bike to work, um testemunho na primeira pessoa

bike to workSei que a minha opção ainda não é compreendida por algumas pessoas, mas reafirmo, a bicicleta é a melhor opção para a cidade. Gosto de andar de bicicleta, pois! Andar de bicicleta é uma paixão antiga e nada melhor que unir o útil ao agradável. É uma forma de me exercitar e a actividade física é muito importante para a minha saúde. Pensando no bem-estar e na qualidade de vida, a saudável rotina de sair de bicicleta para trabalhar é também uma forma de economizar. Usar a bicicleta ao invés do automóvel só nos traz benefícios. A minha residência fica distante cerca de cinco quilómetros do emprego, levo aproximadamente 15 minutos para chegar ao serviço, no centro da cidade. Fazendo o percurso de carro ou de transportes públicos levaria mais tempo. Apesar de algumas dificuldades ainda sentidas pelos ciclistas, no Porto e arredores, os exemplos multiplicam-se a cada dia. Optar pela bicicleta para ir para o trabalho, para os afazeres diários, para um passeio ou um treino mais exigente, tem conquistado mais adeptos. Gostaria de ver mais gente a deixar o carro na garagem e sair a pedalar. A bicicleta é muito mais que um veículo, é a ferramenta.

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teve graça, e eu ainda não tinha subido à Senhora da Graça!

Sexta-feira à tarde. Está um gajo sossegado a empaliar serviço, a fitar o relógio e magicar um fim de semana de praia a torrar ao sol, chega o Rui e deita água na fervura! “E amanhã, vamos à Senhora da Graça?!…” À resposta mental, “Tem graça, ainda não subi à Senhora da Graça!”, seguiu-se a verbal, “Bora lá combinar isso.”

Senhora da Graça #8

Só conhecia a mítica subida do Monte Farinha à Senhora da Graça das transmissões da Volta a Portugal. Em comentários avulsos com quem já a havia pedalado até ao cume, sabia da dureza da escalada e da deslumbrante paisagem que se pode ir desfrutando. Há muito que esta etapa estava prometida. Consultados os músculos, os astros, e o horário do comboio urbano até Guimarães, tudo se conjugou então para que se cumprisse a conquista da Senhora da Graça.

Senhora da Graça #1

A ideia de aproveitar o comboio foi, basicamente, para atingirmos o objectivo antes da hora do almoço. As previsões de calor intenso aconselhavam-nos fazer a escalada durante a manhã. À tarde, desceríamos o Tâmega até Amarante e, a partir daí, dois planos estariam em análise: o plano A, que previa rumarmos ao Douro e regressarmos ao Porto pela frescura da EN108; ou o plano B, que caso as pernas reclamassem e o calor apertasse, previa darmos um gafunho no rio Tâmega e  fazermos depois o desvio até Caide de Rei, onde um comboio faria o favor de nos dar boleia até casa. Mas mais experiências iriam ser postas em prática, não só de modo a poupar as pernocas para as subidas, mas, sobretudo, aproveitar a acalmia das pistas, ecopistas e afins.

Chegados a Guimarães e consolados os estômagos, a primeira tarefa foi dar com o início da bela e interessante pista de cicloturismo. Em 1986, a linha ferroviária que unia as cidades de Guimarães e Fafe foi desactivada e entretanto transformada em pista de cicloturismo. É uma agradável solução e alternativa sossegada à EN206. Nos seus cerca de 14 km’s, a pista estende-se paralela ao rio Vizela, cruza aldeias típicas, bosques e áreas predominantemente rurais, proporcionando a harmonia perfeita entre a natureza, vários elementos de valor arquitectónico e patrimonial do antigo ramal ferroviário, que conferem um interesse especial ao percurso.

Uma vez em Fafe, pela frente seguiu-se o desassossego da EN206 na ascensão até ao Alto da Lameira. É uma subida pouco pronunciada mas extensa, conhecida desde a minha passagem no Brevet 300 Baixo Minho e Barroso. Deu para me aborrecer com uma ou outra razia automobilista, mas sobretudo deu para aquecer as pernas e o cachaço, pois o calor já se fazia sentir. As eólicas ficaram para trás e veio então a saborosa e longa descida rumo ao Tâmega. À passagem por Gandarela, fêz-se o desvio para a EN304, uma das mais belas estradas deste país, que nos levou descontraídos até Mondim de Basto. A esplendorosa panorâmica do Alvão ia-nos sendo revelada, sempre com o prenunciado Monte Farinha em primeiro plano, engrandecendo e nos provocando ao desafio. Várias paragens foram inevitáveis para deliciar a alma e encher a teleobjectiva de fotografias.

Depois de reabastecer de água e coragem, a pedalada prosseguiu tranquila pela EN312 até ao primeiro desvio para o cume. De peito feito à inclinação inicial do asfalto, deu para perceber a dimensão do esforço exigido a quem sobe até lá acima. São 8,5 km’s de ascensão, intercalados por violentas cotoveladas e pouco descanso. À passagem pelo parque das merendas, o aperitivo era cada vez mais salgado. O suor ia caindo em bica, cada sombra na estrada era disputada e a cada golada o ritmo diminuía. A estrada empinava inapelável à rotação pesarosa dos pedais e a paisagem absorvia a nossa atenção. Após o brinde do bendito fontanário, definitivamente o trigo separou-se do joio. O banho quase integral fez-me bem e regenerou-me para o próximo quilómetro. Parecia estar dentro de um forno, a cozer lentamente.

Passamos dois ciclistas, outros malucos, estes em bicicletas de montanha à rotação de 10 pedaladas por metro percorrido. O termómetro do ciclocomputador marcava 43 graus!!! Os 2 quilómetros finais, se já são demolidores, feitos no pico do calor são um verdadeiro martírio. Como tal, foi em ritmo muuuito descontraído e calmo, que numa hora de pedalada chegamos finalmente à recompensa e ao deslumbramento. Que paisagem, que vastidão. Do alto do Monte Farinha olha-se em redor e dá para perceber porque dizem ser aquele um dos lugares com as vistas mais espectaculares que temos em Portugal. É fantástico, aquilo: o misticismo, o ar puro, as paisagens, as vertigens… mas o corpo já reclamava o almoço, e então descemos com cuidado até à primeira tasca de Mondim. Ficou-me a vontade de lá voltar, quem sabe, num dia de etapa da Volta!

Amarante seria o próximo destino e a ecopista do Tâmega o tapete perfeito para lá chegar. Entramos na pista junto à abandonada e degradada Estação de Mondim. A ecopista resulta também da reconversão de um antigo ramal de comboios, a linha férrea do Tâmega, que ligava Amarante a Arco de Baúlhe. Percorridos cerca de cinco quilómetros, voamos até ao considerado “quilómetro zero”, o centro nevrálgico da ecopista em Celorico de Basto, onde existe um espaço museológico, uma antiga carruagem, equipamentos de descanso e lazer. A estação foi recuperada e é uma relíquia.

Com o Monte Farinha quase sempre presente, o rio bem lá ao fundo, por entre quintas de campos cultivados, áreas florestais e paisagens muito bonitas, menos tolerável é a imensidão de obstáculos desnecessários chamados de “balizas de segurança” que tivemos de ziguezaguear. A cada cruzamento, estradão corta-fogo ou carreiro no meio do nada, existe sempre uma barreira. São verdadeiramente desesperantes para quem pedala…

Durante cinco quilómetros, entre Chapa e Codeçoso, o piso é em terra batida, o que torna a pedalada divertida. Pelo menos ali não existem as tais barreiras nos cruzamentos com os corta-fogo. À parte do pó e de um carreiro escavado pela água, que pisei e me estremeceu todo, o piso é suave q.b. para as nossas rodas finas. As sombras adoçavam as ondas de calor e quando penetramos o granítico Túnel de Gatão, o único nesta ecopista, entramos num agradável frigorífico, onde gostaríamos de ter ficado. A água dos bidons há muito se havia esgotado quando, e onde outrora existiu uma estação com abastecimento de água às locomotivas a vapor, descobrimos um pequeno tanque com bica a deitar água fresca. Foi atestar e tomar banho, de alto a baixo.

Às portas de Amarante já havia unanimidade, o plano B seria posto em prática mal tivéssemos a informação como chegar à praia fluvial. E foi ali mesmo, 37 graus à sombra que, de maillot de bain e superbock na mão, estes dois cicloturistas resolveram ficar de molho. Mais tarde, consultado o horário dos comboios que saíam de Caíde, o percurso aconselhado pelo taxista de praça foi aceite. Evitamos assim a confusa EN15 e optamos pelo desvio por Vila Meã pela mais tranquila EN211-1 e depois pela EM566 por Oliveira. Mas não se julgue que por serem mais tranquilas, com menos trânsito, não fossem as subidas um belo petisco! Ao sábado não há muitos comboios e o das 18h58 não ia esperar por nós. Chegados à estação, entre a compra de bilhetes, uma coca-cola e uma mija, cinco minutos restaram para esticar as pernas e respirar fundo. Um belo passeio com cento e trinta quilómetros nas pernas, um belo dia de convívio acumulado, um banhoca delíciosa, e estávamos de volta a casa.

Senhora da Graça #34

Pode parecer masoquismo pedalar cabeça ao sol e termómetro no vermelho, mas sabe bem uma boa subida, ficar esmagado pela paisagem, para depois sentir a descida e uma banhoca. Venha então a próxima.

 

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parabéns Portugal…

Hoje não podia ser de outra forma: Portugal deu a volta à França e é campeão da Europa de futebol, após ter batido a anfitriã por 1-0, graças a um golo de Éder, no prolongamento da final, no Stade de France. É um grande triunfo do futebol português e de todos os portugueses. Biba Portugal.

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sobre as “estratégias de mobilidade para o Porto”

Há três anos, Rui Moreira, então candidato independente à Câmara Municipal do Porto, defendia na sua estratégia de mobilidade para o Porto o seguinte:

“Para resolver os obstáculos criados à circulação pedonal e de bicicletas devido à diferença de cotas na cidade, o candidato propõe a reativação do elevador da Arrábida e ainda a criação de duas ligações mecanizadas intermédias, uma entre a Alfândega e o Palácio de Cristal e outra entre as escadas do Codeçal e a ponte Luiz I.

Rui Moreira garante que estes dois novos elevadores são “muito simples e económicos”, tendo um orçamento global de 750 mil euros.”…

(extraído da notícia do DN: http://www.dn.pt/politica/interior/rui-moreira-apresenta-estrategia-de-mobilidade-para-o-porto-3372314.html)

Sem grandes novidades, pelo menos de lá para cá no que toca a acções concretas e “políticas promotoras de uma mobilidade urbana sustentável”. Efectivamente a CMP está a fazer um bom trabalho em muitas áreas mas não soube criar medidas de reduzir o grande fluxo de automóveis para dentro da cidade e criar incentivos à utilização outros meios de transporte. Para além da revolução que o Metro trouxe à área metropolitana, poucas intervenções realizadas traduziram apenas intenções de mudança. Como diz o ditado “de boas intenções está…” toda a gente sabe o resto. Até ver, pela mobilidade em bicicleta nada foi feito, apenas se concluiu as medíocres intervenções que estavam em execução.

Agora sai esta notícia:

“Câmara intervém em 40 ruas do Porto até ao final do ano

Problema mais recente, os conflitos de tráfego entre ciclistas e automóveis e peões levaram o município, por precaução, a não criar canais dedicados para bicicletas nas ruas a intervencionar, tendo em conta que, na maioria dos casos, se trata de eixos estruturantes, com muito movimento automóvel. Rui Moreira considera que a legislação deveria ser revista, pois o facto de as bicicletas não terem matrícula e os ciclistas não serem obrigados a ter seguro têm gerado problemas nalgumas situações, argumentou. E, perante isto, a Câmara do Porto não deverá abrir as faixas bus a este modo de transporte, como fez, com bons resultados, com os ciclomotores, assumiram.“

Por precaução, vou não levar a sério aquilo que li. Deixo um texto já por aqui publicado para educadamente dar a minha resposta a esta oportunidade perdida e contraditória:

A cidade pouco tem facilitado o modo como aproveitamos o espaço e o tempo. O ritmo urbano tornou-se rápido, apressado, urgente. O espaço foi ficando apertado, engolindo os portuenses pela voracidade de um quotidiano cada vez mais competitivo. Em grande medida, isso deve-se às “regras” impostas pela sociedade: comer rápido, trabalhar mais, ter um carro… Os portuenses reclamam uma série de mudanças em várias áreas da sua vida: saúde, trabalho, educação, mobilidade…. É possível um melhor estilo de vida através do ciclismo urbano? É pois!

Lentamente, as cidades procuram soluções de transformação social e cultural, modernização com implicações no desenvolvimento de infra-estruturas urbanas. As propostas de mobilidade não motorizada surgem e propõem uma mudança de hábitos. A poluição ambiental, o mau planeamento urbano, a deterioração do espaço, o aumento da circulação automóvel, são ameaças a essas pretensões. As vantagens da bicicleta como meio de transporte regular, alternativo, económico, ecológico e saudável, são imensas. É uma das formas de recuperar o bom ritmo da cidade, do tempo e espaço que escasseiam na sociedade. A bicicleta é um elemento de união. Traz agilidade, felicidade, resgata o espaço público para as pessoas e permite-lhes apreciar as ruas, a cidade, se deslocar para o trabalho e escola, ao mesmo tempo reúne famílias, os cidadãos e os turistas numa convivência saudável.

Mas para que seja uma opção e ajude na mobilidade, a bicicleta pode exigir um pouco de dedicação. Pedalar todos os dias e ir para as ruas circular, espremido entre os veículos nas estreitas ruas, não é nada fácil. Eu percebo que é um pouco arriscado driblar o trânsito das grandes cidades, atendendo às várias dificuldades que se depara a um pretendente commuter: a falta de vias que sejam cicláveis, os obstáculos naturais, os elementos da natureza, a exigência física. Infelizmente são muito poucas as ruas que oferecem espaço dedicado ou reservado aos ciclistas, o que obriga a uma convivência por vezes atribulada entre todos. Basta avaliar e comparar o espaço que os automóveis ocupam nas cidades com o espaço utilizado pelos ciclistas. O grande problema é que as infra-estruturas dirigidas aos ciclistas não incentivam e não estimulam nem mesmo os ciclistas esporádicos a fazerem uso da bicicleta com maior intensidade, muito menos conseguem atrair os que utilizam outros meios de transporte.

Para que ocorra uma mudança significativa na mobilidade nas nossas cidades, seria necessário traçar metas ousadas para os próximos anos. Urge contribuir para recuperar a qualidade de vida urbana. Não é uma utopia, tanto que muitas cidades no mundo inteiro já o fizeram. Mas isso depende dos governos, de uma boa administração dos recursos existentes e das escolhas correctas por parte do poder camarário. Aí sim, saberemos que a mudança engrenou, que as cidades melhoraram e corrigiram o caminho, rumo a um progresso sadio. Mas sabemos a que velocidade essas mudanças ocorrem. Apesar de tudo, há mais gente a pedalar nas ruas e isso é de salutar. Devemos ocupar o nosso espaço, perder o medo, discutir se for o caso, viajar de bicicleta e aprender a respeitá-las no trânsito.

Amanhã vai estar no CidadeMais 2016 pelo menos uma pessoa da CMP para ouvir o que se tem a dizer sobre Melhor Mobilidade, Mais Sustentabilidade.

Cidade Mais

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can’t miss [154] 1penoporto.tumblr.com

Sim, já tinha saudades das rubricas do 1PNP.

Serve o mais recente postal do Velho Lau para anunciar em parangonas que a Adega está de balcão aberto à freguesia.

CRÓNICAS DO PRIMEIRO MUNDO III

umpénoportoumpénoporto.

“Enquanto cidades como Lisboa ou Matosinhos engataram, finalmente, em direcção ao Séc. XXI, com planos ambiciosos a irem com obra para o terreno, o Porto continua a marcar passo.

Podem escrever-se muitas teorias bonitas nos jornais da Autarquia (ponto.), fazer reuniões simpáticas com “activistas” (que se multiplicam desde, pelo menos, 2011) e apoiar conferências sobre mobilidade com a presença de vereadores, mas enquanto os sinais dados às pessoas que utilizam a cidade não forem no sentido certo, nada está de facto a acontecer.

Sempre que faço o trajecto entre Matosinhos e o Palácio, o que acontece um par de vezes por semana, às vezes menos, são sempre as mesmas coisas que me deixam enervado.

A primeira, ali em cima, é em Júlio Dinis e D. Manuel II, dois sítios separados por 50 metros. Os postes que há são estes. Também são os únicos sítios em que se pode guardar uma bicicleta.

Estás em 2016 e tens que pensar se vais encontrar lugar para parar a bicicleta antes de sair de casa? A sério? Não estará a escapar alguma coisa assim muito básica?”…

E para que nada escape, que tal uma espreitadela à Adega (http://1penoporto.tumblr.com) para ler toda a crónica? Linka aí: http://1penoporto.tumblr.com/post/146916596930/cr%C3%B3nicas-do-primeiro-mundo-iii

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fotocycle [188] à descoberta

Só, por rotas aleatórias ou pelo mesmo caminho de todos os dias, na bicicleta lucro dos mistérios do meu Porto. Dos recantos e segredos, do velho charme do seu casario. Da aura romântica de uma cidade europeia onde a roupa colorida seca à janela. Não é difícil ignorar tudo o que é magnífico e histórico da urbe onde vivemos e trabalhamos. Por mais que a nossa cidade tenha uma torre afamada e paredes ladrilhadas de história a gente deveria aprender a se aventurar. À descoberta, aproveito cada momento.

à descoberta Continuar a ler

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the Magic Bench

Noca Ramos é um conhecido designer de bicicletas e tem motivado meio mundo ciclista a dar ao pedal até um pequeno paraíso aquático, a Lagoa de Mira. O repto é tirar um retrato com a companheira de viagem, enquadrados numa esplêndida vista, em pose na varanda de madeira sob as águas tranquilas da lagoa, para mais tarde ser partilhado no seu álbum “the Magic Bench”.

The Magic BenchFoi no dia mais longo do ano que a coisa se proporcionou. Em pleno gozo de uns dias de férias, a meio de uma manhã ventosa, decidi trocar a toalha de praia por um passeio em solitário. Ida e volta à Lagoa de Mira, um lugar onde já fui feliz. Há doze anos passei em família uma semana de ócio numa daquelas casinhas da Quinta da Lagoa. Por lá muito pedalei, ora na companhia do meu filhote pelas ciclovias que bordejam a lagoa e se embrenham nos pinhais, ora rodei os pedais do cisne flutuante, namorando ao som da passarada. Portanto, motivos não me faltavam para lá voltar.

O plano era simples, pisar os pedais de Sua Alteza pelo percurso plano e tranquilo da costa, para mais tarde acrescentar o ferry à digressão, na travessia de S. Jacinto para Aveiro. Depois da Lagoa de Mira e da foto prometida, o esquema era regressar pelo caminho inverso. Mais quilómetro, menos quilómetro, seria qualquer coisa para duas centenas deles, a uma só velocidade. À passagem pela casa do meu pai, na Praia da Madalena, fui ao computador conferir os horários do ferry. Na minha mente permanecia a dúvida se o barco estaria em funcionamento e no site da Moveaveiro está claro como a água: a cor azul garantia-me o serviço do ferry às 14h15, portantos…

Sob um agradável céu azul e temperaturas amenas, fui vadiar ao encontro dos momentos, respirando os ares marinhos importados pelo vento oeste. Na passagem de nível da Granja, e pelo aparato que encontrei, a cancela estaria fechada fazia tempo e assim permaneceu por uns vinte minutos. Teria dado tempo para tomar um cafezinho na esplanada à beira mar. Depois de Espinho, e do passadiço de Silvalde, parei junto ao que resta do Centro Turístico… digo, da Carreira de Tiro de Espinho do Regimento de Engenharia nº3. Ali passei um bom ano a marcar passo, em guerras de faz-de-conta e a conduzir carros da tropa. Do CTE apenas restam memórias e a garagem onde eu guardava o Unimog.

De Paramos até Esmoriz, e para não bater com os costados na N109, a opção é a estrada paralela à linha que se “apanha” depois de contornar o quartel, mesmo antes de chegar ao apeadeiro. Em Esmoriz, mais ou menos a meio da Avenida da Praia, virei à esquerda e pisei a CicloRia. Esta interessante ecopista, paralela à Estrada Florestal, embrenha-se na mata de Maceda e no Parque Ambiental do Buçaquinho até ao Furadouro.

The Magic Bench #6

O ar puro, o aroma dos pinheiros, o sossego e todos os possíveis estímulos, inspiram e cresce de forma inapelável a vontade de ficar ali, naquelas pistas, a dar voltas e mais voltas. Foi, pois, com alguma boa vontade que à passagem por Furadouro que rumei para a N327, estrada que mareja a Ria e liga Ovar a São Jacinto. Aqui e ali não resisti a parar, fotografar, permanecer estendido na relva absorvendo toda aquela mansidão.

À hora de almoço já estava em S. Jacinto e, logo ali, fiquei sem esperanças de encontrar o ferry a postos para me levar, a mim e à minha bicicleta, para Aveiro! O frete seria feito à hora marcada mas por uma lancha que não transporta qualquer tipo de veículo, só leva bípedes! Ora bolas, não é isso que está escarrapachado no site da Moveaveiro! O plano de navegar para a outra banda foi por água abaixo e, como de nada me valia barafustar, o melhor foi procurar um completo e económico menu do dia.

Almocei bem e digeri com calma aquela sobremesa: dar meia volta e somar mais quilómetros à voltinha. De novo a pedalar ao longo da Ria, após a passagem pela Torreira, atravessar a ponte, seguindo para a Murtosa. Procurando não me perder, liguei o gepeésse do telemelgas, mas o raio da maquineta queria, porque queria, que eu fosse pela N109. E eu ia teimando com a coisa, mas à chegada por Estarreja percebi que não teria outra hipótese. A partir dali tive de partilhar a estrada com fumo, barulho e razias. Até estou habituado a pedalar naquela via demoníaca, o que não acontece geralmente é andar por ali nos chamados dias úteis. Paciência!

Paciência! Cerrei os dentes, finquei os pés, observei as cegonhas, e foi já à passagem por Aveiro que parei à beira da estrada para comprar duas maçãs. O ritmo já era diferente e estava muito para além do horário previsto de chegada a Mira. Enquanto roía uma maça, cheguei a pensar retomar o plano inicial, pedalar pelas pacatas ruas das Gafanhas, mas decidi pegar no Plano B: seguir a N109 até Mira (depois de Aveiro é uma outra estrada), e no regresso, atalhar então pelas Gafanhas até Aveiro e aproveitar o serviço de comboios urbanos para o Porto.

Cheguei finalmente às águas calmas da Lagoa e encontrei os bancos mágicos (encontrei dois!) O “The Magic Bench” é o que tem um barco submerso, mesmo ali ao lado. As fotografias, as casinhas da Quinta, as memórias, as pessoas que vagueavam a pé e de bicicleta, até os plásticos espalhados pelas margens, me fizeram sentir cumprido o propósito da viagem. Só teria uns minutos para comer a outra maçã e encher de novo a garrafinha, pondo em prática o Plano B.

The Magic Bench #12Fui ao encontro do mar pela tranquila e esburacada estrada florestal, mas não o cheguei a ver. Rumei a norte pela CM591, contra o vento cruzado. Gafanha da Boa Hora, Gafanha do Carmo, Gafanha da Encarnação, Gafanha da Nazaré… Simplesmente girava as pernas, soltas e pujantes, pela planície da Costa Nova. Cento e noventa quilómetros depois, cheguei a Aveiro para apanhar o comboio. Um curto momento de relaxe para enquadramento fotográfico de Sua Alteza, ou o atabalhoamento na utilização da máquina de bilhetes, o que quer que tenha sido, o CP Urbano das 20h12 para o Porto – São Bento partiu sem mim! Ora, o dia não seria perfeito sem outro contratempo, não é!? Por isso fui jantar. Uma hora depois volto à estação, acomodo-me com Sua Alteza no comboio e, passados dois ou três apeadeiros tive de agradecer ao revisor a sua benevolência por não me multar! É sabido que antes de entrar no comboio é preciso validar o bilhete, coisa que me esqueci completamente de fazer!

A magia do cicloturismo é isto, viajar a sós ou acompanhado, quando e por onde nos dá na veneta, à aventura, sem certezas nem garantias. E outra vez fui, estrada fora e sem desviadores. Mesmo tendo um desvio imprevisto fi-lo com imenso prazer. Adoro pedalar, em qualquer uma das minhas bicicletas mas especialmente nesta. Não reclama, não empana. Faz-me evocar, reviver, desafiar limites, testar a forma física e mental. Faz-me ir por bons caminhos, desde que sejam planinhos. 🙂

The Magic Bench #18

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fotocycle [187] retorno

retorno
O Sol faz o seu lindo espectáculo e nem o vento perturba esta paz. O tempo parece correr, mas não tenho pressa. Aperto os travões e fico a admirar a perfeição da natureza. Foram duas semanas de moleza. Preguiça de pensar, escrever, partilhar qualquer coisa por aqui. E a preguiça sempre foi meu pecado favorito, mas ultimamente só as pedaladas me fizeram gastar energias e, é claro, aproveitei cada momento.

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fotocycle [186] Primavera Surround

Primavera Surround

E aqui estou eu, qual mestre na área da procrastinação, a surripiar curtir um som do (e da) Primavera.  Estou só a aproveitar o tempo e um pouco mais de dolce fare niente. Todos precisamos destes intervalos.  Não há nada melhor do que um curto período de férias, e se não me virem por cá já sabem, fui dar uma volta de bicicleta. Quero lá saber se vai chover, se vai estar calor ou se Portugal vai andar à bola. Aproveitem também, que isto dos feriados, são para todos… ou quase!

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e pra sobremesa é um miradouro, ó faxabôre!

BRM200Douro2016 #1

Já sabia que era uma doce pessoa, não imaginava era que o meu sangue estivesse em ponto de rebuçado. A bandida andava-me a rondar fazia algum tempo sem eu saber. Arribou subitamente quando, sem ser convidada, me assaltou as gulodices da mesa natalícia. Eh pá, até me podiam ter enfiado um colete de forças, algemas ou uma focinheira, mas ser-me negado o deleite de umas rabanadas acabadinhas de fazer, foi pior que tirar a chupeta a uma criança! Prontes…

Desde aí, cada confronto com a estrada tem sido um confronto mental comigo mesmo. Não que sinta falta de confiança nas minhas capacidades, que as distâncias ou alguma montanha de queixo empinado embirre comigo e me faça tremer as pernas! O um confronto desigual com esta minha recente adversária, rival e endiabrada, a diabetes.

Apresento então a carraça. A diabetes tipo II é caracterizada, principalmente, pela dificuldade que o organismo tem em responder a acção da insulina produzida no pâncreas. Tal facto tem como consequência o aumento dos níveis de glicose na corrente sanguínea. Ao contrário dos portadores de diabetes tipo I, as pessoas com o tipo II produzem insulina, porém o corpo cria resistência e não metaboliza eficazmente a glicose.

Ora bem, sabemos que para prevenir esta e outras doenças é importante mantermos hábitos alimentares saudáveis e praticar exercício físico com regularidade. Como vivemos o nosso dia-a-dia apresenta-se como uma das formas bastante eficazes para melhoria da resposta do organismo ao excesso da glicose. No entanto, um estilo de vida saudável não é garantia de imunidade. Outros factores como a idade e a hereditariedade fogem-nos ao controle.

Com história de diabetes na família e a chegada aos cinquenta, tornou-se ainda mais fundamental que confrontasse a diabetes em várias frentes: dieta adequada, exercício e medicação. O exercício já fazia, e muito, mas foi com alguma restrição e cuidado alimentar, e a dose diária de medicação, que lá se foram 6kg em poucos meses.

O primeiro e grande receio de qualquer ser humano que recebe o diagnóstico de diabetes, não é somente se questionar como irá realizar as suas actividades diárias normais mas também como sobreviverá, especialmente aqueles que levam um estilo de vida mais activo. A vida continua, o mais normal quanto possível, e, tal como vivemos no selim de uma bicicleta, na vida de um diabético surgem muitos “altos e baixos”. O conhecimento da doença ajuda a ultrapassá-los. Mantê-la controlada é a chave para estabilizar uma doença crónica, nem que seja com paninhos quentes e muita pedalada, se não os hidratos de carbono ingeridos não se queimam tão bem.

Assim que acordo é hora de verificar os níveis de açúcar, com um dispositivo que mede a glicose, no sangue. Esse é o momento em que o corpo está mais fraco e pede reposição de energia. Antes de começar a pedalar para o trabalho preciso de uma boa primeira refeição. No entanto, se vou fazer desporto, especialmente quando os níveis de energia são a chave para realizar de forma eficaz uma intensa actividade física que exija um gasto calórico excessivo, como por exemplo 2 a 10 horas (ou mais) a dar aos pedais, como mais, muito mais. Acrescento, em função do esforço que vou despender!

Sábado passado participei em mais um Brevet Randonneur Mondial (BRM), de novo ao sabor da corrente do Douro, pelo seu vale vinhateiro, em mais de 200 kms. Tal como em outros passeios de grande distância e exigência física, fui aprendendo muito sobre muitas coisas, sobretudo a compreender e entender o que preciso fazer, o que comer, quando comer, insistir com a hidratação, para realizar estes meus devaneios ciclísticos em segurança. Cada organismo é único e a resposta que dou ao meu, perante uma situação, pode não ser a aconselhada, a benéfica, a mais eficaz para dar a outra pessoa. Recomendo, e lá fui comendo, a sopinha, a sandes de carne da terra, bem tenrrinha, os frutos secos e a bananinha, litradas de aguinha com limão. Pelo caminho complementei a dieta com fruta da época, embora escassa, a doce cerejinha que fui surrupiando à beira da estrada.

No CV da Cósmica estão quatro brevets de duzentos e tal, mais uma Flèche, o que confirma o bom entendimento que temos mantido: um no Alto Minho, um no Douro, com este é outro, e um no Ribatejo. Recordando outros tempos, desde aquela minha síncope em cima da Altis do meu pai, por desalmadamente sair de casa em pedaladas esbaforidas sem pôr nada na boca, sequer um biscoito, leva-me a admitir que encarar a pedalada e manter um ritmo forte numa bicla à moda antiga, com excesso de peso, gasto muito mais gasolina. A cada momento de fraqueza tenho de parar para me alimentar. Mas no final de contas, o que a máquina precisa mesmo é de reabastecer mais vezes. Quanto ao resto, o ponto positivo é que continuo como o aço.

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