Esta semana vou dar cor às palavras que vadiam pela minha mente, com imagens por mim retidas e que simplesmente as quero partilhar.
O final de tarde convidava-me para sair, com a minha máquina fotográfica, e sentir o pulsar da cidade. Sentir uma paz e tranquilidade assim de improviso! E como eu gosto de pedalar (é um prazer, sabiam?), não há nada melhor do que sair de casa e apreciar o tempo, esquecendo tudo o resto, até a hora de ponta, ao rumo dos Jardins de Outono.
Há quem diga que é cinzenta! Talvez, se assim a quiserem ver…. Mas, como podem? Será que já a percorreram quando a luz outonal realça os cinzentos do granito, branqueia o sujo das paredes, vermelha os enegrecidos telhados e amarela as verdes folhas caídas das árvores? É… como magia! É como dar cor às palavras.
E podia dar cor às palavras chegando aqui a pé, pois podia, mas prefiro pedalar e chegar mais longe, quase voar, pelo prazer e pela sensação de paz e liberdade que me dá. Permitam-me então desenhar palavras, improvisar imagens e, com elas, voar!
Porém, infelizmente há quem não tente nos ignorar, e buzina-nos ao ouvido apenas porque vivem apressados e nos querem passar. Todos nós funcionamos por entre outros, guiados pelo egoísmo e satisfação das vontades imediatas. Resmungam, não abrandam e perdem pequenos momentos de paz e de felicidade. Perdem sabores.
E ter prazer é saborear. É sentir forte o vento de Outono que é morno, ao natural e sem aditivos. É saborear com os sentidos. Saborear com a visão, com o olfacto, com a audição, com o gosto e com o tacto. Degustar os cinco sentidos, com as sensações e emoções. Saborear com o olhar da cumplicidade ou simplesmente olhar! Olhar a cidade e as pessoas com um sorriso.
Saborear com a língua mil e uma palavras que gostaria de falar, algumas delas doces, outras amargas, de sabor salgado, adocicado. Saborear com as mãos, acariciar, moldar as imperfeições, tocar ao de leve, num gesto meigo, a paisagem com a ponta dos dedos.
É saborear com o nariz, o cheiro da terra. O cheiro da brisa que o mar oferece. O cheiro de um café fresco. O cheiro da pele que vadia pela minha mente, simplesmente porque penso nela, e saborear assim é deixar-me com água na boca.
Saborear com os ouvidos, as melodias de que mais gosto, o som das palavras, da água que corre e da música que toca. O som dos silêncios e dos barulhos maravilhosos que dançam por entre as árvores.
Saborear com todos os sentidos esta luz de Outono que lentamente se despede, e só porque o Sol tinha sono!












Estas minhas férias caseiras, no espírito do “ir para fora cá dentro”, é perante este cenário que procuro descansar por alguns instantes as minhas pernas dos pedais. Detenho-me hipnotizado e admiro-o, sobranceiro, lá na outra margem de um encanto genuíno. O meu Porto, velho e rude, típico e tradicional, com tanto ainda para descobrir. É lá, na Praça da Ribeira, do Cubo, o ponto de partida para esta viajem, de palavras, através dos tempos entre o antigo e o contemporâneo, no contemplamento de um olhar, tendo o Douro como companhia. Da zona ribeirinha se avista a Ponte de Luís I, a Serra do Pilar, o Cais de Gaia, os barcos rabelos. Olhando em redor, revive-se o passado nas famosas arcadas do Muro dos Bacalhoeiros, o que resta da Muralha Fernandina construída no século XIV e a velha praça, guardiã dos sentimentos das gentes da Invicta. Até ao Postigo do Carvão, nas suas ruas estreitas e das mais antigas da cidade, ladeadas de seculares habitações, algumas recuperadas, a maioria deterioradas, aqui e ali, há tascas de comes e bebes e casas de comércio que oferecem a simpatia da gente tripeira. A casa da Filha da Mãe Preta, a Canastra da Ribeira, Peza Arroz e o D. Tonho servem à mesa os mais intensos e tradicionais sabores da região. Uma escultura de baixo relevo relembra o trágico acidente da Ponte das Barcas ocorrido há 200 anos e uma das figuras mais marcantes da história portuense, o Duque da Ribeira, a cidade não esquece e presta a sua homenagem num busto de bronze. “Duque, símbolo e sentido, testemunha e protagonista da vida da Ribeira”. Restam dois obeliscos da antiga Ponte D. Maria II, vulgarmente conhecida como Ponte Pênsil, ali mesmo ao lado da Ponte Luís I, sua substituta. Da autoria de Teófilo Seyrig, sócio de Eiffel, esta travessia de aço, dupla e elegante, recentemente adaptada para a utilização do metro, é o elemento principal e harmonioso que caracteriza a deslumbrante paisagem entre as duas cidades. Na Praça da Ribeira e no Cais de Gaia estão atracados barcos turísticos, réplicas modernizadas dos típicos barcos Rabelos, que possibilitam pequenos cruzeiros onde se pode usufruir de uma vista privilegiada das duas margens e uma experiência memorável ao sabor de um gratificante cálice de Vinho do Porto.
Para mim o sábado é um dia maravilhoso. Desde logo porque não preciso de ligar o despertador e ser abruptamente acordado de um sono tranquilo. Claro que, como o corpo está habituado ao horário do costume, acordo à hora de sempre e fico feito estúpido na cama a olhar para o tecto, até que perco a paciência, salto da cama e espreito a manhã à janela. Depois de uma semana de muito calor, seria de esperar que o sol nascesse radioso mas não, este sábado acordou mal disposto! Viemos nós de véspera, para a praia da Madalena, na expectativa de finalmente trabalhar para o bronze e, afinal, num tom cinzento e mal humorado, o dia disse-me logo que tirasse a ideia de estender a minha toalha na areia quente e ficasse em casa. Nada convencido com o convite, saio para a rua na garupa da magrinha e rumo a Norte. Passear de bicicleta é, e não me canso de o dizer, uma experiência agradável, mas se o fizermos ao longo da praia, tendo o nevoeiro como companhia, é ainda melhor. O frenesim das gaivotas, o povo que circula num ritmo diferente ao da semana, o ambiente descontraído e a brisa fresquinha faz-me prosseguir. Da outra margem ouço a cidade que desperta e me chama mas o sábado estende-lhe a neblina e esconde-a de mim. Finalmente, perto da travessia, à Ribeira, o meu Porto revela-se envergonhado e, estremunhado, dá-me os bons dias. Alguns turistas vagueiam de mapas e câmaras fotográficas em punho, tal como eu, perdidos nos elementos da natureza que nos moldam. Juntos viramos as costas a este sábado carrancudo que nos esconde o sol. Dou a volta e sigo pela marginal num ritmo calmo e intimo com o rio, abstraindo-me do dia. Numa paragem para o café, ganho tempo para apreciar a paisagem, respirar a maresia e assentar ideias. Pedaladas suaves e ritmadas levam-me de encontro a um velho solitário, outro amante da arte do pedal, nómada e peregrino.






















