiam à rua com umas loiras fresquinhas para celebrar o São João.

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um fim de semana em cheio

No sábado fui à aldeia, por um caminho duraDouro. Com um brilhozinho nos olhos voltei às curvas pelas velhas estradas património, EN108 e EN222. Se nos primeiros quilómetros para o interior o vale do Douro se apresentava fresco e enevoado, lentamente a manhã foi ficando mais amena e luminosa. A panorâmica ao longo do rio retomou as cores e a brisa foi me trazendo de volta os aromas característicos da primavera. Ao Lugar do Castelo, a pequenina aldeia da minha mãe, levei uma lágrima e a flor, a quem é e sempre foi uma flor. À minha espera os sorrisos calorosos de sempre e um renovado comentário de espanto.

– Vieste de bicicleta e já cá estás? Deves estar com fome!

Na mesa uma valente travessa de massa, tão amorosamente servida pela minha querida Tia Sílvia, sempre preocupada em me alimentar bem. Desta vez não fui para ficar, nem para deixar ficar uma bicicleta. Depois de duas pratadas bem servidas, das cerejas e do cafezinho, um par de horas passadas à conversa para abafar as saudades e digerir o repasto, retomei a estrada em direcção ao Porto. O vento quente já batia forte, de frente, mas eu sabia pró que ia. Sem qualquer senso de urgência teria uma boa mão cheia de horas a pedalar, invariavelmente difíceis, constantemente contemplativas. Parei sempre que tive vontade de fazer uma fotografia, trincar uma bucha e encher o cantil no estabelecimento comercial de Dona Mariazinha com uma mine preta, fresquinha a estalar.

– Então hoje veio sozinho? Olhe que o Moscatel está no frigorífico…

Um aéreo e vinte centimetros por uma garrafinha de Super Bock e duas bananas é fuel low cost, mais barato que um litro da outra super. Ok, não é combustível que chegue para carburar até chegar a casa, mas tem aditivos suficientes para seguir satisfeito. E como cheguei bem à hora de jantar, lá estava a sopinha e um arrozinho de feijão malando que me souberam tão bem como me soube aquele dia. Uma maravilha.

 

No domingo troquei de montada e fui iNBiCLAR numa roda de bicicletas, amigos e cervejas a copo. É que um gajo não anda pedala a àgua!

 

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fotocycle [229] fim de semana à porta…

… dia santo na estrada!

 

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algures no caminho

Há duas formas de começar isto. O inverno está no ar ou a primavera foi um ar que lhe deu. Dizem os entendidos que as estações estão num estado de transição. Eu diria que é depressão e que o tal ciclone dos Açores deve ser bipolar! A natureza manda mas não lhe dou ouvidos e não permito que me obrigue a ficar a mandriar no maldito sofá.

Como é costume num rotineiro sábado de manhã, teria feito uma pedalada para treinar ou mesmo para comutar, mas não o fiz. A manhã foi reservada para uma pedalada um pouquinho mais compridota. Para percorrer estradas conhecidas e outras nunca antes pedaladas. Para pedalar com um sensível senso de lazer, numa jornada de redescoberta enquanto este primaverno transforma o azul em cinzento.

O panorama matinal era bastante nublado. Os céus nunca se abriram de maneira significativa mas a necessidade de deixar fluir as endorfinas e me sentir renovado é mais forte. A  pedalada é um ritual importante para mim e nos dias em que não dá mesmo para pedalar algo parece faltar, sinto-me um pouco vazio, até culpado.

Fugir do constrangimento rodoviário, explorando novos lugares, dando outro sentido ao caminho. Pedalar por este mundo como observador constante. Porque num recanto da estrada, num lugar bem conhecido do caminho se pode redescobrir algo que outrora passou despercebido. É isso que eu adoro no ciclismo, esses momentos de uma nova descoberta.

Cruzar rotas que bem conheço com novos mundos. Proporcionar uma nova aventura, renovando a experiência. Invadir uma rota popular onde caminhantes e ciclistas procuram abrandar a vida para alcançar no seu âmago o significado dela. Viajar pelo seu próprio pé, sonhando acordado, incessantemente.

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uma pedrinha na engrenagem

Previ uns dias de férias para esta altura do ano, dias esses pensava eu serem primaveris… “-Oh que crente!”. Estando mesmo ao virar da página do calendário, seria de esperar tudo menos este clima típico de latitudes nórdicas, perfeito para gastar esses preciosos dias dentro de museus. Onde já se viu isto, nós aqui a bater o dente e os nórdicos a viver um verão antecipado! Assim, as pedaladas resumiram-se a umas voltinhas ao bairro, enquanto o quintal ia sendo dizimado por saraivadas e enxurradas.

Para os derradeiros dias de ócio programei a visita às minhas propriedades, num rodopianço pelo Douro. Nos planos estava nova estirada até às Mós, à terra dos meus avós, pernoitar para voltar no dia seguinte, passando pelo Lugar que tem um lugar reservado no meu coração. Isso, mais coisa menos coisa, era coisa para repetir as quatro centenas de mil metros pedalados da nossa recente volta santa. No dia previsto fiz-me à estrada acompanhando pelo mais belo rio do mundo. Não tive a companhia de nenhum dos amigos da vida airada, que se baldaram ao repto. Ainda bem, pois afinal não seria boa companhia.

Ainda a digerir o pequeno-almoço, saio de casa nas calmas. Com mais ou menos a distância do meu commute diário, cinco mil metros pedalados, algo no meu mais profundo foro íntimo estava a deixar-me desconfortável. Cedo constatei que era a demonstração prática da expressão “estar sem posição”. Ajeito a postura no selim e coloco a mão logo abaixo do bandulho.

– Que raio, esta dor agora não vinha nada a calhar. Devem ser gases! Soltem-se os prisioneiros.

A transgressão aos bons costumes consistiu em aliviar a acumulação gasosa na região abdominal através da emissão, não silenciosa mas inodora, de quatro traques.

Para que se saiba, o meu pequeno-almoço resumiu-se a um pão com manteiga, uma banana mais a habitual medicação para controlar os diabretes, tudo empurrado com um galão morninho, não descortinando neste meu rotineiro menu o vilão para o meu mal-estar.

Entretanto o desconforto diminuiu e pisei a N108, o meu tapete até à Régua. Bebo os primeiros goles de água e volta a mesma sensação estranha. Coloco a mão no abdómen e sinto a pança inchada.

– Não devia ter saído sem aliviar a tripa. Tenho de parar.

A sensação de fraqueza era enorme. Não me parece cortês abrir aqui uma luz para revelações sobre as minhas necessidades fisiológicas. Um ciclista do “World Tour” com necessidades súbitas não é nada que já não tivesse sido testemunhado “Live” pela Eurosport. Aliviei alguma carga a coberto da mata e, como experimentava ligeiras melhoras, decidi continuar a pedalada, mesmo com aquela impressão de pança dilatada. Entretanto volta a dor, ainda mais forte, agora acompanhada de náuseas. – Será que é isto que sentem as grávidas?!

Passei pela barragem e percebi que naquelas condições não iria longe. Já contava os quilómetros que faltavam até ao café mais próximo, na esperança que já estivesse aberto. Ufff… e estava! Mon Réve de Paris, assim chamado o estabelecimento comercial, sinceramente bastava-me uma retrete para realizar um sonho.

Largo a bicla no alpendre, entro de rompante com o chocalho dos cleats a bater na tijoleira e a chamar atenções sobre mim. Subo as escadas e entro no WC. Mais uns segundinhos e largava a carga ao mar ali mesmo, à frente da clientela.

Livre dos resíduos tóxicos do pequeno-almoço, chegam os arrepios e os suores frios. A dor está localizada mas não passa e convenço-me que tenho de ligar para casa. Com o pronto-socorro e a médica de família a caminho, resigno-me e considero a missão “Rodopiar o Douro” abortada, ao quilómetro 27!

Numa triagem à sintomatologia, o xôtor Google apresenta-me a suspeita número um:

– Muito prazer, eu sou a tua vesícula biliar.

A vesícula biliar está bem ali, do lado direito, atrás do fígado. É um pequeno órgão ao qual não damos muita importância até que uma pedrinha decide emperrar a engrenagem para então termos a noção que ela existe. Na dor, cada órgão vai ficando mais palpável, mais real.

Entre os problemas que podem afectar este órgão, o mais comum é a formação de pedras. Tenho observado algum histórico no meu círculo familiar e de amizades, e constato que ter pedras na vesícula não é privilégio de pessoas mais velhas. Quando este problema de saúde surge a cirurgia para a remoção da vesícula é tiro e queda. Não faz assim tanta falta e, aparentemente, vivemos bem sem ela.

Diz-me o xôtor Google que o chá de barba de milho faz muito bem às crises de vesícula! Até pode fazer, mas não havendo tal coisa em stock no Mon Réve de Paris fez-se uma infusão de cidreira que fui bebericando aos poucos para depurar o sistema. Novo sprint para o WC. Uma chatice.

Já acomodado no veículo de assistência, debruçado sob o abdómen, nenhuma inclinação no banco me dava posição para atenuar o sofrimento. Recuso a ida ao hospital, afinal ainda me restava um dia útil, de férias. Uma vez estendido na minha confortável caminha, nada me inibia de passar o tempo agarrado à campainha pedindo à enfermeira para me dar miminhos e paninhos quentes.

Após mais umas quantas chamadas do Gregório, um pouco antes da hora do lanche, finalmente sentia melhoras. Forrei o estômago com uma torrada seca e uma chávena de chá quente. A disposição já era outra, talvez porque a minha querida vesícula deu ordem de soltura à pedrinha.

Nisto as dores passaram, completamente. Depois de me certificar que me aguentava nas canetas, quando fui à casa de banho escovar os dentes, vou um pouco mais além nos desejos e só recebo olhares de reprovação depois de mais um delírio.

– Já me sinto bem melhor, acho que amanhã vai dar para ir… Ok, Ok… Eu fico!

O Homem – máquina, uma parte é a combinação complexa de órgãos e músculos, a outra é a bicicleta. Uma delas é infinitamente ajustável e adaptável, o outro é um ciclista, um ser humano. O ideal é a união perfeita entre as duas separadas entidades, actuando em harmonia e determinação, excepto a realidade que geralmente é desigual. Quando um deles falha, a pedalada não tem o efeito desejado.

“Não tropeçamos nas grandes montanhas, mas nas pequenas pedras.” Augusto Cury

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