the Magic Bench

Noca Ramos é um conhecido designer de bicicletas e tem motivado meio mundo ciclista a dar ao pedal até um pequeno paraíso aquático, a Lagoa de Mira. O repto é tirar um retrato com a companheira de viagem, enquadrados numa esplêndida vista, em pose na varanda de madeira sob as águas tranquilas da lagoa, para mais tarde ser partilhado no seu álbum “the Magic Bench”.

The Magic BenchFoi no dia mais longo do ano que a coisa se proporcionou. Em pleno gozo de uns dias de férias, a meio de uma manhã ventosa, decidi trocar a toalha de praia por um passeio em solitário. Ida e volta à Lagoa de Mira, um lugar onde já fui feliz. Há doze anos passei em família uma semana de ócio numa daquelas casinhas da Quinta da Lagoa. Por lá muito pedalei, ora na companhia do meu filhote pelas ciclovias que bordejam a lagoa e se embrenham nos pinhais, ora rodei os pedais do cisne flutuante, namorando ao som da passarada. Portanto, motivos não me faltavam para lá voltar.

O plano era simples, pisar os pedais de Sua Alteza pelo percurso plano e tranquilo da costa, para mais tarde acrescentar o ferry à digressão, na travessia de S. Jacinto para Aveiro. Depois da Lagoa de Mira e da foto prometida, o esquema era regressar pelo caminho inverso. Mais quilómetro, menos quilómetro, seria qualquer coisa para duas centenas deles, a uma só velocidade. À passagem pela casa do meu pai, na Praia da Madalena, fui ao computador conferir os horários do ferry. Na minha mente permanecia a dúvida se o barco estaria em funcionamento e no site da Moveaveiro está claro como a água: a cor azul garantia-me o serviço do ferry às 14h15, portantos…

Sob um agradável céu azul e temperaturas amenas, fui vadiar ao encontro dos momentos, respirando os ares marinhos importados pelo vento oeste. Na passagem de nível da Granja, e pelo aparato que encontrei, a cancela estaria fechada fazia tempo e assim permaneceu por uns vinte minutos. Teria dado tempo para tomar um cafezinho na esplanada à beira mar. Depois de Espinho, e do passadiço de Silvalde, parei junto ao que resta do Centro Turístico… digo, da Carreira de Tiro de Espinho do Regimento de Engenharia nº3. Ali passei um bom ano a marcar passo, em guerras de faz-de-conta e a conduzir carros da tropa. Do CTE apenas restam memórias e a garagem onde eu guardava o Unimog.

De Paramos até Esmoriz, e para não bater com os costados na N109, a opção é a estrada paralela à linha que se “apanha” depois de contornar o quartel, mesmo antes de chegar ao apeadeiro. Em Esmoriz, mais ou menos a meio da Avenida da Praia, virei à esquerda e pisei a CicloRia. Esta interessante ecopista, paralela à Estrada Florestal, embrenha-se na mata de Maceda e no Parque Ambiental do Buçaquinho até ao Furadouro.

The Magic Bench #6

O ar puro, o aroma dos pinheiros, o sossego e todos os possíveis estímulos, inspiram e cresce de forma inapelável a vontade de ficar ali, naquelas pistas, a dar voltas e mais voltas. Foi, pois, com alguma boa vontade que à passagem por Furadouro que rumei para a N327, estrada que mareja a Ria e liga Ovar a São Jacinto. Aqui e ali não resisti a parar, fotografar, permanecer estendido na relva absorvendo toda aquela mansidão.

À hora de almoço já estava em S. Jacinto e, logo ali, fiquei sem esperanças de encontrar o ferry a postos para me levar, a mim e à minha bicicleta, para Aveiro! O frete seria feito à hora marcada mas por uma lancha que não transporta qualquer tipo de veículo, só leva bípedes! Ora bolas, não é isso que está escarrapachado no site da Moveaveiro! O plano de navegar para a outra banda foi por água abaixo e, como de nada me valia barafustar, o melhor foi procurar um completo e económico menu do dia.

Almocei bem e digeri com calma aquela sobremesa: dar meia volta e somar mais quilómetros à voltinha. De novo a pedalar ao longo da Ria, após a passagem pela Torreira, atravessar a ponte, seguindo para a Murtosa. Procurando não me perder, liguei o gepeésse do telemelgas, mas o raio da maquineta queria, porque queria, que eu fosse pela N109. E eu ia teimando com a coisa, mas à chegada por Estarreja percebi que não teria outra hipótese. A partir dali tive de partilhar a estrada com fumo, barulho e razias. Até estou habituado a pedalar naquela via demoníaca, o que não acontece geralmente é andar por ali nos chamados dias úteis. Paciência!

Paciência! Cerrei os dentes, finquei os pés, observei as cegonhas, e foi já à passagem por Aveiro que parei à beira da estrada para comprar duas maçãs. O ritmo já era diferente e estava muito para além do horário previsto de chegada a Mira. Enquanto roía uma maça, cheguei a pensar retomar o plano inicial, pedalar pelas pacatas ruas das Gafanhas, mas decidi pegar no Plano B: seguir a N109 até Mira (depois de Aveiro é uma outra estrada), e no regresso, atalhar então pelas Gafanhas até Aveiro e aproveitar o serviço de comboios urbanos para o Porto.

Cheguei finalmente às águas calmas da Lagoa e encontrei os bancos mágicos (encontrei dois!) O “The Magic Bench” é o que tem um barco submerso, mesmo ali ao lado. As fotografias, as casinhas da Quinta, as memórias, as pessoas que vagueavam a pé e de bicicleta, até os plásticos espalhados pelas margens, me fizeram sentir cumprido o propósito da viagem. Só teria uns minutos para comer a outra maçã e encher de novo a garrafinha, pondo em prática o Plano B.

The Magic Bench #12Fui ao encontro do mar pela tranquila e esburacada estrada florestal, mas não o cheguei a ver. Rumei a norte pela CM591, contra o vento cruzado. Gafanha da Boa Hora, Gafanha do Carmo, Gafanha da Encarnação, Gafanha da Nazaré… Simplesmente girava as pernas, soltas e pujantes, pela planície da Costa Nova. Cento e noventa quilómetros depois, cheguei a Aveiro para apanhar o comboio. Um curto momento de relaxe para enquadramento fotográfico de Sua Alteza, ou o atabalhoamento na utilização da máquina de bilhetes, o que quer que tenha sido, o CP Urbano das 20h12 para o Porto – São Bento partiu sem mim! Ora, o dia não seria perfeito sem outro contratempo, não é!? Por isso fui jantar. Uma hora depois volto à estação, acomodo-me com Sua Alteza no comboio e, passados dois ou três apeadeiros tive de agradecer ao revisor a sua benevolência por não me multar! É sabido que antes de entrar no comboio é preciso validar o bilhete, coisa que me esqueci completamente de fazer!

A magia do cicloturismo é isto, viajar a sós ou acompanhado, quando e por onde nos dá na veneta, à aventura, sem certezas nem garantias. E outra vez fui, estrada fora e sem desviadores. Mesmo tendo um desvio imprevisto fi-lo com imenso prazer. Adoro pedalar, em qualquer uma das minhas bicicletas mas especialmente nesta. Não reclama, não empana. Faz-me evocar, reviver, desafiar limites, testar a forma física e mental. Faz-me ir por bons caminhos, desde que sejam planinhos. 🙂

The Magic Bench #18

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fotocycle [187] retorno

retorno
O Sol faz o seu lindo espectáculo e nem o vento perturba esta paz. O tempo parece correr, mas não tenho pressa. Aperto os travões e fico a admirar a perfeição da natureza. Foram duas semanas de moleza. Preguiça de pensar, escrever, partilhar qualquer coisa por aqui. E a preguiça sempre foi meu pecado favorito, mas ultimamente só as pedaladas me fizeram gastar energias e, é claro, aproveitei cada momento.

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fotocycle [186] Primavera Surround

Primavera Surround

E aqui estou eu, qual mestre na área da procrastinação, a surripiar curtir um som do (e da) Primavera.  Estou só a aproveitar o tempo e um pouco mais de dolce fare niente. Todos precisamos destes intervalos.  Não há nada melhor do que um curto período de férias, e se não me virem por cá já sabem, fui dar uma volta de bicicleta. Quero lá saber se vai chover, se vai estar calor ou se Portugal vai andar à bola. Aproveitem também, que isto dos feriados, são para todos… ou quase!

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e pra sobremesa é um miradouro, ó faxabôre!

BRM200Douro2016 #1

Já sabia que era uma doce pessoa, não imaginava era que o meu sangue estivesse em ponto de rebuçado. A bandida andava-me a rondar fazia algum tempo sem eu saber. Arribou subitamente quando, sem ser convidada, me assaltou as gulodices da mesa natalícia. Eh pá, até me podiam ter enfiado um colete de forças, algemas ou uma focinheira, mas ser-me negado o deleite de umas rabanadas acabadinhas de fazer, foi pior que tirar a chupeta a uma criança! Prontes…

Desde aí, cada confronto com a estrada tem sido um confronto mental comigo mesmo. Não que sinta falta de confiança nas minhas capacidades, que as distâncias ou alguma montanha de queixo empinado embirre comigo e me faça tremer as pernas! O um confronto desigual com esta minha recente adversária, rival e endiabrada, a diabetes.

Apresento então a carraça. A diabetes tipo II é caracterizada, principalmente, pela dificuldade que o organismo tem em responder a acção da insulina produzida no pâncreas. Tal facto tem como consequência o aumento dos níveis de glicose na corrente sanguínea. Ao contrário dos portadores de diabetes tipo I, as pessoas com o tipo II produzem insulina, porém o corpo cria resistência e não metaboliza eficazmente a glicose.

Ora bem, sabemos que para prevenir esta e outras doenças é importante mantermos hábitos alimentares saudáveis e praticar exercício físico com regularidade. Como vivemos o nosso dia-a-dia apresenta-se como uma das formas bastante eficazes para melhoria da resposta do organismo ao excesso da glicose. No entanto, um estilo de vida saudável não é garantia de imunidade. Outros factores como a idade e a hereditariedade fogem-nos ao controle.

Com história de diabetes na família e a chegada aos cinquenta, tornou-se ainda mais fundamental que confrontasse a diabetes em várias frentes: dieta adequada, exercício e medicação. O exercício já fazia, e muito, mas foi com alguma restrição e cuidado alimentar, e a dose diária de medicação, que lá se foram 6kg em poucos meses.

O primeiro e grande receio de qualquer ser humano que recebe o diagnóstico de diabetes, não é somente se questionar como irá realizar as suas actividades diárias normais mas também como sobreviverá, especialmente aqueles que levam um estilo de vida mais activo. A vida continua, o mais normal quanto possível, e, tal como vivemos no selim de uma bicicleta, na vida de um diabético surgem muitos “altos e baixos”. O conhecimento da doença ajuda a ultrapassá-los. Mantê-la controlada é a chave para estabilizar uma doença crónica, nem que seja com paninhos quentes e muita pedalada, se não os hidratos de carbono ingeridos não se queimam tão bem.

Assim que acordo é hora de verificar os níveis de açúcar, com um dispositivo que mede a glicose, no sangue. Esse é o momento em que o corpo está mais fraco e pede reposição de energia. Antes de começar a pedalar para o trabalho preciso de uma boa primeira refeição. No entanto, se vou fazer desporto, especialmente quando os níveis de energia são a chave para realizar de forma eficaz uma intensa actividade física que exija um gasto calórico excessivo, como por exemplo 2 a 10 horas (ou mais) a dar aos pedais, como mais, muito mais. Acrescento, em função do esforço que vou despender!

Sábado passado participei em mais um Brevet Randonneur Mondial (BRM), de novo ao sabor da corrente do Douro, pelo seu vale vinhateiro, em mais de 200 kms. Tal como em outros passeios de grande distância e exigência física, fui aprendendo muito sobre muitas coisas, sobretudo a compreender e entender o que preciso fazer, o que comer, quando comer, insistir com a hidratação, para realizar estes meus devaneios ciclísticos em segurança. Cada organismo é único e a resposta que dou ao meu, perante uma situação, pode não ser a aconselhada, a benéfica, a mais eficaz para dar a outra pessoa. Recomendo, e lá fui comendo, a sopinha, a sandes de carne da terra, bem tenrrinha, os frutos secos e a bananinha, litradas de aguinha com limão. Pelo caminho complementei a dieta com fruta da época, embora escassa, a doce cerejinha que fui surrupiando à beira da estrada.

No CV da Cósmica estão quatro brevets de duzentos e tal, mais uma Flèche, o que confirma o bom entendimento que temos mantido: um no Alto Minho, um no Douro, com este é outro, e um no Ribatejo. Recordando outros tempos, desde aquela minha síncope em cima da Altis do meu pai, por desalmadamente sair de casa em pedaladas esbaforidas sem pôr nada na boca, sequer um biscoito, leva-me a admitir que encarar a pedalada e manter um ritmo forte numa bicla à moda antiga, com excesso de peso, gasto muito mais gasolina. A cada momento de fraqueza tenho de parar para me alimentar. Mas no final de contas, o que a máquina precisa mesmo é de reabastecer mais vezes. Quanto ao resto, o ponto positivo é que continuo como o aço.

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o Caminho são caminhos

Aviso prévio. Caso queiram mesmo queimar as pestanas e ler este relato sensaborão de três mil e muitas palavras, assim à média de 10 por quilómetro pedalado, não sei quantas fotos, com oito, ou melhor, seis bicigrinos e outros dois peregrinos automobilizados até Santiago de Compostela, então estão no bom caminho.

Quando, há coisa de cinco anos, concretizei a minha primeira aventura ciclística até Santiago de Compostela, o que falou mais alto foi mesmo o lado aventureiro. Desafiado pelo Velho Lau, fomos em autonomia, bicicletas atafulhadas e a arrastar duas parteneres com pouca pedalada por um caminho exigente. Não levamos credenciais para carimbar, nem tão pouco teve o condimento da Serra da Labruja, apenas aldrabamos o caminho o quanto baste, o bastante para prometer a mim mesmo “tenho de voltar a fazer isto, mas como deve de ser”. Quando me falaram em voltar a fazer o Camiño, imaginei-me a arrastar-me algures no traçado da estrada real Porto-Barcelos-Valença.

o Caminho são caminhos #01Costuma-se dizer que o Caminho de Santiago se inicia quando se dá o primeiro passo, quando se tem um apelo interior, o que é pura verdade. Fi-lo de novo pela menos espiritual das razões: fui desafiado. O click motivacional foi dado quando o meu amigo Rui me apresentou um plano, com data marcada e tudo. O grupo Gaiabikers fazia-nos a papinha toda, a organização, a logística para a viagem, eu só tinha de desenrascar uma bicicleta coincidente com a aventura e carregar com ela. Com a Dona Etielbina em pré-reforma, tive de raptar a Metallica ao meu filho, dar-lhe uns retoques de afinação e trocar-lhe os sapatos. O grupo formou-se. Dos que aceitaram o desafio, só conhecia o Rui, o Tózé, aka Wolverin Wolf, e o Luís. No desenrolar dos preparativos, fiquei a conhecer os restantes companheiros, o Humberto, o Kiko, que nos acompanhou durante a primeira jornada até Ponte de Lima. Para o apoio moral e abastecimento em troca de umas monumentais secas, o Gaspar e o Ilídio fizeram o esforço de conduzir o carro vassoura com os víveres e bagagens.

o Caminho são caminhos #0

Às 8h da manhã da quinta-feira santa, na Sé Catedral do Porto, saudámos a primeira seta. De credencial na mão e um pé no pedal, prontos a dar inicio à dita “bicigrinação”. Não estávamos sós. Muitos, mesmo muitos, outros como nós, davam também inicio à pedalada, numa espécie de Massa Crítica rumo a Santiago. E é aqui que começa o encanto do Caminho. Sejam as vezes que o façamos, de qualquer forma, trata-se sempre de um novo caminho. Um caminho de iniciação, numa experiência que tem tanto de místico e telúrico como de aventura e teste aos limites físicos e psicológicos de cada um.

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O primeiro dia roçou a perfeição. Com boa disposição e sem grandes pressas, fomos brindados com um excelente dia primaveril. Depois das despedidas ao Porto, uma imensa estrada, todos com aquela sensação de sermos capazes de dar a volta ao mundo. Em grupo, foi fantástico perceber e conhecer melhor os restantes companheiros. Fomos conversando sem nos determos nos pequenos desafios que fomos encontrando, apenas as mentes abanaram com o infortúnio de dois camaradas ciclistas envolvidos num acidente. Receios à parte, cumprimos outra vez aquilo que viria a ser uma constante, uma paragem com o pretexto de carimbar o passaporte de peregrino, esticar as pernas e deitar abaixo uma mini e uma sande de queijo. E a cada pit-stop, o descanso com que presenteei a Metallica, não só fez furor no grupo como lhe deu aquela pose fotogénica. Depois daquele que foi o único arrufo mecânico da tournée, um furo, chegamos a Barcelos para o merecido almoço. Saciados os estômagos, estávamos preparados mentalmente para os troços mais inclinados. Guiados pelas setas amarelas, pintadas no chão, em árvores, postes, muros, casas, não há como errar. Ao ritmo sincopado de cada um, os quilómetros e muitos peregrinos foram ficando para trás. Depois da troca de cumprimentos, saudações de “Bom Caminho”, vinham as perguntas de onde vínhamos, quem éramos e para onde íamos. Cada um seguia o seu caminho. Nas imediações de Ponte Lima, uma jovem peregrina alemã amoleceu o coração dos nossos companheiros automobilizados. Com dificuldades aparentes na marcha, tinha os pés em brasa, lá acabou por ceder a oferta de uma boleia até ao albergue mais próximo, atenuando-lhe o martírio. Chegamos cedo a Ponte de Lima, onde a residencial Pinheiro Manso nos vendeu, duche, o deleite da gastronomia local, saborosa e caseira, e o repouso. O final do dia foi dedicado a um pequeno passeio pela zona histórica da mais antiga vila de Portugal.

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Toque de alvorada às sete. As tropas apresentam-se com o moral elevado, acordaram com a disposição em alta para continuar a senda. Com uns raios de sol a reservar-nos uma agradável e fresca manhã, fiquei por breves instantes a mirar o rio, os arcos da famosa ponte romano-gótica sobre o Lima, e a imaginar-me Decius Junius Brutus tentando convencer os seus soldados a atravessar o tal rio Lethes, o rio do esquecimento. Devidamente reanimados por uma boa dose de cafeína, regressamos ao Caminho e registamos a travessia na ponte para memória futura. Com o Minho a proporcionar-nos um belo carrossel por entre campos verdejantes, igrejas, aldeias milenares, e a orografia acidentada do caminho, já adaptados aos diferentes ritmos, ninguém reclamou andamentos rápidos ou lentos, ninguém se inibiu de parar para um ou outro mergulho na natureza. Houve tempo para fotografar e para aliviar a carga. O rio Labruja, afluente do Lima, acompanhou-nos durante alguns quilómetros, oferecendo a sua partitura musical e alguns recantos e cascatas agradáveis, à vista e às máquinas fotográficas, num ambiente bucólico e preparatório para o nosso calvário, a Serra da Labruja. Percebe-se bem porque o Caminho passa aqui! Icónico!

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Ao longo destes dias de viagem para o santuário jacobino tivemos a oportunidade de encontrar levas de andarilhos backpack, peregrinos do mundo inteiro, solitários ou em grupo, pessoas normais como nós (há, há, há!)…. Há de tudo: desportistas, turistas, esotéricos, devotos, pessoas de todas as idades e nacionalidades, místicos, religiosos, malucos, acima de tudo, felizes. Coisa nenhuma a eles escapará, ao encontro consigo mesmos. O Caminho é muito pessoal, e os sentimentos de cada um em relação a ele variam em alguns aspectos. Todos convivem, nas tascas, nos cafés, refúgios, momentos de repouso onde se bebe um copo, uma bejeca para eliminar os ácidos lácticos. Serra acima, tivemos a companhia de um simpático e alegre grupo de brasileiros. A certa altura da escalada, invejei as mochilas que transportavam, bem mais leves e fofinhas do que a desajeitada bicicleta que eu carregava aos ombros. Pedra a pedra, passo a passo, pausa a pausa, a subida foi-se fazendo. Passagem pela cruz dos mortos. Inevitável foto e seguimos caminho para celebramos a conquista do Colle dell’Agnello do Camiño Xacobeu Português com uma fotografia de grupo tirada por uma bonita peregrina de sotaque germânico.

Todos sentimos o Caminho em conjunto, mas todos o sentimos de uma forma diferente. O rumo escolhido é aparentemente o mesmo, mas só seguimos as mesmas setas. Cá dentro, de onde tirámos a motivação para o fazer, seguimos caminhos mais ou menos diversos, mais ou menos tortuosos, mais ou menos floridos, carregados de rosas com espinhos, em busca do “eu”. Acho que este foi o dia de cada um sentir o seu e eu estava no bom caminho. Nova paragem mesmo a tempo de um reforço do pequeno almoço com uma mega sande de presunto e a cervejinha da praxe. O caminho prossegue domado pelo característico povoamento disperso do Minho, por entre campos, arvoredos, veredas estreitas, riachos, caminho de pedras desordenadas. Ao longo do percurso vamos confirmando a diversidade deste país, as suas riquezas, cultura, paisagem, usos e costumes. Uma mulher que lava a roupa no rio, e devolvendo a nossa saudação retorquiu ser preciso alguém que mantenha as tradições. É bem verdade! Inevitável foto e seguimos caminho.

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Ao longo do Caminho fomos encontrando outros bicigrinos, entabulando conversas com um “de onde vêm”, reencontrando-os amiúde, onde um oportuno café nos permitisse descolar do selim, matar a sede e deixar um “adeus, até ao próximo café”. Em Valença do Minho, depois de recuperarmos um pouco as forças, a chuva ameaçadora apareceu e aconselhou o impermeável que não mais largaríamos durante a etapa. Mas os bicigrinos não se atemorizaram com tal minudência e atacaram o caminho, cuidando apenas em rodar os pedais. Passamos a ponte, entramos em Tui e estávamos na Galiza. Depois uma breve voltinha por algumas ruas estreitas na bem conservada zona histórica de Tui, e depois de furarmos o túnel sob o Convento das Clarissas, o caminho retomou a vida rural, os bosques e o rio Louro. Faltavam 115 km. “Buen Camiño”.

o Caminho são caminhos #59

À entrada d’O Porriño, a ideia seria encontrar o percurso alternativo (devidamente homologado) que cruza um parque que bordeja o rio Louro. O desvio da rota tradicional traria claras vantagens em vez da pedalada sobressaltada pelo alcatrão ao longo da congestionada e extensa zona industrial. Só que falhamos a indicação, e a (minha) solução foi ligar o turbo e carregar no pedal, o mais que pude, aproveitando o ventinho pelas costas. Resultado disso, deixei o grupo para trás e mais à frente esperei pela malta, tanto que até deu para actualizar o Instagram! Antecipamos as hostilidades para a íngreme Rua dos Cavaleiros com uma demorada paragem técnica. A divisão do grupo, onde uns aceleravam e outros se atrasavam, o Pazo de Mos testa as nossas forças. Aprendíamos logo ali como gerir todos os sentimentos e vontades. No topo, a reunião do grupo é importante para manter o espírito e motivação. Depois de Redondela e após o sobe e desce, às vezes pronunciado do terreno, chegamos às cercanias de um braço da ria de Vigo. Após ligeira subida, num dos locais mais místicos de todo o caminho, reunimos novamente o pelotão enquanto nos íamos fotografando com as vieiras e outras lembranças deixadas pelos peregrinos em pano de fundo. “Oh pá, espera!… É só mais esta foto!” Não há subida que, depois, não nos regale com uma saborosa descida. Assim recuperamos energias com a formidável panorâmica sobre a Ria de Vigo.

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A luminosidade baça das águas acompanhou-nos até Árcade, onde erramos a ponte a atravessar. Refeitos do engano, e assim que pisamos as pedras da Ponte Sampaio de origem romana e traça medieval, vivemos um dos muitos momentos agradáveis, daqueles prováveis de quem anda no mesmo caminho: o encontro imprevisto com malta amiga, os Javalis de Gaia. De repente o pelotão aumentou e foi tudo na galhofa até darmos com os calcantes nos penedos gastos da via XIX, a estrada romana que nos acompanhou por muitos e árduos caminhos. Estes romanos eram mesmo loucos. À nossa penosa progressão multiplicavam-se os bicigrinos. Ora passávamos por uns, ora éramos ultrapassados pelos memos, muitas caras já eram bem conhecidas. E foi numa esplanada com vistas para a estrada que reencontramos os excelentíssimos carrogrinos Gaspar e Ílidio, bastante eficazes a tirar caricas às Estrela Galicia 1906. A etapa relativamente longa concluiu-se à porta do Hotel Virgen del Camiño. Foi com intenso algum alívio que chegamos a Pontevedra. Depois da banhoca e do repasto, um passeio nocturno pelo centro histórico de Pontevedra ajudou a esmoer o chuleton da casa. A cidade apresentava uma movida interessante, praças bonitas de fruição pedonal património rodeado de paredes graníticas, mas poucas geladarias para saciar a gulodice do Ilídio.

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O dia amanheceu com chuva da grossa e meteorologia não estava para introspecções. Ainda remelados de sono, sentamos o rabo nos selins e atravessamos Pontevedra em câmara lenta. Continuámos em modo molhado durante algum tempo. Entretanto a chuva lá deu tréguas e nos embrenhamos nos bosques com uma pedalada tranquila e bem disposta, aqui e ali invadida por um odor, mas que não era bem a fragrância do campo! Eram ecos longínquos de um som suplicante, aulidos de um lobo com problemas flatulentos. E prosseguimos, cada vez mais lentos. Notava-se que o Caminho estava diferente, mais concorrido e animado. Estávamos a precisar de um reforço de cafeína. À passagem por San Amaro de Portela, paramos no renovado café Mesón Don Pulpo, dirigimo-nos ao balcão para carimbar e não mais tirei os olhos dos lindos olhos da simpatica nena. Até o café solo teve sabor a cimbalino bem tirado. Retomamos os pisos de terra, atravessados por cursos de água e fomos progredindo com cuidado, não que o Caminho tenha mudado muito, apenas havia mais lama, mais civilização e mais atravessamentos da N-550. Ziguezagueamos entre inúmeras poças de água, a compasso, atrás de uma grande comitiva de peregrinos a cavalo, o que é bastante raro de ver nos dias de hoje, disseram-me.

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Uma das coisas que prezo enquanto ciclista é o respeito pelos outros. Numa fase do caminho, com trilhos estreitos, enlameados, perigosos e apinhados de gente, cavalos e bicicletas, apareceu um bando de ciclistas tugas a praticar downhill. Ora, isso é meio caminho pedalado para o acidente, e disse-lhes isso mesmo e que há outros trilhos mais adequados para se ser radical. “A tartaruga conhece melhor o caminho que a lebre”. Mas também foi um dia de surpresas agradáveis. Mais à frente encontrei antigos colegas de trabalho, uns a pedais, outros a penantes. Quando o empedrado não massacrava o rabo no selim, dava-se lugar às anedotas e às brincadeiras. Depois de um spa, ou melhor, do vosso narrador e do Rui, atabalhoados na nossa falta de prática bêtêtista, enfiarem as patas numa mega poça, valeu a galhofa que nos fez recalibrar as forças. Prosseguíamos com os sentidos já adaptados aos achaques do corpo, mas a alma mais perto de encontrar o que todos buscaram no Caminho. Numa fase de trilhos de lama fomos brindados com a animação e sorrisos de um grupo de jovens peregrinas conterrâneas. Veio também o agrado de passar pelos pueblos, e, por fugazes instantes, o ar ficou invadido pelo aroma de leitões a serem assados e o som de uma gaita de foles galega com a batida aflita de uma pandeireta. Dava vontade de parar a bicicleta e ficar para a festa.

Os marcos galegos indicam a proximidade de Santiago e começam a tomar conta da sensação de chegar. À passagem por Carracedo impunha-se outra paragem para devorar um mega bocadilho de ramon… Ah, e uma Superbock, que é coisa para abrir o apetite. Uma peregrina oriunda da África do Sul mereceu a nossa admiração, não só pela sua simpatia e simplicidade, mas, ao contrário da maioria que carregava autênticos armários às costas, esta apenas levava uma pochete e um bidon de água! Os sons da natureza, um rio que corre, o som dos corvos, pegas e melros, o olhar intrigado de um gato, foram interrompidos para a passagem pela movimentada estrada nacional e áreas suburbanas. Nos arredores de Padrón, o Humberto, ou melhor, a bina do Humberto foi engolida por um Renaul Clio. Este inusitado episódio fez-nos perder algum tempo para desencravar o pedal da bicla completamente enfiado no plástico do para-choques! Apesar da chuvada intermitente continuamos para Padron e, para nosso alívio, mais uma vez demos permissão ao lobo mau para ir ao café aliviar a carga. Uffaaa…

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Sob uma espessa cortina de nuvens, finalmente, ao longe, já se vislumbravam as pontas cimeiras das torres da Catedral de Santiago. Descida rápida em direcção à Ponte Velha sobre o Sar, serpenteando na lama movediça da subida da Choupana, entramos nas matas dos arrabaldes de Compostela que respira Caminho e acarinha os peregrinos. Eram de alegria e ansiedade as manifestações vindas de um numeroso grupo de peregrinos portugueses que nos saudava. “Bom Caminho”, respondíamos. Com calma e já num processo de interiorização, lá fomos pedalando até entrarmos na cidade, acabando desorientados e meio perdidos! Seria normal passarmos pela porta Faxeira, a entrada tradicional do Caminho Português na velha praça, mas acabamos baralhados pelo labirinto medieval e foi pela Porta do Caminho, também chamada Francígena ou de São Pedro, por nela desembocar o Caminho Francês, onde, direitinhos e sem vacilar, sob uma chuvinha abençoada, tivemos a nossa entrada triunfal na Praza do Obradoiro. Eis-nos em Santiago, convencidos e orgulhosos.

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A chegada foi o culminar geral de um desejo, superação e satisfação. Vás as vezes que fores, chegas e ficas contemplativo, inebriado pelo ambiente e pelas sensações. Ainda estou a sentir a comoção dos peregrinos, oriundos de todo o mundo, emocionados na concretização de tamanha andança, do brio e fé, certezas que ali não seria o fim mas o início de outro caminho, sem setas para seguir. Só não sei se alguém encontrou respostas para algumas das questões que acarretava. Quanto a nós, foi enquanto grupo um caminho de sucesso. Venham mais caminhos, novos caminhos que apesar de sinuosos, às vezes penosos, serão seguramente transitáveis.

Depois rumamos ao Convento de Belvis para a banhoca final…  afinal não foi bem a última! Quando chegou a hora de voltar à Oficina de Acogida al Peregrino, onde antes havíamos estado para certificar a Credencial e receber a Compostela, e graças a São Pedro, apanhei o último banho, vestido e tudo. Só então entrei no carro e voltei a casa.

o Caminho são caminhos #42
Assim, pedalamos qualquer coisa como 250 quilómetros, sob sol, chuva, por subidas e descidas alucinantes. Foram três dias de aprendizagem, amizade, liberdade, vida em grupo, introspecção, misticismo, zen mental e físico, uma rotina bastante diferente da do dia-a-dia. É incrível como as energias cósmicas e terrestres da rota facilitam estas coisas. Nos deparamos com nossos horizontes e limites. Descobrimos pequenas coisas que não notamos na vida diária. Nos perdemos. Deixamos que o Caminho nos conduzisse. Nos encontramos e avançamos. Apreciamos e desfrutamos cada metro percorrido. Chegar é apenas um detalhe. O caminho que ficou para trás é o troféu que se guardará na memória.

Agradecimentos:

RuiAo Rui, grande amigo que me lançou o repto, desafiou e me ajudou.

TozéAo Tozé, experimentado explorador de outros trilhos, trilhas sonoras, descidas a abrir e boa disposição.

HumbertoAo Humberto, demonstrou que ao andar depressa não se usufrui de tudo o que o Caminho proporciona.

LuisAo Luís, pelas excelentes fotografias, simpatia e cordialidade.

KikoAo Kiko, que nos deu o prazer da sua excelente companhia.

Gaspar e IlidioAo Gaspar, sempre atento às necessidades de todos, e ao Ilídio, que mesmo lesionado e impedido de pedalar, nos acompanhou e proporcionou um espírito fantástico de partilha de boas anedotas.

Obrigado a todos por estes fantásticos 3 dias. Os Caminhos de Santiago são assim, únicos, mesmo quando revisitados.

 

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fotocycle [185] ainda o dia é uma criança

ainda o dia é uma criança

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o Camiño são caminhos – teaser

Parque de Belvis

Parque de Belvís, Santiago de Compostela

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Guias de Santiago: a coleção do JN que vai querer guardar

Esta é uma interessante iniciativa do JN. Sou um atento aluno das aulas de história do “professor” Joel Cleto. Semanalmente não me escapa um programa dos Caminhos da História no Porto Canal, e desde há muito tempo, desde a sua “peregrinação” de bicicleta a Santiago de Compostela, que o tenho seguido. Interessante coincidência, já que amanhã parto em mais uma “bicigrinação” pelo Caminho Português com um grupo de amigos.

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qualquer semelhança será mera aparência…

… ou estarei mesmo a ficar com pneus a mais!?

 

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can’t miss [153] forum.mubi.pt/

Andar de bicicleta: um desígnio colectivo

forum MUBI

(clica na foto para aumentar)

via: forum Mubi (Café Central)

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