dona isabel

Tem um sorriso discreto quase imperceptível e pele branca, suave como penas. De gestos delicados, os seus olhos brilhantes de um verde água escondem uma personalidade decidida. A senhorita é uma santa, garantem seus fiéis serviçais. Belíssima, ainda adolescente, é de saúde frágil. Não pode correr um ar encanado e pronto, lá fica ela acamada, constipada, pneumónica. Quando a doença lhe agudiza a respiração não gosta de ser tratada por coitadinha. Cura-se de achaques e resiste à sentença. Levanta-se decidida e segue a sua vidinha fidalga. Ao contrário de outras donzelas da nobreza, exuberantes, ela não gosta de chamar a atenção quando vai a um baile social. Caminha devagar e sorrateira pelos cantos, não tenta seduzir e nem tem novidades para partilhar. Pretendentes impetuosos e insistentes querem perturbar o seu jovem coração, sem que ela os queira. Ela nem nota e quando nota, não quer. Apenas um, um único amor balança o seu coração e é por ele que ela sonha todos os dias. Velho, experiente e resistente. Quando ela se senta à beira do lago, solitária, pensativa, tão absorta em si mesma, parece querer mergulhar no azul e se perder com ele. À sua frente aproxima-o de si, deixa-o inclinar-se e pousa-o gentilmente no seu ombro. E ele fica ali, estático, simplesmente a aguardar que os dedos finos da jovem lhe toquem com delicadeza. E ao agitar do arco ela renasce ali mesmo, esquece o seu cansaço, os seus temores, as suas doenças, os seus males e deixa-se voar, de olhos fechados, guiada num acto de amor pelos acordes do seu violoncelo. 

Foi mandada construir em 1754, segundo o risco de Nicolau Nasoni, tendo o projecto ficado incompleto. Pertenceu à família Noronha e Menezes. O portão de acesso à quinta é mais antigo, dos fins do séc. XVII, sendo notável pela riqueza decorativa do brasão de família e das duas sereias. Em 1904, foi doada à Santa Casa da Misericórdia do Porto. Hoje, a quinta encontra-se dividida pelo Hospital da Prelada, o encerrado Parque de Campismo, a Via de Cintura Interna e zonas residenciais. A casa encontra-se há muito em degradação acelerada. A quinta e a casa ficam mesmo ali ao lado do prédio onde resido. Gostaria de ver tão rico e importante património da minha cidade recuperado e preservado como bem merece. 

Ó Santa, tenha lá Misericórdia da sua bela Casa!

 

Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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6 respostas a dona isabel

  1. Teté diz:

    >Tu e todos nós aguardamos que o património seja preservado como deve ser! Mas estamos a esperar sentados há muito tempo… ;)Beijocas!

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  2. Ka diz:

    >Diga lá, ó faxabôre…Esta casa foi durante alguns anos um lar da Santa Casa da Misericordia e fechou por falta de condições. Sabes que há uns anos vi os primeiros filmes realizados em Portugal, por volta de 1894 se não me engano, e um dos pequenos filmes a certa altura passava-se nos jardins desta casa. Foi dilacerante ver o que era a casa e como está agora…Beijinho

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  3. Si diz:

    >Tenho imensas e boas recordações deste monumento, que chegou a albergar algumas iniciativas do extinto FAOJ. Um desperdício de história, mais um, no nosso Porto…Mas o destaque vai para o texto.Uma delícia de se ler, Paulofski, um daqueles momentos de inspiração que jorraram em catadupa para o teclado!

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  4. >Há tantos desse maus exemplos no Porto e pelo país fora, que até me dói a alma.

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  5. diz:

    >Procura o contacto do pelouro responsãvel da CMP pela reabilitação hurbana e envia-lhe este post…pode não fazer nada, mas que o vai por a pensar, isso te garanto.AbçTó (Mano)

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  6. Gi diz:

    >Ui, ui … o que foste desencantar. Tantos desencantos patrimoniais por este pequeno País a fora!

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apenas pedalar ao nosso ritmo.

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