fotocycle [236] a sentir-me romântico

Apesar de já ter percorrido novecentos quilómetros, assim visto, deste magnífico miradouro, o rio não parece cansado, correndo alegremente debaixo da ponte que lhe marca o destino. Casmurro, transportando conforto e almas, o rio lança-se no revolto oceano cujas ondas se abatem nos molhes da Foz.

Daqui miro o Douro, a última curva, a paisagem. Sob o arco da ponte mais um barco carregado de turistas. Uma visita sem pressa, maravilhado pela magia que só a luz do entardecer tem, seduzido pelo silêncio que nem a cidade se atreve a quebrar.

É pelos caminhos do romântico, por esta cidade feita do sabor do tempo e onde as ruas escondem mistérios, que retomo o caminho para casa e me reencontro com o rio, entretendo-me com as gaivotas, o vento e a maresia que este poderoso caudal de água encontra no seu abraço extremoso com o mar.

Aproveito cada momento.

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projecto Pedalar Sem Idade

Foi através da partilha do meu amigo Manuel Couto que fiquei conhecedor de uma excelente iniciativa para a nossa cidade: O projecto Pedalar Sem Idade – Porto (Cycling Without Age).

Um grupo de voluntários do Porto pensou trazer para a nossa cidade uma ideia que já faz gente feliz em mais de 30 países: Passear pessoas idosas, de mobilidade reduzida, pela cidade em bicicletas dinamarquesas com motor eléctrico e plataforma elevatória de acesso, adaptadas ao transporte confortável de duas pessoas. Trazem até uma manta para manter as pernas quentinhas e uma cobertura impermeável para os dias de chuva.

“Somos pais e filhos, tios e irmãos. Todos vamos envelhecer e todos temos gente muito próxima a quem a idade tirou alguma coisa. Queremos devolver à terceira idade algo que quase sempre lhe falta: mobilidade.”

O Rotary Club Porto Portucale Novas Gerações, o promotor que havia lançado a campanha de financiamento, apresentou sábado passado, no Edifício Transparente, a bicicleta que permitirá a vários felizardos voltar a sentir a satisfação que é a de passear de cabelos ao vento. Este veículo fantástico irá acrescentar movimento à vida destas pessoas e um dos prazeres que o envelhecimento lhes tirou.

Queres saber mais sobre este projecto? Clica nos seguintes links:

facebook.com/pedalarsemidadeporto
www.pedalarsemidade.pt

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can’t miss [193] jornalciclismo.com

As bicicletas atropelam os automóveis

O tema da circulação de velocípedes nas estradas, onde podem andar, dá cada vez mais que falar. Sendo em número crescente os utilizadores da bicicleta, sobretudo usada como lazer, mas também como simples meio de transporte, acaba por ser natural, segundo os padrões latinos e do Sul da Europa gerar-se alguma discussão.

Ao ouvir/ler alguns comentários, ou até ver/ouvir programas de televisão ou de rádio, de audiências massificadas, fico contudo, por vezes, com a sensação de que são as bicicletas ou os peões que atropelam os carros e os automobilistas, como sabemos, com notável capacidade letal! Na estrada, não há arma maior do que um ciclista, envergando um fato de licra e um capacete de esferovite tratada.

[…]

Podes ler o artigo completo em http://jornalciclismo.com/?p=49156

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soube bem mudar o chip

Às vezes, quando revejo as minhas memórias, vejo bicicletas. Fecho os olhos e desbravo um trilho de recordações, terra batida, lama, paralelos aleatórios e asfalto esburacado. Quarenta anos mais novo, no selim de uma bicicleta “de corrida”, a Altis cor de laranja do meu pai. A pura rebeldia da juventude. O caminho marcado ao longo dos anos, joelhos e cotovelos esfolados. O rosto sujo e suado, de sorriso e calção rasgado.

Soube bem mudar o chip e voltar a ser um bicho do mato. Trocar a burra de estrada pela roda 26. Descer à maluca, agarrado aos travões de disco, aos pinotes com pneus de monte. O Rui se quiz a minha companhia teve de me emprestar a Bergolina que serviu lindamente para me deixar levar pela conversa da malta amiga do bêtêtê. De novo a terra batida, a lama, paralelos aleatórios e asfalto esburacado, que me reavivou memórias de outros tempos, desta vez pelos trilhos enlameados das Serras do Porto, no NGPS Gondomar.

Depois o furo da praxe e a surpresa pelo nosso pequeno (cof.) engano! Como eu o Rui não usamos essa  geringonça do gêpêésse e contavamos com o ovo no cú da galinha, seguindo na roda dos experts, ao falhar o desvio previsto, foram uns para um lado, eu e o Rui para o outro, que era apenas o percurso mais longo de 70 km’s, o que que só veio adocicar ainda mais um Sábado fresco e tristonho.

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fotocycle [235] Foto: Luis Moreira

Este é um belo exemplo do “efeito panning”. Na linguagem fotográfica, a técnica panning é um efeito óptico que se obtêm de um objecto em movimento. Esta técnica permite “congelar” um assunto ou objecto em movimento, enquanto o fundo fica borrado ou desfocado. É uma técnica muito usada, por exemplo, na fotografia desportiva.

Para o meu amigo Luís Moreira captar esta belíssima fotografia, manipulou a sua Canon e utilizou esta técnica de uma forma brilhante. “Apanhou” a elegante ciclista em movimento lateral à sua posição, a forma mais adequada para que o efeito resulte, e o resultado é fantástico.

O panning parece ser bem complicado, mas com alguma prática e o equipamento adequado, o fotógrafo pode ensaiar várias fotografias criativas. Com a ajuda de um tripé, ou um monopé, fica mais fácil conseguir o efeito nas fotografias. Um pré-requisito, no entanto, é ter uma câmara fotográfica com compreensão básica do triângulo de exposição (ISO, velocidade e abertura). Com esses 3 componentes em simultâneo pode manipular a luz.

No modo manual ou semi manual, ajustando manualmente a velocidade do obturador (da velocidade normal, 1/25 sec, para, por exemplo, 1/40 ou 1/60 sec), a partir daí pode experimentar e regular a velocidade do obturador com a velocidade de movimento do objecto. Com o modo de foco da câmara configurada para o AI Focus, a câmara vai ajustar continuamente o foco ao objecto conforme este se move.

Quando o objecto que deseja evidenciar se aproximar, deve apontar e focar o objecto em movimento, acompanhando-o e começando a tirar a foto. Uma dica será tirar uma série de fotos no modo burst. Como a velocidade do obturador está lenta, quando a exposição terminar, o objecto que estava em movimento ficará focado enquanto o fundo da imagem estará desfocado. Porém isso só irá acontecer se conseguir seguir a velocidade do objecto com a sua câmara à mesma velocidade, anulando assim o seu movimento.

O meu sonho é conseguir uma fotografia tão bela quanto esta, mas como a minha câmara fotográfica também atende e faz chamadas, acho melhor meter a viola o telemóvel no saco bolso.

(podes ver mais belas fotos do Luis em: https://instagram.com/luis.moreira.111)

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“viver é como andar de bicicleta: é preciso estar em constante movimento para manter o equilíbrio”, já dizia o tio Alberto

Todos os animais se movem; correm, saltam, voam, nadam… O movimento é parte essencial da vida. Os seres humanos costumavam viver da mesma forma.

Antes do advento da agricultura, os humanos eram nómadas, andavam muitos quilómetros por dia em busca de caça e alimento. Sempre em movimento, o Homem aprendeu a fazer as coisas por si mesmo. Com as próprias mãos construía abrigos, vestuário e utensílios de caça. A força física era fundamental para atender às suas necessidades. Completa auto-suficiência para garantir a sobrevivência.

Depois, com a agricultura, os humanos estabeleceram-se em comunidades e uma interdependência mútua começou. Surgiu uma forma colectiva de vida, com o intercâmbio de produtos, e não demorou muito para surgir o comércio. As pessoas criavam as suas próprias actividades e contavam com outras para satisfazer as suas necessidades. Coisas que queriam ter e que outros faziam por si. Dependência de terceiros.

A domesticação de animais, levou ao uso de algumas espécies como auxílio no transporte. Para além da força necessária para manter o equilíbrio montado num animal, dessa forma o ser humano movia-se sem despender do esforço. Com cada avanço social e tecnológico, o estilo de vida tornou-se progressivamente mais fácil. Se até aí os pés eram os meios principais de transporte, andar era a única maneira de ir do ponto A ao ponto B, a vida era agora mais perguiçosa.

Com a ideia do transporte sem esforço, o estilo de vida tornou-se sedentário. Enquanto os burros puxavam a carroça, a inactividade tornou-se um costume. Não fazer nada é um sinal de sucesso, sobretudo se, se pode dar ao luxo de contratar outras pessoas para fazer as coisas para e por ele. Menos actividade significava um status social mais elevado.

O automóvel foi baseado nesta ideia. Diferia sobretudo na fonte de energia, na propulsão de um motor a combustível em vez da tracção animal. Nenhum esforço era necessário para se mover de um lugar para outro. Embora isso parecesse uma boa ideia, muitas consequências negativas vieram com ela. Delas, a mais gritante é a poluição ambiental e as implicações para a saúde. A inactividade, juntamente com factores de estilo de vida mais sedentária trouxe outras maleitas.

Quase sem aviso, os seres humanos encontraram-se onde estão hoje. Além de usar o veículo automóvel como principal fonte de transporte, o Homem obtém comida a qualquer hora do dia ou da noite, apenas usando o dinheiro para comprar os seus desejos. Tudo o que temos de fazer é pagar e comer. Muitas conveniências, difícil é manter o controle de todas elas.

Este cenário transformou o mundo, onde a maioria dos seres humanos está hoje. Raramente se esforça fisicamente. As actividades giram em torno do entretenimento entre paredes. Mesmo as crianças já não brincam na rua, permanecendo imóveis, por longos períodos de tempo, com os seus dispositivos portáteis. O tempo de lazer passou para a posição sentada, sem sair do sítio. Em suma, a espécie humana como que renunciou ao ritual do movimento diário.

Agora, a fim de recuperar alguma da nossa saúde, temos de programar o tempo para o movimento. Os ginásios são exemplos desse movimento programado. E o tempo é cada vez mais escasso. Daí, tem de encontrar tempo na gestão do tempo para programar algum tempo para se exercícitar durante algum tempo. A nossa forma de viver já não se move naturalmente.

Para o ser humano algo está a faltar, e devemos lutar para ajustar algo que deveria ser uma função básica. Andar, caminhar, passear… Mover.

Felizmente, existe um movimento de retorno num determinado segmento da sociedade. É um conceito, que não é novo, e que não deveria ter que ser um conceito, mas que leva em consideração o movimento humano, alimentado na sua própria energia. Um segmento crescente da sociedade, implementado nas ruas e que não é apenas andar a pé, mas é andar de bicicleta, não apenas como exercício, mas como parte das suas/nossas vidas diárias.

Talvez, um dia, andar pedalar será tão natural para todos os seres humanos como já foi para os nossos antepassados. Pés e pedais podem fazer um retorno lembrando-nos do que nós deveríamos ter sido.

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can’t miss [192] publico.pt

Crianças pedalam de casa até à escola num “comboio” conduzido por alguns pais

Projecto nascido em Lisboa, na zona do Parque das Nações, está a ser replicado, com grande sucesso, em Aveiro. E a ideia passa por fazê-lo chegar a outros pontos do país.

“O ritual tem vindo a repetir-se todas as manhãs, desde o início do ano lectivo. Às 8h35, César Rodrigues e o seu filho Sebastião saem para a rua, cada um na sua bicicleta. Fazem a primeira paragem um minuto depois, escassos metros à frente, para apanhar Martinho e os seus três filhos: Mafalda, Gaspar e Baltazar. Ao longo do caminho que os conduz até à Escola Básica das Barrocas, em Aveiro, ainda efectuam mais duas paragens. Inês Domingues e Inês Brito, com os respectivos filhos, Tomás e Rodrigo, juntam-se ao grupo no segundo ponto de encontro. Mais à frente, é a vez de Ricardo Nunes, e os filhos Bárbara e João, engrossarem a caravana. Na verdade, é um “comboio” de bicicletas e até já tem nome próprio: Ciclo Expresso das Barrocas.” […]

Podes saber mais sobre este interessante projecto em: https://www.publico.pt/2018/10/16/local/noticia/criancas-pedalam-de-casa-ate-a-escola-num-comboio-conduzido-por-alguns-pais-1847576

 

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fotocycle [234] aproveito cada momento

A bicicleta é uma extensão do corpo e segue comigo, sempre junto, quaisquer sejam as minhas escolhas. É muito mais que um veículo. É a ferramenta disponível no dia-a-dia e que  apenas necessita de mim para funcionar. Com ela não estou dependente de horários, de outros meios de transporte que me levem onde quero ir. Como alternativa viável, a bicicleta reaparece com destaque na actividade desportiva e no lazer. No usufruto útil do meu tempo livre promove a qualidade de vida, na percepção de melhor me relacionar com a cidade, com a estrada e com tudo o que me rodeia. Sem motor, sem gasolina, nas suas múltiplas possibilidades de uso no espaço público. Nas minhas bicicletas aproveito cada momento.

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can’t miss [191] veloculture.pt

Neste postal multi-ilustrado da Marginal tripeira, a via mais ciclo-concorrida da Ribeira até à Foz, Velho Lau faz uma análise bem documentada e testemunhada das cíclicas dificuldades vividas pelos ciclistas: urbanos, licrados e turistas; equívocos e incoerências “num dos percursos mais planos e mais bonitos do Porto”.

COMBOIOS DE BICICLETAS NA MARGINAL (GALERIA E TESTEMUNHOS)


Quem pedala somos nós, os portuenses que andam de bicicleta para cá e para lá nos afazeres diários, nas idas para o trabalho ou para a escola, a treinar ou a passear. E também os turistas, que andam muitas vezes aos pares, ou em bandos, não raramente com um guia acelerado e sorridente à frente. Há ainda um grupo cada vez maior, que são os peregrinos que fazem o Caminho da Costa, muitos de bicicleta, ainda mais a pé.

[…]

Foi por assistir todos os dias aos pequenos conflitos e à organização do espaço improvisada por todos estes ciclistas e pelos peões, que ainda são maioria, seja em passeio, nos seus afazeres, à pesca, em passo de corrida, a beber uma mini num dos bares ao lado do Rio ou em peregrinação, que decidi ir para a Marginal tirar fotografias e escrever este postal. Depois, no Instagram (no meu e no da Velo Culture), pedi a opinião a algum pessoal amigo que também faz este percurso e cujos testemunhos podem ir lendo nos destaques destaque no postal.

[…]

(para ler clicar em: https://veloculture.pt/2018/10/04/marginal/)

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dois mecos à conquista da velha estrada N2, ou a minha melhor aventura a pedais

“Estou pensando seriamente fazer a Nacional 2 numa de recreativa (Chaves/Faro) lá para Setembro, estou disposto a fazê-la sozinho, mas com uma companhia de + um, dois ou três, mais agradável seria. Vamos lá”

 O jovem Jacinto lançava assim o desafio e eu vacilei, mas não foi logo ao primeiro toque. “Anda mas é comigo à N 2…”. Ora, estando eu de férias, a minha participação na aventura exigia que outros astros se alinhassem. Fui matutando a ideia e depois de assegurar alguns aspectos importantes para o êxito da coisa lá me deixei levar pelo desvario de pedalar os 738 quilómetros de extensão da Estrada Nacional 2 em quatro dias, a uma média superior a 180 km pedalados por dia. Foi mais ou menos isso que contrapus aos planos iniciais do Jacinto, a de ir “numa de recreativa”, mas sei que exagerei.

Desde que li a primeira crónica das muitas proezas pedaladas por outros da mesma espécie ao longo da estrada mais extensa do país, a terceira mais longa do mundo depois da americana Route 66 e da argentina Ruta 40, que este vosso cicloturista fervilhava na vontade de ir somar os 739 mecos da velha estrada, começando no zero. Sair à descoberta do país, pedalar pelos alcatrões, buracos e paralelipípedos da mítica EN2.

Esta é a crónica da minha maior melhor aventura a pedais, descrevendo as motivações, estímulos e sensações vividos numa estrada cheia de singularidades.

Preparações e demais questões

Não tive de fazer uma preparação física específica porque uso diariamente a bicicleta, como meio de transporte e como a melhor forma de me manter em forma. A exigência seria rigorosa, sabia-o à partida, mas a minha expectativa superava qualquer acumulado montanhoso. O móbil seria encontrar o melhor ritmo e desfrutar o momento. Percebi o Jacinto algo receoso dos muitos quilómetros programados para tão poucas etapas. Nos dias antecedentes à partida eu lá o ia descansando, recorrendo aos argumentos económicos: “Quanto menos pernoitamos, mais poupamos”. Mais à frente, após os primeiros prémios de montanha, ia-o animando: “Seguimos ao teu ritmo e quando lá chegarmos, chegamos!”. Mas isso não o descansava e não o poupava, nem as pernas nem o seu joelho direito.

Para chegar ao ponto de partida, em Chaves, foi inevitável o recurso ao automóvel – Carla, mais uma vez o teu maridinho te agradece toda a abnegação e afeição que dedicas à modalidade que tanto adoras, o ciclismo. No momento da primeira volta ao pedal, do quilómetro zero em diante, a viagem seguiria em autonomia, sem peneiras nem geringonças. A malinha Carradice carregava a roupa necessária e o kit de sobrevivência mecânica. Com as cábulas “à mão” e os olhos nos mecos da estrada, parar-se-ia onde nos desse a fome, tivessemos sede, houvesse um motivo fotográfico ou uma pane qualquer.

O dia para pedalar, a noite para dormir. As pernoitas foram previamente marcadas. A primeira e segunda noite seriam em Viseu e Abrantes, escolhas motivadas pela disponibilidade mais económica que as Pousadas da Juventude oferecem, a uns módicos 14€ por beliche, com direito a pequeno-almoço. Para a terceira noite previ um pequeno luxo, iriamos descansar as pernas numa pequenina casa, tipicamente alentejana, na vila do Torrão. Para o último dia, e uma vez chegados a Faro, previa a chegada para as 17h, compraríamos os bilhetes para o comboio IC das 17h56 e regressaríamos ao Porto. Não pré-comprei os bilhetes por mera incerteza da hora de chegada.

Assim, no dia seis de Setembro lá fomos nós os dois “descer” a N2, estrada património que rasga o país real, de alto a baixo, e se cruza sinuosa com os caudais de onze rios, ondula ao sabor de quatro serras, se estende por onze distritos e atravessa trinta e dois concelhos. Um tesouro esquecido que liga Chaves a Faro, uma estrada inteira, nacional, elevada, preservada, desclassificada, presente, e em alguns locais escondida de toda a gente.

Dia 1: Chaves – Viseu (174 mecos à beira da estrada)

Começa-se numa singela rotunda algures na cidade flaviense. No seu centro, o original marco quilométrico branco com os dizeres N2, vários autocolantes motards e um rotundo zero, marca o arranque desta nossa viagem etnográfica. Um meco tão famoso, tão simbólico, tão certo como o seu irmão que aspirávamos alcançar, 738 quilómetros depois.

Chegamos lá pelas 10 horas, mas antes da foto da praxe e do sapato no pedal fomos forrar os estômagos. Despedimo-nos da nossa motorista e fotógrafa de ocasião, espetei um autocolante evocativo no meco 0, dei inicio ao registo stravico e saímos logo de seguida. Seguimos para sul, devagar e a divagar.

Dali até Vila Real, passando Vidago, Pedras Salgadas e Vila Pouca de Aguiar, a antiga linha ferroviária do Corgo, adaptada a ciclovia, segue, amiúde, em paralelo com a estrada. Aproveitando o bom tempo, experimentávamos as pernas pela região do Alto Tâmega, entre as Serras do Alvão e de Paradela. Em Vila Pouca fui traído pela sinalização, errando assim o trajecto original da N2 que pretendia seguir e que passa pelo centro da vila. O mesmo se passa em muitas das cidades e vilas que a estrada atravessa. Primeira paragem em Vila Real para atestar.

Até passarmos Cumieira, a estrada volta a elevar-se. Chego ao meco 69 e resolvo parar para esperar pelo Jacinto, ciclista e poeta a caminho do marco dos 70. Estamos a poucos dias do nosso amigo “septuagenar” e quis tirar-lhe o boneco para o lembrar disso. Então, encosto a bicla ao famoso meco quilométrico, preparo a tele-objectiva, registo a passagem do nosso jovem, dou dois passos atrás e… zás! Dou por mim a cair no vazio. Enfiei-me num boeiro aberto na berma e escondido pela erva seca. Ainda meio atarantado saio dali com uma perna esfolada e escoriações nos braços. Das cenas trágico-comédias da nossa viagem, esta foi a comédia.

Santa Marta de Penaguião e a entrada no Alto Douro Vinhateiro é sempre um momento alto de qualquer roteiro. A sinuosa N2 flutua agora acima dos socalcos até mergulhar em direcção ao rio. O Douro passa a dominar as vistas e a estrada desenha-se por entre a paisagem única, modelada pelo homem ao longo dos anos. São quilómetros de um desfile panorâmico, de vinhas encrespadas nos sucalcos, tons esverdeados do vinhateiro, de muitas quintas que se explanam pelas encostas, o que valeu à região a nobre distinção de Património Mundial da UNESCO. Sob a velha ponte metálica, que no presente é ponte pedonal, o Douro segue o seu curso até ao Porto e nós seguimos para sul, rumo ao Algarve.

Do Peso da Régua ao alto de Bigorne, por longos 33 quilómetros, a velha estrada apruma-se, e bem, e foi no primeiro lanço até Lamego que o dueto cicloturista já havia outrora pedalado junto, no breu da noite de uma famigerada Flèche dos Randonneur de Portugal. Desta vez o sol cobrava-nos o privilégio das panorâmicas e espremia-nos em suor. Dos sete blocos cúbicos múltiplos de cem plantados pela N2, o primeiro desses míticos marcos surge em Sande, às portas de Lamego. Feito o registo, saí dali enfartado com a deslumbrante vista do que ficou para trás.

Estava na hora de reabastecer e o Jacinto não escapou à famosa e saborosa bola de Lamego, nem à paralelepipédica subida do monte de Santo Estêvão que contorna o Santuário da Senhora dos Remédios. “Eu sei Jacinto, é sempre a subir, que remédio!”

Ali, ao quilómetro 114 da N2, é a freguesia da Magueija, concelho de Lamego. Há muitos anos, dali emigraram Dimas e Graziela para Vila Nova de Gaia, onde criaram uma numerosa e linda família, a qual, anos mais tarde, me acolheu no seu seio por via do matrimónio.

Após o topo, nos 971m de altitude da serra de Bigorne, a maior elevação por onde a N2 passa, usufruímos da contemplação da Serra de Montemuro, Rota do Românico, e do planalto beirão. Planámos numa descida rápida e saborosa para Castro Daire, terra do Bolo Podre. Transposto o Rio Paiva estão de volta as subidinhas. “Ufa… isto é só subir”, reclamava o Jacinto!

“Indo eu, indo eu a caminho de Viseu”… entretanto caía a chuva e trovejava do céu! Foi com o inconfundível odor do asfalto quente molhado que iniciamos a ultima inclinação do dia, de Calde a Bigas, com a A24 a roncar por perto. O suor escorria da testa e atraía as moscas que pairavam defronte dos óculos. Dava para perceber a monotonia da  cadência, e foi já às portas da cidade de Viriato, com o relógio a bater as 20h, que nos detivemos no primeiro restaurante que surgiu para atacar um bom bacalhau com natas.

Nova chuvada atrasou-nos a saída para cumprir os poucos quilómetros que nos separavam do merecido descanso, e antes mesmo do check-in na Pousada da Juventude de Viseu, andámos à nora pelo centro da cidade à custa da barafunda provocada pela Feira de São Mateus. Talvez pelo estímulo da cafeína, pela janela entreaberta do quarto, pelo ronco do vizinho de beliche, tudo junto, quase não preguei olho a noite inteira.

Dia 2: Viseu – Abrantes (uns loooongos 230 km’s)

Nove da matina, pequeno-almoço reforçado e estávamos de novo no selim como meros ciclistas urbanos no frenesim rodoviário da hora de ponta viseense. Este seria teoricamente o dia mais complicado, não apenas pela distância, mas sobretudo pela difícil navegação que teríamos de superar.

A rota passa pela freguesia de Fail, e eu na brincadeira dizia-lhe: “É sempre em frente Jacinto, não há que falhar”. Pois… A bucólica mata que se atravessa no nosso caminho trouxe de volta os mecos na berma da estrada e a paz necessária para colocarmos a conversa em dia. O IP3 e a ciclovia do Dão farão agora parte contrastante do panorama. À passagem por Tondela, a paragem técnica na Pastelaria Rosicar foi bem adocicada pela simpatia das funcionárias.

Na ausência do defunto marco quilométrico dos 200 km’s, sacrificado ao traçado do IP3, registo o primeiro sobrevivente em combate que me apare. Nada mais a assinalar até Santa Comba, a não ser a visão desoladora das vastas plantações de eucaliptos, aqui e ali devastados pelos incêndios que fustigaram a região centro no ano passado.

Depois de Santa Comba Dão a N2 vendeu a alma ao criador. A ponte com o nome do ditador, por onde passava a N2, ficara submersa pelas águas do Mondego há mais de três décadas, na sequência da construção da Barragem da Aguieira. Não nos restando alternativa, para continuar tivemos de nos amanhar pela sensaborona EN234, para antes de Mortágua tomar a EN228 em direcção à Barragem da Aguieira, onde o seu pontão nos permite a travessia.

Até Penacova a N2 transforma-se em IP3 e mais à frente, perto de Oliveira do Mondego, o Itinerário Principal corta-nos o caminho. A solução para o evitar é percorrer por poucos metros um estradão de terra, tomar um atalho por uma ladeira, subir para depois descer à margem do Mondego. Mais à frente vamos retomar a N2.

É neste ponto do atalho que vem a parte “trágica” da comédia. Talvez resultado da falta do almoço, mesmo com o roteiro bem estudado, a desorientação foi completa. Não li bem a cábula e cometi um grave erro de navegação, virando onde não devia. Com esse equívoco perdemos uma boa hora às voltas, a subir e a descer, até perceber que havíamos voltado para trás. Pronto, dei cabo do Jacinto!

Após passar pela aldeia de Raivas, às portas de Penacova, e, sem avisar, recomeça a N2. Despedimo-nos do Mondego e começa a ascenção para Vila Nova de Poiares. Com a paragem para comer alguma coisa à sombra de um belo fontanário, percebi que estava a ser cada vez mais penosa a progressão do meu companheiro. Ainda com centena e meia de quilómetros para o final da jornada, veio a constatação e uma difícil decisão. O joelho lesionado do meu companheiro de route não lhe dava tréguas. Resignado, o Jacinto teve de abdicar do resto da aventura. Depois de Poiares, na rotunda com a EN17, o último ponto de fuga, despedi-me do Jacinto que rumou em direcção a Coimbra-B para apanhar o comboio de volta a casa. Desse ponto em diante, foi uma longa pedalada a solo, nada a que não esteja habituado.

A N2 segue sinuosa e empinada pela Serra da Lousã. Depois do lanche em Góis, conquisto-a numa diferente vertente. Na descida, registo a passagem pelo marco dos 300 km’s, em Alvares, terra queimada agora tingida pelo verde-água do eucaliptal que rebenta por geração espontânea. Entro depois numa zona menos nobre da N2, mais descaracterizada, valendo nesta fase a passagem por lugares com nomes indecorosos curiosos: a Picha e, logo a seguir, a Venda da Gaita!

É neste troço da N2 que encontro quatro bidons de água, novos e com resquícios frescos do líquido precioso. Ao que tudo indica foram atirados para a valeta por profissionais do ciclismo que participaram na recente prova Grande Prémio em Ciclismo da EN2! Para mim o ciclismo não deveria ter qualquer impacto na natureza, não só porque não há emissão de dióxido de carbono, mas porque um dos propósitos dos ciclistas amadores é proteger e sensibilizar a preservação da natureza, não deitando lixo fora. Fruto da competição, os ciclistas em prova têm esse mau hábito de ir deitando lixo para a estrada, restos das embalagens e bidons de plástico. Sabemos que alguns desses bidons são depois recolhidos como lembranças por espectadores de ocasião, mas nem todos são encontrados e ficam por ali esquecidos em alguns pontos da estrada. Recolhi-os, amarrei-os à malinha Carradice e continuei até Pedrógão Grande.

Cruzo o Rio Zêzere pela imponente Barragem do Cabril, voltam as montanhas, as encostas abruptas e a terra incendiada. Antes de chegar à Sertã, um episódio curioso. Após uma das curvas surge um duo a pedalar, uma senhora com uma saca de laranjas na mão e mais à frente um rapazito na sua bicla roda 16. Não resisto e tiro uma foto à paparazzi. Passo por eles e o rapazito segue a minha roda. Abrando e olho para ele, todo contente a admirar os bidons que trazia presos à mala: “Olha lá, queres ficar com um?” A cara do miúdo iluminou-se, acenou afirmativamente com a cabeça, e então… “Dás-me uma laranja e eu dou-te um. Pode ser?” Negócio feito.

Chego à Sertã mas não vou em frituras. Reconfortado com uma boa sopinha de ervilhas retomo a pedalada. Como havia referido antes, era minha intenção cumprir ao máximo o traçado original da velha estrada. Nas pesquisas preparatórias, os mapas do Tio Google podem dar origem a alguma confusão e equívocos. Na aplicação Strava o traçado original da N2 está descrito como “Antiga Estrada Nacional 2”, enquanto na aplicação googleana do Street View está erradamente identificada como EN244!!! Assim, logo após a travessia sob a Ribeira da Sertã, na rotunda, saí na primeira saída para o Novo Parque da Sertã e continuei. Não tem de enganar.

Trovões no horizonte e alguns pingos de chuva no lombo. Põe-se a noite. Vila de Rei marca o centro de Portugal. À passagem, tinha a intenção de fazer um pequeno desvio e visitar a pirâmide branca geodésica no Cume da Melriça, mas esta ficou lá, sem fotografia.

[para memória futura, fica reservado este espaço para a tal foto que falta da conquista do Centro Geodésico de Portugal!]

A estrada fica escura, e na rotunda à saída de Vila de Rei volto a falhar na intenção inicial de cumprir rigorosamente o traçado original por uma das mais belas vistas da N2. Quando dei por mim estava a rolar na sua variante para Abrantes. “Volto para trás?… Oh, que se lixe, não dá pra ver nada!”. A pressão do relógio, a fadiga e a vontade de chegar falaram mais alto.

Mergulhado no breu, no limite do fôlego, todos os possíveis estímulos começaram a actuar de uma forma inapelável. Adrenalina correndo nas veias, incertos contornos das curvas, a descida que abre o apetite de acelerar. A estrada torna-se mais agitada, torna-me vulnerável mas também muito mais rápido. Às 22h chegava à Pousada de Abrantes. Minutos depois, de banho tomado e pizza deglutida, pude finalmente descansar.

Dia 3: Abrantes – Torrão (167 km)

Terceiro dia, o mais curto em distância. O céu cinzento espelha-se no Tejo. À porta da Pousada os carros de apoio da União Ciclista da Maia aguardam a equipa para mais uma etapa na Volta a Portugal ao Futuro. Puxo conversa com o staff, gabam-me a velha gOrka, “destas já não se fazem”, e cravo uns pingos de óleo na corrente. Depois de um mútuo “boa sorte” retomo a N2 junto ao meco 404, o mais próximo do marco das quatro centenas que me escapou. Depois do Tejo, depois de Abrantes, já nada será como dantes.

Sopra um vento fresco de frente e cruzo-me com pequenos pelotões de ciclistas amadores em treino matinal. Tomada a dose de cafeína, os neurónios e as pernas acordam finalmente. O sol começa a dar alguns sinais da sua graça. Rodei, rolei, subi, desci, sempre na maior das calmas. A paisagem muda muito outra vez. Sucedem-se as herdades, as ondulantes rectas e as tímidas curvas. Atravesso os primeiros montados com pequenas florestas de sobreiros e carvalhos. O panorama é soberbo e emocionante. Bemposta e Ponte de Sor para trás, à sombra de um sobreiro, em Água de Todo o Ano, uma paragem técnica, o local ideal para verter águas.

Em alguns momentos,  para além da passarada e do tic-tac da corrente nos desviadores, não se ouve nada. Entro na parte do roteiro onde a tranquilidade da paisagem nos oferece o melhor da região: a calmaria. A N2 guia-me agora ao longo da Albufeira de Montargil até à barragem que captura as águas que fluem do rio Sôr. Para quem viaja em modo “mochileiro”, o Parque de Campismo de Montargil é uma boa proposta, o local ideal para repousar e desfrutar das praias fluviais.

Em Mora, mora o Afonso, a dica onde seria a paragem para almoçar. Saindo na rotunda, à entrada da povoação, surge o restaurante onde me vou deliciar com uma das suas afamadas bifanas. Atenção, nesta parte do país as bifanas nada tem a ver com as nossas bifanas, as da Invicta, sandes de finas fatias de porco, ensopadas em molhanga picante. A bifana alentejana é uma fatia grossa e tenra de carne magnificamente temperada dentro de um pão. Uma dessas sandes, acompanhada da indispensável sopa, e a visão de uma foto num calendário preso à parede, tiveram o condão de me atirar de cabeça para o que ainda faltava vir.

Mal rodei as pernas e estou agora sentado no marco que assinala os 480 km. Desta rotunda e durante uns bons 40 quilómetros, a velha estrada preserva muito da sua originalidade. Este troço da nacional foi desclassificada para regional (R2) e assim permanecerá designada até entrar em Montemor o Novo. As pequenas aldeias caiadas de branco dão vida à região pelas tonalidades com que dão cor aos contornos das portas e janelas. Na mui antiga aldeia de Brotas paro junto a um mui antigo fontanário, datado de 1659, e encho os bidons com a fresca água que dele brota.

O panorama alentejano luzente, os planaltos dourados a aparecer de frente, a mesura sombreada dos pinheiros e sobreiros, a estrada estica e endireita. Acontece que a estrada porfia, é contagiante demais, e num tirinho chego ao Ciborro. Detenho-me defronte ao mítico marco quilomético 500, colocado em plano de destaque no topo de um muro. Do outro lado, no café de Ermelinda Miguel, o café “oficial” da N2, dizem, um grupo de motards ocupa toda a esplanada. Com a divulgação dos últimos anos, percebe-se que a antiga nacional se tornou num pólo atractivo por estas bandas e agora muitos turistas e aventureiros param aqui, vindos em motos, vespas, carros clássicos e até bicicletas a pedal, imagine-se!

Em Montemor o Novo, a confluência de várias estradas dá-lhe algum bulício. Após paragem para uma bucha, continuo o meu caminho, só e tranquilo. De novo na estrada pelo coração do Alentejo, a paisagem muda gradualmente, de pequenos aglomerados de florestas e olivais para extensos campos de cereais, que se perdem nas colinas. Por aqui as bermas da N2 estão mal roçadas e o capim trigueiro tapa os mecos quilométricos. Perto de Santiago do Escoural uma visão funesta, uma plantação de eucaliptos!

Nas vastas herdades alentejanas muitos dos sobreiros foram recentemente descortiçados. Depois de arrancada a cortiça do tronco, o sobreiro apresenta uma cor avermelhada, que passa a castanho escuro à medida que as árvores vão regenerando a casca. Para se saber o ano em que tiraram a cortiça, os trabalhadores marcam na árvore a tinta branca o ano. Vacas, várias delas prenhas, e bezerros vagueiam pelos campos cercados, com pasto à disposição, sem receio de se aproximarem para “conhecer” o estranho visitante. Bem tentei mas não me responderam à pergunta pela Vaca Que Ri. É que um queijinho vinha mesmo a calhar.

Ao longo da estrada surgem várias indicações para monumentos de interesse histórico, e que mereciam um pequeno desvio para os contemplar, mas a pedalada prossegue a sua rota e a cabeça roda perscrutando tudo que o olhar alcança. A N2 atravessa o coração histórico da pequena aldeia de Alcáçovas. A rua de calçada portuguesa por entre o casario branco rodeado de cores vivas, guia-me ligeiro até à saída da aldeia.

Meia hora depois calco um piso empedrado e entro no centro da vila do Torrão, freguesia situada praticamente na união dos distritos de Setúbal, Évora e Beja. É lá que vou passar a noite, numa confortável casinha tipicamente alentejana. Muito bem recebido por Dona Antónia, experimentei a gastronomia da região e fui depois esticar as pernas por ali, de chinelos nos pés. Ficou a promessa de lá voltar.

Dia 4: Torrão – Faro (173.5 km mais um extra)

Domingo, sete da matina e nem vivalma. A estrada deserta, a moleza, as rectas e o típico nevoeiro alentejano! Um espesso manto de nevoeiro e alguma morrinha acompanharam-me boa parte da manhã pelo troço da N2 que nos finais do sec. XIX foi Estrada Real e em 1884 passou a Estrada Nacional nº 128.

Em Ferreira do Alentejo paro no Intermarché mas ainda estava fechado. Abria às 9 e como faltavam uns quinze minutos dou uma voltinha pela vila. Passados nem dez minutos volto lá e está agora apinhado de gente à porta, dando palpites e a refilar com as funcionárias. Aquilo estava pior que a Segurança Social em dia de pagamento.

E é já com o pequeno-almoço digerido que o sol volta a dourar a planície. O Alentejo volta a transluzir e a carcaça começa a aquecer. A estrada ladeada de arvoredo oferece-me a possibilidade de parquear num dos raros e belos parques de merendas que resistem à passagem do tempo. Resquício dos tempos em que a N2 era a principal via que conduzia os veraneantes, e não só, para e do reino dos Algarves.

Às portas de Aljustrel, uma locomotiva e parte do Ramal de Aljustrel recorda aos passantes que ali outrora passou o caminho-de-ferro do sul, entre Beja e o Algarve. Voltam as rectas, os mecos e chego a Castro Verde. Na esplanada do bar dos Bombeiros, enquanto me vou refrescando, vou testemunhando algumas das rotinas da terra. Antes de retomar a estrada vou ao encontro de alguns dos ex-libris da região como eram os característicos moinhos de vento.

A N2 segue rectilínea até Almodôvar. Hora do almoço, mas, no que à gastronomia diz respeito, faltou-me uma das tradições locais.  Há muitos restaurantes na vila mas quase todos fechados e os que estão a servir não tinham sopa! Lá consigo trincar qualquer coisa que me garante energia para enfrentar a rota da N2 classificada como Estrada Património.

Vejo o marco do quilómetro 666, o bestial número apocalíptico da besta. Paro, espero que um jovem casal termine as suas selfies, e faço o registo diabólico.

Lentamente a paisagem vai mudando, o traçado ondeia e de repente já estou no Algarve. À passagem pela ponte sobre o Rio Vascão entro no Distrito de Faro e, definitivamente, sinto-me a fervilhar no Caldeirão. “Estou a chegar, carago!”. O asfalto “alevanta-se”, voltam as curvas, os ganchos, as ganchetas, a belíssima e diversa densidade florestal.

Ao atravessar a Serra do Caldeirão e o Barrocal algarvio, o roteiro desenrola-se por uma estrada inclinada e desafiante. Um corrupio de curvas e contra curvas, que se insere no mesmo patamar de diversão do percurso feito no Douro Vinhateiro. É um traçado alucinante pelo coração de uma das remotas montanhas algarvias, por onde pedalar é um misto de prazer sobre duas rodas e um desafio aos sentidos.

Escondido pelo separador da estrada surge o marco quilométrico dos 700. Daqui até ao final serão uns meros 38,5km. Esta é a derradeira despedida da Estrada N2, um belo local para terminar um roteiro a pedal. Pedalar por aqui é um encanto, é um local de encher a alma, inserido num belo quintal que faz as delícias do Velopata e de muitos amigos ciclistas. Aproveito todas as curvas alucinantes. Não perder nenhum quilómetro é essencial.

Com Barranco o Velho a ficar para trás, a costa algarvia é-me apresentada. A estrada desce abrupta e a todo o gás faço a minha chegada triunfal a Faro, de olhos postos no penúltimo meco. Da cidade, da Ria Formosa e das praias guardo as memórias de infância, de verões passados na Ilha de Faro a acampar em família. Já não reconheço nada e chego.

O marco final está plantado no meio de uma avenida para o interior da cidade. Ali está ele, o quilómetro 738, no passeio calcetado, branco, coberto de autocolantes, triste e só, sem púlpito, sem pódio, e eu corto a meta, sem champanhe, sem beijinhos nem meninas. Feitas as fotos, confortamo-nos mutuamente, por alguns minutos. Na hora da chegada não esqueci o Jacinto e o quanto teria prezado terminar esta viajem na sua companhia. Sem um autocolante para assinalar “a nossa chegada”, vandalizei o meco com os nossos nomes e a data.

Batiam as 17 horas e ainda tinha um comboio à minha espera, ou não! Fui à procura da estação de comboios. Consegui seguir os pequenos mecos das dezenas até ao 4. Escapou-me o derradeiro 5. Dou com o edifício da estação, vou directo à bilheteira para comprar bilhete para o IC das 17h56. Surpresa das surpresas. “Está esgotado!”… “Mas… como?!”. “Para o Porto só amanhã, ás…” Já não ouvi mais nada! Com as incertezas da hora de chegada a Faro não havia pré-comprado os bilhetes e agora teria de me desenvencilhar, de alguma maneira… “Olhe que pr’amanhã também pode esgotar!”. Resignado, lá comprei o bilhete para o dia seguinte e fui para uma esplanada de café apanhar uma carraspana.

Rebobinando a cassete

Pedalava eu no cucuruto do Caldeirão, perto do meco 700, quando me liga o meu velho amigo Rui. Deu-me os parabéns pela conquista e convidou-me para ir beber um copo com ele. O Rui estava de férias com a família na praia da Quarteira e de facto seria um bom programa. Agradeci-lhe no momento mas tive de declinar o convite, pois tinha intenções de estar de volta ao Porto nessa mesma noite!… Acho que não será preciso contar que lhe liguei e fiz-me convidar de novo.

Extra: uma visita imprevista à Quarteira

Botei o telemóvel a calcular roteiros e eis que dou com os queixos num inferno chamado IC4. “Mas onde está a famigerada N125!?”. Volto a recalcular o GPS da geringonça e acabo junto ao Estádio do Algarve… “Raios”. O IC4 mais não é que a versão farense da minha vizinha, a Via de Cintura Interna, mas sem sinalética proibitiva de circulação de biclas! Prontes, lá tive de me amanhar pelas sujas bermas e de gramar com o trânsito infernal daquilo. De repente aparece a placa N125 e passa a dois sentidos, mas o demónio rodoviário não acalmou. Ao fim de hora e meia, um extra de  trinta mil metros, chego finalmente à praia da Quarteira e dou por concluída a epopeia do dia.

Amigo Rui, agradeço imenso a vossa hospitalidade, a simpatia com que me receberam e aturaram. O jantar e o geladinho estavam soberbos. Obrigado.

Depois de uma noite bem dormida, na manhã seguinte seguiu-se um extra bónus, o commute necessário desde a casa de acolhimento até ao comboio, parte dele feito pelo IC4 / N125 a rezar pelas alminhas em plena hora de ponta. Depois a viagem de comboio também teve as suas histórias recambulescas, mas acho que já chega de tanto vos chatear sobre a falta de qualidade dos comboios portugueses. O melhor do dia foi o encontro insólito com a Marisa, o Mário, o Carlos e a cadelita Nina no comboio desde a Gare do Oriente.

Epílogo, ou uma espécie disso.

Esta experiência permitiu-me sentir o país. Usufruir Portugal à média de 20 quilómetros por hora. Como a paisagem, as gentes e as culturas mudam de norte para sul. Percorrer a N2 de bicicleta merece todo o tempo que lhe possamos dedicar. Considero que repartir a viagem por quatro dias é o tempo mínimo para a percorrer, e assim aproveitar todos os quilómetros por alguns dos melhores locais de Portugal. Numa outra vertente, mais cicloturística, poderia ter conhecido melhor todos os locais por onde passa a velha estrada e descobrir muito mais ao longo de toda a sua extensão. Poderia optar por um percurso com mais dias de viagem e aproveitar mais os espectáculos de cores que a natureza nos oferece. Poderia visitar as termas no Norte, provar os vinhos do Douro e do Dão, explorar as Aldeias de Xisto, refrescar-me nas praias fluviais do Alentejo e voltar à infância na Ilha de Faro. De certo que num roteiro de dez ou mais dias, em modo mochileiro, terei nova oportunidade em conciliar um passeio ao sul, pela Rota da Estrada Nacional 2, na companhia do meu grande amigo Jacinto.

Boas pedaladas.

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