o Paulo sempre foi à Fóia

O Algarve promove naturalmente as suas belas praias de água tépida, as altas temperaturas, o sol inclemente que estorrica turistas, maioritariamente súbditos de sua majestade, a rai… aquele que finalmente diz ser rei, e eu reservo quase sempre uma semaninha do ano para me fazer à autoestrada com a bicicleta na bagagem rumo ao Reino dos Algarves.

Setembro ainda é verão. É o mês da nossa preferência para estender as toalhas nas praias algarvias, que se mantêm apetecíveis, com água quentinha, temperaturas altas e onde os raios ultravioletas torram com a mesma intensidade o lombo dos bifes, que têm férias e euros que nunca mais acabam. Seja como for, Setembro é para mim o melhor mês para uns dias de descanso, seja onde for, só que ultimamente as depressões climáticas oriundas do Atlântico não me têm dado descanso e têm tido a mesma ideia! Ora, em depressão estou eu, caro São Pedro, e é por isso que durante todo ano anseio o tempo de férias mas com bom tempo. Percebeu?

Se são as alterações climáticas no seu pior, Mr. Murphy no seu melhor, o que sei é que de há três anos a esta parte tenho-me deparado com verdadeiros dias de tempestade e que nos impedem de fazer aquilo que o Algarve mais promove. Pronto, ok, a chuva faz falta, estamos em seca severa, coisa e tal, mas c´um raio, a Danielle podia ter chegado uma semaninha mais cedo, ou mais tarde, sei lá!

O Algarve é muito mais que as praias e o sol. Tem belas estradas para pedalar com sítios magníficos para explorar. Tenho a boa alternativa de ensejar outras experiências e como tal a bicicleta vai comigo! Acabaram-se as desculpas. Não podendo dar os habituais mergulhos no mar calminho, é sempre boa altura levar com um desafio a sério. Aproveitar uma manhã nublosa e fresca para um bom par de horas de pedalada que certamente perdurará na memória. Subir a mítica Fóia que há muito estava na minha lista.

Na Serra de Monchique poderei disfrutar de uma das mais belas montanhas do país e provar algumas “bombocas”, como gosta de dizer a Sónia Ramalho, enquanto me deixo levar pelo ambiente que a vista pouco alcança e que conta com o agrado e a fama de uma etapa de montanha da Volta ao Algarve em bicicleta. O Alto da Fóia. É sempre agradável acabar a subida e dirimir com aqueles que estão comigo a linha da meta, mas não, atravesso a porta do prédio e estava só, com os meus pensamentos e com pele de galinha, mais por causa do frio.

Mal saí de Portimão para norte, ao longo da N124, fui envolvido pelo nevoeiro. Depois a morrinha e, quando a perspectiva de melhoria esmorece, desaba sobre o meu capacete uma chuva certinha. Olha, afinal estou no Porto, queres ver! Pensei e desviei para a calma estrada N266. A água das fontes, dos ribeiros e dos rios desapareceu mas naquela manhã escorria a potes entre os meus pneus e o alcatrão. Encharcado dos pés à cabeça, em prole do meu conforto deixou de chover e a temperatura subiu gradualmente com o raiar da manhã. As nuvens abriram e permitiam ver o azul do céu. Sinto que a estrada sobe e cruzo a sossegada vila termal das Caldas de Monchique. Os edifícios cor de pastel e o pequeno vale verdejante não foram mágicos para o meu reumático. Talvez um banho nas águas levemente sulfurosas com 32ºC fosse mais eficaz. Com o corpo mais aquecido chego a Monchique.

A partir daí a estrada empina e bem. Desperto. Estou atento à Natureza. É tão fácil mergulhar na natureza, mesmo lutando contra a inclinação do alcatrão. Durante a ascensão o meu olhar perde-se na vegetação. Há quem lhe chame “O Jardim do Algarve” e o título é merecido. Ali há árvores de grande porte como carvalhos, sobreiros, camélias e magnólias, espécies raras por aquelas bandas. Atravesso a paisagem, pedalada a pedalada, vendo, ouvindo, cheirando e sentindo cada vez mais as pernas. O astro rei espreita mas é sol de pouca dura. O nevoeiro esconde o cocuruto da montanha, e quando dou por ele estou completamente embrenhado numa espécie de mantra… e com fome. A banana ia fazendo o seu efeito e a paisagem que descortinava ia se alterando para lá das janelas abertas da bicicleta. Tudo o que se sente é algo que fica oculto a quem sobe aquilo de carro.

Depois da curva à direita aquilo que me desvenda a neblina não é El Rei D. Sebastião de bicicleta mas o monumento de homenagem ao ciclismo inaugurado há coisa de um ano.

“A peça imortaliza a chegada de Remco Evenepoel ao ponto mais alto do Algarve, celebrando a vitória carregada de esforço. Demonstra que a subida ao alto da Fóia, em bicicleta, não está ao alcance de todos e constitui também uma prova de superação que todos os dias atrai dezenas de ciclistas aquele território.”

Gostei da ideia, do Remco eu não sou muito seu fã. Ele tem o seu valor, que tem, mas sempre achei o moço demasiado emproado. E agora que é campeão do mundo… Ok, pronto, parabéns ao rapaz que bem os merece.

Andei por ali uns minutos mas não se via grande coisa. O que eu vi foi esta “pedrinha preciosa”, #koesterstenen, deixada ali de propósito que para eu a encontrasse e a levasse comigo a viajar pelo mundo. Bem, a minha viagem é apenas uma etapa da Volta a Portugal, mas aceitei o desígnio e no regresso ao Porto #Bas viajou connosco.

São quase dez da manhã mas nem parece. Faço-me de novo à mesma estrada, aproveitando a boleia da descida. Sigo agora em afável companhia com o som do carreto. O corpo queixa-se do frio, mas os pulmões agradecem o ar puro. O nevoeiro esbateu-se um pouco e do panorama rochoso e árido, que não permite mais do que vegetação rasteira, ao descer alguns quilómetros volto a entrar num cenário verdejante com alguns tons outonais, aqui e ali.

Um azul intenso do céu desvenda-se entre as nuvens e timidos raios de sol espraiam-se montanha abaixo. Ao longe, a sul, vislumbro Portimão e vou descendo com cuidado a serra na sua acentuada inclinação, antes porém com a premissa de parar algures para confortar a barriga. À saída de Monchique um tolde com os dizeres “Pastelaria O Lanche” levou-me a acreditar que teria ali muito por onde escolher. Puro engano. Para comer, a senhora atrás do balcão dizia-me não ter mais nada do que queques e bolinhos de torresmos! – Então é um queque e um café, faxabôre.

– Minha senhora, podia faxabôre encher este bidão com água?

– A água é da torneira?

– Sim, pode ser, afinal é água de Monchique, portanto é agua boa, eheheh… Se fosse aguardente de medronho ainda voltava para trás e subia à Fóia outra vez, eheheh…

A senhora não esboçou um sorriso. Devolveu-me o bidão, paguei, e, depois de ir verter águas segui caminho em direção ao mar, pela mesma estrada, menos húmida, mais concorrida, mais fácil, voando com as cegonhas e deixando a roupa secar.

No link o registo do Strava, com percurso e vídeos: https://www.strava.com/activities/7811684482

Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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apenas pedalar ao nosso ritmo.

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