ao sabor da corrente

Esta semana vou dar cor às palavras que vadiam pela minha mente, com imagens por mim retidas e que simplesmente as quero partilhar.

(Jardim do Parque da Prelada)

O final de tarde convidava-me para sair, com a minha máquina fotográfica, e sentir o pulsar da cidade. Sentir uma paz e tranquilidade assim de improviso! E como eu gosto de pedalar (é um prazer, sabiam?), não há nada melhor do que sair de casa e apreciar o tempo, esquecendo tudo o resto, até a hora de ponta, ao rumo dos Jardins de Outono.

(Jardim da Praça da Galiza)

Há quem diga que é cinzenta! Talvez, se assim a quiserem ver…. Mas, como podem? Será que já a percorreram quando a luz outonal realça os cinzentos do granito, branqueia o sujo das paredes, vermelha os enegrecidos telhados e amarela as verdes folhas caídas das árvores? É… como magia! É como dar cor às palavras.

(Jardins do Palácio de Cristal e vista sobre o Douro)

E podia dar cor às palavras chegando aqui a pé, pois podia, mas prefiro pedalar e chegar mais longe, quase voar, pelo prazer e pela sensação de paz e liberdade que me dá. Permitam-me então desenhar palavras, improvisar imagens e, com elas, voar!

(Jardim do Carregal)

Porém, infelizmente há quem não tente nos ignorar, e buzina-nos ao ouvido apenas porque vivem apressados e nos querem passar. Todos nós funcionamos por entre outros, guiados pelo egoísmo e satisfação das vontades imediatas. Resmungam, não abrandam e perdem pequenos momentos de paz e de felicidade. Perdem sabores.

(Jardim da Cordoaria)

E ter prazer é saborear. É sentir forte o vento de Outono que é morno, ao natural e sem aditivos. É saborear com os sentidos. Saborear com a visão, com o olfacto, com a audição, com o gosto e com o tacto. Degustar os cinco sentidos, com as sensações e emoções. Saborear com o olhar da cumplicidade ou simplesmente olhar! Olhar a cidade e as pessoas com um sorriso.

(Jardim de Massarelos)

Saborear com a língua mil e uma palavras que gostaria de falar, algumas delas doces, outras amargas, de sabor salgado, adocicado. Saborear com as mãos, acariciar, moldar as imperfeições, tocar ao de leve, num gesto meigo, a paisagem com a ponta dos dedos.

(Jardim do Passeio Alegre)

É saborear com o nariz, o cheiro da terra. O cheiro da brisa que o mar oferece. O cheiro de um café fresco. O cheiro da pele que vadia pela minha mente, simplesmente porque penso nela, e saborear assim é deixar-me com água na boca.


(Jardim da Praia do Molhe) 

Saborear com os ouvidos, as melodias de que mais gosto, o som das palavras, da água que corre e da música que toca. O som dos silêncios e dos barulhos maravilhosos que dançam por entre as árvores.

(Parque da Cidade)

Saborear com todos os sentidos esta luz de Outono que lentamente se despede, e só porque o Sol tinha sono!

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amiga do ambiente

Em alguns países é um hábito comum utilizar a bicicleta. Nós por cá ainda não estamos acostumados a praticar esse hábito saudável mas, felizmente, já vejo por aí muitos ciclistas de fim-de-semana que trocam o passeio de automóvel pelas duas rodas ecológicas. A falta de tempo, o cansaço físico, a falta de zonas tranquilas para pedalar são algumas das desculpas e mais do que válidas, mas que faz um bem danado, lá isso faz! Para além de ser uma prática saudável, tanto para nós como para o meio ambiente, andar de bicicleta torna-se num grande prazer. Além de emagrecer a barriga e a carteira, ao sairmos para a rua montados numa bicla, em pequenos percursos ou até mesmo para ir e voltar do trabalho, estaremos a fazer algo por nós e pelo meio ambiente. A bicicleta é amiga, a bicicleta é verde, a bicicleta é vida.

Seguindo a sugestiva proposta do Carlos, agendei este poste (parece que o agendei mal e assim tive que cá vir num instante e publicá-lo… nabo!), pretendendo assim aderir também à iniciativa do blog action day e lembrar que todos somos ambiente.

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eu não sei quem te perdeu

Antes de me sentar para escrever este texto, pude assistir na RTP1 ao debate entre os candidatos à presidência da Câmara do Porto. O actual presidente e os seus mandatos absolutos foram o centro das atenções. Figura arrogante, de postura cínica, Rui Rio meteu os pés pelas mãos e as mãos pelos pés. Desaguou num role de promessas antigas, argumentos gastos e faltas de respeito, sem uma visão tradicional e renovadora do que sempre foi a cidade invicta que conheci e aprendi a amar.

Por muito que me custe, e vá lá saber-se porquê, Rui Rio continua a manter o apoio de grande parte do eleitorado portuense. Em 2001 encontrou a câmara numa situação financeira dramática e a cidade completamente esventrada depois da Capital da Cultura. Pôs a casa em ordem e pouco mais fez, para além de afrontar a maior instituição da cidade, o Futebol Clube do Porto, e assistir à debandada de muitos habitantes para os municípios vizinhos. Deixo aqui uma excelente descrição, que li no Diário de Notícias, do que é o Porto actualmente:

“O Porto não pode entrar numa competição com os municípios vizinhos, tem é de promover uma articulação de estratégias e recuperar a ideia de que o Porto tinha a excelência. Antes era como um ovo estrelado, que tinha uma gema riquíssima que difundia para a envolvente, enquanto hoje parece um ‘donut’. As pessoas foram escorraçadas e a dinâmica cultural foi tratada com o epíteto de “estes são os subsidio-dependentes”.

Pode ser que me engane, mas parece-me que Elisa Ferreira já perdeu a corrida à presidência da Câmara Municipal do Porto. Elisa Ferreira foi sempre uma referência da cidade, sobretudo nos tempos em que pertenceu ao Governo, mas está há cinco anos em Bruxelas, já poucos se lembrarão dela, e isso levou a que se verificasse um corte afectivo na ligação que mantinha com a cidade. Ainda por cima, no momento em que concorre à Câmara do Porto, não abdica de se manter nas listas para o Parlamento Europeu (não sei se me escapou qualquer coisa durante o acalorado debate!). Para mim, Elisa Ferreira daria uma boa autarca. Do “lote” de candidatos não dislumbro melhor. Mostrou ser eficiente quando esteve no Ministério do Ambiente, onde teve de lidar com questões sensíveis e com um certo garnisé, seu Secretário de Estado, que já então procurava dar nas vistas. E é também por culpa desse garnisé que Elisa Ferreira não vai ganhar.

Gostaria de viver num Porto grande, que fosse de Gaia a Matosinhos, da Maia a Gondomar. Um Porto que fosse novamente o motor de desenvolvimento económico, social e cultural do Norte. Farol da região. Uma cidade alegre, viva e ambiciosa. É necessário mais. Se calhar até estou a pedir demais! Não sei, mas o defeito não é meu, de certeza!

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o macho

meu avô Zé Maria, eu , o Tó e o macho

Não, não é o Paulo que vos fala, apesar do título poder sugerir algo a ver com a virilidade do locador. Mas não tem. Por estes dias serei o locatário deste gabinete. Antes de contar a minha história passo às apresentações. A minha espécie é outra. Chamam-me de Macho. Sou o resultado híbrido do cruzamento de um asinino (o burro) com um equídeo (a égua), espécie muar e uma das principais fontes de riqueza da região transmontana. Durante muitos anos vivi no estábulo que ficava na divisão inferior da casa e só de lá saia para beber água fresca, carregar mercadorias e transportar os meus donos, os avós do Paulinho e do (Tó) Manel. Enfim, era uma vida bastante chata, passada a ruminar palha seca, abanar a cabeça e a cauda para sacudir as moscas e cagar o chão por onde passasse. Ai o quanto ansiava pelo fim do Verão, pelo mês de Setembro. Por essa altura os meus dias tinham outra emoção com a chegada dos meninos da cidade e que vinham cá passar umas semanas de férias, pelo menos até às festas da freguesia.

Mós do Douro é uma primitiva povoação rodeada de montanhas, virada a sul e oposta ao preguiçoso e pachorrento Rio Douro. De gente alegre e sincera, bairrista e sentimental, crente e trabalhadora, amiga da sua aldeia, terra agreste e produtiva. Nas suas encostas, entre camadas de xisto e solo barrento crescem hortas, pomares, olivais, amendoais e vinhas que dão um belo colorido e textura a todo o vale.

De manhãzinha, bem pela fresca, saio à rua carregado com alguma carga e com os miúdos sentados na minha albarda. Puxado à rédea pelo meu dono, sigo cuidadoso em direcção à Gricha, aos distantes campos de cultivo no cimo das montanhas de onde se pode avistar a Lousa. Fazemos uma paragem obrigatória no bebedouro do fontanário, junto do terreiro que é o centro principal da povoação, para beber e encher os cântaros de água fresca. É ali, à sombra do majestoso olmo que antes existia, símbolo da terra, que a população se reúne e convive diariamente. Já se vêem as decorações na igreja e todos os preparativos para as tradicionais celebrações da terra. Ao 3º domingo de Setembro a população residente e a emigrante junta-se na aldeia e celebra com festejos e procissões as tradicionais festas em honra e devoção à Nossa Senhora da Soledade. Ouve-se um chamamento familiar e vemos passar por nós o tio Farrincha que vai regar a sua linda horta no Valemampaz. Acenam-lhe.

De bandulho cheio rumo agora pela estrada poeirenta de Santo Amaro. Os meninos seguem no meu lombo, irrequietos e atentos, apreciando a paisagem e enchendo o avô de perguntas. Mais à frente saio da estrada e sigo por um caminho longo e duro, feito todo ele debaixo de um sol escaldante e desgastante, o que aumenta o meu apetite. Sempre que posso vou mordiscando aqui e ali umas ervas e uns raminhos suculentos das amendoeiras. Às tantas, a ladeira torna-se tão estreita e íngreme que todo o cuidado é pouco para não tropeçar os cascos nas pedras. Mesmo assim, acabo quase sempre por deslizar as ferraduras numa rocha mais lisa e escorregadia e, logo logo, o velhote solta a sua habitual frase de reprimenda que o menino Paulinho nunca mais esqueceu: Arre macho… Raiiis te partiram os cornos… ao que as crianças retorquíam inocentes: Mas ó avô, o macho não tem cornos!!!

E é esta a minha história! Muito mais teria para contar mas… (relinchando) agora vou ali ao palheiro ter com a mula da cooperativa para uma private party (piscando o olho). Até sempre.

Blog das Mós

Ao meu avô Zé Maria, com muita saudade.

A todos os mosenses boas festividades.

 

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a cidade por outros caminhos

Estas minhas férias caseiras, no espírito do “ir para fora cá dentro”, é perante este cenário que procuro descansar por alguns instantes as minhas pernas dos pedais. Detenho-me hipnotizado e admiro-o, sobranceiro, lá na outra margem de um encanto genuíno. O meu Porto, velho e rude, típico e tradicional, com tanto ainda para descobrir. É lá, na Praça da Ribeira, do Cubo, o ponto de partida para esta viajem, de palavras, através dos tempos entre o antigo e o contemporâneo, no contemplamento de um olhar, tendo o Douro como companhia. Da zona ribeirinha se avista a Ponte de Luís I, a Serra do Pilar, o Cais de Gaia, os barcos rabelos. Olhando em redor, revive-se o passado nas famosas arcadas do Muro dos Bacalhoeiros, o que resta da Muralha Fernandina construída no século XIV e a velha praça, guardiã dos sentimentos das gentes da Invicta. Até ao Postigo do Carvão, nas suas ruas estreitas e das mais antigas da cidade, ladeadas de seculares habitações, algumas recuperadas, a maioria deterioradas, aqui e ali, há tascas de comes e bebes e casas de comércio que oferecem a simpatia da gente tripeira. A casa da Filha da Mãe Preta, a Canastra da Ribeira, Peza Arroz e o D. Tonho servem à mesa os mais intensos e tradicionais sabores da região. Uma escultura de baixo relevo relembra o trágico acidente da Ponte das Barcas ocorrido há 200 anos e uma das figuras mais marcantes da história portuense, o Duque da Ribeira, a cidade não esquece e presta a sua homenagem num busto de bronze. “Duque, símbolo e sentido, testemunha e protagonista da vida da Ribeira”. Restam dois obeliscos da antiga Ponte D. Maria II, vulgarmente conhecida como Ponte Pênsil, ali mesmo ao lado da Ponte Luís I, sua substituta. Da autoria de Teófilo Seyrig, sócio de Eiffel, esta travessia de aço, dupla e elegante, recentemente adaptada para a utilização do metro, é o elemento principal e harmonioso que caracteriza a deslumbrante paisagem entre as duas cidades. Na Praça da Ribeira e no Cais de Gaia estão atracados barcos turísticos, réplicas modernizadas dos típicos barcos Rabelos, que possibilitam pequenos cruzeiros onde se pode usufruir de uma vista privilegiada das duas margens e uma experiência memorável ao sabor de um gratificante cálice de Vinho do Porto.

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sábado

Para mim o sábado é um dia maravilhoso. Desde logo porque não preciso de ligar o despertador e ser abruptamente acordado de um sono tranquilo. Claro que, como o corpo está habituado ao horário do costume, acordo à hora de sempre e fico feito estúpido na cama a olhar para o tecto, até que perco a paciência, salto da cama e espreito a manhã à janela. Depois de uma semana de muito calor, seria de esperar que o sol nascesse radioso mas não, este sábado acordou mal disposto! Viemos nós de véspera, para a praia da Madalena, na expectativa de finalmente trabalhar para o bronze e, afinal, num tom cinzento e mal humorado, o dia disse-me logo que tirasse a ideia de estender a minha toalha na areia quente e ficasse em casa. Nada convencido com o convite, saio para a rua na garupa da magrinha e rumo a Norte. Passear de bicicleta é, e não me canso de o dizer, uma experiência agradável, mas se o fizermos ao longo da praia, tendo o nevoeiro como companhia, é ainda melhor. O frenesim das gaivotas, o povo que circula num ritmo diferente ao da semana, o ambiente descontraído e a brisa fresquinha faz-me prosseguir. Da outra margem ouço a cidade que desperta e me chama mas o sábado estende-lhe a neblina e esconde-a de mim. Finalmente, perto da travessia, à Ribeira, o meu Porto revela-se envergonhado e, estremunhado, dá-me os bons dias. Alguns turistas vagueiam de mapas e câmaras fotográficas em punho, tal como eu, perdidos nos elementos da natureza que nos moldam. Juntos viramos as costas a este sábado carrancudo que nos esconde o sol. Dou a volta e sigo pela marginal num ritmo calmo e intimo com o rio, abstraindo-me do dia. Numa paragem para o café, ganho tempo para apreciar a paisagem, respirar a maresia e assentar ideias. Pedaladas suaves e ritmadas levam-me de encontro a um velho solitário, outro amante da arte do pedal, nómada e peregrino.

Registo-o com receio que lhe perturbe o momento que é uma caminhada a sós. Penso nele e em mim. Ele nem se incomoda com a minha ousadia e deixa-me acompanhá-lo até Espinho. Aí, paro novamente, não porque uma distinta senhora e militante da mais antiga coligação partidária deste país teimava em me passar panfletos de propaganda para a mão, mas simplesmente porque tinha de regressar. E enquanto seguia lesto pela ciclovia o pensamento fugia de volta áquele velho, lobo solitário, para quem, com certeza, todos os seus problemas passaram para segundo plano, perdidos nas curvas da vida, deixados no cume da mais alta montanha, prosseguindo na sua viagem. Creio que as grandes acções e as boas ideias devem ter surgido enquanto se apreciava um passeio, vendo e assimilando o mundo que nos rodeia, vivendo cada momento, forma, cor, brisa, aroma e sensações. Cheguei a casa e fiz-lhe uma careta, torci o nariz ao amuado e triste Sábado. Escusas agora de me devolver o sol, às cinco da tarde! Amanhã vou de encontro ao sorriso da manhã que hoje não sorriu. Espero!

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não desista

Senhor professor, por favor não desista da sua bicicleta.
(clicar nas letras azuis para ler a notícia)

O erro não está em querer ser um exemplo. O erro não está em ter reagido ao comentário do polícia que deve cumprir o seu dever e não abusar da autoridade. O que está errado Sr. José Maria é a mentalidade imbecil e ignorante de alguns cidadãos que insistem em ver os ciclistas e as bicicletas apenas como empecilhos que só lhes estorvam o caminho. São cidadãos tão, mas tão exemplares e civilizados, que não se incomodam se deixam os seus popós estacionados nos passeios e nas passadeiras. Tão preocupados com a segurança do próprio umbigo que circulam em excesso de velocidade. Coitados de nós que nos queixamos dos preços da gasolina mas nos esquecemos dos escapes e das buzinas que só servem para poluir. Há quem não saiba que o Código da Estrada estabelece o princípio de que o velocípede sem motor é, para todos os efeitos, um veículo de pleno direito na via pública, mas quem se importa se as escassas ciclovias que existem nas nossas cidades são usadas por peões, crianças, skaters, carrinhos de bebés, cãezinhos de trela, bolas de praia, automóveis… e por bicicletas!

Eu não trocaria uma bicicleta num dia de sol e de calor por um super-carro descapotável. Não trocaria o prazer, o esforço, o desafio que é pedalar numa subida por um fim-de-semana num resort & spa. Não compreendo as pessoas que não sabem apreciar algo tão simples como o ar puro, a liberdade e o prazer que é dizer “eu fiz”, “eu consegui”, “eu sou capaz”. Para algumas pessoas a felicidade é viver no medo, no receio e apontar o dedo ao outro.

Eu confio em pessoas que compram bicicletas.

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um sonho tornado realidade

Activadas pelos módulos de memória, deixo as lembranças da minha mãe pousarem suavemente no chão fino e poroso deste gabinete.

Num domingo quente, 20 de Julho de 1969, tinha eu 3 anos e uns mesitos e o meu irmão estava muito perto de soprar as velas do seu segundo aniversário. A casa estava num reboliço, quase vazia. Para além de nós os quatro já só restavam caixotes cheios de esperança, algumas cadeiras, as camas e pouco mais. Em cima de um desses caixotes estava a nossa televisão, sim, aquela da foto, uma daquelas de caixa de madeira e válvulas. Os preparativos da mudança para a casa nova já se faziam há alguns dias e a nossa chegada estava programada para o dia seguinte. Bem cedo a nossa mãe deitou-nos e despediu-se com um beijinho e um sorriso maroto, de quem prepara uma grande surpresa. Pouco antes das três da manhã fomos meigamente retirados do nosso planeta dos sonhos e levados para alunar no colo do nosso pai para assistir aos astronautas da Apolo 11 que chegavam à Lua. Pela primeira vez via-se a superfície lunar de uma forma tão nítida, um ambiente hostil de cinza, crateras e escuridão. Cheios de sono, lá nos foram mantendo acordados e informados sobre o que era a falta de gravidade ou porque não estava deitado na minha caminha, de tudo o que se passava lá tão longe, para que fossemos também testemunhas de um feito nunca antes alcançado por um ser humano que pisava outro planeta, mesmo que fosse apenas o satélite que todas as noites espreita a Terra. Pensando bem, acho que era por isso que muitas vezes me diziam que eu andava sempre com a cabeça na Lua, não sei! Bem, adiante, e lá estavamos nós, ensonados, a ver um homem movendo-se desajeitadamente com um fato esquisito, que representava toda a humanidade e dava um pequeno passo, o tal salto gigante, dava passos tão desajeitados como eu que ainda mal dava os meus.

Naquela noite, pela madrugada fora, grande parte da população mundial ficou colada aos televisores a assistir à mais extraordinária transmissão em directo de todos os tempos. Muitos portugueses recordam-se bem dessa noitada emocionante, das imagens a preto e branco, dos contrastes daquela sequência de imagens desfocadas e pouco movimentadas, da voz do locutor José Mensurado que comentava o inédito acontecimento. Escusado será dizer que não me lembro de rigorosamente nada mas, mesmo assim, agradeço que a minha mãe me tenha feito estar lá e com eles pousar no Mar da Tranquilidade. A chegada do homem à Lua foi a maior das aventuras e o maior feito tecnológico de todos os tempos. Embora os resultados científicos da missão tenham sido modestos e outros 10 homens tenham pisado o solo lunar até o final do Projecto Apollo, em 1972, nada pode ser comparado à força simbólica daquele passo.

No dia seguinte ao da chegada do Homem à Lua foi a nossa vez de chegar e pisar o chão da nossa casa nova, onde demos grandes e seguros passos em direcção ao futuro.

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sugestão

Em tempos acalorados e conturbados, como estes que vivemos, o importante acima de tudo é manter a calma e dar preferência aos investimentos com maior liquidez: Uma caneca de cerveja com os amigos numa esplanada, com um pires de tremoços ou amendoins numa mesa de bar, a noite com uma boa companhia, loura ou morena, no sofá da sala, não há crise que resista.

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outra vez a grande viagem

Sábado, seis da manhã. Algures na cidade, um gajo (aquele ali de preto e branco) salta da cama e sem bocejar cumpre o ritual habitual de qualquer manhã, menos o almoço, que em nada é pequeno. Veste uns calções almofadados no rabo e o fardamento apropriado para estas ocasiões. Divide os víveres pelos alforges costurados nas costas da camisola e besunta a pele exposta de camadas de protector solar. Deixa um beijinho à amada e um até já também. Desce até à arrecadação, coloca a restante armadura no corpo, monta na bicicleta e vai ao encontro do amigo e parceiro de longas pedaladas.

Nada preocupados com a distância que têm pela frente, nem se ou quando irão chegar, fazem-se à estrada em direcção ao Sul. O vento no rosto o faz sentir vivo e o caminho é lindo ao longo do rio Douro. Mais ou menos no local previsto, juntam-se ao pelotão que chega de músculos pré-aquecidos desde Paços de Ferreira. Mais uma vez partem ao desafio, pernas leves como plumas, a viagem dentro da viagem segue paralela ao mar. Enquanto os outros deslizam suavemente nas suas lindas e esbeltas bicicletas de estrada, ele segue-lhes na roda, fiel à sua querida e grotesca bicicleta de montanha, verdadeiro tractor com as devidas proporções e adaptações.

Para um passeio de bicla até que está uma bela manhã e, para surpresa e alívio da malta, desta vez Éolo apareceu para ajudar. Vento de norte é uma coisa, vento contra é bem diferente. Mais uma cidade desponta no horizonte. E mais outra e outra, a ondulante estrada nacional 109 rasga o litoral luso de alto a baixo. Fazem pequenas paragens para alimentação e hidratação sem deixar arrefecer a vontade. As pernas já reclamam descanso e até as subidas mais ligeiras, nos momentos em que a cadência das pedaladas fica reduzida ao mínimo indispensável, é precisa concentração máxima para enxergar as curvas, os cruzamentos e eventuais condutores de fim-de-semana.

Avista-se a verdejante e convidativa Serra da Boa Viagem, mas que fique claro que de verdejante a serra só é convidativa se forem masoquistas, pois ao fim de mais de uma centena de quilómetros já é bastante exigente, e ter um pneu furado no meio da subida só serve para tornar tudo ainda mais memorável. Na descida a paisagem é tão bonita que compensa tudo.

Estrategicamente, na Figueira da Foz, um grupo de ciclistas famintos e cansados tem finalmente o merecido descanso para reposição de nutrientes. Claro está que gostariam também de repor as pernas e pulmões mas têm de se contentar com uns litros de coca-cola, rissóis e pão com chouriço.

Com um terço do caminho ainda por percorrer logo voltam de novo ao asfalto pelas longas rectas que se seguem. Já não sentem as pernas, quando muito sono e ligeiramente a desconfortável tortura do selim. O nosso herói, esse, continua firme, seguindo o velho truque de se ir deixando ficar para trás, muito de leve, muito aos poucos, segurando subtilmente os seus ímpetos em nome da sobrevivência. Mais paragens para alimentação e hidratação que se fazem agora mais demoradas para descansar. Chegam ao início da derradeira subida da Serra da Santa Catarina e livram-se de tudo o que é peso morto, do corpo e da bicla, para o porta-bagagens do carro-vassoura. Após o derradeiro esforço e a reconfortante descida até à Cova, felizes, chegam todos em grupo, triunfais ao fim da grande aventura.

Para algumas pessoas, estes tipos não passam de um grupo de cotas malucos metidos a radicais. Como assim!? Então, se pedalar por sete ou oito horas, até Fátima, fazem-no apenas por puro prazer e vontade? É, o mais importante para eles não é chegar ao destino, a algum lugar. O que importa é curtir a pedalada, apreciar a paisagem e o espírito de grupo até lá. De outra forma eu não saberia descrever esta mistura de adrenalina, vento, gravidade, sol, curvas, verde, sonho, esforço, contentamento, ar puro, calor, carros apressados, pernas pesadas, natureza, vontade.

Estou como o aço!

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