Já antes pedalava diariamente, em percursos urbanos para e do trabalho. Já antes alargava os meus passeios de fim de semana. Já antes havia participado em Brevet´s dos Randonneur Mondial, mas, como entretanto vim a saber: “se não está no Strava, não aconteceu!”
Era uma manhã de um sábado cendrado pelo nevoeiro. De olhos turvos, ainda num estado semiconsciente e pré-cafeinado, abri o Strava, e, sem saber bem se a geringonça nova iria cumprir o prometido, dei inicio a uma boa aventura. Diz que o tempo voa, mas estes dez anos, desde a minha primeira pedalada registada no Strava, parecem ter sido supersónicos!

Não levo o Strava muito a sério. Não sou muito adepto dos desafios, nunca usei um medidor de potência e muito menos um monitor de frequência cardíaca para me dizer que o meu coração ainda bate. Continuo a ser um utilizador banal, resistindo aos constantes apelos de subscrição, no entanto tenho de agradecer a esta inigualável plataforma toda a incrível tecnologia como repositório das minhas actividades cicláveis (e algumas pedonaveis!).
Voltando aos dias inebriantes da primavera de 2015. Tudo mudou quando o Pelotão do Arrasto, um grupo de amigos que jogava cartas ao longo da estrada N108, partilhava nas publicações do Instagram: “Oh pá, já viste os nossos PR´s desta manhã?” Eu não via. Primeiro nem sabia bem o que ere um “PêéRre”. Depois não tinha um gêpêésse ou mesmo um telefone esperto capaz de correr a “App”. O Strava não tinha importância, pelo menos não tinha para mim até me decidir comprar um telemóvel de jeito e fazer o meu primeiro “upload”, numa reedição da clássica bicinigração a Fátima.
Inspirado pelos meus amigos, isso me fez conquistar “PêéRres” e coisas novas também. Pronto, aos poucos também fiquei obcecado com aquilo. Persegui os melhores tempos pessoais, pedalei distâncias cada vez maiores e escalei subidas para mim inimagináveis. Agora, ao longo do tempo, era capaz de quantificar e comparar dados com tantos outros. Admiti que passei a gostar de receber “kudos”!!! “O quê? Escudos!”… “Não pá, KUDOS. os “likes do Strava”. També os comentários e elogios às fotografias que fui, e vou, tirando. Agrada-me partilhar a minha jornada pedaleira nesta rede social. Afinal, a nossa vida é bem pouco inspiradora.
Eu não percebi na época que me estava a juntar às fileiras de uma classe crescente de novos atletas, mas nunca me encaixei no papel de atleta. Nunca tive ilusões de nada. Para além de ter sido um gajo acima do peso ideal, não lutei por recordes, não engrossei Granfondos, Zwift’s, ou isso, nem me atirei como um louco nas descidas. Em vez disso, segui um caminho diferente, enchendo as pernas de ácido láctico, como cicloturista, desfrutando e babando nas subidas.
Há dez anos atrás era apenas dez anos mais novo. Sim, é uma afirmação óbvia, mas quando me revejo em termos velocipédicos muita coisa evoluiu. É evidente que contínuo um ciclista urbano, cada vez mais enferrujado, mas o facto é que nestes anos todos pedalei e visitei muitos locais que de outra forma certamente não conheceria. Esta fantástica ferramenta permite-me manter um arquivo histórico, por onde e com quem pedalei, e que posso consultar a qualquer momento.
Alcancei alguns reptos pessoais, físicos e mentais, me deparei com a maldita da diabetes, tive alguns acidentes, vi amigos irem e virem. Melhorei sobretudo a minha experiência em cima de uma bicicleta. Juntei as pedaladas laborais, o #commutescount, à contabilidade pessoal. Uni esforços reivindicativos com a legião de guerreiros de fim de semana, totalmente relegados no direito a circular na estrada. Basicamente procurei aproveitar o extraordinário efeito transformador que as bicicletas tiveram em mim.
Não domino o teletransporte, mas quando viajo no tempo de volta a abril de 2015 percebo que, até hoje nestes 10 anos de constante movimento, já percorri mais de 100 mil quilómetros. Estes números redondos apenas alimentam o meu ego e reforçam a dependência que tenho cada vez mais das minhas bicicletas. Venham daí os próximos capítulos.










![fotocycle [210] Fozquices](https://nabicicleta.files.wordpress.com/2017/07/fozquices.jpg?w=200&h=200&crop=1)










Cuncatano… isso é muito “quilhometro”! Eu bem preciso de retomar as voltas bicicleteiras… que isto aqui anda assim para o enferrujado… e de facto, as tuas publicações são sempre inspiradoras!
Agora, siga para o milhão.
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Obrigado.
Ahah… o milhão só se tivesse um taxi Mercedes.
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