Alvão? Porque não!

Para um domingo bem passado no selim da bicla e em boa companhia, o Jorge apresentou-me um roteiro montanhoso por estradas desertas e fascinantes, como diria Duchene.

“Alvão? Porque não!”

Em pouco mais de uma centena de quilómetros e dos colossais 3 mil metros de acumulado, muito bem aproveitadinhos por sinal, a média foi muito baixa, mas não podia ser de outra forma, com tanto para ver, admirar e fotografar.  

Foi tal como esperado, ou melhor, as expectativas foram-se superando tais foram as surpresas que fomos tendo ao longo do dia, de um excelente dia.

Do sopé do Alvão, desde Vila Real, a estrada N313 leva-nos ao cume e começa logo com inclinações consideráveis. Assim, lá fomos encosta acima com a lentidão aconselhada, vendo aumentar a panorâmica a cada quilómetro, a cada curva, fosse qual fossem as vistas sobre o vale do Corgo.

Sob um céu limpo e luminoso, a princípio estava uma manhã frescota mas depressa o motor foi aquecendo.   

No verão do ano passado a serra do Alvão voltou a arder. O fogo começou em Vila Real e alastrou ao concelho de Mondim de Basto. Ardeu durante vários dias e destruiu uma parte significante do Parque Natural do Alvão. Quem vê as imagens no Street View e depois se depara com aquele cenário de destruição é uma dor de alma. Animais que ficaram sem pasto, agricultores que perderam fontes de rendimento, floresta que desapareceu, tudo devido à incúria, negligência ou crime.

Felizmente o fogo não apagou tudo e ainda há muito Alvão para descobrir. O roteiro incluía a passagem ao largo da pequena aldeia de Lamas de Olo que marca a transição paisagística, de sul para norte. A festa ainda estava no adro e já o acumulado metia respeito, mas o melhor ainda estava para vir.

À entrada no planalto do Alvão somos saudados pelo verde dos pinheiros, matas de carvalhos, bosques de coníferas, onde o vislumbre de aves características, campos verdejantes cheios de vida nos encheram a alma, dando outro alento para o resto da epopeia.

A estrada que percorre o Parque é lindíssima e, de ambos os lados, a paisagem autóctone ressurge, fazendo as delícias destes vossos cicloturistas, em recuperação muscular pós escalada. A serra, rica em granito, é um depósito natural de água, onde se vê, ou se escuta por todo o lado, pequenos riachos a escorrer dos penedos para as levadas.

No horizonte, o recorte da inconfundível silhueta do Monte Farinha orienta-nos como um farol em alto mar. Fazemos mais um par de quilómetros e começamos a sorrir com o declive traiçoeiro da estrada. As descidas aumentam com frequência, mas quando se volta a ter de subir é obrigatório levantar o rabo do selim. Antes de descermos o vale do Olo ainda tínhamos encontro marcado com a serra da Toutuça, uns quilómetros mais à frente.

As Cascatas de Bilhó, situadas entre as aldeias de Cavernelhe e Bilhó, são um verdadeiro tesouro natural do norte de Portugal. Formadas pelas águas cristalinas do rio Cabrão, estas quedas de água criam uma sequência de lagoas e pequenas cascatas, moldando uma escadaria natural entre rochas e a vegetação exuberante. Seguimos em direção a Ermelo via Fervença.

Sabendo que só seria possível contemplar as Fisgas na parte complementar da nossa excursão, vagarosamente fomos descendo pela degradada estrada que atravessa prados naturais e campos de cultivo alimentados pelo rio Olo, descobrindo aspetos interessantes como é a vida rural das pequenas aldeias. Ao longo da descida fomos encontrando espécies de fona e fauna típicas da região, como rebanhos, burros e gado bovino que coabitam nos pastos.

À passagem pela aldeia de Ermelo ficamos encantados com a mostra de ardósias de xisto, alindadas com dedicatórias deixadas por caminhantes e visitantes dos trilhos. Subitamente surge o proprietário da casa e fiquei à conversa. O Sr. Carlos Rodrigues Sousa, ilustre poeta, é um apaixonado pela sua aldeia, orgulhoso da cultura e história da região.

Depois de uma pausa mais demorada, respondendo à recomendação do Jorge, retomamos a descida para lá ao fundo cruzar o rio Olo pela Ponte Medieval de Ermelo. Mais à frente reencontramos a magnífica estrada N304, uma das mais belas deste país, e seguimos a bom ritmo para Mondim de Basto, onde ao meio-dia nos detivemos para almoçar.

A digestão do repasto foi demorada, tal como a ascensão, de novo orientada para Bilhó. Tomamos a estrada que bordeja a base do Monte Farinha. O convite que lá do alto a Senhora da Graça nos lançava era muito forte, mas teria de esperar. Na ascensão progressiva ia regulando o calor que se fazia sentir ao início da tarde, fazendo várias paragens sempre que necessário, para descanso e desfrute da paisagem.

Em Bilhó fez-se o desvio para Vila Chã, onde, a certa altura uma placa nos indicou a direção certa para as Fisgas de Ermelo. A estrada pendeu para baixo e a descida fez-se com cuidado. Nunca mais acabava. Já me doíam as mãos de tanto apertar os travões. Entretanto em Covas o gêpeêésse indicou nova subida e até a visão do colorido avermelhado do gráfico já era assustadora.

Do nada surge uma parede de 600 metros que, sem respeito por estes dois que já tinham 70km e mais de 2000 acumulados nas pernas, se apresentam com uns simpáticos 15% de média. A coisa inicia de forma suave e depois só piora. Rapidamente, ultrapassa os 20%. Aí foi preciso morder a língua e, literalmente, proibir-me de pôr o pé no chão, tão perto que estava do cruzamento. O que nos valeu foi serem poucos metros até à Capela da Senhora do Fojo, onde paramos para recuperar o folego e o ritmo cardíaco.

Com o famoso miradouro em obras de restauro e o acesso interdito aos automóveis, aquele quilómetro de pedalada até à panorâmica da cascata de água foi feito com a maior das tranquilidades. Poucos visitantes por lá e assim tivemos a oportunidade de fotografar e apreciar a beleza das cascatas sem nenhuns atropelos.

A Cascata das Fisgas de Ermelo é uma das maiores quedas de água de Portugal, não se precipitando num único salto vertical mas em vários patamares. Atravessa progressivamente uma grande barreira de quartzo e xisto, num profundo socalco com um desnível de cerca de 200 metros de extensão cavados pelas águas calmas, mas abundantes do rio Olo. Com a persistência chuvosa deste inverno isso ficou ainda mais evidente.

Registamos tudo o que havia a registar e fomos lestos a descer a rugosa estrada até à N304. Mais uma vez, apenas se cruzaram comigo quatro automóveis, o que atesta da pacatez das estradas que percorremos.

Em nova e duradoura ascensão pela N304 até Campeã, e apesar de estar àquela hora bem mais fresco, eu suava em bica enquanto, a cada pedalada, ia admirando a deslumbrante paisagem à minha volta. E aqui entra em campo a preparação psicológica que ao longo do tempo se vai apurando e que é especialmente importante nestas tiradas longas e de elevada altimetria. Manter a cabeça ocupada em não pensar na subida.

Com toda a tranquilidade que este mundo não vive de momento, perante o obstáculo à minha frente, segui ao meu ritmo, o que levou ao aumento gradual da distancia para com o Jorge. Mediante a considerável diferença de ritmos, numa situação de carga como era esta, é preferível cada um manter o seu ritmo, seja para evitar disparar os batimentos cardíacos como para manter a sensatez.

No único fontanário visível à berma da estrada, que fica mesmo antes da parte mais dura da subida, parei para beber, atestei a bilha, aproveitei também para verter águas, alimentar-me, perceber o pouco tráfego por lá existente, vários grupos de motards em excursão na sua maioria, e aguardar a chegada do Jorge.

Particularmente, sentia-me muito bem nesta fase do percurso. É natural que a baixa cadência da pedalada ajudou a minimizar o desgaste, mas é este tipo de gestão que me interessa, não pela desculpa de já não ir para novo, mas essencialmente porque o meu objectivo é a regularidade e não a rapidez. Com o horizonte cada vez mais dominado pelo granito, sinto que o final da subida está próximo. Desmonto, tiro a derradeira foto do dia e espero pelo Jorge para, juntos, descermos até Vila Real.

Já dentro da malha urbana vilarealense descuidei a consulta do “aparelhometro”, segui erradamente o instinto e perdi o Jorge, que mais tarde e depois de algumas voltas desnecessárias voltei a reencontrar no local onde de manhã tinha deixado o carro.

Depois de um café milagroso voltamos ao Porto, radiantes já que este dia e esta voltinha foi, sem dúvida alguma, uma volta fabulosa cheia de atractivos e de muitos e interessantes motivos para voltar a pedalar pelo Alvão, numa outra ocasião.

Strava

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reciclando [48] dias de “trumpestade”

Em Fevereiro de 2017, nos dias seguintes à chegada do pedófilo ocupante da Casa Branca, eu publiquei isto. Não foi uma grande previsão para o que viria a seguir, um verdadeiro caos mundial, mas infelizmente o louco voltou e este seu segundo mandato não é só um dejávù mas a real consequência de que o gajo ensandeceu. Desta feita estou bem mais apreensivo…

Os ventos são perversos e as águas estão agitadas. Rapidamente o tempo está a mudar. À medida que surgem as vagas desta “trumpestade”, aqui deste nosso cantinho vamos assistindo às diatribes do imbecil que, como que por encomenda, se tornou no homem mais poderoso do mundo. Trump é o esterco baseado na arrogância e, como seria de esperar, já encarnou o seu papel de herói misógino do típico redneck, racista e xenófobo, que o elegeu. Na sua demanda em esmagar qualquer outra religião, povo ou pessoa que não concorde com as suas idiotices, estamos perante uma nova era de uma nova tirania. Já se percebeu que é basicamente uma questão do que ele considera ser o bem contra o que ele acredita ser o mal, o que se traduz, basicamente, na América contra o resto do mundo. O embrutecimento do sonho americano está em curso. Num ápice, um turbilhão de medidas proteccionistas inundou a conjuntura mundial. Quando o alvo é o mínimo denominador comum, o ser humano, e as políticas extremistas sobrepõem-se às reformas económicas ou ecológicas em curso, vamos levar por tabela, não tenhamos ilusões. A crescente maré nacionalista e populista, comum a sinistros círculos da Europa, a escalada da tensão diplomática e ameaça global, é assustadora. Os muros que construímos deveriam ser apenas para nos abrigar dos elementos da Natureza. E eu sigo, desafiando-a, auxiliado por uma bicicleta!

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fotocycle [279] like a “Bridge Over Troubled Water”…

Como uma ponte sobre águas turbulentas, clássico de Simon & Garfunkel é um hino à empatia. É um compromisso de força, esperança e determinação, onde a ponte representa o meio seguro quando tudo o resto parece desmoronar. A mensagem é uma metáfora poderosa sobre oferecer apoio, conforto e segurança a alguém que está a passar por momentos difíceis. Atravessar a calamidade com coragem e determinação, não se deixando derrotar por toda esta corrente de incessantes tempestades que assolam populações, bens e negócios por todo o país.

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é chover no molhado…

… dizer que o tempo está horrível, mas lá vem o convicto ciclista urbano. Enquanto outros reclamam da chuva, do trânsito, da vida, ele sorri e sai a pedalar debaixo do dilúvio, porque – como bem sabe – para o ciclista não há mau tempo, só mau equipamento. Assim, entre pingos e vento, transforma a tempestade num passeio ao sol… ou pelo menos numa boa desculpa para comprar mais um casaco impermeável.

e nada de gozar com as capas dos sapatos, tá!?
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um novo ano, o mesmo plano

Todos os dias vou de bicicleta para o trabalho. Como depois tenho de regressar a casa, invariavelmente durante a semana percorro mais de uma centena de quilómetros. De bicicleta circulo pelas ruas da minha cidade, o Grande Porto  Ao vento, faça chuva ou faça sol, às vezes tudo ao mesmo tempo.

Uma vez por semana, não tenho dia marcado, depois das obrigações laborais, faço uns quarenta quilómetros, para lá e para cá em visitas paternais. Qualquer coisa de duas horas, bem passadas, o tempo suficiente para pensar, admirar, abstrair e parar de pensar. Só pedalar.

Como também tenho outras bicicletas, o fim-de-semana não significa obrigatoriamente o bom e merecido descanso. Ao sábado e ao domingo lá vou eu, com ou sem destino, alargando horizontes. Só ou bem acompanhado, por agitadas ou encantadas estradas, com paragens a meio para almoçar, a liberdade e a saudade muitas vezes pedalam a par.

Seja para onde for, a bicicleta é o meu meio de transporte. É o meu expediente de trabalho. É o meu ginásio. É a minha intuição de lazer e descontracção. É gratuita… minto, anda a café e pasteis de nata. É ecológica, está sempre disponível de manhã e à noite, de inverno ou verão, haja transportes públicos ou não.

É possível e recomendável promover a mobilidade “ciclável” em Portugal, nas grandes cidades e fora delas. Afinal, de bicicleta, e por causa do trânsito de todos os dias, acabo por andar à mesma velocidade de qualquer veículo motorizado, muitas vezes bem mais depressa. Mas isso é a minha praia.

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fotocycle [278] Pai Natal e o Avô já pedalam pela cidade

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fotocycle [277] magnético

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1 ano à Maneirinha

Após um ano de uso intenso, à data deste postal vai com seis mil e seiscentos quilómetros contabilizados, apenas perturbado com um furo e um patético trambolhão, o investimento que fiz na aquisição desta pequena máquina velocipédica compensou, e de sobremaneira!

Não hajam dúvidas que esta bicicleta ultrapassou largamente as minhas expectativas. Nada mal para quem já percorreu tanto. Nada mal para quem ousou optar e não dispensa este veículo de eleição nos commutes diários.. e extraordinários.

Conhecida por ser um modelo versátil, focada para o desempenho urbano, o conforto para quem busca algo entre o asfalto, o empedrado e a terra batida, o seu quadro leve e a geometria versátil tem-me oferecido uma experiência extraordinária, pedalada estável e potente, incrivelmente eficaz mesmo em longas distâncias. Para além de me garantir uma boa performance no trajecto diário, para e do trabalho, oferece-me ao mesmo tempo o conforto e segurança em aventuras mais off-road.

A Canyon Roadlite cumpre na perfeição o papel que se exige a uma bicicleta multifacetada. Perfeitamente adaptada a rodar em terrenos variados, não lhe poderei exigir o desempenho de uma bicicleta específica para cada função, mas esta mistura de utilização está proporcional às suas capacidades, onde o critério conforto é crucial.

Teve os upgrades que achei necessários, um ou outro acessório foi-lhe adicionado, o que melhorou significativamente a sua polivalência e a minha experiência.

.Deixo um apanhado “Stravico” das voltas inesquecíveis que ambos tivemos durante este ano:

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BRM 200 Serra da Freita, o primeiro Brevet Randonneurs Portugal com saída e chegada à Cidade Invicta.

A apenas vinte minutos pedalados de casa para o local de depart, poderia dar a entender que os preparativos para nova rodada “randonneira” fossem mais relaxados! Só que não. Se no planeamento deste brevet e posterior averiguação in loco do percurso participei com todo o gosto, não ia faltar ao apoio com os organizadores Manuel Miranda e José Ferreira no bike check da saída. Assim, lá tive de saltar da cama pelas cinco da matina, tal e qual como se fosse viajar para Marinhas, o local habitual de saída do brevets para norte!

O prato principal é contagiar os ciclistas com a magia da Freita, mas para chegar ao ponto alto do dia foi preciso encher alguns chouriços. Os primeiros quilómetros serão mais tranquilos, cumprindo o plano mais plano. Gradualmente o ondulante perfil interior orientará os ciclistas rumo ao objectivo. Com a serra na linha do horizonte, os ciclistas vão sentir a progressiva ascensão pelo lado de Arões. Vai, quem sabe, pausar em Mira Freita. Irá resistir ao calor na escalada para o planalto. Poderá interrogar-se, “o que é isso das Pedras Parideias!?”. Não escapará à contemplação da cascata da Frecha da Mizarela… no fundo, irá maravilhar-se com locais de rara beleza e pura dureza.

Seis e meia da matina, aos poucos, os participantes foram chegando, juntando-se no parque de estacionamento da Portgás. Conversas de circunstância, revisão das regras à indumentária e às máquinas, finda a reunião preparatória, vinte e nove randonneurs e uma randonneuse perfilaram-se para a foto da praxe. Sete e meia, lentamente fomos descendo a Estrada da Circunvalação rumo ao Douro.

Passado o tabuleiro inferior da Ponte Luiz I, um bando de coletes florescentes espantava turistas errantes, colorindo a estrada ao longo da marginal de Gaia. A neblina proveniente do oceano entrava na bacia do Douro, envolvendo o inconfundível arco da Ponte da Arrábida. À passagem pela piscatória Afurada a temperatura desce ligeiramente. O ex-libris de Miramar, a Capela do Senhor da Pedra, não figurou nos álbuns fotográficos dos passantes porque, simplesmente, não se conseguia mirar nada!

Os cinquenta quilómetros iniciais são rodados em terreno plano, ao longo das ciclovias à beira-mar plantadas. Após Espinho fez-se a rodagem num troço sem trânsito, paralelo à linha de comboio, até que os ciclistas se embrenharem na ondulante e verdejante estrada florestal, de Cortegaça ao Furadouro, onde o Zé Ferreira os aguardava, munido de um mini carimbo para registar a passagem no primeiro posto de controlo, no Café Rota do Mar onde também estava assegurado o abastecimento calórico.

Com a viragem para Nascente, paulatinamente a névoa da manhã se foi e o sol voltou a dar um ar de sua graça. Com a passagem pelo centro de Ovar, da pacifica pedalada que houve até ali seria o contraste. Face ao crescente volume de trafico que iriam enfrentar, soariam alarmes com redobrados cuidados entre o pelotão.

A estrada ainda é plana, por agora, mas em breve irá dará lugar a alguns topos mais elevados. Outro ponto de indiscutível interesse foi a passagem por Santa Maria da Feira, estrategicamente incluída no roteiro. Depois de apontados os telemóveis ao imponente Castelo da Feira, os ciclistas tiveram de se amanhar por um massacrante piso paralelepípedo. Vá lá que era a descer… até ver!

A abordagem para o interior obrigou à passagem por alguns centros urbanos, prendendo toda a atenção, tanto na orientação, cautelas redobradas no atravessamento de estradas mais movimentadas, até que progressivamente as paisagens rurais com caminhos mais calmos começam a ser mais frequentes. Ali, facilmente somos testemunhas das rotinas diárias de um modo de vida mais tranquilo, onde um audível “Bom Dia” nos sai naturalmente, ao qual as pessoas devolvem o gesto com simpatia.

Cerca de dez graus acima do começo da jornada, agora que a leve ascensão na estrada nos impele para a frente, clicando nas manetes à procura de uma engrenagem mais leve e, em seguida, esgotar as possibilidades disponíveis no pedaleiro maior, uma série de colinas se intermedeiam, antecipando no horizonte o que aí vem. A vista da serra revela-nos a sua grandeza e ainda estamos a aquecer.

foto: Pawel

Na berma da estrada, um senhor idoso colocava garrafões de plástico na mala do carro. De tão ressoados que estavam os garrafões, dava a ideia que a água era fresquíssima, e indaguei: “Caro senhor, essa água vem de onde? Não vejo aqui nenhum fontanário!”. Outro homem surge do meio do mato, carregando mais dois garrafões cheios. “Ali ao fundo, e é água muito boa, podem estar seguros, mas tenham cuidado que o chão escorrega”. Fazendo uma pausa para um longo gole de água gelada, saimos dali com os bidons cheiinhos e prosseguimos a subida à conversa.

No horizonte, saídos debaixo da sombreada copa das arvores, as cores da serra e as aldeias sobressaiam no panorama. Já a subida ia a meio e só agora passávamos pelo primeiro carro desde há largos minutos. Na rota da dita “Subida mais longa”, ao quilómetro 13, alcançamos Mira Freita e a hipótese de uma paragem, não porque estivéssemos cansados, mas porque sabia d’antemão que ali haviam boas sandes de presunto e frescas cervejinhas para quem quisesse antecipar o almoço.

Sábado foi um dia em que o calor apertou e bem. Péssima hora para atacar a Serra da Freita, pensámos, mas disso a montanha não tem culpa. Nós é que quisemos estar ali, a sofrer, a derreter sob o abrasador sol do meio-dia, mas não nos podíamos queixar. O dia estava fantástico e dava para ver perfeitamente toda a paisagem que nos rodeia.

Retoma-se a subida. A estrada diante de mim é cada vez mais severa. Numa curva com vistas largas, páro para fotografar e desfrutar da agradável panorâmica. Sorvo da minha garrafa de água, procuro me refrescar aproveitando uma brisa leve, mas os níveis do mercúrio estão bem acima dos 35 graus! Ao longe, a visão do radar meteorológico relembra-me que tenho mais quilómetros de subida pela frente, e eu estou a contar com eles.

O ritmo é lento, também muito por culpa do panorama paisagístico que me envolve de sobremaneira. O suor escorre pelo meu rosto e não resisto a mais um momento de pé no chão para outra fotografia, captando alguns dos meus companheiros que me perseguem. Aqui pode-se desfrutar de uma paisagem que quase atinge o infinito. Para onde quer que se olhe o momento é de silencio, só nós, as nossas bicicletas e a fantástica paisagem. Agora sente-se uma ligeira brida de vento, mas que não é capaz de pôr as eólicas a girar.

O recorte da torre do radar meteorológico indicava que estamos quase no ponto mais alto do Maciço da Gralheira! Com ânimo redobrado, transpomos a barreira dos mil metros de altitude e alcançamos o planalto da Serra da Freita. Montes matizados do amarelo e do lilás, da carqueja e da urze, a natureza é surpreendente. Extasia-nos com maravilhas invulgares, com caminhos ancestrais, geossítios e fenómenos geológicos que originaram o Arouca Geopark. Como estas estradas são lisas e tranquilas, quase sem trânsito a atrapalhar a calmaria, e alguns montículos de bosta no meio do alcatrão revelam pistas que as vacas arouquesas pastam por ali.

Ponto obrigatório do roteiro, o miradouro da Frecha da Mizarela compensa todo o esforço que ficou para trás, para ali chegar. As chuvadas deste inverno engrossaram o rio Caima, que nasce no planalto da Freita, e ampliaram a arrebatadora beleza da cascata mais alta de Portugal Continental, ao despenhar-se a 60 metros de altura um dos locais mais emblemáticos da serra. Mais umas quantas fotografias e um pouco de conversa sobre o que tínhamos visto até ali, foi com um dos principais objectivos atingidos que nos colocamos em marcha via Merujal.

O segundo posto de controlo, na Mercearia da Montanha, prometia-nos algum descanso e reforço alimentar. Pelo tempo que demorou a chegar à mesa, nem foi necessário esperar que o caldo verde arrefecesse. Meia-hora depois e estávamos em marcha, novamente em subida, num alcatrão bem lisinho. Se a praia fluvial de Albergaria da Serra seria uma boa desculpa, alguns randonneiros acharam que sim, o passeio no parque de diversões tinha de prosseguir.

Zé Ferreira não participou para poder assistir e registar a nossa passagem pelos postos de controlo

Juntamente com novos companheiros de roteiro, a estrada em excelente piso volta a empinar, refletindo as curvas sob a luz solar. Para lá da zona do parque de campismo. fora da protecção do arvoredo, somos atingidos pelo calor do ar e cozidos na fornalha do sol. Não há ponta de vento.

Uma pausa no relato para falar da bicicleta reclinada do Pedro! Subir pendentes consideráveis numa chaise long com pedais não é nada fácil. Ao contrario da capacidade que as recumbentes têm em atingir velocidades consideráveis no terreno plano, é de louvar o esforço quando a estrada se inclina à frente do ciclista. Tendo em conta a posição diferente das bicicletas convencionais, uma grande desvantagem das bicicletas reclinadas é a redução da potência devido à menor capacidade de usar as pernas contra o quadro. Por outro lado, pensava eu, não é tão simples abordar as descidas. Revela-se problemático o uso de travões convencionais em rodas de carbono. Pura e simplesmente o Pedro derreteu a pista de travagem no aro da roda traseira enquanto travava na abrupta descida para Arouca.

foto Pawel

Chegamos a Arouca cansados do rude alcatrão e de tanto tempo a pressionar as manetes de travão. Ao vermos algum pessoal refastelado numa esplanada, que também assistia as incidências da derradeira etapa do Giro de Itália, paramos para um cafezinho e mais qualquer coisa. Passados uns minutos pusemo-nos novamente em marcha, para uns quilómetros mais à frente calcarmos a estrada rumo a Castelo de Paiva.

A N224 é uma estrada bastante prazerosa, com um perfil e envolvente muito agradáveis, curvas sensuais e absolutamente nenhum trânsito. Para além de não ter sido ultrapassado por um carro, o único veiculo por assim de dizer com que me cruzei em longos quilómetros foi uma motorizada que descia de motor desligado.  

Embalados pela benesse gravitacional, subitamente calcamos os paralelos à entrada de Castelo de Paiva para nos determos na confeitaria indicada, tanto para carimbar o cartãozinho, como para voltar a hidratar e saborear um gelado… ou dois! Estávamos a um quarto de hora das 16h, só que o relógio não parava e ainda havia um quarto de percurso por pedalar. De novo com o depósito cheio, depressa estávamos de volta ao selim para mais duas horas de pedalada. Continuou-se a descer.

Com a alma revigorada, tínhamos agora a companhia do Rio Douro e o vento pela frente. O percurso pela N108 até ao Porto é sobejamente conhecido. Não sei bem porquê, desta vez os meus diabretes não apareceram para me atazanar, e aparentemente eu estava cheio de pica. Entusiasmei-me na pedalada, e sem me aperceber fui fugindo dos meus companheiros. Entretanto, “apanhei” o Rui e o Carlos que “conduzi” até às portas do Porto.  Praticamente com o brevet concluído, deixei-os ir e sentei-me no trono de pedra à entrada do Parque Oriental, para espererar pelo pessoal que deixei para trás e percorrer em conjunto os derradeiros quatro quilómetros sob a frescura do curso ao longo do Rio Tinto.

Que belo dia para pedalar. Foi de facto um fantástico e inesquecível Brevet, com um grande companheirismo e, como habitualmente, mais uma irrepreensível organização dos Randonneur Portugal, nas pessoas do Manuel Miranda e José Ferreira, a quem muito louvamos o esforço e dedicação à causa. Um abraço a todos que participaram e comigo conviveram, aos meus amigos Pawel, Nelson, Jorge e em especial ao Alan, que se despediu, por agora, pois irá brevemente pedalar, entre outras coisas, para as estradas onde se circula à esquerda, para Inglaterra.

Pawel, Alan e moi méme

Até Breve(t), embora me pareça que pelo calendário de 2025 não poderei participar em mais algum evento randonneiro.

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“olha, dei a volta ao conta-quilómetros!”

Já antes pedalava diariamente, em percursos urbanos para e do trabalho. Já antes alargava os meus passeios de fim de semana. Já antes havia participado em Brevet´s dos Randonneur Mondial, mas, como entretanto vim a saber: “se não está no Strava, não aconteceu!”

Era uma manhã de um sábado cendrado pelo nevoeiro. De olhos turvos, ainda num estado semiconsciente e pré-cafeinado, abri o Strava, e, sem saber bem se a geringonça nova iria cumprir o prometido, dei inicio a uma boa aventura. Diz que o tempo voa, mas estes dez anos, desde a minha primeira pedalada registada no Strava, parecem ter sido supersónicos!

Não levo o Strava muito a sério. Não sou muito adepto dos desafios, nunca usei um medidor de potência e muito menos um monitor de frequência cardíaca para me dizer que o meu coração ainda bate. Continuo a ser um utilizador banal, resistindo aos constantes apelos de subscrição, no entanto tenho de agradecer a esta inigualável plataforma toda a incrível tecnologia como repositório das minhas actividades cicláveis (e algumas pedonaveis!).

Voltando aos dias inebriantes da primavera de 2015. Tudo mudou quando o Pelotão do Arrasto, um grupo de amigos que jogava cartas ao longo da estrada N108, partilhava nas publicações do Instagram: “Oh pá, já viste os nossos PR´s desta manhã?” Eu não via. Primeiro nem sabia bem o que ere um “PêéRre”. Depois não tinha um gêpêésse ou mesmo um telefone esperto capaz de correr a “App”. O Strava não tinha importância, pelo menos não tinha para mim até me decidir comprar um telemóvel de jeito e fazer o meu primeiro “upload”, numa reedição da clássica bicinigração a Fátima.

Inspirado pelos meus amigos, isso me fez conquistar “PêéRres” e coisas novas também. Pronto, aos poucos também fiquei obcecado com aquilo. Persegui os melhores tempos pessoais, pedalei distâncias cada vez maiores e escalei subidas para mim inimagináveis. Agora, ao longo do tempo, era capaz de quantificar e comparar dados com tantos outros. Admiti que passei a gostar de receber “kudos”!!! “O quê? Escudos!”… “Não pá, KUDOS. os “likes do Strava”. També os comentários e elogios às fotografias que fui, e vou, tirando. Agrada-me partilhar a minha jornada pedaleira nesta rede social. Afinal, a nossa vida é bem pouco inspiradora.

Eu não percebi na época que me estava a juntar às fileiras de uma classe crescente de novos atletas, mas nunca me encaixei no papel de atleta. Nunca tive ilusões de nada. Para além de ter sido um gajo acima do peso ideal, não lutei por recordes, não engrossei Granfondos, Zwift’s, ou isso, nem me atirei como um louco nas descidas. Em vez disso, segui um caminho diferente, enchendo as pernas de ácido láctico, como cicloturista, desfrutando e babando nas subidas.

Há dez anos atrás era apenas dez anos mais novo. Sim, é uma afirmação óbvia, mas quando me revejo em termos velocipédicos muita coisa evoluiu. É evidente que contínuo um ciclista urbano, cada vez mais enferrujado, mas o facto é que nestes anos todos pedalei e visitei muitos locais que de outra forma certamente não conheceria. Esta fantástica ferramenta permite-me manter um arquivo histórico, por onde e com quem pedalei, e que posso consultar a qualquer momento.

Alcancei alguns reptos pessoais, físicos e mentais, me deparei com a maldita da diabetes, tive alguns acidentes, vi amigos irem e virem. Melhorei sobretudo a minha experiência em cima de uma bicicleta. Juntei as pedaladas laborais, o #commutescount, à contabilidade pessoal. Uni esforços reivindicativos com a legião de guerreiros de fim de semana, totalmente relegados no direito a circular na estrada. Basicamente procurei aproveitar o extraordinário efeito transformador que as bicicletas tiveram em mim.

Não domino o teletransporte, mas quando viajo no tempo de volta a abril de 2015 percebo que, até hoje nestes 10 anos de constante movimento, já percorri mais de 100 mil quilómetros. Estes números redondos apenas alimentam o meu ego e reforçam a dependência que tenho cada vez mais das minhas bicicletas. Venham daí os próximos capítulos.

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