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Transformação em duas rodas

Ciclistas Urbanos de Fortaleza“Ao mesmo tempo em que grades protegem as residências e deixam o vazio ecoar nas ruas, são as bicicletas que montam o ativismo de quem crê na ocupação como forma de superar o medo. Para os membros da Associação dos Ciclistas Urbanos de Fortaleza, a Ciclovida, uma bike não é apenas lazer: é um meio de transporte e de transformação.

Para Lucas Landim, presidente da associação, tanto bicicleta quanto o modal pedestre são essenciais para desmitificar a sensação de medo em Fortaleza. “Quanto mais gente na rua, mais segura essa rua”, analisa. Segundo ele, um biker tem uma compreensão diferente das demais pessoas por conta dessa intensa circulação. “Quem usa bicicleta tem menos medo do que o restante. A gente conversa com flanelinha, com artista circense e, sinceramente, não vejo motivo para essa sensação de medo”, garante.”

(artigo de André Bloc em O Povo online, aqui)

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textos de Marcos Paulo Schlickmann [17] Há espaço para todos. A solução para Almere

Para contrastar o que escrevi no texto anterior, vou agora dar um bom exemplo de como uma cidade plane(j)ada de raiz pode conjugar de forma inteligente todos os meios de transporte, sem necessariamente privilegiar o automóvel. Esta cidade se chama Almere1,2, fica próximo de Amesterdão (Países Baixos) e é considerada cidade-irmã de Milton Keynes, pois as duas nasceram na mesma época e com propósitos similares: dar uma alternativa de vida urbana mais próxima natureza (as duas tiveram forte influência do modelo Garden City do Ebenezer Howard) e com menores densidades populacionais, convidativo para famílias querendo fugir da confusão urbana dos grandes centros.

Tabela 1 - Repartição modal (%) de Almere e Milton Keynes. Fonte: http://www.epomm.eu/tems/index.phtml

Tabela 1 – Repartição modal (%) de Almere e Milton Keynes. Fonte: http://www.epomm.eu/tems/index.phtml

Diferente de Milton Keynes que importou um estilo “arrojado” pró-automóvel (primeiro “encaixamos” o automóvel, depois o resto se vê), Almere não desprezou suas raízes. Mantendo-se firme à forte tradição holandesa de plane(j)amento integrado dos usos do solo e transportes multimodais, Almere foi construída e ainda se expande sobre uma terra reclamada do mar. Muitas vezes os Países Baixos são só lembrados pelas bicicletas, mas é surpreendente a visão multimodal de plane(j)amento de transportes que esse país tem já há tempos. Eles foram provavelmente os primeiros a perceber a necessidade de se ter muitas alternativas baratas e competitivas e não o contrário. A oferta de transporte de Almere pode ser resumida da seguinte forma3,4,5:

  1. Automóvel: Acesso a 2 autoestradas nacionais e rede viária não-óbvia, significando que não há necessariamente acesso universal ao automóvel, com diversas soluções de acalmia de tráfego e espaço partilhado
    (http://en.wikipedia.org/wiki/Shared_space).
  2. Autocarros/Ônibus: Almere possui uma rede de corredores segregados com um sistema tipo BHLS – Bus with High Level of Service6, que pode ser considerado o BRT europeu, chamado de MAXX. Num próximo texto irei abordar com mais detalhe o sistema de Almere e outros BHLSs e BRTs.
  3. Comboio/Trem: Almere tem 6 estações! Milton Keynes tem 1. Nessa simples análise pode-se perceber já a importância dada ao sistema ferroviário. Estas estações funcionam realmente como o centro dos bairros, servindo como um hub intermodal, onde os autocarros, as bicicletas, automóveis e táxis são os meios alimentadores.
  4. Bicicletas: Almere possui uma “autoestrada” totalmente segregada para bicicletas ao longo da linha de comboio e também soluções diversas maioritariamente segregadas inseridas na malha urbana.
  5. A pé: Calçadas e passeios de excelente qualidade e boa largura, com preferência total ao pedestre, pessoas em cadeiras de rodas, carrinhos de bebê e crianças.

No sentido oposto de Milton Keynes, Almere soube como segregar os vários corredores de tráfego, integrando nas estações, conseguindo compatibilizar as várias densidades populacionais e o uso do solo misto e policêntrico, medidas que levam à diminuição das viagens, ao menor uso do automóvel e ao maior uso da bicicleta e meio pedonal7,8.

Figura 1 - Estação central de Almere.  Fonte: Http://Www.Skyscrapercity.Com/Showthread.Php?T=426671

Figura 1 – Estação central de Almere.
Fonte: Http://Www.Skyscrapercity.Com/Showthread.Php?T=426671

Figura 2 - Uma cidade que conseguiu conjugar baixas/médias densidades e natureza com transporte público. Fonte: http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=426671

Figura 2 – Uma cidade que conseguiu conjugar baixas/médias densidades e natureza com transporte público.
Fonte: http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=426671 

Figura 3 - Uma rua residencial totalmente partilhada (sem nenhuma medida de segregação) que acaba…  Fonte: Google Earth

Figura 3 – Uma rua residencial totalmente partilhada (sem nenhuma medida de segregação) que acaba…
Fonte: Google Earth

Figura 4 - Num cruzamento onde os ciclistas podem seguir a direito por uma via totalmente segregada. Uma solução muito comum. Fonte: Google Earth

Figura 4 – Num cruzamento onde os ciclistas podem seguir a direito por uma via totalmente segregada. Uma solução muito comum. Fonte: Google Earth

Outro exemplo de Almere: Na foto a seguir uma zona residencial de baixa densidade (para padrões holandeses) com um aprazível ambiente, muito verde e água. Em vermelho está o percurso para bicicletas partilhado + segregado (ponte) + partilhado. Em preto está o percurso para o automóvel, muito menos óbvio. Em azul o corredor BUS MAXX. Neste pequeno exemplo está resumido a essência de Almere: Baixa densidade (mas nem tanto), muita natureza, boa oferta de todos os meios de transporte.

Figura 5

Figura 5 – Almere. Zona residencial. Fonte: Google Earth

Na estação central de Almere uma boa solução que permite o acesso a todos, inclusive automóvel: Kiss and Ride (deixar ou buscar alguém na estação) e Park and Ride (não aparece na foto mas há oferta na rua e em parques de estacionamento).

Figura 6 - Estação central de Almere. Fonte: Google Earth

Figura 6 – Estação central de Almere. Fonte: Google Earth

Figura 7

Figura 7 – Vários níveis de segregação. Fonte: Google Earth

Referências:

  1. http://en.wikipedia.org/wiki/Almere
  2.  https://goo.gl/maps/1uZue
  3. http://bicycledutch.wordpress.com/2011/12/10/fast-urban-cycle-route-spoorbaanpad-almere/
  4. http://departmentfortransport.wordpress.com/2012/06/30/frankly-mr-franklin/
  5. http://arch.design.umn.edu/travel/netherlands/documents/
    Doherty_Cycling_in_the_Netherlands.pdf
  6. http://www.uitp-bhls.eu/
  7. http://eau.sagepub.com/content/8/1/67.full.pdf
  8. http://faculty.arch.utah.edu/bartholomew/Policies_Places.pdf
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pagar para andar de bicicleta!… iss’é qu’era bom!

“Pagar para andar de bicicleta. É esta a proposta da empresa Altiuz, em Santiago do Chile, que decidiu importar a medida da França e da Alemanha e começar a pagar aos seus funcionários por cada quilómetro percorrido em bicicleta no trajecto casa-trabalho-casa.”

A notícia veio ontem no site menosumcarro.pt e dá conta do incentivo de uma empresa chilena, premiando os funcionários que pedalem ou caminhem nas suas deslocações para o trabalho. No nosso país isso é ainda uma ficção, mas em alguns países europeus essa medida é já uma efectiva realidade. Já aqui havida partilhado uma notícia no JN, a propósito.

O hábito diário de pedalar, além de ser uma forma agradável e saudável de mobilidade urbana, pode ser adoptado para as pessoas se deslocarem para o trabalho e um incentivo extra às empresas colaborarem na mobilidade dos seus empregados. Aproveito o ensejo e relembro este artigo que publiquei sobre a temática “as empresas e a bicicleta”.

Um aparte.

Ora, este  governo, vendedor de banha da cobra, entende que a fuga fiscal e a economia paralela se combate com ilusões e géneros. Para premiar contribuintes cumpridores das suas obrigações fiscais resolve sortear carros de luxo! Afinal, este é um país de ricos!!!

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can’t miss [85] porto24.pt/memoria/

Joaquim Leão: a amarela do Adamastor

“O triunfo de Joaquim Leão na Volta a Portugal em Bicicleta de 1964 teve o impacto de um vendaval na hierarquia do ciclismo.”…

Foto: Adoptarfama/Nuno Lopes/FC Porto

Foto: Adoptarfama/Nuno Lopes/FC Porto

…” Campeão da lama (ciclocross) e glutão do asfalto (seis títulos nacionais), Leão trouxe prosperidade e animação ao ciclismo com a forma descomplexada de correr. Foi ao Tour e à Vuelta, renegou as desventuras e teve mais cinco top-ten na Volta. Esta camisola amarela rebentou pelas costuras na sua peitaça de adamastor, ganhou sulcos e rasgos pela felicidade de 50 mil pessoas que o esperavam no Porto, e brilhou intensamente desde o Alto da Serra de Valongo até Sobrado, terra Natal, onde 100 mil pessoas expunham a emoção máxima no trajecto festivo final, feito em descapotável. Não se voltou a ver festa igual. A apoteose começou em Alvalade, com o beijo da vitória dado pela actriz Ivone Silva, inaugurando uma tradição importada do Tour, segundo a qual só as estrelas tinham o privilégio de beijar os campeões…”.

(Lê toda a história deste Leão dragão que o Museu FC Porto By BMG nos conta, aqui)

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utilização de e-bikes

Recentemente, recebi um e-mail solicitando o preenchimento de um mini-questionário sobre a utilização de bicicletas eléctricas. Helena Matos está a fazer uma pesquisa sobre a utilização de e-bikes e pretende “chegar ao maior número de utilizadores de bicicleta possível (não precisam de ser utilizadores de pedelecs)”. Como tal, pediu também que partilhasse este inquérito, dando a minha colaboração com um post para o efeito. (link para o inquérito está aqui)

Electric Bicycle Diagram;  fonte: en.wikipedia.org

Electric Bicycle Diagram. Fonte: en.wikipedia.org

Numa abordagem rápida sobre o assunto, há dois tipos essenciais de e-bikes. As que são totalmente alimentadas por um motor eléctrico, como uma scooter, e as Pedelec (Pedal Electric Cycles) que são a combinação da bicicleta tradicional a pedais com a assistência de um motor eléctrico, o qual sustenta o esforço do ciclista somente quando este estiver a pedalar. Existem também bicicletas com motor de combustão interna, como as “Bina“.

A principal vantagem destes veículos é permitir ao ciclista exercer apenas a quantidade de esforço necessário para o movimento da bicicleta. Um projecto híbrido faz da bicicleta um meio adequado para viagens mais longas, onde ficar sem carga pode representar um problema. Um motor no cubo da roda, dianteira ou traseira, fornece mais energia ao pedalar e recarrega a bateria durante a desaceleração. As baterias recarregáveis de iões de lítio vieram oferecer mais benefícios no uso das e-bikes. Uma desvantagem é o peso destas bicicletas. Se algo impedir o motor de prestar assistência, o peso extra do equipamento eléctrico irá contrariar a facilidade de utilização na pedalada. À medida que a tecnologia evolui, estas bicicletas vão se tornando mais leves e práticas para uma ampla gama de utilizações. Existem desde já vários modelos disponíveis no mercado com preços e autonomia ajustados às necessidades dos seus utilizadores, dando assim mais um argumento para a mobilidade ciclável nas cidades.  

Eu não sou utilizador de e-bikes, mesmo assim empreendi a tarefa de preencher o questionário. A certa altura perguntei a mim mesmo se haveria algum dia de utilizar uma bicicleta eléctrica? Possivelmente! Uma bicicleta eléctrica não é para mim uma necessidade do momento, mas na vida de um ciclista “a sério” quem sabe se não poderá vir a ter a sua importância! As pessoas que geralmente optam por este tipo de bicicleta, normalmente, procuram a conivência de um motor auxiliar para chegar mais longe e superar facilmente uma variedade de terrenos. O princípio é o mesmo e aplica-se a qualquer pessoa que tenha vontade de pedalar, e algum tipo de handicap para o fazer. A bicicleta eléctrica permite disfarçar o peso da idade, o esforço físico, a lentidão e o suor. É uma boa opção para manter os níveis de aptidão. Pode ajudar os ciclistas com problemas físicos, com lesões leves a moderadas e, num bom compromisso, auxiliar na protecção da lesão. Independentemente do nosso nível de condicionamento físico, qualquer um pode ter lidar com uma lesão crónica ou condição médica. Permitindo pedalar sem dificuldades, as e-bikes são também uma boa forma de reabilitação.

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e agora, um interlúdio musical

“Andar en Bicicleta”,  musica y letra de Pablo Galbusera, num video-clip muito bem-ajambrado. Ora vejam…

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devaneios ao arredondar uma curva

bom dia sol

Espreito, radiante,  o dia soalheiro pela janela da sala. Sinto que a sua energia me fará bem. Os dias curtos sempre me deixam letárgico. A escuridão reduz o meu humor e afrouxa a minha vontade de sair, só por sair, a pedalar, a aventurar-me nas noites molhadas que constrangem. Com ânimo, dou uma olhadela ao retrato da minha mãe. Espero pacientemente por dias melhores, para sair da palidez do inverno e deste aperto, que me mói.

Cá fora brilha um sol, ainda fraco demais para tirar o frio do meu corpo, trémulo. Circulo pelo bairro, edifícios de tijolo cozido, insensíveis e indolentes que me rodeiam. Sobre a relva paira uma neblina, uma almofada delicada que me embala o movimento. Não resisto ao resplendor e acomodo a bicicleta imóvel à árvore, desfolhada, incorporando o aço na luz radiante do dia, para a fotografia.

Ao pedalar bem cedo, para o trabalho ou outro sítio qualquer, sinto o mundo exterior, a brisa matinal que me liberta da asfixia das quatro paredes. O ar gelado que chicoteia o meu rosto, flui pelas narinas e insufla os pulmões de vida. Um prenúncio que melhores dias virão. Faz-me acreditar que sim. Morde-me a pele, toca-me os dedos, dá ritmo às rodas que rolam debaixo de mim. Ao arredondar uma curva, revigorado, o meu humor começa a nivelar.

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fotocycle [117] “uns sentem a chuva, outros apenas se molham”

a húmidade faz a força

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textos de Marcos Paulo Schlickmann [16] Bicicletas não são automóveis. Ou a não-solução para Milton Keynes.

O conceito de segregação de tráfego é aplicado quando se deseja separar vários meios de transporte com velocidades, dimensões, volumes de tráfego, prioridades e níveis de segurança e risco (muito) diferentes. Apesar de ser uma prática já antiga, datada desde a época da expansão das ferrovias, segregar fluxos era pouco comum nas cidades. Era uma prática rural, que basicamente se resumia a um par de cancelas, avisos sonoros e aquela conhecida sinalização de segurança: Pare, Escute e Olhe! Passagem do comboio/trem!

Porém com o advento maciço do automóvel nas cidades e com suas velocidades absurdas que facilmente podem matar, os engenheiros de tráfego perceberam que a segregação espacial teria de vir para as cidades. Foi o que aconteceu: as ruas deixaram de ser lugares de convívio público e passaram a ser corredores de segregação de tráfego. Afinal desde pequenos nós ouvimos: Atenção, olhe para os dois lados, a rua é perigosa!

Foi o automóvel que trouxe o conceito de segregação para a cidade e este conceito foi largamente empregado nos desenhos das cidades durante o século XX.

Figura 1 - São Paulo antes do automóvel. Fonte: http://cafehistoria.ning.com/photo/largo-da-se-sp?context=user

Figura 1 – São Paulo antes do automóvel. Fonte: http://cafehistoria.ning.com/photo/largo-da-se-sp?context=user

Depois da segunda guerra mundial e com o crescente aumento populacional nos principais centros urbanos britânicos, o Reino Unido instaurou o programa New Towns1, um programa de desenvolvimento de cidades plane(j)adas de pequena e média dimensão no interior. Dentre essas várias cidades uma delas foi Milton Keynes2.

Milton Keynes se formou da junção de várias vilas e aldeias a noroeste de Londres e foi desenhada sobre aquele antigo tecido semirrural com soluções muito arrojadas: Rede viária tipo Grid (grelha), avenidas superdimensionadas e com elevado limite de velocidade e forte segregação espacial dos usos do solo (habitação em X, comércio em Y, serviços em Z). Semelhante à Brasília, Milton Keynes é uma cidade “quase corbusiana” que coloca o automóvel como rei. Porém, os pedestres e os ciclistas não foram esquecidos na última. Ou foram?

2 - Uma rotunda/rotatória típica de Milton Keynes. Reparem no tamanho da volta que o ciclista/pedestre precisa dar! (Via pedonal e ciclável partilhada em verde) Fonte: GoogleMaps

Figura 2 – Uma rotunda/rotatória típica de Milton Keynes. Reparem no tamanho da volta que o ciclista/pedestre precisa dar! (Via pedonal e ciclável partilhada em verde) Fonte: GoogleMaps

Figura 3 – Outra, desta vez com passagens superiores! (Via pedonal e ciclável partilhada em verde)  Fonte: GoogleMaps

Figura 3 – Outra, desta vez com passagens superiores! (Via pedonal e ciclável partilhada em verde)
Fonte: GoogleMaps

Apesar de ter uma rede de vias segregadas exclusiva para uso pedonal e ciclável de 200km de extensão, conhecidas como Redways3, Milton Keynes apresenta uma repartição modal inesperada. Comparada4 com a média britânica (2001) de 2,9% de repartição modal para bicicletas, Milton Keynes só apresenta 3,0%. E os dados para 2009 não são muito melhores.

Tabela

Tabela 1 – Repartição modal (%) de Milton Keynes. Fonte: http://www.epomm.eu/tems/index.phtml

Mas o que deu errado? Não era suposto haver mais gente a se deslocar de bicicleta para o trabalho, escola, etc.? Quando se plantam ciclovias não deveria se colher ciclistas5? Quando projetaram as Redways em 19716 os responsáveis disseram:

“Redways servirão para mostrar, pela primeira vez em uma escala da cidade, como as viagens para pedestres e ciclistas podem ser feitas de modo conveniente, seguro e agradável e, sobretudo, para reduzir acidentes envolvendo pedestre, ciclistas e especialmente crianças.”

Só esta afirmação já mostra que isso não iria dar certo e que quem projetou as Redways de certeza não era nem pedestre nem ciclista urbano. Vou escrever o motivo em letras garrafais:

PEDESTRES E CICLISTAS TÊM NECESSIDADES DIFERENTES!

Há uma teimosia generalizada por parte dos decisores públicos em meter pedestres e ciclistas juntos no mesmo saco. Esta atitude mostra claramente:

  1. A falta de vontade de fazer as coisas corretas;
  2. O despeito pelos modos suaves e pelo dinheiro público;
  3. A vontade de criar oferta cicloviária só porque sim (para turista ver) e não por se querer realmente mais ciclistas;
  4. O verdadeiro objetivo escondido por trás desses projetos: não incomodar o deus-sagrado automóvel e a fluidez do tráfego.

E essa teimosia, que com certeza guiou o projeto de Milton Keynes, trouxe as seguintes consequências4,6,7:

  1. Fraca manutenção devido ao pouco uso e crescente contestação pública de sua utilidade não-recreativa;
  2. Rede insegura (insegurança física e pessoal), considerada mais insegura que a rede viária normal em certos trechos, muitos conflitos com pedestres, ciclistas, crianças, cães e até cavalos!
  3. Ciclistas pouco experientes com o tráfego (devido à excessiva segregação) acabam por ter atitudes irresponsáveis, criando conflitos e desincentivando os demais a pedalar;
  4. Oposição por parte dos motoristas em partilhar a rede viária normal com os ciclistas, devido à existência das Redways.

Atualmente as Redways são promovidas como infraestrutura de lazer8.

Concluindo:

  1. Devemos então integrar todos os meios e não segregar? Não. Devemos analisar onde é lógico segregar e onde não é. Em lugares com elevado volume de tráfego e altas velocidades devemos sim segregar, nas ruas locais sem dúvida que o automóvel pode conviver tranquilamente com as bicicletas.
  2. Acredito que as altas velocidades permitidas em algumas vias de Milton Keynes foram o principal motivo para criar uma rede para pedestres e ciclistas totalmente segregada.
  3. Se os projetistas e plane(j)adores urbanos e de transportes querem realmente melhorar as condições para o uso massivo da bicicleta como meio de transporte, peçam ajuda aos ciclistas que já se servem das condições atuais. Diferente dos motoristas e usuários do transporte público, os ciclistas estão sempre dispostos a colaborar com o poder público, respondendo inquéritos, fazendo contagens de tráfego, ajudando no desenho de novas infraestruturas.
  4. O ciclista e o pedestre são permeáveis, passam levemente pelo tecido urbano, não precisamos escondê-los em pontes, túneis, etc. Eles não são os causadores dos problemas., não são eles que “atrapalham o trânsito”.
  5. Porém infelizmente, passado mais de 30 anos da implantação de Milton Keynes, alguns ainda não aprenderam. Vejam esta ideia estúpida para Londres (que por acaso tem o dedo do mesmo arquiteto que participou de um projeto para Milton Keynes: Norman Foster):
    http://www.copenhagenize.com/2014/01/the-ridiculous-sky-cycle-by-norman.html.

Referências:

1. http://en.wikipedia.org/wiki/New_towns_movement

2. http://en.wikipedia.org/wiki/Milton_Keynes

3. http://en.wikipedia.org/wiki/Milton_Keynes_redway_system

4. http://aseasyasridingabike.wordpress.com/2012/04/26/they-built-it-and-they-didnt-come-the-lesson-of-milton-keynes/

5.  Nelson, A., and Allen, D. (1997). If You Build Them, Commuters Will Use Them: Association Between Bicycle Facilities and Bicycle Commuting. Transp. Res. Rec. J. Transp. Res. Board 1578, 79–83.

6. http://www.cyclecraft.co.uk/digest/2decades.html

7. http://www.cycling-embassy.org.uk/wiki/milton-keynes-cycle-network-more-dangerous-road-network

8. http://www.destinationmiltonkeynes.co.uk/What-to-do/Sports-and-Activities/Cycling-in-Milton-Keynes

 

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can’t miss [84] dourobike.com

Concorrência saudável…

a viagem do Lars Continuar a ler

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