um passeio no parque

 

BRM200Gerês #13
Sábado, cinco e meia da matina e soou o despertador. Aproveitando a disponibilidade de pernoita no albergue de Marinhas, a poucos metros do depart, fui para Esposende de véspera na companhia do jovem Jacinto na tentativa de estender o repouso antes do brevet. A noite pareceu longa mas foi curta. A nortada estava forte e a chuva batia inclemente nas janelas. Parecia que o sono tinha durado apenas 10 minutos. Devorei a aletria caseira enquanto ia dando os últimos retoques na vestimenta, na bicicleta e na malinha a estrear. Após o bikecheck, e mal nos havíamos reunido no reconfortante hall do edifício da Cruz Vermelha para o breefing da praxe, outra bategada de água dava a entender que S. Pedro queria nos refrescar os ânimos para outra aventura randoneira, Era todo um brevet a inaugurar com a mesma emoção e entusiasmo. Pedalar pelos encantos do Gerês e voltar, coisa para duzentos quilómetros e pouco.

Com uma boa camada hermética a envolver as carapaças, foi numa cadência suave que o cortejo saiu à hora marcada para pedalar. O amanhecer triste e melancólico foi dando lugar às conversas, aos raios de sol e às borrifadelas na cara do companheiro antecedente. O spray vindo da roda do precedente não só ajudava a manter-nos acordados como garantia alguma diversão. Nesse capítulo eu era um dos piores, pois, depois de confirmar o estado em que fiquei, digamos com o colete e porta-bagagens todos cagados, percebi que um guarda-lamas para a bicla seria coisa para acrescentar à lista de compras. E umas capas para os sapatos também, pois nem com dois pares de meias grossas eu me safei. Só viria a sentir os pés quando os posei em Amares, na primeira paragem obrigatória do dia. “É uma carimbadela no cartãozinho, uma nata e um café, oh faxabôre”.

Escusado será dizer que o frio estava de rachar, mas a pedalada e o panorama envolventes tinham o condão de me manter que nem pão quente. Acompanhados pelo rio Cávado, depois da passagem por Póvoa de Lanhoso, a certa altura de uma das muitas subidas do dia percebi, e até comentei com o Jacinto, que já havíamos pedalado por aquela estrada, numa outra pedalada épica da qual não cheguei a fazer relatório mas que ficou bem gravada na nossa mente. O bucólico ambiente rural conferia pujança e enchia a querença de entusiasmo para galgar a subida até à pequena terra de Rossas. Carimbado o papelucho pela segunda vez, desta vez numa farmácia, a receita foi aviada no Nosso Café com uma malga de sopa e sandes de panado verdadeiramente divinais. Era meio-dia.

De barriga cheia, a pedalada avançava sedutora a cada quilómetro. Nada mais tranquilo e estimulante que vadiar por um reduto de silêncio e paz. Depois da passagem por Vieira do Minho viramos ao encontro da bacia hidrográfica do Cávado. A cada curva da saborosa descida íamos descortinando uma vista deslumbrante sobre o rio, a tranquila albufeira da barragem da Caniçada e as serras da Peneda e do Gerês. As paragens para tirar retratos da varanda foram inevitáveis e o sol voltou para saudar o nosso caminho. À nossa passagem na ponte, metade do percurso estava cumprido. Tudo parecia indicar que a subida que teríamos pela frente seria exigente. E foi! As forças ainda estavam intactas à passagem pelo Santuário de S. Bento da Porta Aberta. As previsões dentro do tempo estipulado, boa temperatura, sem trânsito automóvel excessivo, a viagem prosseguia a compasso de trepador. E a subida que não acabava! Parei num miradouro estratégico, esperei para reunir com outros amigos, e juntos pousamos para a fotografia e reforço da escolta. No auge da subida fomos surpreendidos pela chuva… quer dizer, não foi bem uma surpresa. À nossa chegada ao Parque de Campismo do Gerês, terceiro posto de controle, ainda cumprimentamos um outro grupo de randoneiros que já arrepiava caminho. E porque um “home” tem de comer, o prato do dia foi um bom pretexto para conviver à mesa. Depois continuamos para o controle seguinte, que seria uma etapa bem longa e com muita história para contar.

Veio então o encontro com a natureza, na mais natural das formas, selvagem e espinhosa. Perplexos com a grandeza da Barragem de Vilarinho das Furnas, bora lá para novo prémio de montanha. A princípio deu para esticar as pernas e ir admirando uma das mais belas paisagens neste cantinho do nosso Portugal. Entrementes, o céu começou a escurecer, ventava forte, quase sempre contrário à nossa progressão. Para melhorar a coisa, enfrentamos a dura ascensão com uma chuvada da grossa. Uma tempestade no seu pior. A chuva continuou, a inclinação aumentou e a temperatura diminui. Nem a beleza granítica da aldeia de Brufe no topo da montanha me fez parar para registar no cartão de memória e ver mais tarde. Diria que me sentia como se estivesse dentro de um cubo de gelo. Iniciamos a descida com o grupo fragmentado, ainda debaixo de chuva que entretanto abrandou, e depois veio a minha grande asneira do dia. Confiei em demasia no meu gêpêesse mental e no entroncamento seguinte, assinalado no roadbook para virar à direita, ao ver uma plaquinha indicando o sentido de Terras de Bouro, o meu sentido de orientação que é o mesmo de uma lombriga mandou-me virar à esquerda! Chegar às margens do rio Homem: check; Passar a ponte: confere. “Mas, cum carago! Não me lembro de ler que teria de ultrapassar inclinações pr’aí de 30%!” Assim, uns meros 300m demoraram uma eternidade a vencer. Confiante, tomei a estrada para Braga mas algo me dizia que a bota não batia com a perdigota. Outro aguaceiro para abrilhantar o momento, fui fazendo a descida de forma lenta com receio de estar perdido. A estrada inundada e deserta de pessoas fez-me aproveitar o abrigo de uma paragem de autocarro para tentar me orientar e alimentar. Entretanto vi um ciclista que me revelou duas coisas: A primeira, que sempre estava no caminho certo; A outra, que tinha cruzado com o meu grupo uns minutos à minha frente! “Eh pá, algures no caminho haviam-me ultrapassado!!!” Como foi, estava ainda a tentar perceber! Recomecei a pedalada com vigor e… novo erro de orientação! Sabendo que deveria seguir para Vila Verde, e teria de atravessar novamente o rio, à primeira sinalética virei à direita, e passei exactamente na ponte que deveria ter atravessado mas em sentido contrário! Continuava a jogar à cabra cega, a pensar no sentido que seguia ou não seguia a minha vida. Na beira da estradinha municipal um rebanho de cabritas que pareciam estranhar ver um tonto por ali. Desdobrei pela enésima vez a folha A4, fixei a N308 como objectivo e segui. “Olha um carro da GNR!” O xôr guarda, no meio de comentários à minha bravura ciclista, lá me confidenciou que eu ainda pisava o asfalto esburacado da M531. Estava ainda longe de retomar o rumo certo, mas lá haveria de chegar. Ao fim de longos minutos dei finalmente com a N308, em Figueirinhas, ao que me parece! Já não sentia os pés, as mãos e o pingo do nariz. Sem gás, um pouco desconfortável com a humidade no corpo pelas roupas molhadas, acompanhado da mais absoluta solidão, fui malhando, quilómetro a quilómetro, numa espécie de contra-relógio. A noite ia caindo lentamente. Paragem para ligar os focos e reforçar a alimentação. Fazendo uso de novas reservas e apertado com a hora limite para o último controlo, pedalei com excelente ritmo. Como o tempo passa depressa em cima de uma bicicleta! Fui invulgarmente rápido a chegar à vila de Punhe, mas… outro erro. Já parecia a defesa do FêCêPê! Falhei a viragem para Alvarães mas ainda fui a tempo de corrigir o engano. Último carimbo no cartão arrancado a ferros, de imediato dei ao pedal até colocar as rodas na N13. Esses últimos quilómetros até Marinhas, Esposende, foram algo como a Avenida Champs Elysees em Paris. A aventura chegou ao fim com inúmeras peripécias para recordar e com o incentivo adicional de saber que eu andei às voltas, andei perdido, reencontrei o caminho e acabei sozinho. 213 km de pura emoção, entusiasmo, sangue quente e pé frio.

 “Há sítios no mundo que são como certas existências humanas: tudo se conjuga para que nada falte à sua grandeza e perfeição. Este Gerês é um deles”… Miguel Torga.

BRM200Gerês

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Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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3 respostas a um passeio no parque

  1. Nelson Branco diz:

    Excelente relato, fotos fantásticas… no final, certamente, os prós fizeram esquecer os contras…
    O sr. Jacinto é uma inspiração para qualquer pessoa que goste de andar de bicicleta!
    Parabéns a ambos.

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  2. Pingback: o nosso amigo Jacinto | na bicicleta

  3. Pingback: uma aventura no Oeste | na bicicleta

apenas pedalar ao nosso ritmo.

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