… dizer que o tempo está horrível, mas lá vem o convicto ciclista urbano. Enquanto outros reclamam da chuva, do trânsito, da vida, ele sorri e sai a pedalar debaixo do dilúvio, porque – como bem sabe – para o ciclista não há mau tempo, só mau equipamento. Assim, entre pingos e vento, transforma a tempestade num passeio ao sol… ou pelo menos numa boa desculpa para comprar mais um casaco impermeável.
Todos os dias vou de bicicleta para o trabalho. Como depois tenho de regressar a casa, invariavelmente durante a semana percorro mais de uma centena de quilómetros. De bicicleta circulo pelas ruas da minha cidade, o Grande Porto Ao vento, faça chuva ou faça sol, às vezes tudo ao mesmo tempo.
Uma vez por semana, não tenho dia marcado, depois das obrigações laborais, faço uns quarenta quilómetros, para lá e para cá em visitas paternais. Qualquer coise de duas horas, bem passadas, o tempo suficiente para pensar, admirar, abstrair e parar de pensar. Só pedalar.
Como também tenho outras bicicletas, o fim-de-semana não significa obrigatoriamente o bom e merecido descanso. Ao sábado e ao domingo lá vou eu, com ou sem destino, alargando horizontes. Só ou bem acompanhado, por agitadas ou encantadas estradas, com paragens a meio para almoçar, a liberdade e a saudade muitas vezes pedalam a par.
Seja para onde for, a bicicleta é o meu meio de transporte. É o meu expediente de trabalho. É o meu ginásio. É a minha intuição de lazer e descontracção. É gratuita… minto, anda a café e pasteis de nata. É ecológica, está sempre disponível de manhã e à noite, de inverno ou verão, haja transportes públicos ou não.
É possível e recomendável promover a mobilidade “ciclável” em Portugal, nas grandes cidades e fora delas. Afinal, de bicicleta, e por causa do trânsito de todos os dias, acabo por andar à mesma velocidade de qualquer veículo motorizado, muitas vezes bem mais depressa. Mas isso é a minha praia.
Após um ano de uso intenso, à data deste postal vai com seis mil e seiscentos quilómetros contabilizados, apenas perturbado com um furo e um patético trambolhão, o investimento que fiz na aquisição desta pequena máquina velocipédica compensou, e de sobremaneira!
Não hajam dúvidas que esta bicicleta ultrapassou largamente as minhas expectativas. Nada mal para quem já percorreu tanto. Nada mal para quem ousou optar e não dispensa este veículo de eleição nos commutes diários.. e extraordinários.
Conhecida por ser um modelo versátil, focada para o desempenho urbano, o conforto para quem busca algo entre o asfalto, o empedrado e a terra batida, o seu quadro leve e a geometria versátil tem-me oferecido uma experiência extraordinária, pedalada estável e potente, incrivelmente eficaz mesmo em longas distâncias. Para além de me garantir uma boa performance no trajecto diário, para e do trabalho, oferece-me ao mesmo tempo o conforto e segurança em aventuras mais off-road.
A Canyon Roadlite cumpre na perfeição o papel que se exige a uma bicicleta multifacetada. Perfeitamente adaptada a rodar em terrenos variados, não lhe poderei exigir o desempenho de uma bicicleta específica para cada função, mas esta mistura de utilização está proporcional às suas capacidades, onde o critério conforto é crucial.
Teve os upgrades que achei necessários, um ou outro acessório foi-lhe adicionado, o que melhorou significativamente a sua polivalência e a minha experiência.
.Deixo um apanhado “Stravico” das voltas inesquecíveis que ambos tivemos durante este ano:
A apenas vinte minutos pedalados de casa para o local de depart, poderia dar a entender que os preparativos para nova rodada “randonneira” fossem mais relaxados! Só que não. Se no planeamento deste brevet e posterior averiguação in loco do percurso participei com todo o gosto, não ia faltar ao apoio com os organizadores Manuel Miranda e José Ferreira no bike check da saída. Assim, lá tive de saltar da cama pelas cinco da matina, tal e qual como se fosse viajar para Marinhas, o local habitual de saída do brevets para norte!
O prato principal é contagiar os ciclistas com a magia da Freita, mas para chegar ao ponto alto do dia foi preciso encher alguns chouriços. Os primeiros quilómetros serão mais tranquilos, cumprindo o plano mais plano. Gradualmente o ondulante perfil interior orientará os ciclistas rumo ao objectivo. Com a serra na linha do horizonte, os ciclistas vão sentir a progressiva ascensão pelo lado de Arões. Vai, quem sabe, pausar em Mira Freita. Irá resistir ao calor na escalada para o planalto. Poderá interrogar-se, “o que é isso das Pedras Parideias!?”. Não escapará à contemplação da cascata da Frecha da Mizarela… no fundo, irá maravilhar-se com locais de rara beleza e pura dureza.
Seis e meia da matina, aos poucos, os participantes foram chegando, juntando-se no parque de estacionamento da Portgás. Conversas de circunstância, revisão das regras à indumentária e às máquinas, finda a reunião preparatória, vinte e nove randonneurs e uma randonneuse perfilaram-se para a foto da praxe. Sete e meia, lentamente fomos descendo a Estrada da Circunvalação rumo ao Douro.
Passado o tabuleiro inferior da Ponte Luiz I, um bando de coletes florescentes espantava turistas errantes, colorindo a estrada ao longo da marginal de Gaia. A neblina proveniente do oceano entrava na bacia do Douro, envolvendo o inconfundível arco da Ponte da Arrábida. À passagem pela piscatória Afurada a temperatura desce ligeiramente. O ex-libris de Miramar, a Capela do Senhor da Pedra, não figurou nos álbuns fotográficos dos passantes porque, simplesmente, não se conseguia mirar nada!
Os cinquenta quilómetros iniciais são rodados em terreno plano, ao longo das ciclovias à beira-mar plantadas. Após Espinho fez-se a rodagem num troço sem trânsito, paralelo à linha de comboio, até que os ciclistas se embrenharem na ondulante e verdejante estrada florestal, de Cortegaça ao Furadouro, onde o Zé Ferreira os aguardava, munido de um mini carimbo para registar a passagem no primeiro posto de controlo, no Café Rota do Mar onde também estava assegurado o abastecimento calórico.
Com a viragem para Nascente, paulatinamente a névoa da manhã se foi e o sol voltou a dar um ar de sua graça. Com a passagem pelo centro de Ovar, da pacifica pedalada que houve até ali seria o contraste. Face ao crescente volume de trafico que iriam enfrentar, soariam alarmes com redobrados cuidados entre o pelotão.
A estrada ainda é plana, por agora, mas em breve irá dará lugar a alguns topos mais elevados. Outro ponto de indiscutível interesse foi a passagem por Santa Maria da Feira, estrategicamente incluída no roteiro. Depois de apontados os telemóveis ao imponente Castelo da Feira, os ciclistas tiveram de se amanhar por um massacrante piso paralelepípedo. Vá lá que era a descer… até ver!
A abordagem para o interior obrigou à passagem por alguns centros urbanos, prendendo toda a atenção, tanto na orientação, cautelas redobradas no atravessamento de estradas mais movimentadas, até que progressivamente as paisagens rurais com caminhos mais calmos começam a ser mais frequentes. Ali, facilmente somos testemunhas das rotinas diárias de um modo de vida mais tranquilo, onde um audível “Bom Dia” nos sai naturalmente, ao qual as pessoas devolvem o gesto com simpatia.
Cerca de dez graus acima do começo da jornada, agora que a leve ascensão na estrada nos impele para a frente, clicando nas manetes à procura de uma engrenagem mais leve e, em seguida, esgotar as possibilidades disponíveis no pedaleiro maior, uma série de colinas se intermedeiam, antecipando no horizonte o que aí vem. A vista da serra revela-nos a sua grandeza e ainda estamos a aquecer.
foto: Pawel
Na berma da estrada, um senhor idoso colocava garrafões de plástico na mala do carro. De tão ressoados que estavam os garrafões, dava a ideia que a água era fresquíssima, e indaguei: “Caro senhor, essa água vem de onde? Não vejo aqui nenhum fontanário!”. Outro homem surge do meio do mato, carregando mais dois garrafões cheios. “Ali ao fundo, e é água muito boa, podem estar seguros, mas tenham cuidado que o chão escorrega”. Fazendo uma pausa para um longo gole de água gelada, saimos dali com os bidons cheiinhos e prosseguimos a subida à conversa.
No horizonte, saídos debaixo da sombreada copa das arvores, as cores da serra e as aldeias sobressaiam no panorama. Já a subida ia a meio e só agora passávamos pelo primeiro carro desde há largos minutos. Na rota da dita “Subida mais longa”, ao quilómetro 13, alcançamos Mira Freita e a hipótese de uma paragem, não porque estivéssemos cansados, mas porque sabia d’antemão que ali haviam boas sandes de presunto e frescas cervejinhas para quem quisesse antecipar o almoço.
Sábado foi um dia em que o calor apertou e bem. Péssima hora para atacar a Serra da Freita, pensámos, mas disso a montanha não tem culpa. Nós é que quisemos estar ali, a sofrer, a derreter sob o abrasador sol do meio-dia, mas não nos podíamos queixar. O dia estava fantástico e dava para ver perfeitamente toda a paisagem que nos rodeia.
Retoma-se a subida. A estrada diante de mim é cada vez mais severa. Numa curva com vistas largas, páro para fotografar e desfrutar da agradável panorâmica. Sorvo da minha garrafa de água, procuro me refrescar aproveitando uma brisa leve, mas os níveis do mercúrio estão bem acima dos 35 graus! Ao longe, a visão do radar meteorológico relembra-me que tenho mais quilómetros de subida pela frente, e eu estou a contar com eles.
O ritmo é lento, também muito por culpa do panorama paisagístico que me envolve de sobremaneira. O suor escorre pelo meu rosto e não resisto a mais um momento de pé no chão para outra fotografia, captando alguns dos meus companheiros que me perseguem. Aqui pode-se desfrutar de uma paisagem que quase atinge o infinito. Para onde quer que se olhe o momento é de silencio, só nós, as nossas bicicletas e a fantástica paisagem. Agora sente-se uma ligeira brida de vento, mas que não é capaz de pôr as eólicas a girar.
O recorte da torre do radar meteorológico indicava que estamos quase no ponto mais alto do Maciço da Gralheira! Com ânimo redobrado, transpomos a barreira dos mil metros de altitude e alcançamos o planalto da Serra da Freita. Montes matizados do amarelo e do lilás, da carqueja e da urze, a natureza é surpreendente. Extasia-nos com maravilhas invulgares, com caminhos ancestrais, geossítios e fenómenos geológicos que originaram o Arouca Geopark. Como estas estradas são lisas e tranquilas, quase sem trânsito a atrapalhar a calmaria, e alguns montículos de bosta no meio do alcatrão revelam pistas que as vacas arouquesas pastam por ali.
Ponto obrigatório do roteiro, o miradouro da Frecha da Mizarela compensa todo o esforço que ficou para trás, para ali chegar. As chuvadas deste inverno engrossaram o rio Caima, que nasce no planalto da Freita, e ampliaram a arrebatadora beleza da cascata mais alta de Portugal Continental, ao despenhar-se a 60 metros de altura um dos locais mais emblemáticos da serra. Mais umas quantas fotografias e um pouco de conversa sobre o que tínhamos visto até ali, foi com um dos principais objectivos atingidos que nos colocamos em marcha via Merujal.
O segundo posto de controlo, na Mercearia da Montanha, prometia-nos algum descanso e reforço alimentar. Pelo tempo que demorou a chegar à mesa, nem foi necessário esperar que o caldo verde arrefecesse. Meia-hora depois e estávamos em marcha, novamente em subida, num alcatrão bem lisinho. Se a praia fluvial de Albergaria da Serra seria uma boa desculpa, alguns randonneiros acharam que sim, o passeio no parque de diversões tinha de prosseguir.
Zé Ferreira não participou para poder assistir e registar a nossa passagem pelos postos de controlo
Juntamente com novos companheiros de roteiro, a estrada em excelente piso volta a empinar, refletindo as curvas sob a luz solar. Para lá da zona do parque de campismo. fora da protecção do arvoredo, somos atingidos pelo calor do ar e cozidos na fornalha do sol. Não há ponta de vento.
Uma pausa no relato para falar da bicicleta reclinada do Pedro! Subir pendentes consideráveis numa chaise long com pedais não é nada fácil. Ao contrario da capacidade que as recumbentes têm em atingir velocidades consideráveis no terreno plano, é de louvar o esforço quando a estrada se inclina à frente do ciclista. Tendo em conta a posição diferente das bicicletas convencionais, uma grande desvantagem das bicicletas reclinadas é a redução da potência devido à menor capacidade de usar as pernas contra o quadro. Por outro lado, pensava eu, não é tão simples abordar as descidas. Revela-se problemático o uso de travões convencionais em rodas de carbono. Pura e simplesmente o Pedro derreteu a pista de travagem no aro da roda traseira enquanto travava na abrupta descida para Arouca.
foto Pawel
Chegamos a Arouca cansados do rude alcatrão e de tanto tempo a pressionar as manetes de travão. Ao vermos algum pessoal refastelado numa esplanada, que também assistia as incidências da derradeira etapa do Giro de Itália, paramos para um cafezinho e mais qualquer coisa. Passados uns minutos pusemo-nos novamente em marcha, para uns quilómetros mais à frente calcarmos a estrada rumo a Castelo de Paiva.
A N224 é uma estrada bastante prazerosa, com um perfil e envolvente muito agradáveis, curvas sensuais e absolutamente nenhum trânsito. Para além de não ter sido ultrapassado por um carro, o único veiculo por assim de dizer com que me cruzei em longos quilómetros foi uma motorizada que descia de motor desligado.
Embalados pela benesse gravitacional, subitamente calcamos os paralelos à entrada de Castelo de Paiva para nos determos na confeitaria indicada, tanto para carimbar o cartãozinho, como para voltar a hidratar e saborear um gelado… ou dois! Estávamos a um quarto de hora das 16h, só que o relógio não parava e ainda havia um quarto de percurso por pedalar. De novo com o depósito cheio, depressa estávamos de volta ao selim para mais duas horas de pedalada. Continuou-se a descer.
Com a alma revigorada, tínhamos agora a companhia do Rio Douro e o vento pela frente. O percurso pela N108 até ao Porto é sobejamente conhecido. Não sei bem porquê, desta vez os meus diabretes não apareceram para me atazanar, e aparentemente eu estava cheio de pica. Entusiasmei-me na pedalada, e sem me aperceber fui fugindo dos meus companheiros. Entretanto, “apanhei” o Rui e o Carlos que “conduzi” até às portas do Porto. Praticamente com o brevet concluído, deixei-os ir e sentei-me no trono de pedra à entrada do Parque Oriental, para espererar pelo pessoal que deixei para trás e percorrer em conjunto os derradeiros quatro quilómetros sob a frescura do curso ao longo do Rio Tinto.
Que belo dia para pedalar. Foi de facto um fantástico e inesquecível Brevet, com um grande companheirismo e, como habitualmente, mais uma irrepreensível organização dos Randonneur Portugal, nas pessoas do Manuel Miranda e José Ferreira, a quem muito louvamos o esforço e dedicação à causa. Um abraço a todos que participaram e comigo conviveram, aos meus amigos Pawel, Nelson, Jorge e em especial ao Alan, que se despediu, por agora, pois irá brevemente pedalar, entre outras coisas, para as estradas onde se circula à esquerda, para Inglaterra.
Pawel, Alan e moi méme
Até Breve(t), embora me pareça que pelo calendário de 2025 não poderei participar em mais algum evento randonneiro.
Já antes pedalava diariamente, em percursos urbanos para e do trabalho. Já antes alargava os meus passeios de fim de semana. Já antes havia participado em Brevet´s dos Randonneur Mondial, mas, como entretanto vim a saber: “se não está no Strava, não aconteceu!”
Era uma manhã de um sábado cendrado pelo nevoeiro. De olhos turvos, ainda num estado semiconsciente e pré-cafeinado, abri o Strava, e, sem saber bem se a geringonça nova iria cumprir o prometido, dei inicio a uma boa aventura. Diz que o tempo voa, mas estes dez anos, desde a minha primeira pedalada registada no Strava, parecem ter sido supersónicos!
Não levo o Strava muito a sério. Não sou muito adepto dos desafios, nunca usei um medidor de potência e muito menos um monitor de frequência cardíaca para me dizer que o meu coração ainda bate. Continuo a ser um utilizador banal, resistindo aos constantes apelos de subscrição, no entanto tenho de agradecer a esta inigualável plataforma toda a incrível tecnologia como repositório das minhas actividades cicláveis (e algumas pedonaveis!).
Voltando aos dias inebriantes da primavera de 2015. Tudo mudou quando o Pelotão do Arrasto, um grupo de amigos que jogava cartas ao longo da estrada N108, partilhava nas publicações do Instagram: “Oh pá, já viste os nossos PR´s desta manhã?” Eu não via. Primeiro nem sabia bem o que ere um “PêéRre”. Depois não tinha um gêpêésse ou mesmo um telefone esperto capaz de correr a “App”. O Strava não tinha importância, pelo menos não tinha para mim até me decidir comprar um telemóvel de jeito e fazer o meu primeiro “upload”, numa reedição da clássica bicinigração a Fátima.
Inspirado pelos meus amigos, isso me fez conquistar “PêéRres” e coisas novas também. Pronto, aos poucos também fiquei obcecado com aquilo. Persegui os melhores tempos pessoais, pedalei distâncias cada vez maiores e escalei subidas para mim inimagináveis. Agora, ao longo do tempo, era capaz de quantificar e comparar dados com tantos outros. Admiti que passei a gostar de receber “kudos”!!! “O quê? Escudos!”… “Não pá, KUDOS. os “likes do Strava”. També os comentários e elogios às fotografias que fui, e vou, tirando. Agrada-me partilhar a minha jornada pedaleira nesta rede social. Afinal, a nossa vida é bem pouco inspiradora.
Eu não percebi na época que me estava a juntar às fileiras de uma classe crescente de novos atletas, mas nunca me encaixei no papel de atleta. Nunca tive ilusões de nada. Para além de ter sido um gajo acima do peso ideal, não lutei por recordes, não engrossei Granfondos, Zwift’s, ou isso, nem me atirei como um louco nas descidas. Em vez disso, segui um caminho diferente, enchendo as pernas de ácido láctico, como cicloturista, desfrutando e babando nas subidas.
Alcancei alguns reptos pessoais, físicos e mentais, me deparei com a maldita da diabetes, tive alguns acidentes, vi amigos irem e virem. Melhorei sobretudo a minha experiência em cima de uma bicicleta. Juntei as pedaladas laborais, o #commutescount, à contabilidade pessoal. Uni esforços reivindicativos com a legião de guerreiros de fim de semana, totalmente relegados no direito a circular na estrada. Basicamente procurei aproveitar o extraordinário efeito transformador que as bicicletas tiveram em mim.
Não domino o teletransporte, mas quando viajo no tempo de volta a abril de 2015 percebo que, até hoje nestes 10 anos de constante movimento, já percorri mais de 100 mil quilómetros. Estes números redondos apenas alimentam o meu ego e reforçam a dependência que tenho cada vez mais das minhas bicicletas. Venham daí os próximos capítulos.
E assim foi, um belo dia ao sol, onde cerca de quarenta randonneurs, entre eles duas randonneuses ucranianas, Mari Pori e Bori Sova mais dois amigos Riazor oriundos da Galiza, juntaram forças e coloriram as estradas rumo à vila de Soajo, o ponto alto do dia. Mas antes de lá chegarmos tínhamos um longo caminho pela frente. Não sendo nada fácil, foi um percurso bastante agradável de ser feito e que me fez reviver algumas das memórias vividas nos vários brevets percorridos pelo verde Minho.
Um percurso com séculos de história, passagem de vidas peregrinas, ora movidas pela fé, ora entregues aos afazeres e tradições populares, através de estradas tranquilas, vistas esplêndidas e aldeias rústicas. As levadas (canais de irrigação) estão sempre presentes no caminho, no certo e longo Caminho, do pão e da fé. Eram usadas para o regadio dos campos de cultivo e para movimentar os moinhos que transformavam o grão na farinha, bem como orientar e refrescar peregrinos ao longo dos caminhos.
Depois de rondarmos o rio Neiva e mais à frente cruzarmos o rio Lima, que nos voltaria a assomar na vinda, iniciamos as primeiras subidas para chegarmos em bom ritmo ao primeiro local de controlo. Com a indicação para um pequeno desvio da estrada principal, paramos junto a um belíssimo solar datado de 1864, assim consta no portão o número que deveríamos indicar no cartão do Brevet. Retratada no seu romance homónimo, a Casa Grande de Romarigães, está intimamente ligada também à vida e família do escritor Aquilino Ribeiro.
Por essa altura a manhã estava perfeita, céu quase limpo, apenas algumas nuvens solitárias, sem vento e com a temperatura a aconselhar o alívio de alguma roupagem. Finalizadas as necessidades, viramos rumo a Paredes de Coura pela bucólica N301, subindo e imaginando as doçarias que iriamos escolher no segundo posto de controlo, uma pastelaria no concorrido centro histórico em dia de mercado. Pacientemente, o José Ferreira aguardava a nossa chegada e registou a nossa passagem no cartão com a primeira carimbadela. Sento-me à mesa e sou reconhecido pelo Andy, amigo das redes sociais e que pedalava pelo seu quintal de adopção.
E como sempre nos PC’s, uns chegam e outros continuam Lá vai o Andy (boa recuperação amigo). Depois de subirmos até quase aos 600 metros, descemos ao rio Vez para, outra vez, voltar a subir, isso tudo e muito mais. Algumas das estradas a percorrer não eram novidade para mim, mas subir o Soajo seria. A visita à já conhecida cidade de Arcos de Valdevez foi fugaz e, como tal, embalamos.
A crescente inclinação da estrada seria uma ninharia para os prazeres que retiramos desta coisa do cicloturismo. Eu, claro, estava a suar mas também a estava a saborear. A manhã foi, entretanto, mudando de humores, ficando cada vez mais escura, mais ventosa, arrefecendo abruptamente.
No topo, a recompensa foram as vistas, incluindo o vislumbre da alva neve lá no topo da Serra do Gerês e que o Pawel fez questão de subir ali para a fotografar.
No coração do Parque Nacional da Peneda-Gerês, a Serra do Soajo é uma das suas atracções mais vibrantes e procuradas. Conhecida pelos seus fotogénicos espigueiros e pela exuberância da natureza envolvente, a aldeia do Soajo tornou-se uma terra muito procurada e visitada. Uma terra que o turismo pôs no mapa, e que a comunidade que nela reside a tem sabido preservar, o seu passado, a sua cultura e a sua autenticidade.
Com o entusiasmo de um prato de sopa que imaginava à minha espera, invadimos a aldeia pelo Largo do Eiró, procurando vestígios da história, arquitectura e o evidente orgulho que os seus conterrâneos têm na sua terra.
Um dos exemplos é o cão sabujo da serra do Soajo: “sabujo” porque é de caça grossa, e serra do Soajo porque não é um cão qualquer. Diz que é “a matriz de muitos cães portugueses”. Esta raça tem a particularidade de ser o cão que no tempo da monarquia, todos os anos os soajeiros enviavam aos reis de Portugal e que, por tal oferta, beneficiaram da isenção de impostos e outros privilégios.
Antes de ir provar a sopa e iguarias d’as Marias, subi lá em cima à Eira do Penedo e fui ver o ex-líbris da povoação. Há quem lhes chame espigueiros, há quem lhes chame caniços, os mais conhecidos estão concentrados numa eira comunitária, assentes num afloramento granítico onde 24 destas altivas construções sobressaem pelo conjunto e pela beleza.
Os espigueiros eram utilizados para guardar o milho, deixando-o bem arejado e protegido de pragas. Consta que o espigueiro mais antigo data de 1782, não identifiquei qual, estando classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1983.
Reunimos o grupeto, com o Alain, o Pawel, o Nelson mais o Jorge e voltamos à estrada, que ia descendo abruptamente para o Lima. A natureza à volta convidava a seguir cada vez mais lento, apertando os travões e apreciando as extensões de terreno onde o cultivo do milho, a criação do gado nas brandas pastorícias são predominantes. Ao longo da estrada íamos vislumbrando as vacas cachenas, ovelhas, e ainda tivemos o encontro feliz com alguns cavalos selvagens do Soajo, o cavalo garrano.
Atravessada a ponte, junto à antiga central hidroeléctrica do Lindoso e ultrapassadas aquelas dezenas de metros de um paralelo manhoso e escorregadio, seguimos tranquilamente ao lado do rio com a cara ao vento, até Ponte da Barca.
Ah, mas havia ainda uma subida pela frente. Revisitamos a ascenção da N101 para a Portela do Vade, onde no ano passado me lembro de nos arrastarmos por ali no decurso do BRM300. Graças à conversa, desta feita a escalada passou depressa, até voltarmos a descer, a voar e a arrefecer.
Foi já sob uns grossos e gelados pingos de chuva que chegámos juntos ao último controlo em Vila Verde. O Zé Ferreira aguardava-nos na esplanada de uma cervejaria onde, para além de boa cerveja artesanal, sobressaiam saborosas sobremesas. Já não tive direito à doce regalia, mas fui salvo pela meia sandes de presunto que trazia no bolso desde o Soajo, hidratada por uma “bejeca” preta, que também fez milagres.
Para os derradeiros quarenta quilómetros os motores estavam já em modo “ralenti”. A cadência ia sendo doseada, as forças partilhadas, enfrentando um vento cada vez mais agreste que soprava frontal. Ultrapassada a malha urbana de Barcelos onde tivemos de lidar com o um tráfego enervante, não demorou meia hora para em Esposende avistarmos o oceano e reencontrarmos a N13, que seguimos até chegarmos em absoluta camaradagem ao ponto de chegada que também foi o de saída, em Marinhas.
E pronto, mais um evento soberbo por velhas estradas e serras minhotas. Magnífico roteiro desenhado e bem organizado por José Ferreira e Manuel Miranda, que também estiveram pessoalmente nos postos de controlo e onde tão bem nos receberam. Um muito obrigado à voluntariosa dedicação destes nossos amigos, que abdicaram da sua participação no Brevet, e que mais uma vez nos proporcionaram um excelente dia de pedalada.
É sempre bom voltar a locais onde já fomos felizes, penso eu de que… A região do Oeste, situada entre o Atlântico, a malha urbana da capital e a geografia elevada das serras de Montejunto, Aires e Candeeiros, é um belíssimo pedaço do país onde sempre voltarei com muito entusiasmo, a qualquer pretexto especialmente se for para dar ao pedal.
Caldas da Rainha é uma relíquia de Portugal, repleta de história e segredos do passado. A narrativa da cidade está intimamente ligada aos seus recursos hidro-termais. Fundado pela rainha D. Leonor, o hospital termal permitiu um pujante desenvolvimento da vila. Ao longo do tempo, além da cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro, outros artistas foram surgindo e fizeram das Caldas da Rainha um centro de artes plásticas, onde se destacou por exemplo José Malhoa.
Sábado pela manhãzinha deixei a Carla a aventurar-se pelas maravilhas das Caldas, museus e parques da cidade, e fui lesto rumo à Piscina Municipal. Não ia para banhos, pelo menos propositadamente, mas era lá que seria o depart para mais um Brevet Randonneurs Portugal. Com o lema Candeeiros 200, o terceiro brevet deste ano seria mais um a estrear, o que atraiu bastante interesse. À saída, quase 70 ciclistas predispostos, alguns estreantes, teve de novo várias participações femininas. Novidade para o próximo dia 8 de março, sairá para a estrada um Brevet totalmente feminino. Parabéns às participantes e um Bom Brevet.
Embora um pouco instável, a previsão climática prometia melhorias significativas, mas a chuvada anunciada para as 8h não falhou. Enquanto ouvíamos o briefing do Pedro Alves no interior das instalações, as bicicletas no exterior ficaram à mercê da intempérie. Entretanto a chuva parou, o céu permitiu uma aberta e mesmo à hora marcada arrancamos lentamente.
Foto do Alan
Resolvidos alguns erros de navegação, saímos da cidade e encontramos estradas mais tranquilas. Não conseguindo evitar os chuviscos vindos das rodas traseiras dos meus companheiros, sempre que possível tentava ir para a frente. Segui de novo na companhia do Pawel e do Nelson. O Alan também estava lá, pelos menos até ter o primeiro aviso do Garmin para virar algures, atraído na busca incessante de mais uns quantos quadradinhos…Só o voltariamos a ver à noite à mesa do restaurante.
a Carla esperou-nos junto ao Parque D. Carlos I e registou a nossa passagem
Sem cerimónia, as primeiras subidas e as estradas ondulantes permitiram um aquecimento corporal bem necessário. O tempo húmido e o frio assim o aconselhavam. Há quem goste de subir a parada com um velomobile ou com uma bicla “recumbente”, mas para enfrentar algumas inclinações eu até preferia fazê-las na minha singlespeed. Depois, claro, vingavam-se de nós e desapareciam da nossa vista nas retas e nas descidas.
Para primeiro ponto de controle, o local escolhido foi uma novidade para mim. As Salinas de Rio Maior encaixam-se num vale no sopé da Serra dos Candeeiros que, dada a sua natureza calcária, contem inúmeras falhas na rocha o que faz com que as águas da chuva não fiquem à superfície, formando cursos de água subterrâneos. Uma dessas correntes atravessa uma extensa e profunda jazida de sal-gema que alimenta o poço, que se encontra no centro das Salinas, e de onde se extrai água sete vezes mais salgada que a do mar.
A primeira referência à sua existência data de 1177, mas pensa-se que o aproveitamento do sal-gema já seria feito desde a Pré-história. A minúscula aldeia de casas de madeira, junto à qual se destacam tanques de formas e dimensões irregulares, enchem-se de água salgada dando posteriormente a origem a brancas pirâmides de sal pelo efeito da evaporação.
Primeiro carimbo, tomado o café e um docinho, para adocicar ainda mais o espírito deu-se logo o inicio à principal ascensão do dia. Coisa interessante deste percurso era que iríamos acumular mais de 1.000 metros de elevação em menos de 50 quilómetros. Para dar início ao trabalho propriamente dito, enfrentámos uma apetitosa subida até Chãos. Mas isto não era nada comparado com o que nos esperava.
Foto do Pawel
A Serra dos Candeeiros, elevação com cerca de 600 metros de altitude, é parte integrante do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros e conhecida pelas suas impressionantes grutas naturais. Segundo a memória dos antigos o seu nome provém do facto de terem existido na serra muitos pastores que durante os meses de verão ateavam fogos para permitirem a renovação dos matos. Os fogos faziam a serra parecer um candeeiro e daí o seu nome, por causa das candeias.
Éramos nós a escalar a serra e o asfalto a desfazer-nos em pingos de suor. Pior estava a Loca, a bicla do Pawel, magoada à custa da lei da gravidade, o desviador traseiro empenou e não permitia os andamentos mais leves, tendo o nosso amigo que se sujeitar a um esforço extra para chegar aos topos das rampas mais ingremes. Em Serro Ventoso. Diz que o galo ali é rei e senhor, só que ele não canta de galo. No fim ele tem é galo porque acaba sempre na panela.
O tempo manteve-se instável na maior parte da manhã. Uns fogachos de sol ao longo da descida, mas São Pedro estava de candeias às avessas, só podia! Na ondulação da estrada o vento frontal fazia-se sentir cada vez mais intenso. O céu escureceu e a chuva, que era suposto ter-nos dado problemas apenas no inicio, decidiu que não nos podia escapar e encharcou-nos de alto a baixo um pouco antes de chegarmos ao Mosteiro da Batalha, onde estava programado novo PC.
As Capelas Imperfeitas são colossais mas não servem para abrigo, e foi com todo o cuidado para não me estatelar no escorregadio piso de calcário que procuramos o café mais próximo para reabastecer e aquecer. Os meus pés não sentiram nada de diferente, continuaram molhados e gelados, mas o galão e aquela mega sande mista de queijo e presunto fizeram maravilhas ao ânimo.
Quando retomamos a pedalada já estava um belo dia de sol. A borrasca deu lugar a um céu limpo e soalheiro que nos iria acompanhar até ao fim do dia. Entretanto no labirinto de ruas e travessas que tivemos de transpor, reparo, e paro, junto a um interessante fontanário. Para além do interessante painel de azulejos, foi o candeeiro que me prendeu a atenção. Então, se o brevet é dos Candeeiros fazia todo o sentido fotografar pelo menos um candeeiro!
Chegámos ao terceiro controlo em Monte Real, com metade da quilometragem feita. Para além da desejada sopinha, e acabar de mastigar a mega sande de queijo e presunto que trazia na sacola, ainda faltava percorrer mais de metade do percurso. A parte mais difícil já tinha ficado para trás e as pernas estavam prestes a melhorar. Aproveito para deixar o nosso agradecimento à dedicação dos voluntários que esperam pacientemente a cada posto de controlo e nos recebem com um sorriso e carimbo na mão.
Um pouco mais à frente a rota convergia para a costa, atravessando o que outrora foi o verdejante Pinhal de Leiria, uma imensa mancha florestal que agora não passa de um deserto depois dos trágicos incêndios de 2017. A estrada plana e a ciclovia que a bordeja convidavam à velocidade, mas aí o forte vento de noroeste refreou-nos as forças para que, assim nós chegássemos ao ponto de viragem para sul, nos desse então uma certa palmadinha nas costas.
Efectuado o autocontrolo na Lagoa da Ervedeira, um pequeno paraíso bem porreiro para espraiar e observar aves, retomamos a plana estrada Atlântica e a ciclovia paralela. Infelizmente a suposta via para pedalar em segurança está mal cuidada e em alguns locais muito perigosa. Aquilo que poderia ser um dos melhores pisos para pedalar, desde que se tenha ventinho pelas costas, acaba por ser desaconselhável e empurra o ciclista para o asfalto, com algum tráfego desarvorado que por ali acelera.
Foto do Pawel
À passagem pelo Farol da Saudade em São Pedro de Moel, sítio de boas memórias, já estava a sentir um certo desvanecimento das energias. Nem a força do vento me ajudava e, enquanto estava com eles, procurava as rodas dos meus amigos, tentando desenvolver alguma divisão de esforços, o que nem sempre ia conseguindo.
Estávamos perto do controlo 6, na Nazaré. Ao contrario da outra vez que por ali passei, em sentido contrário, desta feita estava um sol radioso e parámos no famoso miradouro do Sítio para as fotografias. Sabia de antemão que deveria estar um verdadeiro reboliço por aquelas bandas. Sábado à tarde, bom tempo, um ex-libris turístico por excelência. O que não sabíamos era que vários desfiles pré-carnavalescos nos iriam atrapalhar de certa forma a chegada junto à praia. Ah… entretanto sou apresentado e apanhado pelo verdadeiro Canhão da Nazaré.
No posto de controlo previsto para comermos alguma coisa, aproveitamos a energia extra que o sol nos transmitia e embalamos na corrente, não das ondas gigantes mas no espírito da entreajuda. Até São Martinho do Porto pela estrada nacional foi um tirinho. À beira mar as paragens repetiam-se agora com mais frequência. Transposta a Serra do Bouro, após Salir do Porto a descida para a Foz do Arelho assumiu contornos de satisfação com a brisa marinha, um intenso sol poente e as vistas para o Atlântico onde se consegui facilmente identificar as Ilhas Berlengas.
Nelson e Pawel
Último controle carimbado e um último bilhete postal antes de ir pedalar o último troço de estrada, já mais concorrida, no regresso a Caldas da Rainha para a conclusão triunfante de mais um memorável Brevet dos Randonneur de Portugal. Tenho de estar grato mais uma vez aos meus amigos e companheiros de toda a pedalada, Nelson e Pawel, bem como os demais randonneurs, voluntários e organização, que sabem dar valor ao esforço e à dedicação com a amizade e valentia que estes passeios “breveteiros” promovem.
Manhã ensolarada e inspiradora. Cabelos ao vento. Pedalava eu a minha Pinnarello estrada acima, só com a panorâmica das montanhas, quando olho para baixo e percebo que a geringonça do GêPêéSse não estava no guiador. Instintivamente estico o braço e procuro. Procuro o telemóvel na esperança que a voltinha estivesse sendo registada na aplicação Strava, mas…
“Ora bolas, o bolso está vazio!”… E agora, assim não tenho dados da pedalada para partilhar!”.
A princípio fiquei um bocado chateado, mas continuei, conformado.
Pedalo até à aldeia mais próxima. Decido parar para um cafezinho até que, perante o cenário envolvente, encosto a bicicleta a uma árvore. Idealizo a fotografia que dali, com aquela magnífica paisagem em pano de fundo, a bicicleta ficaria mesmo bem, mas…
“Oh pá, cum carago. Não é que me esqueci que me tinha esquecido do telemóvel!”
Mais tarde, de novo no selim, durante o regresso a casa, medito sobre a dependência que temos das novas tecnologias. Assim, sem as geringonças electrónicas não teria um único Pê éRre conquistado, não teria acumulado nada nem receberia “kudos” dessa pedalada fabulosa. Não poderia analisar com calma os dados do treino. Não Iria partilhar uma única foto dos belos locais por onde havia passado. É como se o meu passeio de bicla nunca tivesse acontecido!…
É nesses momentos de “cabeça-de-vento”, até porque nem comi muito queijo, que o ciclista passa por uma espécie de crise existencial.
“E agora, como vou contar à Internet que fui dar um passeio de bicicleta, épico, verdadeiro empeno com três dígitos e megas de acumulado?!”.
Angustiado, a mente derrapa: “Um gajo senta-se num assento desconfortável, gira as pernas por algumas horas e depois volta para onde tudo começou. Quem precisa disso? Eu até nem gosto muito de pedalar!…”
Sinto-me sacudido e não é pelo mau piso da estrada. Uma voz doce, cada vez mais pertinho, cada vez mais insistente, chama por mim e me sugere: “E se parasses de rodar as pernas e me dar pontapés?”
Gradualmente, abro os olhos remelentos, espreito em redor e não encontro a bicicleta. Caio na realidade e rio para mim mesmo. Então não é que tudo não passou de um sonho! Algures, nos idos anos oitenta, eu, vinte verdes aninhos, solto, cabelos ao vento, escalando a serra na minha bamBina Pinnarello!
Bem, toda esta reconstituição dramática não se trata dos dados, mas da própria paixão. Que o que realmente importa é pedalar. Nos sentirmos vivos, livres de dispositivos, deixar que a bicicleta ganhe asas e nos embale, pois ela se tornará parte do nosso corpo.
Ok, eu gravo todos os meus passeios, pedaladas de fim-de-semana, os comutes pré e pós-laborais. Sempre que dá, enquadro a bicicleta e fotografo-a, em locais bonitos da cidade, do mar e das montanhas. É quase egoísmo da minha parte guardar só para mim mesmo, vai daí partilho para quem me segue, as voltas, quilometragens e coisas assim, mas aprendi que desligar e me soltar é o melhor.
Este postal só poderia ser melhorado com um desenho, pois nesse meu devaneio, de um sonho tornado realidade, não tinha o telemóvel para tirar uma foto. Mas como não tenho jeito para desenhar, aqui vai…