
Conhecemo-nos há 15 anos. Comprada na Etiel em parelha com a bicla da Maria, segundo o meu código ético da época, foi nela que voltei ao duro selim e retomei isto de “dar umas pedaladas”. As BêTêTê´s dos anos 90 eram diferentes das actuais, não só na desmultiplicação como na geometria. Para além do seu resistente quadro de alumínio, das rodas MAVIC e grupo SRAM, pouco resta dos seus dotes originais. Aos poucos foi recebendo uns mimos, ganhou diferentes personalidades, umas mais arrojadas, outras condizentes com as necessidades polivalentes do dono: da estrada ao campo. Foi nela que definitivamente virei um ciclista, fortuito, entusiasta, constante, porque a vida é mais gostosa a pedalar. Com uns requintes de malvadez, fiz dela o meu veículo diário, adaptada a diferentes funções. Me manteve em forma e afastou a melancolia dos dias curtos. Juntos fizemos mais de ______ (favor preencher) quilómetros! Sei lá eu quantos! Já nos perdemos, retomamos o caminho, demos memoráveis trambolhões, rimos, conversámos e nos divertimos. Roda(va) que e(ra) uma beleza, mas a idade não perdoa! Devido ao uso e abuso que aqui o je lhe proporcionou, apareceram-lhe as artroses e o reumático. Depois chegaram as outras. Com a entrada em cena das concorrentes, a velha companheira acabou pendurada a um canto na garagem. Os anos foram passando desde a derradeira vez que nela sentei o rabo e lá foi ficando, negligenciada, porém guardada. Apenas relembrada numa ocasião para me safar e ser o meu veículo de substituição! Dona Etielbina resistiu estoicamente, e como recompensa pelos serviços prestados à comunidade saiu da garagem e da cidade para ir viver na aldeia a reforma dourada a que tem direito.

E é então que passados mais de seis meses em hibernação na clínica do Dr. Barbosa, dona Etielbina livrou-se dos salamaleques, ganhou uma camada de pó e transmissão novinha em folha. Ficou impecábel, pronta a botar os pneus na estrada e me levar pelas curvas e contracurvas desta vida.





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