Refeito dos efeitos dos temporais, da doçaria natalicia e do fogo de artifício no wc, volto aos pedais e encaro o futuro na direcção certa com as duas rodas bem assentes no chão. Esta é altura ideal para estabelecer novas metas e considerar alguns desejos para alcançar nos próximos 12 meses.
Pretendo respirar ar puro e mover o meu corpo todos os dias. Seja para enfrentar a loucura rodoviária no meu comute diário ou numa saida precária para aliviar o stress, mexer as perninhas faz sempre bem.
Espero ter vontade suficiente para me levantar todos os dias da cama e me desafiar, mesmo que seja só para ir numa lúdica aventura estradeira ou betêteira. Que enfrente a estrada com ânimo e alcance o cume de pelo menos uma montanha.
Anseio que o trambolhão da praxe seja suavezinho, venha como mais uma lição e que tenha paciência e perspicácia para aprender essa mesma lição, pela enésima vez… Pelo menos faço figas para que não mande mais nenhuma bicicleta para o galheiro!
Aspiro manter as amizades fortes e fazer muitas outras. Novos companheiros de estrada com quem possa compartilhar sonhos e objectivos. Correr o risco de enfrentar as distâncias e os incautos automobilistas. A escuridão e reflectir a minha presença na via, até ao nascer do sol. Ah… e que as assaduras não esgotem o stock de Halibut.
Confio que as correntes e os cabos do desviador se aguentem à bronca. Caso cedam, então que aconteça a pouca distância de casa ou pertinho de uma loja de bicicletas. O mesmo espero que aconteça com os infalíveis furos, ou pelo menos que não me chateiem quando me esquecer da câmara sobressalente… ou da bomba-de-ar!
Parar de comprar coisas de ciclismo que já tenho ou que então não precise, mesmo que as promoções me consumam. Posso sempre tentar algo que parece ser impossível, encontrar as meias certas ou os óculos escuros quando estiver pronto para sair para mais uma pedalada, mas não prometo.
Finalmente, que tenha tempo e capacidade iguais para me deliciar com uma viagem requintadamente longa para depois ter um dia de descanso requintadamente preguiçoso. Claro que o desejo de liberdade é mais forte que a paixão, certamente encontrarei o valor em ambos. Pelo menos ter assegurada aquela boleia de resgate quando não houver outra salvação.
O inverno está aí à porta, mas já nos atormenta há mais de um mês. Sentidos em alerta máximo, olho para cima e um céu carregado e triste me cumprimenta. Cheiro a presença da chuva e o instinto me diz que em algum momento irá desabar na minha cabeça. Sem hesitar, arrisco o regresso a casa pela rota mais longa, ao longo do rio. Começo mais lento do que o normal, uma atmosfera gelatinosa e amorfa estorva o progresso das minhas rodas. Através de rabanadas de vento marítimo, inspiro e os pulmões enchem-se de ar húmido. Em pouco tempo o vento rodopiante me abraça e cospe leves borrifos na minha cara. Voltado para o azul, vejo laivos alaranjados, impressionistas espalhadas por uma borda do céu. Um breve vislumbre do sol, que me provoca entre manchas cinza e brancas, flutuando no horizonte. Nuvens irritadas que se podem zangar e eu sem nenhum lugar para me esconder! Mas a vitória é minha.
Aproveito todos os momentos e aproveito também este para deixar aos meus visitantes uma mensagem de Feliz Natal e um 2023 com bastante pedalada.
Respiro, travo, estremeço… Olho para baixo. Guio o pneu da frente com cuidado, não vá pisar um galho ou um buraco no asfalto. Tenho de fazer mais uma curva. Desço o monte na velocidade possível, condicionado, com um calafrio nas orelhas. Como um falcão que voa na altura certa, flutuo admirando a beleza e o brilho do sol da manhã. O cheiro, o ar fresco e as longas sombras. Às vezes tudo parece se encaixar no lugar. Um galo que canta e que tudo acorda. Os cães que ladram em uníssono, à minha passagem, ecoando no vale.
Porque eu queria encontrar um local tranquilo procuro as estradas desertas. Mas nem sempre estou só. Percebi o carro que seguia atrás de mim. Instintivamente, defendo a minha posição na estrada. Um pouco mais à frente, num local mais espaçoso, dou sinal e o carro passa, acelerando na sua vibração. Também sou trânsito, de bicicleta, tentando ficar seguro. Isso às vezes não é fácil. Mantenho a pedalada e os pensamentos.
Há mais uma curva, apertada, seguida de outra colina, e esta é íngreme. Já a conheço bem. Engreno a mudança certa para a escalada. Parecia que tinha muita energia, mas não sei porquê estava a perder forças! Então percebi que era fome. Em vez de estar a pensar no almoço, precisava de subir. Continuei. No cimo senti como se alguém tivesse virado a ventoinha na minha direcção. Estou cansado, mas não posso pensar nisso. O suor que transpiro é a minha conquista. A banana que trago no bolso será o meu prémio.
Cruzo pequenas aldeias ao longo do caminho. Muitas vezes penso sobre as pessoas que vivem em áreas remotas. O que elas sacrificam para viver ali. O mais certo é que não sacrificam nada. Vivem felizes. O ambiente pode moldar as nossas visões e opiniões. É muito diferente do que estou acostumado e isso faz-me lembrar o quão agitada é a vida na cidade. Imagino-me a morar ali. No meio da serra, naquela tranquilidade, entre as tonalidades outonais de uma floresta de carvalhos. Só que não, é um eucaliptal, imenso a perder de vista…. O tempo parecia passar de forma rápida. Olho o relógio e lentamente retomo o rumo, de volta para a confusão.
Aquelas nuvens negras, em aproximação, não me parecia nada promissor. Comecei a sentir chuva fina. Ao longe podia ver uma clareira, e eu disse a mim mesmo que talvez tivesse sorte. Foi sol de pouca dura. Vinte minutos depois estava sob chuva constante, e estava contente. Na descida, com o corpo a arrefecer, comecei a pensar se não seria boa ideia me refugiar no café. Não valia o incomodo de parar para vestir a capa de chuva. As minhas roupas já estavam encharcadas e estavam! Acelerei ainda mais para me aquecer. Uma vintena de quilómetros e estava sob chuva forte, o suficiente para parar. E parei, à porta de casa, feliz com a minha pedalada. Ensopado e animado.
Depois da bicicleta pendurada, depois do banho retemperador, não demorou muito para relaxar e entrar no balanço das coisas. Ao ver as fotografias captadas, o filme passa veloz pela minha cabeça, o que faz com que a mente vagueie. Sinto as pernas. Procuro saborear o momento, porque pode se passar algum tempo até sentir isso de novo. Sou optimista e positivo, porque gosto do que faço e qualquer viagem a pedais é tudo o que preciso para a regular o corpo e a mente. Também preciso de um café.
Por que tenho mais tempo no fim de semana para desfrutar do ar livre, viajar, experimentando uma vida simples, um modo diferente, a pedalada vai mais longe. Então, qual vai ser a tua próxima aventura? Já não lhe chamo aventura. Em última análise é para mim um estilo de vida que amplifica a felicidade, a minha e daqueles que me rodeiam. Há algo em nós que anseia por paz e tranquilidade, e o nosso estilo de vida determina como vamos experimentá-lo. Ás vezes uma simples volta de bicicleta pode ser anti climática. É terapêutica. É o antidoto para todos os problemas. Você planeia, organiza e antecipa o dia. Então quando o sábado chega, penso… Ok, vamos lá a isso! A mais uma sessão de terapia.
Diariamente, assim que é chegada a hora de encerrar o expediente, arrumo o kit do dia-a-dia na mala do selim, solto a bicicleta do aloquete, ligo o contador e entro em modo pós-laboral. Como é costume depois do trabalho, junto a útil pedalada de regresso ao lar ao agradável e alargado passeio pela cidade. É claro que se o clima não estiver assim tão agravável vou direitinho para casa, mas basta a chuva dar tréguas e o caminho a escolher será sempre por minha conta, o que significa não ter horas para chegar.
Pedalando pelas ruas da cidade reformulo a mobilidade simplificada do percurso trabalho-casa alargando horizontes. Desço ao Douro e, enquanto vou, vou pondo os pensamentos em ordem. Após alguns quilómetros embrenhado no meio do trânsito, a perspectiva de um período de “tempo solitário” agrada-me. Na base do “mais vale só…” vou sempre acompanhado. É importante, no entanto, distinguir aqui a palavra “solitário”. Em contraste com a pessoa sentada ao volante, só, dentro de um carro, engarrafada no pára-arranca urbano, aqui o ciclista solitário vai bem acompanhado, pelo rio, pelo mar, pelo vento, pelo ar puro de qualquer um dos parques da cidade. Fujo dos gases de escape e do rugido mecânico para naturais refúgios de paz e sossego.
Usufruindo da liberdade que a bicicleta me confere, o final de tarde convida-me a vadiar e a saborear o tempo. Apreciar a luz, degustar o aroma das castanhas assadas, apreciar o movimento das folhas que se soltam e voam até ao chão. Pelo simples prazer que sinto ao pedalar por estes jardins de Outono, qualquer desassossego ou incerteza desaparece com o vento. No regresso a casa, como gosto de “circunvalar” a cidade, tenho duas opções antes de enfrentar a Estrada da Circunvalação: ora sigo o rio que corre para a Foz e inspiro o ar marítimo; ora viro as costas à Nortada e sigo o rio para oriente, com o vento pelas costas.
Junto ao Castelo do Queijo despeço-me da praia e do mar e viro à direita. Sujeito os pneus à terra batida e ondulante do Parque da Cidade, o maior parque urbano do país, palmilhado por inúmeros caminhos, arvoredo, extensos relvados com lagos e a passarada residente. Um banco de jardim no encontro de uma obra de arte com o pôr do sol, embeleza o momento e torna-me o passeio ainda mais demorado. Dou as voltas que tiver de dar, escolho o caminho que me apetecer. Ali, o tempo parece dar um tempo. Dali até chegar a casa é um instantinho.
Na rotunda do Freixo encontro o início de um outro paraíso urbano. Entro no Parque Oriental, rodando em modo câmara lenta pelo tapete de asfalto que bordeja as margens do rio. Sigo o Tinto contra os ponteiros do relógio. Vou subindo sem me dar conta que estou a subir. Vou inspirando os aromas da ruralidade, vou sentindo subtis odores à passagem pelas duas “Étares” que tentam despoluir tão desprezado curso de água. Cruzo pequenos núcleos urbanos. Os “passadiços” vão desembocar bem no centro da cidade de Rio Tinto, onde poderá ser o início da diversão dependendo se estou a pedalar no sentido inverso. Junto à estação de metro da Levada pressinto o fim da tranquilidade. Afinal não me afastei assim tanto da cidade! São cerca de 5 km de um passeio bem agradável, mas dali em frente volto à civilização e estou de volta à confusão da Circunvalação.
Desde julho que tenho uma nova escolha para o meu commute trabalho-casa, mais a Norte, mais longínquo, mais demorado para lá chegar mas excelente para arejar o corpo e a mente. Depois de cerca de 10 quilómetros pedalados desde o centro do Porto pela Foz do Douro até Matosinhos, transponho a ponte móvel do Porto de Leixões para Leça. Sigo pela estrada do aeroporto para então descer à N13. É ao fundo, na Ponte de Moreira que encontro o início de uma nova aventura. Ao fim de 20 km de pedalada entro num pequeno paraíso que faz render bem o passeio. Entro no Corredor Verde do Rio Leça.
Inaugurada recentemente a primeira fase, numa extensão de 6 a 7 km entre as pontes de Moreira e da Pedra, os municípios de Matosinhos e da Maia rasgaram este “corredor” desvendando as margens escondidas do rio Leça. Entre as zonas residenciais, situadas nas extremidades deste percurso à disponibilização da população, desenvolveu-se um percurso pedonal e de ciclovia, acessível aos meios de transporte suave, que pretende ser uma opção quotidiana para a mobilidade, desporto, para a fruição do território e o contacto com a natureza, sempre ao longo de parte do rio que já foi o mais poluído da Europa. O Corredor Verde passa junto ao Mosteiro de Leça do Balio, segue o curso do rio por entre paisagens rurais e industriais, cruzando as margens em passadiços metálicos para terminar abruptamente junto à Ponte da Pedra no concelho da Maia. O acesso à N14 é feito por dois patamares de escadas, tendo o ciclista à disposição calhas metálicas que lhe facilitam bastante o acesso, da ou para a estrada. Não tão facilitada é depois a ascensão e o trânsito, tanto na direcção do Porto como no sentido da Maia, mas com calma e vontade tudo se faz, não é mesmo?
O projecto prevê a conclusão das restantes fases, num total de 11 kms. Na segunda fase prevê-se a ligação pedonal e ciclável para poente, ao londo do curso do rio numa extensão de 6 kms, entre as pontes de Moreira e a ponte histórica do Carro. Mais tarde, a terceira fase terá uma extensão de 4,7 km e irá completar a ligação entre a Ponte do Carro e o Porto de Leixões (foz do Rio Leça), com ligações ao centro de Matosinhos e de Leça da Palmeira, A conclusão desta infraestrutura vai permitir que a deslocação em modos suaves (a pé ou de bicicleta) seja efectuada de forma cómoda e segura, em terreno com pouca inclinação, um piso adequado a estes modos de transporte, através de uma via segregada e envolta numa paisagem idílica de pura natureza, inserida na Área Metropolitana do Porto e numa zona de grande densidade populacional. Do ponto de vista ambiental o impacto do projeto é fortíssimo, em consequência das medidas de limpeza e despoluição com a intervenção nas margens do Rio Leça, como forma de conter o processo erosivo que se tem vindo a acentuar nos últimos anos e que permitirá manter em perfeitas condições de uso a infraestrutura ciclável e pedonal do Corredor Verde do Leça.
O Algarve promove naturalmente as suas belas praias de água tépida, as altas temperaturas, o sol inclemente que estorrica turistas, maioritariamente súbditos de sua majestade, a rai… aquele que finalmente diz ser rei, e eu reservo quase sempre uma semaninha do ano para me fazer à autoestrada com a bicicleta na bagagem rumo ao Reino dos Algarves.
Setembro ainda é verão. É o mês da nossa preferência para estender as toalhas nas praias algarvias, que se mantêm apetecíveis, com água quentinha, temperaturas altas e onde os raios ultravioletas torram com a mesma intensidade o lombo dos bifes, que têm férias e euros que nunca mais acabam. Seja como for, Setembro é para mim o melhor mês para uns dias de descanso, seja onde for, só que ultimamente as depressões climáticas oriundas do Atlântico não me têm dado descanso e têm tido a mesma ideia! Ora, em depressão estou eu, caro São Pedro, e é por isso que durante todo ano anseio o tempo de férias mas com bom tempo. Percebeu?
Se são as alterações climáticas no seu pior, Mr. Murphy no seu melhor, o que sei é que de há três anos a esta parte tenho-me deparado com verdadeiros dias de tempestade e que nos impedem de fazer aquilo que o Algarve mais promove. Pronto, ok, a chuva faz falta, estamos em seca severa, coisa e tal, mas c´um raio, a Danielle podia ter chegado uma semaninha mais cedo, ou mais tarde, sei lá!
O Algarve é muito mais que as praias e o sol. Tem belas estradas para pedalar com sítios magníficos para explorar. Tenho a boa alternativa de ensejar outras experiências e como tal a bicicleta vai comigo! Acabaram-se as desculpas. Não podendo dar os habituais mergulhos no mar calminho, é sempre boa altura levar com um desafio a sério. Aproveitar uma manhã nublosa e fresca para um bom par de horas de pedalada que certamente perdurará na memória. Subir a mítica Fóia que há muito estava na minha lista.
Na Serra de Monchique poderei disfrutar de uma das mais belas montanhas do país e provar algumas “bombocas”, como gosta de dizer a Sónia Ramalho, enquanto me deixo levar pelo ambiente que a vista pouco alcança e que conta com o agrado e a fama de uma etapa de montanha da Volta ao Algarve em bicicleta. O Alto da Fóia. É sempre agradável acabar a subida e dirimir com aqueles que estão comigo a linha da meta, mas não, atravesso a porta do prédio e estava só, com os meus pensamentos e com pele de galinha, mais por causa do frio.
Mal saí de Portimão para norte, ao longo da N124, fui envolvido pelo nevoeiro. Depois a morrinha e, quando a perspectiva de melhoria esmorece, desaba sobre o meu capacete uma chuva certinha. Olha, afinal estou no Porto, queres ver! Pensei e desviei para a calma estrada N266. A água das fontes, dos ribeiros e dos rios desapareceu mas naquela manhã escorria a potes entre os meus pneus e o alcatrão. Encharcado dos pés à cabeça, em prole do meu conforto deixou de chover e a temperatura subiu gradualmente com o raiar da manhã. As nuvens abriram e permitiam ver o azul do céu. Sinto que a estrada sobe e cruzo a sossegada vila termal das Caldas de Monchique. Os edifícios cor de pastel e o pequeno vale verdejante não foram mágicos para o meu reumático. Talvez um banho nas águas levemente sulfurosas com 32ºC fosse mais eficaz. Com o corpo mais aquecido chego a Monchique.
A partir daí a estrada empina e bem. Desperto. Estou atento à Natureza. É tão fácil mergulhar na natureza, mesmo lutando contra a inclinação do alcatrão. Durante a ascensão o meu olhar perde-se na vegetação. Há quem lhe chame “O Jardim do Algarve” e o título é merecido. Ali há árvores de grande porte como carvalhos, sobreiros, camélias e magnólias, espécies raras por aquelas bandas. Atravesso a paisagem, pedalada a pedalada, vendo, ouvindo, cheirando e sentindo cada vez mais as pernas. O astro rei espreita mas é sol de pouca dura. O nevoeiro esconde o cocuruto da montanha, e quando dou por ele estou completamente embrenhado numa espécie de mantra… e com fome. A banana ia fazendo o seu efeito e a paisagem que descortinava ia se alterando para lá das janelas abertas da bicicleta. Tudo o que se sente é algo que fica oculto a quem sobe aquilo de carro.
Depois da curva à direita aquilo que me desvenda a neblina não é El Rei D. Sebastião de bicicleta mas o monumento de homenagem ao ciclismo inaugurado há coisa de um ano.
“A peça imortaliza a chegada de Remco Evenepoel ao ponto mais alto do Algarve, celebrando a vitória carregada de esforço. Demonstra que a subida ao alto da Fóia, em bicicleta, não está ao alcance de todos e constitui também uma prova de superação que todos os dias atrai dezenas de ciclistas aquele território.”
Gostei da ideia, do Remco eu não sou muito seu fã. Ele tem o seu valor, que tem, mas sempre achei o moço demasiado emproado. E agora que é campeão do mundo… Ok, pronto, parabéns ao rapaz que bem os merece.
Andei por ali uns minutos mas não se via grande coisa. O que eu vi foi esta “pedrinha preciosa”, #koesterstenen, deixada ali de propósito para que eu a encontrasse e a levasse comigo, a viajar pelo mundo. Bem, a minha viagem é apenas uma etapa da Volta a Portugal, mas aceitei o desígnio e no regresso ao Porto #Bas viajou connosco.
São quase dez da manhã mas nem parece. Faço-me de novo à mesma estrada, aproveitando a boleia da descida. Sigo agora em afável companhia com o som do carreto. O corpo queixa-se do frio, mas os pulmões agradecem o ar puro. O nevoeiro esbateu-se um pouco e do panorama rochoso e árido, que não permite mais do que vegetação rasteira, ao descer alguns quilómetros volto a entrar num cenário verdejante com alguns tons outonais, aqui e ali.
Um azul intenso do céu desvenda-se entre as nuvens e timidos raios de sol espraiam-se montanha abaixo. Ao longe, a sul, vislumbro Portimão e vou descendo com cuidado a serra na sua acentuada inclinação, antes porém com a premissa de parar algures para confortar a barriga. À saída de Monchique um tolde com os dizeres “Pastelaria O Lanche” levou-me a acreditar que teria ali muito por onde escolher. Puro engano. Para comer, a senhora atrás do balcão dizia-me não ter mais nada do que queques e bolinhos de torresmos! – Então é um queque e um café, faxabôre.
– Minha senhora, podia faxabôre encher este bidão com água?
– A água é da torneira?
– Sim, pode ser, afinal é água de Monchique, portanto é agua boa, eheheh… Se fosse aguardente de medronho ainda voltava para trás e subia à Fóia outra vez, eheheh…
A senhora não esboçou um sorriso. Devolveu-me o bidão, paguei, e, depois de ir verter águas segui caminho em direção ao mar, pela mesma estrada, menos húmida, mais concorrida, mais fácil, voando com as cegonhas e deixando a roupa secar.
Lesto, saio de casa para o trabalho. Pedalo a curta subida da ciclovia da Prelada sob a VCI e vejo-o, compenetrado na paisagem. Ele pinta-a, eu fotografo. Em comum a frescura da manhã e a bicicleta. Tal como eu, aproveita cada momento.
Para a pedalada de sábado passado eu tinha vários planos em mente, sendo o mais importante, e presente, ir dar um beijinho de parabéns à minha querida Tia Sílvia. A estrada N108 é o chão que me leva ao Lugar que tem um lugar cativo no meu coração, o Castelo, em Frende, Baião, mas naquela manhã, mais ou menos a meio do caminho, tinha previsto um pequeno desvio na rota. Levava na cabeça a intenção de, após passar Entre-os-Rios à passagem do quilómetro 43, desviar-me da estrada e descer até uma aldeia junto ao Douro, Bitetos, para ir admirar e registar o belo mural que Mr. Dheo dedicou a Carmen Miranda. Em função do destino final, vale bem a pena estremecer o esqueleto naquela abrupta descida de paralelepípedos, procurar a bela casinha Douro Blue House para depois enfrentar a subida de volta, pois há algumas escapatórias que podem tornar a viagem ainda mais agradável.
Mr.Dheo é um artista de street art de renome mundial. Natural de Gaia, com uma carreira longa no graffiti e arte urbana, o seu trabalho é caracterizado por um estilo foto realista. Dos seus trabalhos icónicos, espalhados um pouco por todo o lado, quer na sua cidade natal quer internacionalmente, retratam maioritariamente temas sociais, enquanto outros traduzem num grande impacto mediático. São alguns exemplos o retrato da enfermeira Sofia intitulado “Anjos na Terra”, pintado nas ruínas de uma fábrica da Granja durante a primeira pandemia da Covid-19; Outro, “Quando a noite cai”, é uma marcante mensagem sobre os sem-abrigo e que pode ser vista na Foz Velha do Porto; “Lutador pela liberdade”, o mais recente mural de Mr.Dheo num “apelo à paz” e “numa homenagem à resistência do povo ucraniano” está exposto numa rua de Matosinhos. Da vasta panóplia de trabalhos que podem ser admirados por todos, aquele que terá maior simbolismo, o mural da Trindade intitulado “Porto Nobre e Leal”, uma homenagem ao seu pai e à sua cidade, é o primeiro mural oficial realizado no Porto depois de 14 anos de censura camarária.
Noite cerrada, ainda não haviam soado as quatro badaladas no relógio da igreja e já Zé Maria encaminhava o macho à rédea. O carrego de couves tronchudas e alfaces, arrancadas à terra de véspera, encapotavam o vagaroso animal. A pé, tinham pela frente um longo e tortuoso caminho. Ascender os montes por Santo Amaro, descer ao rio por Cortes da Veiga, atravessar o Douro na ponte do Pocinho, transpor o sopé da serra até Moncorvo para, ainda o sol mal havia despontado, abancar-se no mercado no largo da monumental igreja. Regressava a casa, às Mós, só quando vendesse a mercadoria. Retomava depois o mesmo caminho, inverso mas sempre penoso, com o macho refreado ao fardo de sacos de sementes e de farinha.
O meu avô teve uma vida dura, uma longa vida que não era feita do que se tem como adquirido, mas do que se podia produzir com muito suor e trabalho. Eu tenho vida boa e dias de férias para desfrutar. A casinha da aldeia, onde viveram os meus avós, alberga agora uma velha burra que não anda a palha, Dona Etielbina, que para lá levei há tempos para a sua reforma dourada. Ali ficou, a encher-se de teias de aranha, e está lá, sempre disponível para me dar pedalada, depois de lhe encher os pneus é claro. Como desta vez não levei nenhuma das outras parceiras, foi imediato o sentimento de apreço que lhe conservo, provando do seu peso, subindo antigas estradas e largando os travões nos montes, desbravando trilhos e empurrando as dificuldades que nos surgiam pelo caminho, rumo ao Douro.
Voltando às sendas do meu avô, cruzada a ponte sobre o rio, os cascos do macho passavam agora a matracar o piche da estrada que sobe para Moncorvo. A N220, entretanto despromovida a estrada municipal, ondula esquecida os contornos da Serra do Reboredo. Esta sua rotineira viagem semanal não previa o benefício do transporte no comboio, que na outra encosta cuspia fumo, serra acima, pelo Vale do Sabor.
A Linha Ferroviária do Sabor ligava a Linha do Douro até Duas Igrejas, às portas de Miranda do Douro. A solução para transpor o rio foi a construção de uma ponte metálica com dois tabuleiros, um ferroviário e outro rodoviário. Concluída a ponte do Pocinho em 1909, o primeiro troço da Linha do Sabor foi inaugurado em 1911, até Carviçais, ligando os distritos da Guarda e de Bragança e passando por Torre de Moncorvo. Os 105 quilómetros totais da linha ficaram concluídos em 1938, tendo tido serventia em toda a sua extensão até janeiro de 1989.
A centenária ponte foi desde então desactivada e foi votada ao abandono. Há mais de vinte anos que por lá passou o último comboio de passageiros e mercadorias, enquanto o trânsito rodoviário se passou a fazer sob a barragem, entretanto erguida. Esta infraestrutura de ferro, pela sua importância histórica e patrimonial, teria todo o interesse ser renovada e preservada, voltando a ligar a Linha do Douro à antiga Linha do Sabor pelo seu traçado original. Os canais de ligação à ponte em ambas as margens estão lá e, permitindo a sua travessia pedonal e velocipédica em segurança, traria sobretudo vantagens ao nível da mobilidade e do turismo, uma vez que não se antevê que algum dia volte a servir para o transporte ferroviário ou rodoviário.
Recentemente o município de Torre de Moncorvo recuperou o troço da antiga linha férrea que liga a vila transmontana à estação do Pocinho, numa extensão de 10,6 quilómetros, passando assim a chamada Ecopista do Sabor a dispor de 34 quilómetros para desfrute dos caminhantes e ciclistas, residentes e visitantes. A pista desenvolve-se no sentido norte/nascente pelo sopé da Serra do Reboredo, em toda a sua extensão num declive suave por se tratar de uma antiga linha ferroviária. Este troço oferece uma rota turística, ecológica e desportiva, um espaço de verdadeira beleza vocacionado para o cicloturismo. Em pleno Alto Douro Vinhateiro e Rede Natura, contempla a sua envolvente cénica com vistas soberbas para o Rio Douro, para as encostas em socalcos da Quinta de Vale Meão, para a verdejante Foz do Rio Sabor e para a excepcional paisagem do Vale da Vilariça e serras circundantes.
Como agora é possível transportar bicicletas nos comboios MiraDouro (de maio a outubro fazem-se 6 viagens por dia, do Porto até ao Pocinho) esta Ecopista é uma excelente proposta para complementar uma bela viagem. Tipo dois em um: uma viagem de comboio pelos 172 quilómetros actuais da Linha do Douro, oportunidade para ir admirando as magníficas vistas panorâmicas do Douro Vinhateiro por uma janela em movimento para, ao desembarcar, passadas cerca de 3 horas, “embiclar” num fantástico e memorável passeio ao ritmo das pernas e dos pedais da sua bicicleta.
A fim de não ter percalços e contratempos deve-se preparar alguma logística para se praticar uma pedalada com conforto. O percurso é fácil de fazer, o declive não ultrapassa os 2,5%. O pavimento é em terra batida, ideal para os praticantes de BTT bem como para as bicicletas Gravel. É conveniente se precaver com água e reforço alimentar. Na primeira dezena de quilómetros não se encontram pontos de água, e dos que surgiram em Moncorvo, junto à antiga estação, só 1 ou 2 bebedouros é que funcionam. Se desejar fazer uma pausa, nos vários miradouros ao longo do percurso encontram-se painéis de informação e espaço para estacionamento (!!!), daqueles tradicionais e disfuncionais “entorta rodas”.
Larinho, Carvalhal e Carviçais, são atravessadas pela Ecopista, sendo uma boa oportunidade para “sair da linha” e visitar as aldeias. Com a excepção de Torre de Moncorvo, para se fazer um reabastecimento mais consistente, sei que existe um café com esplanada na recuperada estação de Larinho. O “fim da linha” é em Carviçais, mas neste passeio não cheguei até lá. O dever e o estômago falaram mais alto, vai daí dei meia volta e desci a Ecopista com redobrado prazer, a toda a velocidade. É aconselhável redobrar de cuidados quando se atravessam algumas barreiras existentes nos cruzamentos. Outro ponto de maior atenção, junto à estação de Moncorvo encontram-se vestígios dos carris da antiga linha. Não estranhei que, numa antiga passagem de nível, uma daquelas carrinhas brancas, dos que estão sempre a trabalhar e “são só cinco minutos”, jazia abandonada em plena pista! O regresso ao Pocinho foi rápido e o repasto n’ O Gaveto foi bom e barato (ai aquelas favas guisadas, hummm).
O céu cada vez mais escurecido prometia molha, pois prometia, mas como naquela terra infelizmente a chuva é coisa muito pouco vista, deu-me vontade de ir à volta por Foz Côa e por Freixo de Numão, deixando para outra altura “cortar caminho” pelo íngreme Caminho da Costa. Coisa estranha, ou não, ao longo do dia encontrei os fontanários secos ou com um fino fio d´agua. Vá lá que não estava o calor tórrido da semana anterior, mas não escapei às primeiras chuvas que me apanharam em plena subida pela N222. Ainda bem que choveu a potes nos dias seguintes. Deu pelo menos para refrescar a terra ressequida e atenuar um pouquinho a seca extrema que a região vive. Assim, as pedaladas pensadas para os restantes dias ficaram sem efeito, mas sem remorsos pois dona Etielbina não vai ficar com saudades minhas, tenho a certeza.
Foz do Rio Teixeira, portal para “os bons velhos tempos”
Longas temporadas da minha infância foram magnificamente vividas no Lugar do Castelo, em Frende, a aldeia dos meus avós maternos. Sempre que lá vou, qualquer árvore, as pedras, todos os possíveis aromas têm o poder de soltar memórias que me remetem a momentos mágicos. Das muitas aventuras que faziam parte do nosso quotidiano, vividas juntamente com o meu irmão Tó e os amigos da aldeia. De autênticas loucuras, banais para eles mas absolutamente arrojadas para dois ousados rapazes do Porto que iam para casa dos avós gozar umas semanas de férias.
Quantas situações difíceis em que escapamos por um triz são agora motivos de risos. Quantas reprimendas ouvi do meu avô por nos ter visto em brincadeiras junto à linha do comboio. Quantas proezas da mais pura irresponsabilidade, abusando da benevolência da minha tia Sílvia, nós sobrevivemos. Da nossa inconsciência, onde as aventuras encorajadas pelos rapazes da aldeia nos faziam superar os mais arriscados desafios. Dos dias de absoluta rebeldia, num sítio onde dois irmãos da cidade viviam livres como se fossem personagens de um dos contos do Tom Sawyer e onde o Douro era o nosso Mississípi. Em outras palavras, eram os bons velhos tempos.
O Douro não é um rio que se possa confiar, mas o Tónio, o Rui, o Quim, tinham dele uma compreensão destemida. Uma das coisas inevitáveis nos raros reencontros com um destes amigos “do Castelo” é relembrar as nossas maluqueiras. Atravessar o rio a nado tinha o seu quinhão de ciência e de loucura. Ainda mais quando as razões para o fazer não seriam as mais louváveis. Eu encontrava sempre razões lógicas para, pelo menos, tentar desencoraja-los, mas nunca tinha sucesso nas minhas intenções. Para eles a corrente do rio nunca estava forte, a água nunca estava fria, os cães na outra banda nunca estavam soltos e o lavrador nunca estava vigilante. Mas não era eu que ia dar a parte de fraco. Ir pescar para o rio era quase sempre a desculpa para a malta dar umas braçadas até à outra banda, ir comer das cerejas de Resende! Depois era tentar não sermos apanhados pelo velhote, tentar chegar ao rio sem levar uma dentada dos cães, nadar sem que que nos faltasse as forças.
O olhar retrospectivo oferece uma percepção dos reais perigos onde nos metíamos. A distância com o passado faz com que mesmo os momentos menos bons sejam celebrados. Claro que em toda a vida há ocasiões mais difíceis e outras mais agradáveis. Os bons velhos tempos, por melhores que tenham sido não constituem um paraíso perdido. O paraíso e as memórias continuam lá e sempre me recebem de braços abertos. Só não me atrevo voltar a atravessar o rio a nado para ir “gamar” cerejas. Agora, se as quero provar, as apanhar das cerejeiras com a permissão, ou não, do dono, pego na bicicleta e pedalo Douro afora com um grupo de amigos, para depois voltar a casa no comboio MiraDouro.
Ir às cerejas já não significa só pendurá-las nas orelhas a fazer de brincos.