máquina do tempo, uma máquina intemporal

50 soma e segue
Não é nenhum segredo que estou com 50 anos e especialmente quando estou a pedalar eu não sinto a minha idade… Mas, qualquer que fosse a minha idade, estando alapado no selim das minhas bicicletas era suposto sentir-me como!? Na verdade, sinto-me diferente do que há uns trinta anos atrás, quando andava na minha primeira bicicleta “de corrida”. Bem sei que para qualquer distância já não estou tão rápido, e isso vou sentindo ao pisar os pedais. Mas eu pedalo mais pelo prazer, a pura alegria e sensação de liberdade que isso me dá. Faz-me sentir bem. É, de certa forma, uma terapia espiritual. Os meus pensamentos voam e fazem esquecer o esforço físico. A bicicleta torna-se uma extensão do corpo, é a coisa mais próxima de voar sem realmente sair do chão. Homem e máquina que se tornam um e não há nenhum outro sentimento parecido. Apenas o presente ou o momento é real e a minha bicicleta é como uma máquina do tempo, que me leva de volta a sensações, as mesmas que experimentei há 30 anos e mais.

Andar de bicicleta é uma das minhas muitas paixões na vida. Precisamos de paixões, paixões que nos mantenham verdadeiramente vivos.

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ciclofilia [133] Rastros e Pegadas pela Estrada Real

de Leandro Franco

“Um homem e seu cão, uma bicicleta e uma caixa de feira, 720kms e 18 dias unidos pela fidelidade plena e redescobrindo o modo de viver.”

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can’t miss [150] asminhasbicicletas.blogspot.pt

Calças para andar de bicicleta?

asminhasbicicletas

Cada um deve vestir aquilo que quiser para o seu percurso de bicicleta, se for casa/trabalho ou trabalho/padaria ou escola/casa ou outro qualquer… não há vestuário próprio, e não é preciso nem ir todo casual nem todo licrado. O que importa é ir, com o que se sentir bem.

Eu costumo levar a roupa do trabalho da cintura para baixo, e da cintura para cima levo uma tshirt, ou camisola mais quente quando está frio ou impermeável quando está de chuva, e mudo para uma camisa/pólo no destino que transporto na “bagageira” da bicla ou previamente deixei no local de destino em dias anteriores.

Mas uma “maleita” que me tem assolado é que não ganho para calças!”… (para continuar a ler clicar no link)

O postal  aborda um assunto caro a muito ciclista urbano. E o que tem a ver o cu com as calças? A expressão “O que o cu tem a ver com as calças?”, conta a lenda Levi’s, era justificável para os mineiros que não entendiam a razão de se usar brim de barraca para fazer calças. A razão era que as calças durariam mais nos fundilhos.

Ora eu também não ganho para calças, e só umas Lee vintage que me voltaram a servir depois de vinte anos, e vinte quilos, resistem ao meu commuting alapado no selim. Tudo o resto que seja ganga tende a ganhar entradas de ar forçado nos fundilhos das calças. Vai daí, o postal de hoje tem também a etiqueta “passe a publicidade” e passa por recordar uma marca nacional de roupa dedicada ao ciclismo, a Rasto de Geraldo Cirineu veste o ciclista urbano de estilo mas sobretudo com conforto e funcionalidade.

rastoJá está na lista de prendas pró meu aniversário.

 

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reciclando [19] de olho no trânsito

Alguns condutores estão tão acostumados a viver em ruas apinhadas de carros que acreditam ser essa a ordem natural das coisas. Por conta disso, não percebem que uma bicicleta que circula à sua frente, ao seu lado, atrás de si, é possivelmente um carro a menos. Na sua inabilidade de se colocar no lugar do ciclista, eles nem dão conta da nossa presença e, se dão, têm dificuldade em partilhar a via. O ciclista tem o direito de transitar como qualquer outro veículo, porém alguns motoristas parecem ignorar as regras do Código da Estrada, ou mesmo ignorar as recentes alterações, achando-se os donos disto, colocando ciclistas e peões em situações de risco.

Um ciclista experiente sabe ocupar o lugar correcto na viaUm ciclista experiente sabe ocupar o lugar correcto na via, seguindo na direcção do fluxo automóvel, colocando-se na via de modo a estabelecer uma margem de segurança com a qual se sinta à vontade, consoante as condições da estrada, tráfego e demais meio envolvente. Mas mesmo assim não é o bastante para escapar dos automobilistas distraídos ou dos que nem querem saber de nós. Todos sabem diferenciar os comportamentos seguros dos comportamentos incorrectos no trânsito. Geralmente, não conseguimos manter sempre a mesma atenção durante o tempo todo, enquanto dirigimos ou pedalamos. Constantemente o nosso pensamento leva-nos a matutar outras coisas, sejam elas importantes ou não. A concentração nem sempre está presente e é habitual ver algo que nos distrai, e por instantes ficamos a observar o que não devemos enquanto dirigimos.

de-olho-no-transito-1Pedalar o mais à direita possível dá uma falsa sensação de segurança. As razias são facilitadas e o ar deslocado pela ultrapassagem do primeiro carro é um alerta para que os que vêm atrás façam o mesmo. Com receio, somos levados intuitivamente a nos aproximarmos do passeio e a ficarmos entalados entre os carros e a berma, ou o passeio, o que é meio caminho andado para nos colocarmos em risco. Por experiência, tanto ao volante como no pedal, não há um dia em que não assista a todo o tipo de infracções por parte dos automobilistas. O simples acto de ligar o pisca-pisca para indicar a mudança de direcção é muitas vezes esquecido.

de olho no transito 2Há uma situação em particular que resulta muito perigosa para o ciclista. É o caso do chamado “gancho à direita”. Isso acontece quando um automobilista ultrapassa um ciclista para logo a seguir virar à direita, entrando à frente do ciclista. A mudança de direcção é inclusive muitas vezes efecutada sem a devida sinalização, o que coloca o ciclista em sérios riscos. Numa situação de recurso, e para evitar o embate, se o conseguir, o ciclista trava a tempo ou simplesmente desvia-se, virando também à direita. Não devemos contar que reparem sempre em nós e, como tal, é de evitar ficar lado a lado com os carros antes de cruzamentos ou saídas à direita, como os parques de estacionamento, garagens ou bombas de gasolina. O mais sensato é o ciclista ocupar o centro da faixa, com a probabilidade de assim desencorajar o automobilista a ultrapassá-lo. No entanto, não contes muito com facilidades.

de olho no transito 3Quando nos deparamos com congestionamentos na estrada, uma fila de carros, o mais conveniente é passá-los sempre pela esquerda. Assim, pelo menos, o ciclista tem algum espaço de manobra, seguindo em frente e permitindo que outros veículos virem à direita sem colocar a sua integridade física em perigo. O ciclista deve posicionar-se no centro da faixa de rodagem, pois isso dá maior sensação de segurança e permite ao automobilista a oportunidade de perceber o ciclista que segue à sua frente. Ao pedalar pelo centro da faixa de rodagem os ciclistas reivindicam o seu espaço na estrada. As suas intenções são sempre previsíveis e um simples rodar de cabeça e esticar um dos braços para o lado, vai comunicar com os automobilistas, indicando-lhes o que pretende fazer. Eu pedalo no meio da rua, tranquilamente, sem stresses, e vou fazer isso enquanto não houver um espaço decente e dedicado a mim.

infografias: davesbikeblog.squarespace.com
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fotocycle [181] Cósmica

Porto de Carreiros

É amiga, confidente e terapêutica. Leva-me para todo o lado e faz questão de requintar o meu quotidiano. Nela chego ao trabalho bem relaxado e volto a casa menos stressado. Sem sobressaltos, passando por lugares tranquilos, saboreando o tempo, superando limites. Pedalo, porque tenho tempo para desfrutar do ar livre, experimentar uma vida simples, de um modo simples. A bicicleta tem essa capacidade maravilhosa de nos desentorpecer, de nos fazer perceber a real dimensão da distância, do relevo, da temperatura. Em ter os olhos abertos e descobrir outras visões do momento, outras formas de ver o mundo. Aproveito cada momento.

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questionário sobre ciclismo urbano

Questionário sobre ciclismo urbano
“Boa noite,

Vi o seu blog e tomei a liberdade de lhe enviar este email.

Estou a fazer um estudo sobre o ciclismo urbano em Portugal e venho pedir-lhe apoio no preenchimento e divulgação do questionário que servirá de apoio à minha dissertação de mestrado. O objectivo do estudo é entender as motivações, escolhas de percursos e o impacto da inovação no ciclismo urbano em Portugal.
Todos os dados recolhidos são confidenciais e anónimos.

O questionário demora apenas 5 minutos.

http://goo.gl/forms/MpmwMiOcrh

Muito obrigada,
Carlota Léchaud”

Bora amigos, é só colaborar que já, já,  voltam a pedalar!

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as loiras são outro nível

vanMoof by DouroBike

aqui havia falado das VanMoof, bicicletas holandesas com um design elegante e invulgar, designadas como uma bicicleta urbana perfeita, minimalista, enaltecendo o estilo mas mantendo todo o conforto. São biclas resistentes, adaptadas à cidade, com pouca manutenção e a particularidade de esconder alguns dos seus componentes dentro dos seus gorduchos tubos de alumínio.

A empresa VanMoof está a preparar o lançamento de um novo modelo que tenta mudar o referencial do que as pessoas consideram uma bicicleta eléctrica, permitindo inclusive que se conecte à internet. Chamada de ‘Electrified S’, a bicicleta chega ao mercado nos próximos dias e une a tecnologia com o design requintado a que nos habituou. Quem a vê nem imagina que dentro da tubagem esconde um motor eléctrico de 250W e bateria com capacidade para durar até seis horas de pedalada.

Além disso, a bicicleta conta com um ecrã sensível ao toque que permite controlar a velocidade, as luzes, bloquear e soltar o bloqueador num impulso. Através de uma aplicação para smartphone, iOS ou Android, a bicicleta torna-se interactiva, sendo possível ajustar algumas configurações. Entre as varias possibilidades abertas pela conectividade, a bicicleta utiliza tecnologia Bluetooth e um chip 3G, contendo um GPS, onde se realça a possibilidade de localizar a bicicleta, ajudando em casos de roubo, por exemplo. O preço de quase três mil euros também é arrojado.

Quem as quiser admirar em pele e alumínio, sempre pode passar na ciclovia da Foz do Douro e espreitar a montra da DouroBike.

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can’t miss [149] ionline.pt/artigo

Guerra civil em Lisboa

Tiago Mota Saraiva

“Não querendo desvalorizar os quilómetros de ciclovias construídos, estes têm sido projetados preferencialmente como circuitos de lazer e não de trabalho. Nos raros casos em que se encontram em eixos centrais, as ciclovias são afetas aos passeios, transformando-se inevitavelmente nos caminhos preferenciais de cidadãos com mobilidade reduzida em fuga à calçada.

Mas, se este problema de desenho tenderá a ser resolvido com o passar do tempo, há um problema cultural que urge resolver.
A maioria dos automobilistas não sabe conduzir em coexistência com o ciclista. É raro o automobilista que não se cola à bicicleta e até buzina quando o ciclista lhe condiciona a velocidade em vias de sentido único – ainda que em zona residencial ou de velocidade condicionada – ou que tem a perceção de que o ciclista tem uma largura de segurança maior que o espaço que ocupa, pois pode ter de se desviar de um buraco ou de um carril de elétrico que, para o carro, é indiferente.

Se é certo que a condução dos ciclistas não está isenta de erros, aquele erro coloca em causa a sua vida e, na pior das hipóteses, amolga a chapa do automóvel. Os riscos são desequilibrados; por isso, urge desequilibrar a lei. Tal como sucede em tantas cidades, é fulcral assumir a prioridade do ciclista sobre o automóvel nos eixos centrais e, como princípio para resolver conflitos, dar razão ao ciclista. É pela lei que se pode alterar a cultura de que o ciclista deve sair da estrada para deixar passar o automóvel.”

(o artigo completo pode ser lido em  https://www.ionline.pt/artigo/502205/guerra-civil-em-lisboa-?seccao=opiniao_i)

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uma aventura no Oeste

BRM 200 Montejunto ao Atlantico #11
Depois de uma voltinha ensopada mas saborosa pelos encantos do Parque da Peneda-Gerês, lá estava eu de novo a preparar os alforges para repetir a dose. Dez horas em cima do selim. A mesma sensação, o mesmo empenho e entusiasmo de outros brevets, mas quando se trata de inaugurar um brevet Randonneur Mondial dos Randonneur de Portugal a motivação e ambição redobram. Pedalar duzentos e tal quilómetros com a aliciante de escalar a Serra de Montejunto, no novo Brevet Montejunto ao Atlântico 200. Uma aventura à conquista do Oeste… Hiiiiháaaa…

BRM 200 Montejunto ao Atlantico #2
A ideia inicial seria madrugar no Sábado e seguir directo com o amigo Jacinto para o depart, mas a sugestão do Gilberto em alugar uma barraca no Land’s Hause Bungalows veio a ser uma excelente sugestão. Assim a excursão começou de véspera. Chegada a diligência ao ponto de encontro, foi tempo de atrelar os ginetes à carroça, aproveitar o dopping mecânico e acelerar por um bom par de horas a caminho do distante Oeste. Até à Burinhosa. Fazendo jus ao espírito randonneiro, o nosso amigo Miranda havia lá chegado primeiro, uma vez que preferiu fazer o pré aquecimento a pedalar desde Esposende. Aproveito o ensejo para agradecer a amabilidade e simpatia de Pedro Alves e família em nos ter recebido e improvisado um jantar, enquanto a restante comitiva disputava uma renhida partidinha de matraquilhos.

Burinhosa é uma pequena aldeia do concelho de Alcobaça conhecida por reservar um dia por ano para se transformar na Capital da Bicicleta. No mês de Julho a aldeia recebe centenas de bicicletas antigas e seus entusiastas proprietários, numa festa com bastante pedalada. Durante a ENBA a taxa de velocípedes supera largamente a taxa de habitantes. Tratando-se de uma terra de coleccionadores de bicicletas, este encontro anual merece grande destaque, calculando-se em mais de 800 máquinas de outros tempos que são reunidas e depois desfilam com vaidade ao sabor das correntes e das campainhas.

A táctica estava lançada: todos ao Montejunto e fé em São Pedro, mas ao rufar dos tambores tivemos a primeira certeza do dia, pela frente teríamos um brevet bem regado. O rendez-vous estava marcado para o saloon da Associação Nacional de Bicicletas Antigas, anfitriã à partida e à chegada. Tempo para ultimar os preparativos, cumprir as formalidades do bike check, do briefing, aparelhar as montadas e, às oito em ponto, deu-se início à corrida ao ouro, uma aventura digna desse nome. O mote era pedalar do mar à serra, num novo duelo multifacetado. A quadrilha não se intimidou com a chuva, mostrou coragem e deu o peito às balas.

O horizonte mostrava-se cinzento mas a manhã estava amena. Os elementos chuva e vento são conhecidos, porém a forma como estão misturados pode fazer a diferença. E fez, assim como a muito complicada navegação deste brevet. Depois de Pataias, passamos pelas cercanias da Nazaré e de S. Martinho do Porto, zonas de extraordinária beleza natural que ficariam reservadas para o regresso. Cruzamos a linha férrea do Oeste diversas ocasiões, uma delas com as biclas às costas, e chegamos às Caldas da Rainha a meio da manhã, onde não houve tempo para visitar o Museu do Ciclismo que reúne espólio e registo histórico do ciclismo no nosso país. A rolar bem na N8 avistámos a vila medieval de Óbidos, mesmo ali ao lado a convidar uma visita. Mas não, não fomos ao chocolate, estávamos só de passagem. Deu para apreciar ao longe o imponente castelo e as muralhas desta maravilha de Portugal. A pedalada continuava certinha, mas eis que um senão atrapalhou o meu espírito ousado. Aí, ao quilómetro sessenta e tal, com tudo a marchar bem, o alcatrão traiçoeiro foi mais rápido no gatilho e derrubou-me ao chão. Mais ferido no orgulho que no corpo, foi levantar, sacudir as moscas e continuar a pedalar.

Bombarral City convidava a parar e abastecer a cavalgadura, mas o alvo estava marcado. A Serra de Montejunto, que crescia na linha do horizonte, meio encoberta pela neblina. A região Oeste é um todo, vilas e aldeias com um ritmo muito próprio. É uma calma e pacífica região, um mundo a descobrir, um universo longe da azáfama e da agitação, com paisagens salpicadas de castelos medievais, ruínas, solares e moinhos. A estrada empina e dá-nos as boas vindas, avisando do que aí vem. Depois a paisagem abre-se numa esplêndida encosta de vinhas, oferecendo o último descanso para atacar a magnífica Serra de Montejunto, pela subida mais acessível que é por Vila Verde dos Francos.

Entrando na localidade deu-se início às hostilidades. A tarefa previa-se penosa mas a subida é bastante acessível. A Serra de Montejunto é o miradouro natural mais alto da Estremadura, elevando-se a 666 metros de altitude. É uma pequena ilha que emerge uma planície de aluvião, no meio de terras lavradias e florestais. Durante a subida fui ficando para trás, disparando em todas as direcções. Mesmo estando um dia triste, para os olhos foi um regalo. Fui fazendo algumas paragens para recuperar o fôlego e melhor enquadrar as fotografias daquela imensidão e beleza, de todas as perspectivas da varanda. Tanto a subir como a descer, por mim passaram vários ciclistas em modo treino. A inclinação do chão foi sendo suavizada pelo vento, que mesmo aumentando de força soprava pelas costas. Quase no topo, onde se cruzam várias estradas, tiro mais uma foto e piro-me para o parque de merendas, onde pela primeira vez se carimbou o cartão brevet e finalmente se comeu algo quente. Não havia sopa, só um megacardápio de tostas, de megatostas.

Meia hora depois, estava pronto a continuar pra bingo. O restart foi uma tortura, sentia-se um vento frio, desagradável, ainda para mais com uma longa descida pela frente. Virei para Pragança, onde as encostas desta vertente são as mais complicadas e assustadoras, principalmente para a quem as sobe, por isso fui descendo a um ritmo cuidadoso. Não pressenti que o dito cujo homem marreta andasse por ali. Talvez só amedronte os corajosos que vão a penar no sentido inverso, não tenho a certeza. Dei as boas tardes a dois desses corajosos.

Chegado ao povoado, e como não queria dar o ouro ao bandido, na dúvida por onde seguir dei meia volta e esperei que um companheiro de route surgisse ao fundo da curva. Apareceu o Alexandre e juntos seguimos à conversa, pedalando contra a borrasca por muitos e complicados quilómetros. A chuva voltou com toda a força e o amaldiçoado vento, fortíssimo, de frente, com rajadas que quase nos abalroavam, fez com que a nossa progressão fosse penosa. Depois do Cadaval, nova passagem pelo Bombarral, e eu ia avançando de cabeça baixa. Não tendo hipótese de seguir na roda do companheiro de ocasião, deixei-o ir e mantive o meu ritmo, a pensar numa sopinha que saberia que nem gingas. Cheguei finalmente à terra dos dinossauros, e foi já na Lourinhã que num café reencontrei o grupeto que saboreava uma sopa quente, abrigados da maldita chuva que parecia não querer parar.

Depois de uma vista de olhos ao itinerário, e querendo aproveitar a companhia e boleia do grupo, ponho-me a caminho com o objectivo de chegar à Praia da Areia Branca e atacar o forte de Paimogo. Vislumbramos finalmente o oceano e as belas praias da região da Lourinhã. Praias moldadas ao sabor da maré, natureza deslumbrante, falésias e enseadas que definem a linha de costa, a Costa de Prata. Não me deixando intimidar com o monstro, seguimos a rota dos dinossauros até que o temporal lá amainou. Um par de pernas de um T-Rex ter-me-ia feito um certo jeito por essa altura. Depois de um enlameado sterrato à chegada ao forte, e consequente resposta ao questionário do controlo de passagem e registo fotográfico, logo de seguida nos aventuramos pelo constante sobe e desce da típica estrada do Oeste, esburacada e serpenteante.

Voltamos ao interior, mais uma vez pelo sossego do campo. Serras, rios, pomares, um rebanho de ovelhas, tranquilas aldeias que dão um carácter verdadeiramente genuíno à região. A experiência de pedalar torna-se mais desafiante, porque o relevo engana, rompe pernas, baralha de algum modo o sentido de orientação. O esforço é altamente subjectivo, a cabeça é sempre quem manda… e o estômago reclama. A tranquila margem da Lagoa de Óbidos justificou algum descanso às montarias para apreciar outros atractivos da região. Estivesse um dia de sol e calor, não seria de enjeitar um mergulho naquelas águas calmas.

Depois da Foz do Arelho a romaria seguiu para norte, ao longo da Estrada Atlântica. Com boa visibilidade até se avistariam as Berlengas, mas como o sol não quis nada connosco tivemos o Sr. Atlântico como companhia e o vento de sul, que nos foi empurrando até São Martinho do Porto. Esta encantadora vila estende-se ao longo de uma deslumbrante baía, um microcosmos emoldurado pela beleza do Atlântico. Aberta para o oceano através de uma frincha com cerca de duas centenas de metros, entre as colinas de Santana, a sul, e Farol, a norte, a baía foi em tempos conhecida como o “bidé das marquesas”, pelas suas tranquilas águas e areias finas, e por ser uma estância balnear muito concorrida pela burguesia da época. Na avenida marginal, o centro cosmopolita desta encantadora vila, destacam-se o comércio, as moradias tradicionais e toda a movida que é mais movida nos meses de Verão. Tudo muito bonito, mas a navegação exigente e as longas rampas da Serra da Pescaria prendiam-nos toda a atenção. Envoltos em nevoeiro chegamos ao último posto de controlo, para me levantar do selim, carimbar o cartão de brevet e captar um moinho. Dou uma última olhadela mas já não se avistava mais nada.

O vento de sul ao longo do Atlântico é reconfortante, e por esta altura com quase duzentos quilómetros nas pernas as descidas também o são, mas nada se compara a mais uma subida para aquecer a carcaça. Descemos ao nível do mar. Havia já caído a noite quando chegámos à Nazaré, passamos ao largo da praia para enfrentarmos a subida para o Sítio, contornando todas aquelas rotundas. Lá em cima, no Miradouro do Suberco, a 110 metros de altitude, abre-se a um dos mais belos panoramas marítimos de Portugal. Acho que já todos conhecem o Sítio! Não fomos lá e continuamos a pedalada. Seguimos com a pressão nos pedais, pernas queimadas, ácido láctico acumulado no corpo mas com a bicicleta e corpo unidos. A sugestão que nos foi dada no briefing seria a de pedalar pela pista ciclável da Ciclovia Atlântica, devido sobretudo aos excessos dos automobilistas que muito aceleram por ali, mas a nossa opção foi continuar destemidos e aventureiros pela estrada. Durante alguns minutos os focos apontaram o asfalto até nos enfiarmos pelas matas do Pinhal de Leiria, de grande beleza paisagística, mas do qual só se sentiam os aromas a pinheiro e eucalipto. Até à Burinhosa foi um saltinho, onde chegamos descontraidamente a pedalar pelas labirínticas ruas da aldeia até regressar ao saloon da Associação, beber um trago e entregar o cartão à xerife.

BRM 200 Montejunto ao Atlantico #40
E pronto. Mais uma magnífica jornada a dar vida à loucura das serras, que é muito do agrado de alguns pedalantes cá da tribo. Como um sonho acordado onde nunca se percebe bem o que é real e o que é mítico, este western spaghetti à moda randonneur foi uma aventura singular, difícil, que assumiu contornos de satisfação, queda e negociação com a dor, sem problemas para o meu lado aventureiro e sensorial. Senti a exaustão das últimas pedaladas, e só tenho é de estar grato aos companheiros Gilberto, Pedro e Miranda que sabem sempre o sabor de ter chegado, de ter vencido. Mais uma vez a minha admiração ao nosso amigo Jacinto, que passado uns minutos chegava sorridente e triunfante.

Era uma vez no Oeste… That´s all folks

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o nosso amigo Jacinto

BRM200Gerês #14

Há coisa de cinco anos, enquanto escalava o primeiro prémio de montanha das minhas pedaladas matinais, as habituais para o trabalho, já perto do Carvalhido o sonoro dling-dlong e a saudação do Jacinto eram rotineiros. “Bom dia amigo Paulo“. Depois, até à Boavista, seguíamos juntos e a conversa ficava em dia. Entretanto deram-lhe a reforma, mas o Jacinto não se aposentou das pedaladas. Só a minha rotineira pedalada matinal é que passou a ser em modo solitário. Ele agora tem disponibilidade para fazer aquilo que mais gosta, passear nas suas bicicletas. Os nossos encontros na rua tornaram-se mais ocasionais, mas os longos percursos na estrada continuam a bom ritmo. Juntos nas nossas bicicletas já vivemos muitas e boas peripécias, largas centenas de quilómetros pelas estradas de Portugal, até na Galiza, e este jovem rapaz perto das setenta primaveras pedala que é um regalo! Para o acompanhar tenho de suar as estopinhas.

O nosso amigo Jacinto é um alento para todos. É com um contagiante sorriso e permanente boa disposição, com muito suor à mistura, que ele consegue superar as adversidades, transformando a sua alegria num exemplo e incentivo para os preguiçosos de plantão. Demonstra a muito boa gente o que é ser campeão. Se não atingir a média superior a mil quilómetros por mês, pedalando os seus três amores, a Branquinha, a Morena ou o Negrão, ele “faz birra”.

O seu exemplo remete-nos a sentimentos ligados à infância, a um prazer simples e inestimável, pois o acto de andar de bicicleta não tem idade nem preconceitos. Ao contrário do que já lhe disseram variadas vezes, o Jacinto não tem idade para ter juízo. No início do mês superou outra aventura, com mais de duzentos quilómetros e bastante montanha lá pelo meio. Amanhã o Jacinto tem novo desafio para somar às suas conquistas.

Relembro o comentário que me deixou num post antiguinho:

“Eu adoro andar de bicicleta. Quando eu saí da escola isto nos anos 60, eu tinha os meus 17 anos e a prenda da minha mãe foi uma bicicleta, eu quase dormia com ela, na altura morava em Lisboa, e vinha ali para o Campo Grande onde tinha umas grandes pistas para eu andar. É verdade, belos tempos em que as nossas mães nos grandes presentes era a bicicleta a prenda nº 1. Hoje reparo que a maioria das mães o presente nº 1 é oferecer um carro. Tenho um amigo meu que ofereceu ao seu filho por ele passar o 12º ano um carro, para que seu filho vá agora para o instituto de mercedes, sim tinha que ser um mercedes para as miúdas verem. Enfim… obrigado mãe por me teres dado uma bicicleta.”

Quando crescer quero ser com’ó Jacinto.

BRM200Gerês #6

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