crónica – L’Antique 200, versão 2015

BRM LAntique #20
Participar num brevet a sul com início em Vila France de Xira, obriga o randonneur nortenho a planear toda uma logística diferente no que diz respeito ao transporte e alojamento. Este ano, e ao contrário da nossa primeira experiência, eu havia decidido que sairia do Porto logo após o encerramento do expediente e, para tal, optaria por outro meio de transporte. Então, foi mui confortavelmente instalado no interior climatizado de um veículo dotado de motor, com o Vítor ao volante assessorado pela sua graciosa namorada, a Rita, que chegamos bem, bem a tempo de jantar. O Jacinto, mantendo-se firme na sua ideia de seguir viagem nos vagarosos comboios regionais da CP, havia embarcado manhã cedo e, após um dia inteiro de viagem, à hora da nossa saída do Porto montava o seu acampamento. Uma vez que estávamos determinados a pernoitar no local, a tenda de campismo foi a escolha viável para alojar três doidos caricatos prestes a trocar o descanso de um fim de semana por mais uma aventura a pedais. Desejoso por uma boa noite de sono, acordar cedo e cedo erguer, foi o tortuoso burburinho da vizinha auto-estrada aliado ao maldito colchão… depois foi o chão, que me deixou ávido de acção para evitar adormecer de pé.

No lusco-fusco matinal e no curto caminho para o bike check, não conseguia disfarçar a minha expressão no rosto, a de alguém que havia dormido pouco, e por pouco não enfiei o pé num buraco, terminando logo ali a peripécia, ainda antes do briefing da praxe. A velha Cósmica, clássica estradeira escravizada para todo o serviço, foi a convocada para me aturar nesta viagem. Com os pensamentos no que estaria por vir, dá-se o depart, enfio o pé no estribo, piso o pedal e logo uma mudança que salta e a roda que prende! Por breves instantes, uma pequena pane da bicla deixa-me para trás. Finalmente engatada a roda, foi a todo o gás que me agreguei ao grupo, que já pedalava a bom ritmo. O dia estava um mimo. Um sol simpático surgia a nascente e uma aragem ia frisando as orelhas para nos espantar o sono. Não poderíamos ter ambicionado jornada mais serena para uma pedalada de mais de 200 km, chegarmos a Constância e darmos meia-volta ao longo da bela e suave planície ribatejana. Por caminhos enlameados, entre campos de alva geada, cegonhas, cabritas e automobilistas, teríamos toda uma fauna para explorar. Todos muito bem animados, fomos aproveitando as primeiras pedaladas para entabular conversas com novos participantes, alguns com estilos radicalmente diferentes. No meio da caravana distinguia-se com facilidade um randonneur proveniente de outras andanças, do longínquo calor californiano de San Diego, que a bordo da sua tall bike amarela nos proporcionou alguma diversão no resguardo dos seus mais de 2 metros de altura. Aqui e ali, às custas da potência alheia, fui aproveitando o corta-vento do americano matulão que veio participar neste brevet. Imperava a boa disposição e lentamente fomos aquecendo os motores.

Mais à frente entramos numa das belas estradas rurais deste brevet, bem típicas do nosso Portugal. Por ocasião do primeiro L’Antique o caminho era velho conhecido. Abaixo dos pedais, pouco alcatrão, alguma terra e muitos buracos. Passado o primeiro ponto de controlo, com o respectivo registo à pergunta tipo quiz no cartãozinho amarelo, passados alguns quilómetros nova transição para a estrada nacional, onde tivemos momentos de pelotão profissional. De volta às estradas calmas e sinuosas, depois de Vila Nova da Rainha, rumamos à Valada do Tejo, onde sob os diques se podia avistar as águas tranquilas do Tejo. Ao longo do percurso não fiquei indiferente à quantidade de palmeiras que um pouco por todo o lado jazem moribundas, vitimas da praga do escaravelho-vermelho. Em Porto de Muge, todos reunidos junto à ponte Rainha Dona Amélia paramos para novo assentamento no livrete e aproveitamos para morder um lanchinho calórico. A bom ritmo, seguiram-se algumas horas de pedal pelo Vale de Santarém onde a certa altura pude constatar que não estava lá em grande forma! Fiz por me manter alheado dos queixumes da perna esquerda, mantive-me no grupo e fiz jus à curtição que é escalar aquela subida às portas da cidade escalabitana. Entramos finalmente no jardim das Portas do Sol, onde se pode desfrutar de uma das vistas mais bonitas do mundo.

Um momento mágico, uma sedução, mas logo fomos acordados para a responsabilidade com um café e outro carimbo, para de novo botarmos as rodas à estrada. Seguiram-se a passagem por Alcanhões e mais fotos aos nativos ciclistas em Vale de Figueira, retribuídas com muitos olhares curiosos pela nossa agitação. O roadbook alertava-nos em parangonas  para não deixarmos escapar o desvio para a Ponte do Cação, sob o rio Almonda, itinerário recentemente adicionado ao brevet e onde seria o próximo checkpoint, com direito a resposta. Com o minigrupo de novo reunido, passamos a pedalar juntos e em bom cadência contra a nortada que não facilitava em nada a nossa progressão pelos campos desabrigados. Atravessada a Golegã, engatamos a quinta velocidade para a Quinta da Cardiga. De fronte ao abandonado e belíssimo palacete, foi hora de procurar um relógio, não o solar mas o do solar,  e escrever no papelucho quantos minutos aponta o ponteiro parado há décadas. Depois foi a galhofa geral às custas do americano, completamente perdido na tradução. Com o questionário tipo bikepaper devidamente registado, seguiu-se um strip improvisado para aliviar a bexiga.  De novo a rodar o pedaleiro, não tardou que tivéssemos de borrar os pneus na lama, no famoso 1,5 km de terra mais enlameada que batida do L’Antique. Pura emoção!

Vila Nova da Barquinha havia ficado para trás e, a belo prazer, rolava-se então pelo alcatrão fofinho rumo a Tancos. À porta d’armas das ruínas do antigo quartel da minha recruta, o Casal do Pote, fiz a inevitável paragem para a devida continência e selfie. Em boa velocidade descemos então para a pacata vila de Constância, local de controlo, repasto e retorno no percurso. Refastelados e com os pezinhos fora do pedal numa esplanada à beira-rio, demos finalmente atenção às barriguinhas que reclamavam a sopinha prometida. Uma não, duas! E estava-se bem. O bom ritmo na primeira metade do brevet deu-nos um pouco mais de folga e assim se aliviou convenientemente o rabo do selim. Mas a retoma seria tipo segunda-feira. Terminado o bem-bom, eram horas de voltar à pedalada. A partir dali, transporíamos a ponte sobre o Tejo e o regresso teria chão pela outra banda. Mas eis que um imprevisto estranho quase comprometeu a tranquilidade daquela retoma do asfalto. Assim que saímos do pavé de Constância, a velha Cósmica desata aos pinotes. Paro em plena ponte sobre o rio Zêzere e dou conta que o pneu da roda traseira sorria para mim com a língua de fora. Parte do pneu saltou do aro e expunha a câmara-de-ar! Provavelmente foi pressão a mais na borracha e possivelmente por o pneu ter aquecido ao sol fez com que isso acontecesse! Refeito do percalço, depressa atravessamos o Tejo e entramos na sensaborona EN118 até aos próximos objectivos: Chamusca e Alpiarça.

O Jacinto já ia longe e com vontade de bater recordes. Eu ia em plena sornice pela ondulante estrada nacional, curtindo o momento e tentando tirar algumas fotos ao Castelo de Almourol, quando fui ultrapassado à má fila por um tipo ao volante armado ao pingarelho. Aquela tangente alertou-me que não estava em terreno amistoso e prossegui então bem mais cauteloso. Colei-me na roda do Vítor e lá continuamos ao som dos escapes. Fiz o meu melhor e depois de tanto desgastar o elástico, ao fim de um par de horas de intensa pedalada, avistamos o ultimo posto de controlo com carimbo e coca-cola, no Intermarché de Alpiarça! Ufa. Depois do lanche improvisado com alguns géneros comprados no supermercado, voltamos à estrada preparados para novo trecho técnico de estradinhas esburacadas pela lezíria ribatejana, já nos últimos minutos de luz. Havia um certo cansaço no ar, mas com um pôr-de-sol de quentes tonalidades, a brisa zunindo na pele, nós inalando liberdade a plenos pulmões e exalando suor e toxinas, ninguém poderia reclamar de um dia como este. Claro que paramos, ora para checar o itinerário, ora para regar a vegetação, ora para completar o questionário no papelucho por debaixo da Ponte Salgueiro Maia. No meio desse caminho inóspito, íamos encontrando um ou outro grupinho de randonneurs nas suas bicicletas. O sol já não brilhava assim tanto, e foi com a iluminação das biclas ligada que chegamos à estreita e tridimensional Ponte Rainha D. Amélia, para fazermos a travessia nos últimos minutos de claridade. Foi sob um lusco-fusco fascinante que pisamos o metal da ponte. Ufa! Teria bastado um furinho no pneu, como o que tive da outra vez, para perder minutos preciosos na escuridáo. Em Porto de Muge tempo para um pit-stop rápido, reforço de baterias com mais uma barrinha doméstica de aletria, fortificação da armadura, e bora lá empolgados para encarar de frente aquele trecho final, o mesmo onde havíamos rolado durante parte da manhã. Eu lá ia soçobrando ao peso das pernas, e o Vitor era às vezes um pontinho vermelho no horizonte. Na recta final do brevet o tráfego apressado e a luminosidade da EN3 contrastou com o relento e breu nocturno das estradinhas rurais.

Às 20:30h, mais coisa menos coisa, chegamos vivinhos da silva ao camping de Vila Franca. De outros acontecimentos dignos de nota, às portas da vila tive ainda um pequeno desaguisado com um automobilista stressado a quem tive de informar que o Código de Estrada havia sido renovado há mais de um ano! Com os cartõezinhos entregues, bastou um banho morninho para perfumar o canastro, ganhar vontade para desarmar o acampamento, guardar tudo e voltar à estrada para quase 300 quilómetros de automóvel até ao Porto. Fim da excursão, fim da crónica*.

* quase duas semanas para escrevinhar uma crónica! A este ritmo e se o brevet durasse assim tanto é que era fixe!…
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Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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apenas pedalar ao nosso ritmo.

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