e pra sobremesa é um miradouro, ó faxabôre!

BRM200Douro2016 #1

Já sabia que era uma doce pessoa, não imaginava era que o meu sangue estivesse em ponto de rebuçado. A bandida andava-me a rondar fazia algum tempo. Arribou subitamente quando, sem ser convidada, me assaltou as gulodices da mesa natalícia. Eh pá, até me podiam ter enfiado um colete de forças, algemas ou uma focinheira, mas ser-me negado o deleite de umas rabanadas acabadinhas de fazer, foi pior que tirar a chupeta a uma criança! Prontes…

Desde aí, cada confronto com a estrada tem sido um confronto comigo mesmo. Não que sinta falta de confiança nas minhas capacidades, que as distâncias ou alguma montanha de queixo empinado embirre comigo e me faça tremer as pernas! O confronto é com esta minha recente adversária, rival e endiabrada, a diabetes.

Apresento então a carraça. A diabetes tipo II é caracterizada, principalmente, pela dificuldade que o organismo tem em responder a acção da insulina produzida no pâncreas. Tal facto tem como consequência o aumento dos níveis de glicose na corrente sanguínea. Ao contrário dos portadores de diabetes tipo I, as pessoas com o tipo II produzem insulina, porém o corpo cria resistência e não metaboliza eficazmente a glicose.

Ora bem, sabemos que para prevenir esta e outras doenças é importante mantermos hábitos alimentares saudáveis e praticar exercício físico com regularidade, que se apresenta como uma das formas bastante eficazes para melhoria da resposta do organismo ao excesso da glicose. No entanto, um estilo de vida saudável não é garantia de imunidade. Outros factores como a idade e a hereditariedade fogem-nos ao controle. Com história de diabetes na família e a chegada aos cinquenta, tornou-se ainda mais fundamental que a confrontasse em várias frentes: dieta adequada, exercício e medicação. O exercício já fazia, e muito, mas foi com alguma restrição e cuidado alimentar, e a dose diária de medicação que lá se foram 6kg.

O primeiro e grande receio de qualquer ser humano que recebe o diagnóstico de diabetes, não é somente se questionar como irá realizar as suas actividades diárias normais, mas também como sobreviverá, especialmente aqueles que levam um estilo de vida mais activo. A vida continua, o mais normal quanto possível, e, tal como vivemos no selim de uma bicicleta, na vida de um diabético surgem muitos “altos e baixos”. O conhecimento da doença ajuda a ultrapassá-los. Mantê-la controlada é a chave para estabilizar uma doença crónica, nem que seja com paninhos quentes e muita pedalada, se não os hidratos de carbono ingeridos não se queimam tão bem.

Assim que acordo é hora de verificar os níveis de açúcar, com um dispositivo que mede a glicose, no sangue. Esse é o momento em que o corpo está mais fraco e pede reposição de energia. Antes de começar a pedalar para o trabalho preciso de uma boa primeira refeição. No entanto, se vou fazer desporto, especialmente quando os níveis de energia são a chave para realizar de forma eficaz uma intensa actividade física que exija um gasto calórico excessivo, como por exemplo 2 a 10 horas (ou mais) a dar aos pedais, como mais, muito mais. Acrescento, em função do esforço que vamos despender!

Sábado passado participei em mais um Brevet Randonneur Mondial (BRM), de novo ao sabor da corrente do Douro, pelo seu vale vinhateiro, em mais de 200 kms. Tal como em outros passeios de grande distância e exigência física, fui aprendendo muito sobre muitas coisas, sobretudo a compreender e entender o que preciso fazer, o que comer, quando comer, insistir com a hidratação, para realizar estes meus devaneios ciclísticos em segurança. Cada organismo é único e a resposta que dou ao meu, perante uma situação, pode não ser a aconselhada, a benéfica, a mais eficaz para dar a outra pessoa. Recomendo, e lá fui comendo, a sopinha, a sandes de carne da terra, bem tenrrinha, os frutos secos e a bananinha, litradas de aguinha com limão. Pelo caminho complementei a dieta com fruta da época, embora escassa, a doce cerejinha que fui surrupiando à beira da estrada.

No CV da Cósmica estão quatro brevets de duzentos e tal, mais uma Flèche, o que confirma o bom entendimento que temos mantido: um no Alto Minho, um no Douro, com este é outro, e um no Ribatejo. Recordando outros tempos, desde aquela minha síncope em cima da Altis do meu pai, por desalmadamente sair de casa em pedaladas esbaforidas sem comer, sequer um biscoito, leva-me a admitir que encarar a pedalada e manter um ritmo forte numa bicla à moda antiga, com excesso de peso, gasto muito mais gasolina. A cada momento de fraqueza tenho de parar para me alimentar. Mas no final de contas, o que máquina precisa mesmo é de reabastecer mais vezes. Quanto ao resto, o ponto positivo é que continuo como o aço.

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Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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2 respostas a e pra sobremesa é um miradouro, ó faxabôre!

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apenas pedalar ao nosso ritmo.

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