exercício de imaginação

Encerrado o expediente dos chamados dias úteis, desligo o computador e saio na tarde luminosa deste sol outonal, a tempo de aproveitar o tempo. Poderão dizer que sou um sortudo. Pois sou, e ainda que me seja difícil narrar com fidelidade toda a gama de sensações, cheiros, cores, sons, temperaturas, paisagens, descobertas, reflexões e alguns sustos pela azelhice dos automobilistas, tenho um chão imenso à minha frente para as rodas tocarem.


Sempre gostei de ter a minha solidão. Uma pequena necessidade de me encontrar só por uns momentos, só meus. E na bicicleta encontro as forças que necessito para pensar, reflectir com destino, o mesmo de sempre. O caminho poderá ser longo, a estrada tortuosa, mas esta minha via verde incentiva-me a seguir, a prosseguir no pedal e a chegar lá, apreciar um olhar, absorver as alegrias que recebo nos seus sorrisos. Olá Mãe, olá Pai.

E o Sol contempla-me agora com os seus braços de fogo, com o cheiro morno de mar, e nem o vento perturba essa paz e toda a perfeição da natureza. O tempo parece caminhar lentamente e o astro despede-se com o seu lindo espectáculo, enxergando-me o caminho de volta. As pessoas deviam aprender a apreciar estas maravilhas. Reclamam sempre das suas vidas, têm medo da solidão e procuram qualquer coisa que lhes dê sentido aos dias. Não percebem a arte que é viver, simplesmente viver, sem precisar procurar tesouros perdidos nem… hããã, o qu’é isto! Desculpem, fui acordado pelo telemóvel!…

Estou…

 

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de molho!

 

O alerta era amarelo e agora já é laranja. Qualquer que seja a cor que a Protecção Civil queira dar a este mau tempo, pelo menos já estou no bem-bom. Deixei o guarda-chuva a pingar, larguei os sapatos à porta, todos ensopados naquela poça da fotografia, e estendi as calças a secar. Roupão e chinelos nos pés! Ora venha de lá esse chá aromático e não esquecer as torradinhas, ó faxabôre. Vão-me saber muito bem, como estes próximos dois dias inteirinhos a chonar. Bem, lá se foram os planos das pedaladas, mas também não se pode ter tudo, né?

Bom fim de coiso…

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pelas ruas do Porto

Há a Foz, a Casa da Música, há Serralves, o Parque da Cidade, a Ribeira, mas o Porto tem muito mais para oferecer. Sou um fã incondicional do Porto mas eu sou suspeito. Aqui nasci, aqui trabalho e moro desde há alguns anos. É na mistura dos tempos que esta cidade me inspira, ou melhor, se inspira. É nela que respira a gente que aqui habita e que faz sentir a quem o visita quase como se sentisse em casa. É nas ruas da cidade que vive o pulsar do Porto. Uma dessas ruas é a Rua Miguel Bombarda onde as galerias de arte são o seu grande pólo de atracção. A sua história tem muitos anos e começou quando os marchands começaram a localizar aí as suas actividades. Depois chegaram os artistas e as lojas alternativas. O edifício Artes em Partes é uma espécie de centro comercial alternativo com projectos interessantes onde as pessoas se cruzam para alternar o estilo. Na Rua do Rosário, que a cruza, há outras coisas para ver e um dos melhores hotéis da cidade, o Hotel das Artes, que é também um complemento à oferta cultural do bairro. Dali até à Rua de Cedofeita é um pulinho e nem dá para aqui descrever o bulício que ali se vive. A noite é sem dúvida coisa a não perder na Invicta, e quando aperta a fome, no quarteirão entre a Igreja do Carmo e o Jardim da Cordoaria, pode-se encontrar uma grande variedade e oferta. As refeições são simples, na elaboração e na combinação de sabores, e uma introdução progressiva à gastronomia tripeira. Na praça em frente ao Café Piolho, nas Ruas Galerias de Paris e Cândido dos Reis, são um antro de animação, boa disposição e convívio, sempre de copo na mão. E a pé, até onde for possível, pode-se caminhar e conhecer ruas soturnas, monumentos e locais de história. Com o dia e o sol a despontar nada melhor do que acordar saboreando um aromático café de saco acompanhado de um croissant ou de uma torrada bijou no Café Progresso.

 

 

Não há melhor forma de dizer bom dia. 

 

(no Dia Mundial do Turismo)

 

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área metro… politana

Hoje é dia do ignorado dia mundial sem carros. Nada mais utópico imaginar-se uma estrada, uma rua desta cidade vazia de automóveis a meio da semana. Um dos principais problemas das cidades é a mobilidade, o tempo perdido no trânsito e o quanto a escassez de transportes urbanos afecta a vida das pessoas. De há muito a esta parte que optei pelos transportes públicos para chegar ao meu local de trabalho, no centro da cidade. O metro, o autocarro e até a bicicleta são a minha independência face ao empecilho que é circular e estacionar a viatura! Há dias li no jornal sobre o bom ritmo a que vão as obras do metro na futura linha de Gondomar e lembrei-me de um velho e típico amigo, que usava no meu dia-a-dia, e que não sei porquê veio a desaparecer. Lembrei-me dos tempos em que invadia o Porto de troleicarro. Do longo caminho que percorria a pé, de casa até ao Alto de Soutelo, para esperar por eles, para os ver passar, parar e entrar naqueles autocarros estranhos. Primeiro eram os “pantufas”, pequenos carros eléctricos que a população assim apelidou por serem tão silenciosos. Anos mais tarde chegaram os italianos, de um e de dois pisos, que deslizaram pelas linhas electrificadas das ruas da cidade durante muitos e bons anos. Estes eram mais modernos mas um bocadinho barulhentos, principalmente quando o compressor funcionava, para não falar do característico ruído do travão de mão, conhecido pelo “réque-réque”, que só travava realmente após a quarta ou a quinta puxadela!

Provenientes de S. Pedro da Cova e de Gondomar, as carreiras 11 e 12 serviam no transporte colectivo em direcção ao Porto, até ao Bolhão. Levavam-me para todo o lado, à baixa, ao cinema, às aulas, à namorada, à praia, ao trabalho, e eu que sempre viajava com cara de sono. Chegava quase sempre apinhado de caretas mal-humoradas a caminho dos empregos. A entrada fazia-se pela porta traseira do veículo, directo à “cozinha”, que se atropelava na ânsia de apanhar um lugar vago. Ninguém escapava ao “pica” que, entalado no seu cubículo apertado, conferia o passe ou obliterava os bilhetes. Eu subia sempre as escadas para o piso superior e ali, se houvesse lugar vago nos bancos da 1ª fila, sentia-me um privilegiado, mas a única vantagem era psicológica. O troleicarro andava sempre lento e muito atrasado, mas mesmo assim eu julgava triunfar sobre o tempo perdido. Talvez espiar os outros passageiros e transeuntes fosse a melhor das distracções. Ainda que fosse difícil alcançar as raias do tédio, com uma vista panorâmica sobre o reboliço urbano não era difícil para o comum passageiro, como eu, dormitar até babar! Refastelado nos desconfortáveis assentos de napa vermelha, eu observava o deslizar passivo do pachorrento veículo, preso aos cabos eléctricos, pelas ruas estreitas e atafulhadas de automóveis, de gente egoísta ao volante das suas obrigações, preocupada com o seu umbigo e com medo de perder a prioridade nos cruzamentos. Gente que provavelmente não se sente feliz com nada, que nunca tem tempo a perder, e cada vez há mais gente assim.

 

Estes amigos do ambiente transportavam passageiros carregados de compras da Rua de Santa Catarina e do Bolhão. Neles entravam aos magotes os alunos do Alexandre Nobre e do “Rainha”. No Bonfim subiam os que chegavam trazidos pelo comboio até Campanhã. Na Praça das Flores um grupo de operárias encarregava-se de trazer outra animação à viajem. Em S. Roque o solícito motorista aguardava uns minutinhos para que os passageiros fizessem o transbordo com o 88. E o metálico caixote cor de laranja baloiçava o caminho todo e muitas vezes rangia, até parado… “réque-réque réque-réque”, quando as varas se soltavam dos cabos. É claro que se perdiam preciosos minutos, mas quando temos de permanecer durante um certo período com outras pessoas dentro dos transportes públicos, a nossa disposição e capacidade de observação supera qualquer monotonia. Sobretudo à noite, quando não há o que ver pela janela, as pessoas são “obrigadas” a se vasculharem. Naquele alheamento natural, a distracção óbvia do jornal, do livro, do sono não é diferente aos que verifico nos dias de hoje. Agora há animosidade no ar, uma maior disputa por espaço, por dispersão. Uma necessidade absurda por evitar qualquer mínimo contacto com o passageiro vizinho. Recordando bem as faces das pessoas servidas pelo trolei das sete e meia, percebia-se que havia desconforto mas havia um notável sentimento de partilha, uma comunicação audível e sincera, onde os problemas da vida eram contados a rir e as cenas dos próximos capítulos da novela da vida surgiam com um “até amanhã se Deus quiser”.

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outra bicicleta!!!

Mais do que nos dar a conhecer e recordar momentos que marcaram a nossa vida, o velho álbum de fotografias faz também reflectir sobre aquelas pequenas coisas que tanta emoção e satisfação nos deram. São pequenos rectângulos de papel que fazem cócegas à memória e nos provocam belas histórias, como recordar o primeiro brinquedo, o primeiro dia de escola, a primeira briga, a primeira comunhão, a primeira bebedeira, o primeiro carro, o primeiro sorriso do filho, eu sei lá… emoções fortes de momentos que gostaríamos de reviver, e é natural que assim seja. Mais uma vez reviro o fundo do baú, não para contar como foi o primeiro beijo mas porque muito antes da minha primeira namorada eu tive a minha primeira bicicleta.

Sendo eu o primogénito, no dia do meu quinto aniversário tive o privilégio de ser o primeiro a conhecer aquela que marcou as pedaladas de infância. Era uma Orbita de uma cor invulgar, num tom verde “bisga”, com pneus brancos, rodinhas extra, desdobrável e sem velocidades. O suficiente para começar a pedalar e deixar de vez o triciclo esquecido a um canto. Passados três meses e tal foi a vez do meu irmão receber a sua e parar de embirrar. Olhando a fotografia com atenção, dou conta como aquele pátio era pequeno, mas na altura parecia-me haver muito espaço para dar aos pedais.

Mas aqueles eram tempos de brincar na rua, onde perigo era palavra proibida e radical era brincadeira de criança. Desde o momento que me foi permitido percorrer a rua de uma ponta à outra, eu meti na cabeça que já era a altura de largar aquelas rodinhas ridículas. E todos os momentos com os nossos pais, são momentos de “primeira vez de bicicleta”, onde aprendemos, caímos, insistimos e nos estatelámos ao comprido. Eles estiveram lá para nos ajudar a levantar e tentar de novo, para nos curar as feridas, sempre ao nosso lado quando, já sem o amparo das rodinhas, nos viram crescer e aventurar por um mundo que florescia a cada pedalada. A quantidade de sustos e de acidentes que tive desde então, foram apenas troféus guardados na minha pele em forma de cicatrizes nos joelhos e nas palmas das mãos.. Hoje, fico até admirado quando passo pela rua, pelos lugares onde adorava fazer quilómetros e aventurar-me pelos pinhais da vizinhança. Não sei como tinha coragem de descer algumas ladeiras que eu descia, apostando com os meus amigos em corridas de bicicleta ou de carrinhos de rolamentos pelo passeio da rua. Fechava os olhos e só rezava para não atropelarmos ninguém, mas parece que as rezas não ajudaram muito. A minha mãe deve recordar-se bem das vezes que tratou as nossas cabeças partidas.

Mas acontecem coisas na vida que não tem explicação e as pedaladas foram trocadas por outras namoradas. As bicicletas que me levaram a todo o lado foram esquecidas e acomodei-me numa vida totalmente sedentária onde era agora o carro que me carregava o tempo todo. E nem caminhar eu caminhava mais, até ao dia que decidi ser a altura de recomeçar a tomar o gosto pelas pedaladas. Foi quando chegou o momento, porque aprender a andar de bicicleta não é simplesmente aprender a andar de bicicleta, é mostrar o que a vida tem para nos oferecer, e que, dependendo de tudo o resto que nos possa acontecer, eu como pai estive ao seu lado, para o ensinar, ajudar a levantar, encorajar e recomeçar.

Assim, um dia resolvi comprar uma bicicleta, aquela que está ali na barra lateral, e tornei-a minha companheira de viagens e muitos passeios solitários. Foi a que mais quilómetros fez comigo, estrada fora. Fez-me gozar de muita adrenalina e ajudou-me a sentir a tremenda sensação de liberdade que é alcançar distâncias, que antes seriam impensáveis para mim de alcançar, apenas com o suor como combustível. Mas eu, que já devia ter idade para ter juízo, abusei da bicha que agora reclama a reforma e descanso. E foi com aquela mesma alegria de menino, que ganha a sua primeira bicicleta no dia de aniversário, que dei a primeira volta numa leve e esbelta bicicleta de estrada, a minha nova companheira para continuar a pedalar com o maior dos prazeres.

n.d.r.: Parabéns Sérgio Paulinho, és cá dos meus pá.

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e como é ao metro, ó faxabôre?…

Praticamente desde o seu início que sou adepto e “sócio” do Metro do Porto. Este magnífico meio de transporte urbano tem conseguido uma adesão significativa de toda a gente tripeira e não só. Foi uma autêntica revolução na modernização do serviço de transportes urbanos na Cidade Invicta. Permite de forma mais rápida, cómoda, sem filas de trânsito nem semáforos a empatar, a mobilidade aos seus utentes dentro e fora da cidade. No que me diz respeito, veio transformar a minha vida quotidiana para bem melhor, e permitiu libertar-me da sedentariedade do automóvel. Assim, um passageiro que faça uma viagem esporádica compra o Andante, um cartão de papel azul com chip lá dentro, e carrega-o com as viagens que desejar efectuar. Para um “sócio”, como eu, que utiliza o metro com bastante regularidade, compensa de sobremaneira ter o Andante Gold, um cartão de plástico que permite um número ilimitado de viagens durante um mês e pode ser carregado numa qualquer caixa multibanco. Este sistema é intermodal e pode ser usado noutras transportadoras da Área Metropolitana do Porto, como os autocarros e o comboio, podendo o utente manter o cartão guardado na carteira ou no bolso, bastando unicamente passá-lo em frente ao scanner para validar a viagem.

Eu sei que é. Continuo a ouvir amiúde comentários de como é giro, rápido e funcional, no entanto continua a ter os seus senãos. A escassez de linhas é um deles. Por outro lado, para um turista que não está habituado a utilizar o famoso Andante, algumas instruções deveriam ser mais claras sobre o que é, como funciona, as zonas e os preços praticados. Mas, pelo que tenho visto, quem tem boca vai a Roma…, neste caso à Boavista, e depois serve aqui o experiente para esclarecer quem estiver à nora. E mesmo assim, aqui o experiente, acaba também por ser vítima do sistema. Esta manhã, apresentei-me à hora do costume na estação de Metro para a minha primeira viagem do dia. Saco do cartãozinho dourado e nicles, a maquineta ignorou-o por completo. Experimentei-o em todas as máquinas existentes e nada, nem sequer uma reacção negativa recusando o dito (um bip-bip com luzinha vermelha) obtive. Passaram um, dois, três veículos e eu ali a fazer figurinha parva de um lado para o outro a barafustar com a vida. Sabendo que correria o risco de ser multado forte e feio (95€ é dose), enchi-me de razão e meti-me no metro até a Trindade sem validar a viagem. Tive sorte e andei lesto até à loja do Andante para reclamar veementemente. Derretido pelos olhos da menina que me atendeu sai de lá com 5 euros a menos na carteira, um Andante novo e a justificação que a síncope do velhinho Andante foi por cansaço e limite de idade, “pois, se o seu Andante tem quase 6 anos!”. Estranhei, pois se o tive sempre preservado numa saqueta de plástico, sem qualquer contacto físico ou qualquer possibilidade de contágio, como poderia expirar assim, tão de repente! Tudo bem, espero, ó menos, que essa pequena nota azul sirva, de alguma forma, para ajudar a aliviar os défices de exploração da empresa

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retratos de afectos

Debruçados na janela, os dois meninos não queriam perder pitada da paisagem que se descortinava à medida que o comboio avançava lentamente, ao longo do rio, rumo a um paraíso desejado. Aquele cheiro quente, o bater das rodas de aço nas emendas dos carris, o apito da locomotiva como a pedir passagem, as diferentes perspectivas e curvas do Rio Douro pareciam retiradas de um deslumbrante e misterioso livro de fantasias. O revisor, barrigudo e de bigode farfalhudo, esforçava-se por circular entre os bancos apinhadas de passageiros a conferir os bilhetes. A tia Sílvia, que não se cansava de lhes recomendar “não ponham a cabeça fora da janela, é muito perigoso”, desta vez não teve contemplações e com um puxão pelos calções trouxe os rapazes de volta ao banco da carruagem. Para os dois pequenos irmãos, aquela viagem tinha um sabor a aventura. Eram tempos despreocupados, ainda mais quando nos princípios de Julho as férias grandes significavam passar o Verão à “terra da minha mãe”, como sempre disseram. Ali, todo um mundo de fantasias nascia a cada dia. De repente, livres dos livros e do colégio, sentiam-se como na pele de Tom Sawyer e o rio deixava de ser D’ouro para passar a ser um afluente do Mississipi, que acompanhava à imagem dos desenhos animados da sua meninice. “Preparem-se meninos, estamos a chegar”. O desembarque na estação da Ermida foi rápido, e antes mesmo da locomotiva apitar novamente, anunciando a partida, de bagagens na mão, davam início à derradeira etapa da viagem. O passeio seguia-se a pé, ao longo do trilho ferroviário, até se depararem com a boca escura e assustadora do túnel. Entraram corajosos e ultrapassaram a tenebrosa passagem, sem no entanto faltar um acto de rebeldia marcado com fuligem na indumentária do mais pequeno, enquanto o outro estava mais preocupado em encontrar um local apropriado para aliviar a bexiga. Acercaram-se de um canavial e desaguaram ali mesmo sobre um carreiro de formigas, que iam e vinham. Aliviados, tomaram a saída por um caminho que os levaria de novo a um fascinante e maravilhoso lugar, a fresca e verdejante foz do ribeiro, o Rio Teixeira. O calor que se começava a fazer sentir, confundia-se com os aromas silvestres das flores selvagens que crescem agrestes na encosta do Douro. Por vontade deles ficavam já ali, a escorregar na pedra grande e a mergulhar naquela água cristalina, a pescar à cana com os pés de molho, a subir o ribeiro, pedra por pedra, até ao açude do moinho. Por momentos, o suave e relaxante som das pequenas cascatas fez-lhes esquecer a dureza dos caminhos que teriam ainda de percorrer, mas o barulho metálico de um comboio de mercadorias, que cruzava o arco da ponte, despertou-os e embalava agora os seus passos pesarosos, apenas acelerados pelos ares do campo de uma solarenga manhã de Verão. Quando chegaram à casa dos avós e dos tios, um pequeno povoado chamado Lugar do Castelo -oh mãe, já cheira a Castelo-, chegava com eles a alegria e os ares da cidade. A pouco mais de oitenta quilómetros do Porto tudo parecia tão distante naquela época. E era a agitação dos reencontros familiares, o bater às portas dos amigos, o percorrer o caminho da fonte e trazer água fresca para casa, o prazer de colher e comer as laranjas de sangue do quintal da tia Elisa. No dia seguinte, depois do despertar ao som do inesquecível matraqueado da máquina de tricotar fatinhos de lã da tia Sílvia, foram passar a manhã toda a correr e a brincar no campo do Atravessado, enquanto o avô Zé Pinto regava o milho e as batatas. E às 13 horas, impreterivelmente, estavam todos sentados à mesa a saborear a comida caseira que a avó Madalena preparava enquanto ia entrelaçando açafates e cestinhas de verga. E comiam tanto que depois repousavam à sombra da ramada, a dormir uma boa soneca ou a escutar no rádio os Parodiantes de Lisboa ou a rádio-novela. Juntos, recordavam os momentos passados na eira, onde se fazia a desfolhada às maçarocas do milho, e quando o raro milho-rei (maçaroca de cor avermelhada) saía a alguém a festa era garantida. Lembravam como tinha sido boa a apanha da azeitona e perspectivavam as vindimas. Mas os rapazes já estavam impacientes de tanta conversa e não queriam perder mais tempo para irem se refrescar nas águas claras do ribeiro. Responsáveis, eles foram percebendo que saber esperar e respeitar as decisões dos mais crescidos é não só uma virtude como uma vantagem. Com uma bacia carregada à cabeça, tia Sílvia e outras mulheres da aldeia desceram até ao ribeiro para lavar roupa. Com elas, e felizes da vida, seguiram os dois rapazes. Estavam finalmente livres para as suas aventuras, brincadeiras e pescarias com os seus amigos, e ali, espaço para aventurar é que não faltava. Pinhais, vinhedos, horizontes e montes a se perderem de vista, cobertos de mato verde onde a passarada multicor musicava os seus gorjeios e um ar leve, com cheiro a ervas do campo e frutas amadurecidas, que lhes enchia os pulmões repetidas vezes. Nada é mais melancólico do que o entardecer no campo. Parece outro mundo, outro sol e outro céu. No olival, sentado num tronco caído de oliveira e distraído com a construção do meu carroço (duas rodas de cortiça unidas por um pau de nogueira onde se encaixava em cunha uma cana que servia para a condução de um brinquedo tão rudimentar), eu percebia a chegada sorrateira da noite. A passarada silenciava e procurava abrigo na ramagem do arvoredo, os grilos saiam das tocas, desafiando-se, e a lua respondia à chamada e encobria toda a natureza com seu capuz estrelado.

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ontem deixei-a assim

Digo e volto a dizer, só quem faz, ou já o fez um dia, sabe qual é a sensação maravilhosa de acordar cedo, numa manhã de domingo, sair de casa ainda antes do raiar do sol, calibrar os pneus da bicicleta e dar ao pedal ao encontro das distâncias. Acreditem, é um prazer sentir o ar puro e fresco que se respira antes das emanações poluentes dos automóveis. Escutar aquele silêncio que só as manhãs de domingo têm. Abrir os olhos para o efeito luminoso de um dia que promete vir a ser prefeito. A bicicleta não é só o pretexto conveniente que ainda recentemente encontrei para me proporcionar saúde e bem-estar físico, mas é sobretudo uma verdadeira paixão que tem o poder de uma máquina do tempo, o de me fazer transportar num curto espaço de tempo para lugares conhecidos, outros desconhecidos, que se descortinam para lá de uma curva, de uma montanha, ao desafio único de conquistar quilómetros com o próprio suor. Pelas mais variadas e conhecidas circunstâncias, este ano fui adiando o início da minha época pedaleira. Para auto-estímulo, ou simplesmente regozijo da minha boa forma física, relato aqui o passeio que fiz ontem com o meu amigo e companheiro do pedal, o Rui.

Ainda meio atarantado com a mudança de hora, saí de casa dos meus pais, na praia da Madalena, e pedalei até à Câmara Municipal de Gaia, onde nos encontraríamos. Aquele primeiro trecho a subir serviu sobretudo para um teste e aquecimento às pernas. Admirado por ter chegado ao local marcado antes dele, restou-me esperar e arrefecer por uns dez minutos, até que ele lá apareceu e juntos escalamos os restantes e íngremes metros da Avenida da Republica para virar-mos à esquerda. Eram as tais primeiras horas da manhã, a estrada nacional 222 estava calma, perfeita para um ritmo de passeio e para uma conversa. O Rui acabou por ceder à minha insistência e lá revelou que uma súbita indisposição intestinal tinha sido a razão do seu atraso. Ahhh, tu tavas era todo borradinho, foi o que foi, gracejei com ele e seguimos tranquilos.

A temperatura não era muito baixa, a estrada estava húmida e volta e meia sentia-se um ventinho agreste de frente, mas com o esforço das subidas não sentíamos frio! Vencida a segunda mini-montanha do dia, e já depois do Parque Biológico, descemos satisfeitos e sem problemas de maior a não ser um grande alívio pelo desgaste natural de quem tem faltado aos treinos. Depois de outra subida, seguia-se mais outra descida, até surgir a mais longa e desgastante escalada até ao topo. Ainda que não esteja ao alcance do leitor, é difícil narrar com fidelidade toda a gama de sensações, odores, calores, tremores e suores frios por que passamos quando descíamos a uns alucinantes 80 km/h aqueles 4 quilómetros em direcção a Crestuma/Lever. Restava ainda uma curta subida e respectiva descida até à Barragem e estava ultrapassada a última dificuldade do dia. Num instante circulávamos já na margem oposta pela estrada marginal ao Rio Douro, a nacional 108, de regresso a casa. Mais à frente juntámo-nos a um pequeno pelotão de entusiastas das pedaladas como nós e, par a par, à conversa seguimos viagem contemplando a magnífica paisagem. Íamos fazendo uma curva mais apertada quando me aproximei do ciclista que se esforçava à minha frente. Cumprimento-o e felicito-o pela boa forma e levo como reposta uma gargalhada e a garantia que não serão os seus 72 anos a fazê-lo parar. Na rotunda do Freixo separámo-nos do grupo. À entrada da ponte Luis I despedi-me do Rui e só parei no Cais de Gaia para um gole de água. Se bem que já estava na hora de voltar, ainda resolvi repousar um pouco e curtir a paisagem do velho casario. Solitário e vitorioso, fiz a derradeira etapa na maior das calmas, na companhia de um Douro barrento e de um mar revolto. Cheguei a casa com 60 Km pedalados, muito feliz e ainda com todo um domingo pela frente. Hoje o meu corpo ressente-se, dorido, o que me leva a recordar e a contar esta epopeia ciclista com satisfação.

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dona isabel

Tem um sorriso discreto quase imperceptível e pele branca, suave como penas. De gestos delicados, os seus olhos brilhantes de um verde água escondem uma personalidade decidida. A senhorita é uma santa, garantem seus fiéis serviçais. Belíssima, ainda adolescente, é de saúde frágil. Não pode correr um ar encanado e pronto, lá fica ela acamada, constipada, pneumónica. Quando a doença lhe agudiza a respiração não gosta de ser tratada por coitadinha. Cura-se de achaques e resiste à sentença. Levanta-se decidida e segue a sua vidinha fidalga. Ao contrário de outras donzelas da nobreza, exuberantes, ela não gosta de chamar a atenção quando vai a um baile social. Caminha devagar e sorrateira pelos cantos, não tenta seduzir e nem tem novidades para partilhar. Pretendentes impetuosos e insistentes querem perturbar o seu jovem coração, sem que ela os queira. Ela nem nota e quando nota, não quer. Apenas um, um único amor balança o seu coração e é por ele que ela sonha todos os dias. Velho, experiente e resistente. Quando ela se senta à beira do lago, solitária, pensativa, tão absorta em si mesma, parece querer mergulhar no azul e se perder com ele. À sua frente aproxima-o de si, deixa-o inclinar-se e pousa-o gentilmente no seu ombro. E ele fica ali, estático, simplesmente a aguardar que os dedos finos da jovem lhe toquem com delicadeza. E ao agitar do arco ela renasce ali mesmo, esquece o seu cansaço, os seus temores, as suas doenças, os seus males e deixa-se voar, de olhos fechados, guiada num acto de amor pelos acordes do seu violoncelo. 

Foi mandada construir em 1754, segundo o risco de Nicolau Nasoni, tendo o projecto ficado incompleto. Pertenceu à família Noronha e Menezes. O portão de acesso à quinta é mais antigo, dos fins do séc. XVII, sendo notável pela riqueza decorativa do brasão de família e das duas sereias. Em 1904, foi doada à Santa Casa da Misericórdia do Porto. Hoje, a quinta encontra-se dividida pelo Hospital da Prelada, o encerrado Parque de Campismo, a Via de Cintura Interna e zonas residenciais. A casa encontra-se há muito em degradação acelerada. A quinta e a casa ficam mesmo ali ao lado do prédio onde resido. Gostaria de ver tão rico e importante património da minha cidade recuperado e preservado como bem merece. 

Ó Santa, tenha lá Misericórdia da sua bela Casa!

 

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foi um prazer

Há tempos deste-me o teu calor e sabor,
Ofereci-te a boca doido para te beijar.
Sorvia-te cúmplice depois de um café,
Em roda de amigos, conversa de bar.
Escravo num trago, prendeste-me a ti,
Romance proibido em ritual de amor.
Cansaste-me a vontade, fintei-te, olé,
E separados ficamos, sem razão ou motivo.
Malvado o vento que te traz a mim, passivo,
As narinas me fustigas, ainda hoje te senti!
Mas há muito que me lembro te ter apagado
Da minha mente e agora respirar aliviado.

 


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