
O dia começou bem cedo, pelas 5 e meia da manhã, na tentativa de fugir ao calor, que já era esperado para o resto do dia, mas sobretudo porque o Inter-Regional para Valença saía às 6 em ponto de Campanhã. Durante a pedalada para Campanhã já estavam 25 graus e a temperatura iria subir gradualmente ao longo das horas seguintes, quase até ao dobro no pico da tarde.

Normalmente aceito um bom convite para um dia repleto de pedalada, ainda para mais quando o Pawel me apresenta um roteiro em grande parte desconhecido e deveras interessante: pedalar em boa companhia por terras galegas, pela margem direita do rio Miño e regressar por estradas já conhecidas, ao longo da margem esquerda do rio Minho.

Para as duas horas seguintes o plano estava traçado: encontrar-me com o Pawel a bordo da carruajem Arco, preparada para o transporte de bicicletas, que as locomotivas 2600 puxam ao longo da linha do Minho, receber o Miranda e o Mário na estação de Barcelos, que nos iriam fazer companhia durante todo o dia. Uma vez chegados a Valença, reforçaríamos o pequeno almoço para enfrentarmos as estradas que o Komoot havia sugerido.

Estava uma manhã bastante ventosa. Principalmente sentidas nas cotas mais altas, as rajadas de vento que soprava de leste, frontal a maior parte do tempo, fizeram-se sentir com bastante intensidade, dificultando a nossa progressão até nas descidas. A temperatura, embora elevada, estava bastante agradável devido ao vento. A situação só se tornou mais agreste depois do almoço, no período da tarde, sobretudo pelo calor extremo que se fez sentir. Quando não tínhamos o benefício da sombra a sensação térmica passava os 45 graus.

Depois de Tui, o passeio de bicicleta foi de primeira classe, por estradas pouco concorridas pela região vinícola do Alvarinho, que se estende por ambos os lados da fronteira natural fluvial. A envolvente é de facto muito interessante, com as vistas mais amplas e o vislumbre magnífico do vale ribeirinho, bem como dos relevos lusos mais montanhosos. O serpentear ondulante da estrada tornou o percurso mais saboroso à medida que cruzava pequenos povoados e, aqui e ali, algumas placas indicadoras de Portugal.

A companhia esporádica de automobilistas nas estradas secundárias, a generalidade do seu distintivo comportamento, responsável e assertivo perante a presença de ciclistas, fez com que as nossas trocas de conversa destacassem isso mesmo, em contraste ao que infelizmente presenciamos nas estradas lusas. De facto, a cultura rodoviária de “nuestros hermanos” é exemplar e deve sempre ser evidenciada pela positiva.

Por vezes a solo, sem me aperceber do avanço que ia ganhando em relação aos restantes companheiros, pedalava perdido nos meus pensamentos, absorto a olhar a paisagem, abusando da cadência investida nas subidas. Ia com o cruise control ligado no meu ritmo habitual atento a qualquer som de água. Nesta parte do percurso as fontes são escassas e da torneira que apareceu num parque de autocaravanas, o precioso líquido saía tépido e com um gosto desagradável a “água del cano”. Mais à frente tivemos sorte pois à custa da minha insistência descobri uma fonte abundante que nos salvou e refrescou.

A estrada é um constante sobe e desce, é o chamado “rompe pernas”, com descidas curtas interrompidas aqui e ali por pequenos topos, o que, aliado à distância, pedia uma abordagem mais tranquila. O som de um comboio de mercadorias, o vislumbre das pontes na outra margem, a aparição definitiva do leito do rio, a margem do mapa revelado pela geringonça, fazia-nos crer que não estaríamos longe do destino programado.

Ribadavia, antiga sede do Reino da Galícia, pertencente à província de Ourense, reúne todas as essências de um povoamento medieval. À nossa chegada, meio-dia na hora portuguesa, estávamos a precisar urgentemente de um reforço hídrico e alimentar, nomeadamente de uma tijela com o famoso caldo galego. Mas nem tudo é como sonhamos. Com um tom de voz irritante e um cínico revirar d’olhos, disse-nos o “camareiro” que por causa do calor não fazem o caldo. O recurso foi então negociado e veio para a mesa o menu do dia capaz de nos saciar a fome e a sede.

Uma hora depois, sob um sol escaldante, muito devagarinho para não entornar o… menu, retomamos a estrada e fomos “descendo” e admirando a beleza da albufeira de Castrelo de Miño. Entretanto retomamos algum ritmo e seguimos, sem ponta de vento a favor, que pensava de menhã virmos a usufruir na volta da parte da tarde. Mais perto do rio, podíamos espreitar na margem oposta do Miño alguns locais por onde havíamos passado de manhã. Nas estradas príncipais as referências rodoviárias a Portugal iam surgindo com maior frequência.

Já aqui o referi, mas volto a repetir, já estava a contar que os automobilistas espanhóis fossem mais cuidadosos na partilha da estrada com os ciclistas, mas tanto assim até me deixou com vontade de viver em Espanha. Não houve um só que não nos desse pelo menos 2 metros de distância quando nos ultrapassou, e se não conseguiam passar em segurança esperavam até o poder fazer. Os poucos que não foram tão cuidadosos e assertivos tinham matrícula portuguesa ou francesa. Não admira também a sinalização existente que encontrávamos nas bermas. Chapéu para os espanhóis no que respeita a comportamento e educação rodoviária.

Claro que podíamos ter simplesmente seguido a OU-801 para Pontebarxas e sem muito esforço voltar a pisar estradas lusas, mas o plano inicial determinava desde logo que o regresso fosse feito pela mítica fronteira de Cevide. Este ponto de união entre os dois países ibéricos é conhecido, não só por ser o lugar mais setentrional de Portugal. mas sobretudo por ter sido um tradicional ponto de passagem de bens contrabandeados entre os dois lados do rio Trancoso. Intitulada como a aldeia onde começa Portugal, é também conhecida na comunidade ultra-ciclista como o ponto de partida para o desafio Portugal Divide. Para quem não conhece é simplesmente um desafio que visa atravessar Portugal de bicicleta, começando no ponto mais a norte, ligando os restantes extremos, passando pelo ponto mais elevado e pelo centro geodésico.

Há quem argumente que não devemos voltar aos sítios onde fomos felizes, e aquela subidinha à qual que não pudemos escapar quase fazia valer a premissa. Para chegar a São Gregório, o mítico local de arranque da equipa Flèche Minho para a Flèche Randonneur, não me fiz rogado à companhia do Homem da Marreta. A inclinação extrema daquele curto e estreito caminho, desgastados e desidratados, desmontei e empurrei a bicicleta ladeira acima, somente voltando a dar aos pedais no cruzamento para o bem conhecido café Coelho.

Só vos digo, ao preço a que a água está a pedalada não ficou nada barata. Valeram as paragens para hidratação, à beira da estrada, e no que respeita a fontes e fontanários, Portugal ganha de golada… de goleada aos espanhóis! Não escapou nenhum, parámos em todos os que nos apareciam e era água pela cabeça abaixo.

Afinal perdemos! Perdemos também o Inter-Regional das 18h20 em Valença, mas ganhamos um par de horas extra de convívio. Apesar de ter ingerido pr’aí uns 4 litros de água e outros líquidos, cheguei a casa com menos quilos do que havia saído, estou certo disso.

Voltinha e mais fotos aqui, na actividade do Strava.




















































































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