possibilidades

Choveu muito durante estes dias e em quase todos eles o sol esteve longe. Hoje espreitou-me à janela, clareou o meu nicho de conforto, temperou o meu corpo dormente, e deixou-me um convite para abalar ao seu encontro. E sempre que posso vou buscá-la, triste no seu canto, e pedalo nela, brindando-me de consolo para o qual foi feita. Era muito suave a brisa que me balouçava na manhã fina, nas margens do Douro. Apoiado, estico-me para a frente para ver a estrutura da ponte e a força da corrente, que por baixo de mim corre para o mar.

Baloucei errante na plataforma rodada que alberga certezas e ficções, junto à melancólica marginal criando a sensação de estar em Veneza, mesmo ali, no Porto, enquanto do lado de lá, em Gaia, se sente o silêncio e a tranquilidade que imperam voláteis como o calor entre tonalidades frias. Não é só a intensa coloração dourada, nem a natural impetuosidade que o define. O Douro desliza encorpado, quase gelatinoso, sob a atmosfera luminosa deste tormento invernal.

Aqui o tempo passa depressa, ritmado pela própria cadência do Douro, que parece contrariar o marasmo da cidade. E ela, ignóbil bisbilhoteira, adora lá estar, a viajar suavemente pela cósmica visão do caminho das estrelas, sem para-quedas nem passaporte, invadindo o espaço cósmico e levando-me consigo, alapado no seu selim, como se fosse num qualquer satélite buscar o desejo, o despique do vento e a conquista das ladeiras, nesta elevada e deslumbrante liberdade que é pedalar.

Inspirar o aroma da maresia que se sente, a pureza e a braveza das águas rebeldes ou a educação de um iluminado motorista que passa por trás de mim, buzinando e acordando-me da sensação de estar num lugar estranho, coberto por lençóis e cores desbotadas de ilusão.

É melancolia, mas também um impulso, o que sinto quando passeio por estes caminhos de solidão e aprecio o casamento perfeito do rio e das azáfamas. Das gentes, das peixeiras, dessa nobre e descomplexada paixão pelo mar e pelo que é religioso. Dessa simplicidade de uma vida que estende os trapos entre o pestanejar sonolento de um dia de prazer.

E sentei-me quedo e calado junto ao mar, a assentar ideias e pensamentos, deixando-me empurrar pelo movimento das ondas e pelo sussurrar da rebentação. De me alongar um pouco mais sobre este cruzeiro portuense. Mas o relógio não me deixou envolver pela preguiça e me desopilou dos pensamentos para retomar o meu caminho…

…rumo ao Sol.

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de passagem

Com a insignificante excepção dos anos bissextos, todos os anos duram o mesmo tempo? Relativamente, sim. Mesmo que no final de cada ano achemos que esse “sim” foi um ano que passou rápido? Tecnicamente, a resposta é não. De cada pessoa com quem falo, de algumas conversas que ouço na paragem do autocarro ou nas mesas do café, o que mais se diz por aí é que o ano passou devagar. Ora, eu tenho a ideia que um ano parece durar mais ou menos do que outro, ou porque um gajo andou entretido, ou então por que o viveu de uma forma aborrecida, entediado a fazer contas à vida. Um minuto, um segundo, pode durar mais do que outro, pode ser mais bem aproveitado se for vivido de uma forma intensa e apaixonada. É verdade que isso não passa de uma teoria, mas para mim 2010 passou a voar. Aliás, todos somados, fica aquela sensação que, porventura, os anos passam sempre depressa demais. De que o tempo corre quanto mais velho se vai ficando. Parece acelerar e ganhar balanço à medida que avança. O que é deprimente quando se sabe o que nos espera no fim da linha. Então, para variar, mais vale aproveitar os segundos todos que temos pela frente e acelerar ou diminuir a cadência para aproveitarmos a viagem, porque senão a vida é uma monotonia. Oh meu filho, nós estamos só de passagem, já dizia a minha avó.

Na passagem d’ano:

– Oh pá, boas entradas.
– Ahhh, obrigado… Mas olha que ainda não perdi muito cabelo!

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mobilidade que contagia

Assim que vi este cartaz no metro pensei cá com os meus botões: “olha pá, chegas atrasado 30 anos”. No tempo em que eu calcorreava Fânzeres e Rio Tinto, de casa para o colégio na camioneta da Gondomarense e do colégio para casa de autocarro e troleicarro, ou então era assim, fazia longas caminhadas, entre aventuras e coisas de rapaz, só para poupar umas moedas para gulodices. Nesse tempo é que o metro me teria dado jeito, pensei eu! Bom, é certo que agora também me dá, e que jeito, só que a viagem é na direcção oposta. A finalidade da mobilidade, de um sistema de transportes eficaz nas cidades, é a movimentação de pessoas e não de veículos. É sempre bom saber que a mobilidade urbana se está a expandir para um dos concelhos mais populosos da área metropolitana e muito deficitado em meios de transporte.

Segundo a Metro do Porto, ao longo de cerca de 60 quilómetros de extensão da rede, nestes oito anos o metro transportou 275 milhões de passageiros e percorreu cerca de 32,7 milhões de quilómetros, o que corresponde a 2.500 voltas ao diâmetro da Terra. A nova Linha Laranja (Linha F), a sexta linha do Metro do Porto é inaugurada e entra em operação comercial regular no próximo Domingo, dia 2 de Janeiro, ligando O Estádio do Dragão a Fânzeres e passando a servir o concelho de Gondomar mas, conforme se previa, não chega ainda à sede do concelho. Com o novo percurso, que representa um investimento de 135 milhões de euros, a Metro do Porto totaliza 80 estações ao longo de 67 quilómetros de linhas. As estimativas indicam que a Linha Laranja implicará mais de 12 milhões de passageiros por quilómetro, apontando benefícios sociais e ambientais na ordem dos 176 milhões de euros, ao longo de 20 anos.

Durante esta semana, entre o Natal e o Ano Novo, as viagens são gratuitas nos sete quilómetros de extensão e visam permitir à população das zonas servidas pela nova linha um primeiro contacto com o metro. As composições circulam sobre um tapete de relva, projectado pelo arquitecto Bernardo Távora, tendo sido criados 123 mil metros quadrados de zonas verdes. Estão a ser plantadas 2241 árvores e 3693 arbustos e trepadeiras ao longo da nova linha. O objectivo é sempre aumentar a qualidade de vida e a mobilidade de toda a população da zona envolvente. Hoje mesmo vou experimentar esta nova linha e voltar a calcorrear alguns dos locais da minha infância. E muito provavelmente, um destes dias voltarei lá com mais calma a passear na minha bicla.

 

 

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farrapo velho

Antes de mais nada espero que os meus amigos tenham passado uma noite de Consoada e um dia de Natal com uma pontinha adoçada de satisfação. E o meu, perguntam vocês? Pois parece que me portei bem este ano e fui afortunado por mais um BOM NATAL, por mais uma celebração familiar que me permitiu retemperar energias de felicidade, todos à volta da mesa acompanhando o mastigar compassado das batatas e do bacalhau (ou da pescada para os mais esquisitos) e das doçuras da mamã.

E na calma do dia seguinte, até para “esmoer” as calorias natalícias, saí pela manhã enregelada a pedalar para me aquecer e deixar-me esvoaçar com as recordações da noite anterior. Deixar o pensamento percorrer na presença das grandes figuras do presépio da nossa existência, no sorriso lindo da avó Nanda, na sua constante preocupação que tudo estivesse bem saboroso, e do avô Eduardo que desta vez recebeu uma prenda minha para ler o Porto. Da cada vez mais amorosa e necessária companheira da minha vida e do meu filhote. Tudo num ambiente pachorrento de paz e amor, com o desembrulhar das prendas entre as traquinices da cadela Fofa e do gato Cookie.

Mas passados estes dias frenéticos de sorrisos, de compras, de barretes, de essémesses, de televisivas mensagens hipócritas de bom Natal, vai voltar tudo ao mesmo… vai voltar a crise, o debate político de tasca de aldeia, as manchetes televisivas qual “carrinha do peixeiro”, os jornais de caserna, o miserabilismo nacional, a falta de confiança, a falta de ideias, e a culpa que é sempre dos outros… o farrapo velho de sempre!

 

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um bom passeio

Passear é já de si uma experiência agradável, mas se o fizermos num Domingo de manhã, na companhia do rio, do mar e da natureza, é ainda mais rico. A frescura matinal, o frenesim dos pássaros, o caminho que convida, o povo que circula num ritmo diferente da semana, o ambiente descontraído de ciclistas e turistas num passeio em família de maquinas fotográficas em punho. Para além de todos esses dados de interesse, o meu passeio de ontem teve um acrescento de novidade no regresso a casa: uma imensidão de pais-natais, vestidos a preceito, que vagueavam pelas ruas e iam enchendo as esplanadas dos cafés.

O passeio traz vários benefícios, não só à nossa saúde mas também ao ambiente. Tal pressupõe deixar o automóvel na garagem e circular a pé, ou de bicicleta no caso de se percorrer distâncias maiores. Num simples percurso a pé abrandamos o ritmo acelerado do motor e ganhamos tempo para apreciar a paisagem, respirar ar puro, assentar ideias, apanhar sol, aproveitar esse momento íntimo que é uma caminhada, a sós ou com uma bela companhia. Num passeio de bicicleta a nossa vida pode melhorar consideravelmente, pois enquanto o fazemos abstraímo-nos do dia-a-dia e os problemas passam para segundo plano, ou tendem a não parecer tão relevantes. E, se assim não for, há que fazer um esforço para que as distâncias não cansem tanto acompanhando e comunicando com outros amantes da arte do pedal.

Muito provavelmente algumas das grandes ideias de grandes génios devem ter surgido enquanto apreciavam um passeio, vendo e assimilando o mundo que os circundava, vivendo cada forma, cor, brisa, aroma, experimentando cada sensação.

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valsa azul num palco branco

Quase 24 anos depois do calcanhar de Madjer e da arma secreta de Juary terem dado a volta ao Bayern, com dois golos que depois deram a volta ao Mundo, os heróis de Viena voltaram ontem ao antigo Prater. E foi de memória, de recordações e de uma alegria genuína que se tratou este regresso ao palco que lançou o Futebol Clube do Porto para a primeira linha do futebol europeu. E de memória guardo bem as circunstâncias em como vivi esse momento.


Havia assentado praça na Escola Prática de Engenharia, em Tancos, uma semana antes para o serviço militar obrigatório (só mesmo obrigado!). Naquele dia, 21 de Maio de 1987, depois da alvorada, as tropas recrutas formaram na parada do aquartelamento do Casal do Pote com o equipamento de ginástica vestido. A manhã despontou soalheira, mas de leste, por entre as camaratas, soprava uma fresca brisa ribatejana de fazer arrepiar o esqueleto. O meu estado de espírito não seria dos melhores, não só porque estava ali numa triste figura mas porque sabia não haver muitas hipóteses de poder a assistir à grande final. Aos recos, apenas lhes cabia a disciplina e prestar obediência, para só ao fim de seis semanas de recruta serem “promovidos” a maçaricos e conquistar o direito a entrar no bar de praças, local onde havia um televisor disponível. Restava-me pois um rádio a pilhas para me dar notícias das incidências da partida. Depois do rancho, já a caminho das camaratas, deram-nos a melhor das notícias. O Sargento Soares, indefectível portista que mal conhecia mas que a partir desse dia não mais esqueci, havia desenrascado uma autorização superior e mandou colocar um aparelho de televisão no refeitório. Após a ceia, impreterivelmente servida às 18:30h, arrumou-se a sala, alinharam-se as cadeiras e sintonizou-se a antena para vermos a transmissão da bola. Quando deram o pontapé de saída já todos os requinhos, ou feijões verdes, como preferirem, estavam a dar palpites e insultos ao árbitro. A larga maioria era adepta de outras cores, e poucos, muito poucos, roíam as unhas. A primeira parte não nos correu de feição. Eu e o Neves saímos ao intervalo para um cigarro retemperador, verter águas e refazer as fezadas. Para a etapa complementar, ao apito do árbitro, voltaram apenas três fiéis adeptos azuis e brancos crentes numa reviravolta. Eu o Neves e o Sargento Soares que se juntou a nós dizendo estar farto de ouvir bocas dos mouros! Todos os outros ou foram engraxar botas ou espreitavam para nos fazer troça com umas piadas. Mal eles sabiam que esses treze heróis (os onze iniciais mais o Juary e o Frasco) iriam voltar ao campo de batalha para conquistar a mais bela vitória frente aos bávaros. No fim do jogo nem é preciso dizer mais nada. Exultámos em delírio, abraçados num choro de incontida alegria e a soluçar como uns meninos, enquanto alguns dos descrentes voltavam incrédulos, curiosos com o que havia sucedido. O capitão João Pinto corria agora louco pelo relvado, com a taça bem segura pelas mãos, pousada na cabeça, e eu imitava-o, empunhando firme as garrafas de cerveja mini que iam parar à minha mão em substituição do vasilhame. Subitamente um estranho sentimento, misto de euforia e tristeza, se abateu sobre mim quando me apercebi de que faltava mais qualquer coisa. Não poderia estar na festa dos dragões, a festejar pelas ruas da Invicta rodeado das gentes tripeiras. E ali fiquei, sentado na soleira da porta a nortear o olhar no horizonte que escurecia, de pensamento perdido até ouvir o soar da corneta para o recolher.

Ontem, o jogo do Porto no Prater fez-me soltar sorrisos e memórias, até de uma outra final, a de Dezembro do mesmo ano, às três da matina, com neve e temperaturas negativas. O cenário branco e gelado de Viena fazia recordar outro palco glorioso, o de Tóquio, onde ganhamos a Taça Intercontinental aos uruguaios do Peñarol, mas aí eu já estive a assistir em casa, a torcer e a festejar com os meus melhores amigos.

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a livraria mais bela

Ainda um outro dia, depois de encerrar o expediente no gabinete e dirigindo-me à Praça Carlos Alberto, na esquina da Igreja do Carmo, fui solicitado a dar indicações. Desta vez, um casal de turistas espanhóis munidos de um mapa da cidade me perguntaram: La librería Lello? Dime donde? E lá tive eu de desenferrujar o meu portinhol, apontando o dedo na direcção da livraria mais bela do mundo, pois para mim é!

Elogiada desde sempre pela sua beleza arquitectónica exterior, sendo a sua fachada em Arte Nova um dos emblemas arquitectónicos da cidade invicta, é no seu interior que quem lá entra não evita dispersar por instantes a sua atenção dos livros e encantar-se com o estilo ímpar da Lello. Esta pérola do Porto recebe repetidamente as mais diversas distinções mundiais. Ainda este mês, um guia australiano, o “Planet’s Best in Travel 2011” editado pela Lonely Planet, considerou-a como a terceira mais bela livraria do mundo, sendo mesmo descrita como “uma pérola de arte nova”.

A história da livraria remonta a 1869, ano em que é fundada na Rua dos Clérigos a Livraria Internacional de Ernesto Chardron. Após o imprevisto falecimento de Chardron, aos 45 anos de idade, a casa editora foi vendida à firma Lugan & Genelioux Sucessores. Em 1894 Mathieux Lugan vendia a Livraria Chardron a José Pinto de Sousa Lello que possuía então uma livraria na Rua do Almada. Associado ao irmão, António Lello, mantêm a Livraria Chardron, com a razão social de José Pinto de Sousa Lello & Irmão, até 1919, ano em que o nome da sociedade muda para Lello & Irmão Lda. Tendo sido desenhado de raiz para ser uma livraria, o actual edifício foi inaugurado em 1906, com a presença no dia de abertura de, entre outros, Guerra Junqueiro, José Leite de Vasconcelos e Afonso Costa.

 

(Foto de Aurélio Paz dos Reis no dia inauguração em 1906)

“A riqueza de tons do grande vitral, o recorte gracioso das janelas, a balaustrada da galeria e os grandes candelabros situados nos ângulos que demarcam esse espaço, as linhas das ogivas que se entrelaçam no tecto (…), deixam o visitante deslumbrado”. A 13 de Janeiro de 1906, no dia da inauguração, era assim que um jornalista da época classificava a Lello & Irmão.

Em 1994, as obras de restauro a cargo do arquitecto português Vasco Morais Soares permitiram que continuasse a manter o seu esplendor.

De visita obrigatória, à Rua das Carmelitas, nº144, afluem cada vez mais curiosos. Quando lá entram, os visitantes são envolvidos por um ambiente acolhedor, numa viagem instigadora onde se respira história e madeira. Uma ampla sala, onde os livros pontificam numa decoração impressiva, dá acesso a uma belíssima escada ornamental. Perfilam-se algumas mesas onde se expões alguns dos livros, bancos revestidos a couro e estantes a toda a altura da galeria perfazem o espaço próprio de uma livraria moderna, mas que guarda a memória e o ambiente místico de uma livraria antiga, cheia de história nas paredes e nas lombadas dos seus livros. Nos pilares destacam-se os bustos de distintos homens de letras: Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Guerra Junqueiro, entre outros. O tecto, lavrado e rendilhado, resguarda no centro uma luminosidade translúcida que provém do amplo vitral. Quem lá entra, fica de tal forma maravilhado que olvida olhar para os livros e deslumbra-se com a divinal estrutura fazendo disparar, incontroláveis, os flashes, para no final da visita soltarem inevitáveis exclamações: “Vês como valeu a pena entrar!”

 

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livraria-lello in Portugal

Então e tu? Entra, vá lá… Mesmo aí sentado nessa cadeira só tens de clicar na seta e rodar o cursor em todas as direcções, para que possas também passear pela livraria e apreciar a beleza deste mágico espaço de cultura. Desejo-vos uma boa semana.

(fonte: http://www.boasnoticias.pt ; http://www.360cities.net)

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o jogo…

…foi de mão cheia. Cinco estrelas. O espectáculo mais parecia um monólogo em que de um lado se apresentou uma equipa mágica, demolidora, inspirada, precisa, soberba. Do outro, bem, do outro lado estava um conjunto de onze, chegaram a ser doze mas acabaram dez jogadores derrotados e vergados perante a mais emblemática vitória de todas as vitórias. E é o resultado que fica para a história:

 

Porto – 5, Bisitante – 0
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é relativo!

Desceu à garagem e pegou na bicicleta para ir trabalhar. Assim evitava ficar sem exercício e deixava o carro em casa, caso a mulher fosse às compras, buscar as crianças, ter que ir a um ou outro encontro que tivesse combinado. Já de saída lembrou-se que agora era um director de departamento. Não que desse muita importância às aparências, mas sabia que as pessoas que mais interessava impressionar desaprovariam vê-lo de fato e gravata a pedalar uma bicicleta de estrada, e se o fizesse teria de enfrentar olhares e comentários corrosivos. Então voltou ao quarto e trocou o fato e a gravata por uma camisola e um calção de licra. A esposa veio da sala e perguntou o que tinha acontecido. “Nada”, respondeu. “É uma pesquisa que estou a fazer sobre a teoria da relatividade aplicada à empresa.” “Que teoria é essa?” “É assim: vou chegar lá cedo, desmontar da bicicleta e, o mais certo, eles ainda não estacionaram os seus carros”. E partiu a pedalar pela manhã de sol, sob o olhar um pouco apreensivo mas muito terno da mulher.

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a passadeira mata, atravessá-la pode prejudicar a sua saúde!

Pelo simples facto de ter nascido munido de duas pernas e ao fim de alguns meses de vida ter aprendido a andar, circulando na via pública eu sou considerado um peão. Depois de atingida a maioridade, de ter suportado durante 25 aulas o mau humor do trânsito e do instrutor, e ter sido aprovado em 10 minutos num exaustivo exame de condução, passei a ser mais um automobilista. Estes dois factores incluem-me na classe dos humanos que, mediante a situação em que se encontram, se tornam numa espécie de Dr. Jekyll and Mr. Hyde das ruas e estradas nacionais. Ao que parece estamos englobados num país civilizado, em que algumas ruas têm passadeiras que servem para indicar aos automobilistas e aos peões onde uns devem parar para que outros as possam atravessar. Em Portugal as passadeiras têm, para uma parte de nós os peões, um carácter místico a roçar o sobrenatural. Torna-nos invencíveis. Na perspectiva do peão, desde o momento que coloca o pezinho sobre o tracejado branco sujo e gasto, nada o impede de empreender a hercúlea tarefa de atravessar a rua. A maioria nem se dá ao trabalho de parar, rodar a cabeça e olhar. A perspectiva assertiva de ficar para ali parado, a olhar de um lado para o outro à espera que algum condutor tenha a amabilidade de abrandar e parar, mói-lhes a paciência. E eles correm, correm o risco de encastrar os dentes num qualquer capôt metalizado. Não adianta explicar aos peões que a passadeira não dá garantias de sobrevivência e que tem de haver um compromisso tácito entre eles e os automobilistas. Afinal de contas, a maioria dos peões portugueses também são condutores e sabem o que a casa gasta quando estão atrás do volante. A estrada é deles e os carrancudos peões que se cuidem. Conduzem perfeitamente alheados ao que os rodeia porque, ora estão a olhar para o retrovisor, ora acendem um cigarro, ora sintonizam o rádio e programam o GPS, ora têm que atender o telemóvel, e isso são muitas tarefas para um condutor só. Preocuparem-se com regras de prioridade, limites de velocidade, os ciclistas (tinhas que nos meter ao barulho pá!?), passadeiras ou circular com o mais básico do civismo, são meros detalhes para um alienado condutor ter de controlar tudo com os seus olhinhos, dois bracinhos e dois pezinhos. Saiam da frente ou passo-vos a ferro, grunhem ostensivamente enclausurados nos seus estilosos e potentes popós.

Descontraído a caminho do metro, parei no passeio junto à passadeira do costume. Àquela hora a rua tem pouco movimento, o que quer dizer que é convidativa aos aceleras, sempre atrasados para o que quer que seja. E disso eu já sabia. É uma rua com boa visibilidade, a passadeira encontra-se assinalada mas está mal visível na parte mais estreita da rua, junto a uma velha casa que a estrangula. Do lado direito não vêm carros, do lado esquerdo vislumbro um veículo ao longe com os faróis ligados. Dá mais que tempo para passar, penso. Desço o passeio e empreendo a travessia voltando a olhar para a direita. Mal dou dois passos, viro a cabeça e aquele carro passa mesmo à frente do meu nariz, a toda a velocidade e fora de mão. A deslocação de ar que provocou à sua brutal passagem levanta-me os cabelos e, instintivamente, eu dou um salto para trás, pondo as mãos na cabeça e tentando perceber se ainda estava vivo. Petrificado com o susto, miro para a traseira da viatura que não me deu passagem, e percebi então que os artistas já aprenderam um novo esquema. Num displicente acenar de braço, desculpam-se com o ar mais descontraído do mundo, género a referir, deixe lá, não o vi, ou então aguenta pá, era só o que faltava, travar para o deixar passar!. Por um triz não fui mais um número a acrescentar ao rol de vítimas por atropelamento no Porto. Por um pequeno triz teria de concordar com os fumadores que dizem, sabe-se lá se não morro primeiro debaixo de um carro!

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