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fotocycle [84] sunday times
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ciclofilia [88] Ecopista do Tâmega
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a decorrer…

E porque uma bicicleta também faz a Primavera, mesmo que seja a bolinar à bruta contra a nortada, pelo 2º ano consecutivo o Optimus Primavera Sound dá música à Invicta no seu verdejante Parque da Cidade. “O cartaz é um “quem-é-quem” do melhor que a música tem para oferecer deste e dos últimos anos.” Curtam a boa música com muitas pedaladas.
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biclamoura
Semana passada estive ausente porque fui passar um bom bocado lá para terras a sul do reino e algarves. Já me haviam contado que Vilamoura tem uma das melhores redes de ciclovias de Portugal, o que torna aquela zona do Algarve um ponto de passagem obrigatório para os amantes das pedaladas. Também me constou que possui um dos projectos de maior sucesso de uso partilhado de bicicletas. Confesso que não foi essa a principal razão da minha escolha. A coisa proporcionou-se, digamos assim. Sou apologista do “vá pra fora cá dentro” e procuro desfrutar alguns dos prazeres que o nosso país tem para oferecer. Gosto mais da costa algarvia em Maio ou Setembro, meses recomendáveis para uma semaninha de pleno dolce fare niente com a família. Fiz-me então à auto-estrada sem no entanto levar as bicicletas penduradas no tejadilho da viatura.

Não ia a Vilamoura fazia muito tempo. Assim que lá cheguei, fiquei bem impressionado especialmente com as estruturas urbanas. Tudo por ali é plano e tem todas as condições para o uso da bicicleta. Com uma notável política de mobilidade, apoiada pelo sistema alargado de partilha de bicicletas, a rede cicloviária pintada pela cidade gerou utilizadores e, por conseguinte desde logo visível, gerou massa crítica. Desde a última vez que estendi a toalha na Praia da Falésia, o transporte em bicicleta foi colocado no centro das prioridades, foram construídas ciclopistas (mais de 20 km) ao longo de quase todas as estradas, foram rasgadas ciclovias em jardins e parques, onde para além de andar de bicicleta pode-se caminhar e praticar desporto de manutenção.
Mostrar uma pedaleira chique é também o que está a dar. Já se percebia a nova tendência que é dar ao pedal em redor daquele ambiente cosmopolita, à volta dos iates. Dar nas vistas desde a saída do hotel até ao campo de golfe. Um outro estilo mais in se sobressai aos vidros escuros de um qualquer topo de gama. Embora tenha sido obrigado a desviar-me de automóveis a mais, sobretudo em redor da marina, certamente que lá mais para o Verão, numa altura em que a afluência terá o seu boom e onde os parques não chegarão para tanto carro, certamente o apelo à mobilidade ecológica terá um novo significado.

É certo que são os resortes de luxo, a marina, os iates, os campos de golfe, que dão uma quota-parte significante à riqueza e ostentação de todo o cenário. E dão também turistas, alguns residentes e muitos de ocasião, sobretudo oriundos de países onde é muito apreciável o uso regular da bicicleta. De qualquer forma, e apesar do descapotável com volante à direita estacionado em cima de uma das ciclopistas, agradou-me sobremaneira a quantidade de residentes (nacionais e estrangeiros) que dão às perninhas. Mesmo que tenham desenhado ciclovias disparatadas e desnecessárias em cima de passeios, das passadeiras, ou que acabam em nenhures. Também lá foram plantados, especialmente à entrada das praias, os famigerados estacionamentos empena rodas. Vilamoura nasceu como zona essencialmente turística e com o evoluir dos tempos adquiriu uma nova maneira de encarar um urbanismo moderno e sustentável. Quero crer que com um pouco mais de experiência se verificará uma melhor implementação de medidas adequadas às necessidades do ciclista.

Desejei uma estadia tranquila, estender-me ao sol e permanecer espreguiçado à borda da piscina, que nem um dragão saciado, mas sempre que era obrigado a mover-me, o raio das biclas brancas cheias de estilo acicatavam-me. Aí, o cérebro coagiu-me sair daquela modorra, dar rodagem às pernas com umas pedaladas pela região, ir à praia e ir ao pão. Por todo o lado lá estavam elas, 200 bicicletas brancas espalhadas por Vilamoura, estacionadas nas 32 estações ou a rodar silenciosamente e cheias de estilo pelas ciclovias. Então levantei o pandeiro e fui cuscar o tão proclamado sistema de partilha de bicicletas.
Numa rápida análise inicial, o Vilamoura Public Bikes não me pareceu nada informativo. Quando procurei tirar uma bicicleta do descanso percebi que muito dificilmente iria sair dali cheio de cagança a pedalar. Na página electrónica da Inframoura fui informado que com um cartão poderia levar uma bicicleta por períodos ilimitados, num máximo de 45 minutos em cada utilização. Fiquei também a saber que quem pode usufruir deste serviço são os residentes e os proprietários. Os turistas também são incluídos, mas terão que solicitar os cartões de utilização às unidades hoteleiras ou proprietários dos empreendimentos onde estão hospedados! Fui então procurar saber na recepção do village empreendimento onde me instalei que me confirmaram tudo isso e ofereceram-me um prospectozinho mas para alugar biclas de uma loja! “Mas então, e o sistema de partilha…!?” “Ah, e tal, não temos cartões do sistema porque faz concorrência aos nossos colaboradores…”! Pronto, já vi que por causa das leis do mercado não ia ter hipóteses de alapar o rabo no selim das “pedaleiras”. O sistema só permite a utilização pelo visitante sazonal caso o proprietário do empreendimento onde esteja hospedado ceda um cartão de utilização, o que não era o caso.


Com a chegada do Verão, o sistema talvez se torne incapaz de responder à procura. Calculo que seja uma das razões para o preceito escolhido que, caso assim seja, é sinal que o sistema de partilha está a ter sucesso. Desisti entretanto da ideia das biclas partilhadas e aderi ao vulgar sistema de aluguer, que coloca à disposição do cliente uma frota bastante completa e variada, a preços razoáveis e boas condições de utilização. Aluguei duas bêtêtês. As que me calharam em sorte tinham bastante uso mas chegaram-me às mãos bem afinadas. Pretendia pedalar na companhia do meu filho, com mais garantia e menos percalços, pelos trilhos do Parque Ambiental, nas ruas e ciclovias de Vilamoura, palmilhando meio concelho de Loulé, da Quarteira às Açoteias. Aconselho vivamente.
Publicado em o ciclo perfeiro
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o Citi Bike, the NYC bike share
Afamada pelas imensas avenidas e pela alma de uma grande metrópole em permanente insónia, The Big Apple, deu um novo rumo à sua urbanidade com a inauguração do sistema público de aluguer de bicicletas. É sobretudo um aperfeiçoamento de cultura urbana operada em Nova York, imersa em tráfego e dióxido de carbono que precisa romper urgentemente com um certo conservadorismo ainda resistente na cultura de vida urbana. Irá provavelmente precisar ainda passar por um período de adaptação para uma tendência emergente que já se verifica em muitas outras metrópoles mundiais.
O programa de bike sharing nova-iorquino, baptizado de Citi Bike, segue um programa similar ao de muitos outros sistemas. Os utilizadores inscrevem-se no sistema e pagam uma taxa anual de US$ 95 para viagens livres de até 45 minutos (nem a propósito brevemente postarei uma análise pessoal ao semelhante, mas com as devidas proporções, sistema partilhado de bicicletas que conheci em Vilamoura). Existe também a opção de aluguer livre de inscrição para uso e testes de um dia ou uma semana através de cobrança por cartão de débito ou crédito.
Por enquanto o sistema alberga seis mil bicicletas (todas em azul escuro e equipadas com três velocidades) espalhadas pelos bairros de Manhattan e no Brooklyn onde existem 330 estações para estacionamento. No futuro pretende-se incrementar a rede para 10 mil bicicletas e 600 estações, englobando também o Queens.
Como acontece com outras metrópoles que apostaram no sistema de bike sharing, a ideia do Citi Bike é alargar a opção de transporte na cidade, para ser um modo rápido e eficaz de se chegar ao trabalho como o de um simples passeio pela cidade. Centenas de novas faixas destinadas às bicicletas foram construídas, e muitos melhoramentos urbanos foram executadas tendo em vista uma cidade que abrigasse a ideia da bicicleta como meio de transporte. Disse a Comissária de Transporte de Nova York, Janette Sadik-Khan. “Os nova-iorquinos podem ter uma nova chave de acesso à cidade e se juntar aos outros ícones de transporte da cidade. É um novo modo de andar pela cidade.”
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fotocycle [83] o senhor de Matosinhos
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bicicletă… bicicletă… bicicletă…
…eu contei pr’aí umas nove “bicicletăs”. Assim até a língua romena tem outro encanto!
“Film realizat de FatCat Films Romania – fatcat.ro în colaborare cu SkirtBike București – skirtbike.ro”
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ride your bike to work
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no Baixo Minho e Barroso – um empeno jeitoso
Este que aqui escreve não passa de um recém randonneurizado, que quis mais. Como a criança que é atirada ao ar pelo pai brincalhão e que apesar dos protestos da mãe para que se pare com a brincadeira adora e pede bis entre gargalhadas. Apesar de alguns incrédulos que atestavam a minha insanidade mental, a que me alarmava era a física, depois da pedalada pelo Ribatejo, depois do Alto Minho, empolgado por ter sobrevivido a uma Flèche, mesmo que incompleta, iria agora tentar completar um brevet de 314 km pelo Baixo Minho e Barroso, com qualquer coisa acima dos 5 mil metros de altimetria, de novo organizado por Via Veteris. Já sabia da altimetria, vi que era complicada, alguns trechos mais íngremes, outros menos, preferi não estudar muito, era melhor não embandeirar e levar a bicla certa.
Bem cedinho lá estávamos de novo, quase todos, na Delegação da Cruz Vermelha de Marinhas, Esposende, na vistoria das biclas: luzes à frente, luzes atrás, com o colete reflector, capacete… Início de aventura. O pelotão rumou a sul, pela bruma da N13, e permaneceu compacto durante muitas horas. Depois de passar Vila do Conde, fez-se a viragem na Azurara para o interior. Foi já com o sol na cara que continuamos a trilhar os tranquilos quilómetros iniciais pelo vale do Ave. Tudo ok, tudo pacífico, cada qual a pedalar no seu próprio ritmo.
Trofa, Santo Tirso, Lordelo, o dia que seria longo estava fantasticamente bonito e a pedalada decorria agradável. Alguns ciclistas já se conheciam, outros estabeleciam pequenas conversas. Foi ao som das nove badaladas, à passagem dos 70km, que entramos em Vizela, para o segundo posto de controlo na Pastelaria Fina. Tempo de carimbar o brevet, descansar as pernas e afinar o mecanismo com um docinho da terra. O ímpeto inicial é pedalar com força, até se sentirem os músculos das coxas e aumentar a média, mas num brevet fazer isso é burrice. Os músculos irão arder, estejamos certos disso, mas é preferível poupar forças e deixá-los arder só no final. A distância é longa, de nada serve forçar para depois sofrer e não aguentar.
Logo à saída de Vizela o primeiro empedrado do dia, que haveriam de ser vários, e longos, e aborrecidos. Para minimizar a trepidação, a melhor forma é passar o mais rápido possível pelos paralelepípedos. Foi num desses pavés rurais que tive a companhia inusitada de um canito, que me fez dar o maior sprint da viagem por uns bons cem metros. O jeco (cão vadio) apareceu do meio do nada, a ladrar e com a dentuça à mostra, numa correria ensandecida a meu lado. Entabulei uma conversa com ele mas não arrisquei levar a mão ao bolso para lhe tirar a fotografia. Acabou por se cansar e lá desistiu. Durante a pedalada a fauna que se cruzou à frente da minha roda foi variada e até uma galinha esganiçada se meteu no meu caminho. As aventuras estavam ainda no começo.
Já dava para notar que aquilo não seria um passeio no parque. O calor já apertava e, bora lá fazer um strip-tease à beira da estrada. Seguiu-se a primeira escalada a sério, passando por Fafe até à Lameira, sempre com a companhia do Tiago. Impulsionados pela fantástica paisagem, passamos por ruas com nomes insólitos, como a rua “Pica de Além” e logo a seguir a “do Rego”! Mas a brincadeira foi ficando progressivamente mais suada, até ao cume, onde paramos para celebrar os 100km com uma golada de água. As sensações eram boas. Um terço estava feito. Depois de algum tempo a petiscar e dar a tradicional mirada no road book, de novo alapados no selim seguimos adiante, descendo agora para Arco de Baúlhe.
A senhora da Padaria Central tinha bonita freguesia, tinha o carimbo mas não tinha sopa! “Se me tivessem avisado…!”. Tal era a fome que precisava de um almoço digno antes do Everest. À segunda tentativa acabamos por encontrar um restaurante onde ataquei ferozmente duas sopas, boroa e uma fresca salada de frutas. Nutridos e hidratados entramos naquela coisa de estrada em direcção a Cabeceiras de Basto para alguns quilómetros à frente começar a subida, pedalando o mais lento e cadenciadamente possível. Resumindo, veio a ser um empeno para lá de jeitoso.
Se no início das hostilidades, até ao Salto, lá bem no alto a mais de 1000 metros de altitude, éramos três, depois ficamos dois, para mais tarde o Tiago acelerar e desaparecer de vista. Tive de me safar sozinho. Nos brevet’s não há competição, apenas se chega dentro do tempo, ou não. Sente-se a aspereza do asfalto como se caminhássemos descalços, sente-se o relevo das estradas como nenhum automobilista poderá sentir. Amaldiçoamos e praguejamos contra quem delineou o percurso, mas vamos em frente. O único oponente a ser vencido é o nosso pensamento. Os pensamentos é que voavam. Absorvido neles, e no meu mundo novo, a serra Barrosã, nem vi as horas passarem. Tudo muito bonito por ali e em toda parte uma tranquilidade bucólica. Montes, vales, o verde, o azul e o castanho. Aquela imensa quantidade de água. Poucos foram os momentos em que não margeamos algum tipo de rio ou canal artificial. Para além do som líquido das ribeiras, do chilreio musical das andorinhas e do latido ameaçador dos cães, era tudo tão calmo como se as pessoas ali não precisassem de trabalhar, mas apenas pescassem, cuidassem do seu gado, das hortas e, no mínimo, dormissem a sesta.
Lembretes dolorosos da minha infinita inferioridade velocipédica não demoraram a aparecer. O primeiro, evidente, era o próprio ritmo, muito longe de ser uma maravilha. Depois foram as minhas costas que resolveram protestar. Eu, para me poupar, fui pedalando bem mais sossegado e dando folga à perna direita, à custa de um tendão distorcido. Se pedalar sozinho pelo Portugal profundo já é bom, pedalar com alguém para cavaquear, partilhar sensações e decidir junto o que fazer, é ainda melhor. Vi que o Manuel Miranda e o Gilberto iam surgindo a cada curva, esperei e com eles formei um grupeto. Percebo que se julgue serem as subidas o que pior pode haver para o ciclista, o calor e o vento também podem ser extenuantes, mas há momentos em que um companheiro à nossa frente, ao nosso lado, nos ajuda a dar força aos pedais.
O José Ferreira, um dos organizadores locais, que desta vez era o responsável pelo temido carro-vassoura (a recolher os restos mortais dos ciclistas que abandonam o brevet), registava a nossa passagem pelo topo da montanha no cartão fotográfico. Depois de uma agradável descida e resultante subida, já no posto de controle seguinte, num hotel em Carreira da Lebre, Alto do Rabagão, e ainda mal refeitos da escalada, fomos surpreendidos por um grupo de animados convivas que, à saída de um regado repasto, nos dedicou um vira minhoto. Naquela altura, precisamente a meio do campeonato, o corpo pedia proteína e estavam abertas as hostilidades. Só que o meu estômago não vinha preparado para atacar aquela travessa de carne barrosã, grelhada com batatas a murro, e consolei-me com uma tigelinha de sopa. Nisto chega a Ângela, acompanhada pelo grande Jacinto, e que não se fazendo rogada e ingeriu à colherada uma taça cheia de arroz de feijão.
Superada a grande dificuldade da etapa, simplesmente pedalamos, pedalamos, pedalamos… contornando a barragem do Alto Rabagão. A Natureza resolveu gozar com panorama e reservou para aquelas paragens uns falsos planos e uns altos-e-baixos bem pronunciados. Vinte quilómetros depois, em S. Vicente da Chã, outro posto de controlo onde se aproveitou para reabastecer as barrigas e vestir os agasalhos, pois a partir dali seriam bem longas e pronunciadas as descidas que teríamos pela frente. Eram boas novas para as nossas pernas, apenas afrouxando nas ladeiras ou para registar o momento numa fotografia. Foi ao longo do lago da Barragem da Caniçada que admiramos um lindo por do sol para além do Gerês. Eu estava a voar.
Geringonça inteligente, das maravilhas modernas, é o tal de GPS. Parece que é a resposta final para a grande questão filosófica humana “de onde viemos?”, “para onde vamos?” Na luz de crepúsculo, àquelas horas de pedalada, chegamos à avisada, pronunciada e perigosa descida para a albufeira da Caniçada. A coisa era quase mística e mesmo com o tal aparelhosinho falhamos o desvio e acabamos desorientados! Dando conta do engano, encontrei um senhor um pouco à frente e o interpelei. O castigo foi ter de subir algumas centenas de metros que antes havíamos gostado de descer, e assim perdemos bom e precioso tempo às voltas com a nossa cartografia internética.
Depois de uma paragem técnica para ligar os holofotes nos permitimos ao luxo de parar num café para voltar a enganar os estômagos. Só o facto de ver na têvê o Lucho aumentar o score do meu FêCêPê ao marcar um penalti (não, não foi um sonho), talvez por isso, me empolguei e a pedalada até Santa Maria do Bouro fez-se com mais satisfação. A chegada à Pousada da Juventude foi tremida. Malditos paralelos! Última paragem para carimbar o cartãozinho. Depois de sapatearmos por uns degraus de granito, nem os belos olhos da menina, nem a convidativa chaise longue da recepção nos fizeram sonhar com outra coisa senão voltar à estrada.
A partir daí a estrada foi ficando mais concorrida. Festa da Família em Amares, não demorou muito para começarmos a ser buzinados. Não que estivéssemos a atrapalhar o trânsito, nem nada. Era uma área movimentada, de gente já bastante animada. No limite das forças, pedalamos forte na última hora, em torno dos 30 Km/h, até que quase à hora de cantar o galo, cruzamos Barcelos. O frio fazia-se sentir à medida que nos aproximávamos de Esposende e autorizamos a fuga do Gilberto “para se aquecer”! Delegação da Cruz Vermelha de Marinhas à vista, mais um BRM completo. Mais de 18 horas a pedalar. Fizemos valer cada segundo, cada metro de estrada. No fim das contas, é claro que deixamos de ver muita coisa que naquela imensidão merecia tempo para ser vista, mas tudo o que vi foi, de qualquer maneira, imperdível.
Pedalar longas distâncias, por montes e vales, tem muito de zen, muito de suor, muito de desvario. Quase não dá para explicar. Contribuiu para essa sensação não só o facto de se alcançar o cocuruto do roteiro, mas o privilégio de estar ali, numa região belíssima, no meio de vales e rios, pontes, terras verdes pontilhadas de animais, de muitas tonalidades e cheiros. A certa altura do caminho, mesmo lá no topo da montanha, todo o sofrimento desaparece e uma sensação de quase euforia nos trespassa o corpo. A fronteira entre a bicicleta e o nosso corpo é a nossa mente, pois a bicicleta torna-se parte integrante de nós, é a extensão do corpo, reage a cada movimento. Talvez por tudo isso, me empolguei e comecei a arrasar a estrada, não respeitando mais subida nenhuma, galgando com fúria tudo o que me aparecia pela frente. Sem alguma racionalização anterior, pedalar tem que ser natural, tão natural como caminhar, e continuar zen para o poder repetir.
Agora vou gozar duas semaninhas de férias e sarar as feridas de um estúpio trambolhão. Os meus amigos randonneiros terão nova aventura velocipédica já no final do mês. Será o Alqueva 400, uma bela estirada por planaltos alentejanos. Estarei com eles. Força rapazes.
Publicado em marcas do selim
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![textos de Marcos Paulo Schlickmann [4] Alguns conceitos básicos do transporte urbano de passageiros (1ª parte)](https://nabicicleta.files.wordpress.com/2013/11/figura-11.jpg?w=200&h=200&crop=1)




