num ambiente…

… agradável, enquanto dormia o sono dos justos, numa destas noites eu tive um daqueles sonhos que, evidentemente, nunca se tornarão realidade. Sonhei que bem lá num futuro mais que perfeito, os automóveis estariam extintos pela escassez de hidrocarbonetos e a superfície da terra só seria calcada por rodas de bicicletas. Alguns carros, autocarros e camiões ficariam expostos em museus como relíquias do passado, memórias de um tempo carbonizado pelos óxidos e nós, de rabos sentados nos selins, com pés nos pedais e mãos no guiador, pedalaríamos felizes para sempre. Estão a pensar que estou a delirar, pois estou. É inegável a minha simpatia pelas bicicletas, máquina desengonçada que se estiver parada destrambelha-se no chão como um albatroz em terra, mas que ao impulso dos pedais se projecta esguia, veloz e silenciosa. É uma máquina do tempo, que está ali, pronta para quem quiser levantar-se mais cedo e experimentar a liberdade. Só quem faz, ou já o fez um dia, conhece a boa sensação de acordar antes do sol numa manhã de domingo, comer bem, vestir-se, calibrar os pneus da bicicleta e sair para umas longas pedaladas, respirar aquele ar tão puro e fino antes das emanações poluentes dos veículos motorizados cujos donos aquela hora provavelmente ainda dormem, de ressaca, preguiça, cansaço ou tédio. É um silêncio diferente, que só as manhãs de domingo têm, por as ruas se encontrarem quase vazias, num efeito de viajem ao passado, no espaço de uma época ou lugar onde não se vê a loucura, gritaria, individualismo e desrespeito. Acreditem sinceramente, não é só por isso tudo que tive esse sonho, mas pelo conveniente pretexto da bicicleta ser amiga do meio ambiente, de me proporcionar saúde e bem estar físico, pelo poder de me transportar em curtos espaços de tempo, a pequenos recantos de um paraíso que de outra forma não os teria desvendado. E o paraíso em questão não é só o lugar que encanta após umas curvas ou pelo subida ao cume de uma montanha, é a sensação única de a ter conquistado, com o próprio suor.

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um porto agridoce

Talvez estranhem só agora publicar o meu postinho d’hoje e lhe dar este título mas isso tem uma boa justificação. Depois de assistir ao último jogo do campeonato no Dragão, fomos levados por um mar azul e branco e celebramos até às tantas mais um S. João antecipado nas ruas do Porto. Revivemos a alegria que o nosso Futebol Clube do Porto nos proporciona a cada vitória, e o autocarro da glória desfilou desta vez em plena baixa tripeira o que não acontecia há alguns anos.

“É o tetra, olé, olé”, “Quem bate palmas é tripeiro, é tripeiro, é tripeirooo!” A cidade deitou-se de madrugada. Exausta e feliz, mas…

Mas eu ontem vivi um dia de contrastes com os clubes da minha cidade. A convite do meu primo Berto, durante a tarde, fui assistir no Bessa ao derradeiro jogo de uma época muito difícil para o clube axadrezado, onde o meu filho é atleta de judo. Bastava conseguir um resultado positivo frente ao Covilhã para o Boavista se manter na Liga Vitalis. Milhares de cachecóis e bandeiras pintavam as bancadas e os adeptos desenhavam uma expressão de confiança numa tarde de festa que não se vivia há bastante tempo, para dar o calor humano e incentivo aos jogadores na conquista da última vitória. A partida não correu de feição para as hostes boavisteiras, o Boavista perdeu e bem o jogo, acabando assim ingloriamente relegado para a 2ª Divisão, que na prática é a 3ª, sendo a primeira vez que tal acontece a um campeão nacional! Chega assim ao fim uma época de muita luta, em que os jovens boavisteiros sempre mostraram a sua abnegação e amor ao clube por todo o país. Nem mesmo o presunto que a Dona Lurdes da Tasca da Badalhoca oferecia para premiar o primeiro marcador de um golo boavisteiro foi suficientemente galvanizador e moralizador. A missão era complicada, as dificuldades financeiras que o clube atravessa são bastante graves e os obstáculos que se lhes depararam durante a época foram imensos. A equipa é demasiado jovem e inexperiente. O pesadelo do “apito dourado” marcou-os definitivamente. Acho deveras curioso, ou talvez não, o facto de o Boavista descer de divisão juntamente com o Gondomar, mas isso são conspirações para outras teorias. No final do jogo, a tristeza e o desânimo tomaram conta de jogadores, dirigentes e adeptos. Vários saíram do estádio lavados em lágrimas, bastante emocionados, num clima de consternação mas também de alguma resignação, sem no entanto se calarem as vozes de apoio e incentivo ao Boavistão. Força Boavista. Estou certo que este grande e digno clube se erguerá de novo com a dedicação, força e jovielidade dos seus atletas e adeptos.

 

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obrigado

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a senhora professora

Ontem eu era apenas um rapazinho que, nos meus oito verdes anos de idade, caminhava livremente por ruas cinzentas e silenciosas, numa manhã primaveril, encantado com o brilho clareado dos primeiros raios de sol. Lembro que se sentia alguma coisa, lembro-me porque aquele dia também me marcou muito, mas só mais tarde percebi porquê. Eu gostava da escola. Gostava de lá estar, aprendia a ler e a escrever, somar números e colorir desenhos em livros de páginas amareladas. Logo nas primeiras horas da manhã, a senhora professora saiu repentinamente da sala e colocou-me com outros colegas a tomar conta da turma. Regressou mais tarde com um nervosismo indisfarçável nas rugas do rosto e a voz apressada: “meninos podem sair para o recreio”! Lá fora ficava um dos lugares mágicos que o espírito da minha infância agora me trás de volta. Ali, nem tudo parecia tão alto e difícil de alcançar. Era um recinto de terra batida, onde brincávamos às corridas e às apanhadas, numa inocente meninice. Entre pontapés a uma bola rasgada, corridas desenfreadas e uma ou outra queda que nos sujava as batas, um muro separava-nos de outro mundo, outro recreio. Os meninos brincavam ali e as meninas do outro lado! Nessa idade o mundo era muito maior, muito mais haveria para conhecer e tanto para aprender. Nem imaginava que heróis caminhavam sobre a capital e não ouvia as vozes que eram libertadas das mordaças. Nessa idade eu prestava mais atenção à caixa de brinquedos e à minha guitarra de plástico, que recebera no Natal, do que a outras brincadeiras mais sérias. O intervalo no recreio já ia bastante demorado quando a senhora professora, com uma visível expressão de preocupação, diria mesmo de medo, chamou todos os meninos para a sala e saiu porta fora com um desavergonhado adeus, sem a preocupação se teríamos alguém que nos fosse buscar. Eu não compreendia nada do que se estava a passar e ninguém me explicava! Imagino que nem os adultos sabiam o que se passava e o que deveriam fazer. Na rua, todos corriam de um lado para o outro, apressados, assustados e no entanto reparava-se que havia ali um brilho diferente no olhar. Uma canção conhecida de todos tocava nas suas cabeças, murmuravam-se poesias nas gargantas e todas elas rimavam com o mesmo sentimento, com a liberdade. E depois do adeus da velha senhora voltei à mesma escola, ao mesmo mundo, mas para um amanhã diferente, para um sorriso simpático e mais colorido da nova senhora professora.

“A liberdade é o espaço que a felicidade precisa”

Um bom fim-de-semana. Aceito palpites na fotografia. 🙂

Azeituna – E Depois do Adeus

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na bicicleta [5] manhã de domingo

( Foz do Douro, Porto)

Eu vim porque sei que posso contar contigo. Aqui em frente a ti eu paro e encontro a serenidade. Ouço a tua música que leve me acalma e me embala. Deixa-me ficar a teu lado, com o teu mistério ao vento, porque me deu uma imensa vontade de assim soltar palavras e prender o tempo que o olhar perde para lá do horizonte azul, inundado por raios de sol filtrados das nuvens da Primavera. Aqui desperto de sonhos que o coração em vagas me inebria e devagar se aquieta da sua entrega ao ritmo doutras ondas. O teu sólido bater de lágrimas, entre nós e as rochas, me cospe de novo à vida, à minha viagem. Eu vim porque estou tão longe e quero estar perto de ti, da tua força, da minha natureza.

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um poste muito interessante

 

Acham que se vos disser que hoje ainda não fiz o meu trabalho, digo, o meu poste, porque estou há duas horas de boca aberta em frente ao computador sem conseguir escrever uma palavra, vocês me dispensam da publicação?

Pois Gi…
Também me parece!


Adenda à adenda: Duas horas de boca aberta vendo este exemplar de duas rodas que me foi enviado via e-mail por um amigo ciclista e adenda ao poste em branco após o primeiro comentário da Gi…

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no gabinete


Amanheço aqui, entre papéis, semi-encerrado num envelope sem coisas lá dentro, com um postal por escrever. Lá, por fora dos vidros, imagino a minha vida. Aqui, imagino-me sempre a tentar, sempre com a mania de vir a ser. Caducado. Uma sensação estranha de nunca ser, de nunca estar. Fotocópia de fotocópia, dobrada em quatro, que circulou por muitas mãos e por muitos olhos. Papel químico dos dias que passam, sempre os mesmos. Numa ideia do que faço disto, procuro partilhar pequenas insignificâncias dos dias, alguém com quem sorrir, de vez em quando. Coisas simples e vulgares que nos tornam cúmplices. Não querer acertar com receio de magoar, a pedir ajuda com os olhos, a desviar a conversa. Quase contar tudo, mesmo os pensamentos mais secretos, mesmo aqueles que coram faces e nos descai o olhar na procura de algo perdido para pontapear e desviar a atenção. Um balão vazio perdido entre papéis. Rasgo o envelope, encho de ar o balão, que foge como um farrapo de nuvem à deriva num pedaço de céu, e rabisco umas letras no postal.

Uma vontade. Ter alguém com quem passear de bicicleta, percorrer todas as ruas e escolher as mais bonitas paragens.

Um sentimento. Na verdade não me sinto adulto.

foto – Henry Cartier-Bresson

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foi assim

Estava no terceiro ano do ciclo e faltariam talvez uns três meses para as férias grandes. Nessa época, as crianças ainda não se consideravam gente só porque tinham a chave de casa ou porque voltavam sozinhas da escola a pé ou de autocarro. O pai pesou-lhe os ombros de responsabilidade quando acedeu ao seu pedido de prescindir do transporte escolar do senhor Domingos. Ele achava o máximo a independência de ter umas moedas no bolso para comprar o bilhete da camioneta das 6 horas, ir até à estação de comboios procurar aventuras, rastejar todo sujo em busca da bola perdida, gastar parte dos 5 escudos em gasosa e bolas de berlim. Já sem dinheiro suficiente para a comioneta, voltava a pé para casa, mordiscando umas batatas fritas pála-pála acompanhado de outros amiguinhos mais velhos que também tinham o hábito de caminhar até à Venda Nova. De pasta às costas, ele percorria uns 5 quilómetros até à Portelinha, sem dar por nada, na rebeldia própria da idade, onde ali e acolá tocava nas campainhas e fugia à toa, fintava paralelos da estrada com uma lata de feijão, surrupiava uma ou outra laranja de um pomar. Enfim, livre e feliz saciava a fantasia e o sonho infantil, num tempo em que era bem mais fácil ser criança sem ter que sentir o peso actual desta sociedade.

O colégio que frequentava era privado e murado, com um jardim de cedros enormes e disciplina rigorosa. Depois de entrar, a maioria dos alunos do Externato Camões não tinha passe livre para sair, e poucos ousavam cruzar a portinhola daqueles enormes portões verdes sem a permissão do director. Naquele ano muitos colegas haviam trocado de escola e outros novos chegados à sua turma. Ele era considerado um bom aluno mas não gostava de perder muito tempo com os estudos. Os seus olhos e a janela levavam-lhe os pensamentos para fora da sala de aula. Distraídos, eram atraídos pelo reboliço e pela dança das folhas da tília frondosa que sombreava o recreio, o que deixava os professores em fúria e os colegas com troça. Uma das professoras, achando que poderia salvar a sua alma, recambiou-o para o interior da sala, trocou-o de carteira e de colega, não imaginando que com isso seria pior a emenda que o soneto. Em vez de o fazer regressar à terra, levou-o para perto de um anjo e directo ao paraíso.

A princípio estranhou, tinha naquela fila um grupo de colegas mais calmos e menos incomodativos, o que fez com que melhorasse o rendimento escolar. Ficou mais atento e concentrado, fez bons progressos e até melhorou a nota a matemática. Quando já estava mais ou menos encarreirado, reparou na Marília: nariz afiado, covinhas simétricas em cada sorriso, cabelo preto, e uns olhos cor do mar, chamativos. Nela reencontrou de novo a sua janela, bloqueou tudo e todos ao seu redor e via-se reflectido naqueles olhos, eu… ele, um tímido magricela de voz muda e embargada, cabelo comprido e encaracolado, calças com joelheiras e cara de parvo. Sem que ela desse por nada, ficava pr’ali embevecido e ruborizado a cada olhar seu, directo ou cruzado. O fim-de-semana trazia uma estranha vontade da primeira aula da semana, só para a rever, para lhe pedir explicações de francês e terminar os deveres de ciências. Procurava a sua companhia no recreio, ignorando o saltitar da bola e os olhares intrigantes das funcionárias. Encantado e desajeitado, ficou paralisado quando ela, no último dia de aulas, se despediu com um beijo tão inesperado como efémero. Nunca havia sido beijado antes, nunca por quem tivesse uma paixão tão platónica, inocente e secreta. Guardou para ele aquele momento como o mais precioso dos tesouros, como um presente da primeira namorada.

p.s: Certo Tó, eu usei uma foto tua tirada no jardim do colégio. Sabes que não tenho nenhuma foto dessa época, e aquela imagem estampada na camisola enquadra-se às mil maravilhas neste texto. E até ficaste bem, com aquela tua carinha de safado! Abraço mano.
 

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curriculum blogae

Nos tempos mais ou menos recentes, não falta por aí muito boa gente que por qualquer razão da sua vida, simples pudor, falta dele, ou então para ganhar algum dinheirinho com isso, escreve ou manda escrever um livro a contar parte ou mesmo a sua vida. Ora aqui o “je” diz com todos os caracteres que a sua vidinha mal dá para escrever duas páginas A4 com letra Arial 16 – bold. Os meus dias não são rodeados de mistérios nem de acontecimentos surpreendentes. Posso lhes assegurar que, até ao momento, nada fiz que fosse digno de uma biografia publicável, não pratiquei actos heróicos, não pretendo exposições ridículas nem penso sequer em angariar qualquer patrocínio para fazer render o “peixe”. Nada do que fiz ou deixei de fazer daria uma prosa interessante, talvez alguns devaneios, mas nem isso seria uma biografia. Mesmo assim, sem emoções fortes, fora as que a minha bicicleta me vai proporcionando, gosto da minha vida tranquila e do conforto familiar. Os simples episódios da minha vida, cujo interesse é bastante relativo, não dariam sequer para alimentar um blogue!

De há um ano a esta parte, vou tentando manter activo este bloco de apontamentos que se encontrava no esquecimento. Não dependo dele e não lhe retiro qualquer sustento. É somente um passatempo, um simples gosto, sem maiores pretensões do que realmente representa. O que necessito basicamente é ter um computador agarrado à rede que leve e me traga notícias. Como qualquer pessoa normal, ao longo da vida, passei por fases: sonhador, fotógrafo, inventor, desenrrascado. Fui descobrindo que posso também escrevinhar umas letras e entre baças imagens, apontamentos esquecidos e camadas de pó a descolar desta velha cabeça, acabei por tirar tudo isso da gaveta e me tornei num amador da escrita. Nos blogues já li belas e más notícias, já dei boas gargalhadas, já encolhi os ombros e abanei a cabeça. Senti, com o coração apertado, quem fala da morte de um pai. Vi muita solidão espalhada em palavras e a amizade a florescer. Conheci pessoas e aprendi muito de muita coisa. Mantive a minha máscara de ferro e fui despindo a armadura que me protegia, não sei bem do quê! Parti à descoberta de pessoas reais num espaço virtual. Sei que tenho os meus fiéis oito ou dez leitores diários, pois sei! Blogues existem que nem recebem uma visita, nenhum comentário, e mesmo assim resistem. Vocês estão sempre aqui presentes, praticamente desde a altura em que abri as janelas da casa e deixei entrar a corrente de ar, levar com ela a minha graça, o meu mundo. Tão certo como quando se enfrenta uma tempestade, sabendo que mais tarde ou mais cedo estarão de volta os raios de sol. Se aqui escrevo por vontade própria, devo estar aqui para ser criticado, considerado ou reprovado. Chamado à pedra sempre que errar. É aquela velha história que quem o alheio veste, na praça o despe e, depois da alma nos cair aos pés, resta mesmo é levantar a cabeça, sacudir o esqueleto e, de mente livre, navegar na rede e me desfazer em palavras. Pois é, eu tenho um blogue e nos blogues dos outros eu sigo, e seguirei aprendendo com quem mais sabe. E são tantos! Até amanhã… ou depois!


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chamavam-me bolinhas

Era assim todos os domingos à tarde. Sempre que o sol convidava eu os levava a passear, aos meus dois meninos, por estradas sinuosas, para lugares distantes, desconhecidos e cheios de histórias para lhes contar. Andava e rodava, fazia curvas e subia montanhas sem medo, abrandava e acelerava, até onde podia, sempre com o motor quente de tanta alegria, até que cansado estacionava e ficava a vê-los a brincar debaixo das árvores. Outros meninos já corriam pelo parque, pareciam bastante ocupados com os jogos tradicionais, às caçadinhas, às escondidinhas, à bola e ao faz-de-conta. As meninas sentadas numa larga e colorida manta permaneciam sossegadas, construindo sonhos e planos com as suas bonecas. À sombra, eu ficava parado a observa-los com os meus redondos faróis, fazendo companhia nas brincadeiras dos irmãos e dos seus carrinhos de plástico. Em poucos minutos o chão de terra ganhava desenhos de estradas que levavam para todos os lugares que a imaginação os permitisse, só não voavam porque afinal um carro não voa, ou voa? Eles eram engenheiros de miniaturas, construtores de estradinhas com os seus carrinhos viajantes de mil e um lugares.

Um dos meninos é chamado para que ajude a tirar as cestas de dentro de mim. Contrariado por ter que parar os seus jogos, lá cedeu reclamando baixinho “porquê eu, sempre eu?”. Os pássaros andavam curiosos comigo, um deles chegou mesmo a pousar na minha branca e reluzente tinta: “ouve lá, e se fosses brincar com os teus amigos? Não vês que me lavaram esta manhã!?”. Melhor seria eu também ter alguma coisa para me distrair. Não é que seja vaidoso, e nada convencido, mas tenho a certeza que aquela carrinha toda giraça que acabou de chegar me deu um pisca-pisca. Seria até bem divertido poder conversar com ela, trocarmos umas buzinadelas ou talvez uns sinais de luzes! Mas se ela for como as meninas que não gostam de brincar com carrinhos. Vendo bem ela nem é para a minha cilindrada! Ouço um chamamento familiar e os meus meninos depressa param com as brincadeiras e juntam-se aos amiguinhos sobre uma grande manta para o tão desejado lanche, para se fartarem de guloseimas e coisas boas que a mamã deles preparou com tanto carinho. Não, não vou ficar para aqui a babar-me porque sei que no regresso me vão encher o depósito. Por isso vou aproveitar este sol que está quentinho e tirar uma boa sesta.

Upa… já estou a trabalhar e mal tive tempo de escovar o pára- brisas. E já estão todos cá dentro! Os meus meninos ainda inquietos, falam e contam todas as aventuras que viveram naquela tarde. De primeira engatada, faço-me de novo à estrada. Cansados e inquietos todos falam e cantam, não tarda nada já estarão a dormir e a sonhar, enquanto eu com a calma da minha pequena potência os levo de volta a casa, de volta à minha garagem.

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