ao Sabor da pista, da vista e das memórias

Noite cerrada, ainda não haviam soado as quatro badaladas no relógio da igreja e já Zé Maria encaminhava o macho à rédea. O carrego de couves tronchudas e alfaces, arrancadas à terra de véspera, encapotavam o vagaroso animal. A pé, tinham pela frente um longo e tortuoso caminho. Ascender os montes por Santo Amaro, descer ao rio por Cortes da Veiga, atravessar o Douro na ponte do Pocinho, transpor o sopé da serra até Moncorvo para, ainda o sol mal havia despontado, abancar-se no mercado municipal. Regressava a casa, às Mós, só quando vendesse a mercadoria. Retomava depois o mesmo caminho, inverso mas sempre penoso, com o macho refreado ao fardo de sacos de sementes e de farinha.

O meu avô teve uma vida dura, uma longa vida que não era feita do que se tem como adquirido mas do que se podia produzir com muito suor e trabalho. Eu tenho vida boa e com dias de férias para desfrutar. A casinha da aldeia, onde viveram os meus avós, alberga agora uma velha burra que não anda a palha, Dona Etielbina, que para lá levei há tempos para a sua reforma dourada. Ali ficou, a encher-se de teias de aranha, mas está lá, sempre disponível para me dar pedalada, depois de lhe encher os pneus é claro. Como desta vez não levei nenhuma das outras parceiras, foi automático o sentimento de apreço que lhe conservo, provando do seu peso, subindo antigas estradas e largando os travões nos montes, desbravando trilhos e empurrando as dificuldades que nos surgiam pelo caminho, rumo ao Douro.

Voltando às sendas do meu avô, cruzada a ponte sobre o rio, os cascos do macho passavam agora a matrucar o piche da estrada para Moncorvo. A N220, entretanto despromovida a estrada municipal, ondula esquecida pelos contornos da Serra do Reboredo. Esta sua rotineira viagem não previa o benefício do transporte no comboio que na outra encosta cuspia fumo, serra acima pelo Vale do Sabor.

A Linha Ferroviária do Sabor ligava a Linha do Douro até Duas Igrejas, às portas de Miranda do Douro. A solução para transpor o rio foi a construção de uma ponte metálica com dois tabuleiros, um ferroviário e outro rodoviário. Concluída a ponte do Pocinho em 1909, o primeiro troço da Linha do Sabor foi inaugurado em 1911, até Carviçais, ligando os distritos da Guarda e de Bragança e passando por Torre de Moncorvo. Os 105 quilómetros totais da linha ficaram concluídos em 1938, tendo existido circulação ferroviária em toda a sua extensão até janeiro de 1989.

A centenária ponte foi desde essa data desactivada e ficou abandonada. Há mais de vinte anos que por lá passou o último comboio de linha estreita e o trânsito rodoviário já se fazia pela barragem, entretanto erguida. Esta infraestrutura, pela sua importância histórica e patrimonial, seria de todo o interesse ser preservada, voltando a ligar a Linha do Douro à antiga Linha do Sabor pelo seu traçado original. Os canais de ligação à ponte em ambas as margens estão lá e, com a sua travessia em segurança, pedonal e velocipédica, traria sobretudo vantagens ao nível da mobilidade e do cicloturismo, uma vez que não se antevê que algum dia volte a servir para o transporte ferroviário ou rodoviário.

Recentemente o município de Torre de Moncorvo recuperou o troço da antiga linha férrea que liga a vila transmontana e a estação do Pocinho, numa extensão de 10,6 quilómetros, passando assim a chamada Ecopista do Sabor a dispor de 34 quilómetros para desfrute dos caminhantes e ciclistas, residentes e visitantes. A pista desenvolve-se no sentido norte/nascente pelo sopé da Serra do Reboredo, em toda a sua extensão num declive suave por se tratar de uma antiga linha ferroviária. Este troço oferece uma rota turística, ecológica e desportiva, um espaço de verdadeira beleza vocacionado para se fazer de bicicleta. Em pleno Alto Douro Vinhateiro e Rede Natura, contempla a sua envolvente cénica com vistas soberbas para o Rio Douro, para as encostas em socalcos da Quinta de Vale Meão, para a verdejante Foz do Rio Sabor e para a excecional paisagem do Vale da Vilariça e das serras circundantes.

Como agora é possível transportar bicicletas nos comboios MiraDouro (de maio a outubro fazem-se 6 viagens por dia, do Porto até ao Pocinho) esta Ecopista é uma excelente proposta para complementar uma bela viagem. Tipo dois em um: uma viagem de comboio pelos 172 quilómetros actuais da Linha do Douro, oportunidade para ir admirando as magníficas vistas panorâmicas do Douro Vinhateiro por uma janela em movimento para, passadas cerca de 3 horas, quando desembarcar, “embiclar” num fantástico e memorável passeio ao ritmo das pernas e dos pedais da sua bicicleta.

A fim de não ter percalços e contratempos deve-se preparar alguma logística para se praticar uma pedalada com conforto. O percurso é fácil de fazer, o declive não ultrapassa os 2,5%. O pavimento é em terra batida, ideal para os praticantes de BTT bem como para as bicicletas Gravel. É conveniente se precaver com água e reforço alimentar. Na primeira dezena de quilómetros não se encontram pontos de água, e dos que surgiram em Moncorvo, junto à antiga estação, só 1 ou 2 bebedouros é que funcionam. Se desejar fazer uma pausa, nos vários miradouros ao longo do percurso encontram-se painéis de informação e espaço para estacionamento (!!!), daqueles tradicionais e disfuncionais “entorta rodas”.

Larinho, Carvalhal e Carviçais, são atravessadas pela Ecopista, sendo uma boa oportunidade para “sair da linha” e visitar as aldeias. Com a excepção de Torre de Moncorvo, para se fazer um reabastecimento mais consistente sei que existe um café com esplanada na recuperada estação de Larinho. O “fim da linha” é em Carviçais, mas neste passeio não cheguei até lá. O dever e o estômago falaram mais alto, vai daí dei meia volta e desci a Ecopista com redobrado prazer, a toda a velocidade. É aconselhável redobrar de cuidados quando se atravessam algumas barreiras existentes nos cruzamentos. Outro ponto de maior atenção, junto à estação de Moncorvo encontram-se vestígios dos carris da antiga linha. Não estranhei que, numa antiga passagem de nível, uma daquelas carrinhas brancas, dos que estão sempre a trabalhar e “são só cinco minutos”, jazia abandonada em plena pista! O regresso ao Pocinho foi rápido e o repasto n’ O Gaveto foi bom e barato (ai aquelas favas guisadas, hummm).

O céu cada vez mais escurecido prometia molha, pois prometia, mas como naquela terra infelizmente a chuva é coisa muito pouco vista, deu-me vontade de ir à volta por Foz Côa e por Freixo de Numão, deixando para outra altura “cortar caminho” pelo íngreme Caminho da Costa. Coisa estranha, ou não, ao longo do dia encontrei os fontanários secos ou com um fino fio d´agua. Vá lá que não estava o calor tórrido da semana anterior, mas não escapei às primeiras chuvas que me apanharam em plena subida pela N222. Ainda bem que choveu a potes nos dias seguintes. Deu pelo menos para refrescar a terra ressequida e atenuar um pouquinho a seca extrema que a região vive. Assim, as pedaladas pensadas para os restantes dias ficaram sem efeito, mas sem remorsos pois dona Etielbina não vai ficar com saudades minhas, tenho a certeza.

A ti te dedico avô

meu avô Zé Maria, eu , o Tó e o macho

Para quem quiser ver, o registo feito no Strava, com o percurso e mais fotos deste passeio

Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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apenas pedalar ao nosso ritmo.

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