resoluções/desejos/coisas para fazer no ano

Refeito dos efeitos do espumante, das doze badaladas e do fogo de artifício, endireito Sua Alteza e volto a pôr as duas rodas bem assentes no chão. Esta é altura ideal para estabelecer novas metas e considerar alguns desejos para alcançar nos próximos 12 meses.

Pretendo respirar ar puro e mover o meu corpo todos os dias. Seja para enfrentar a loucura rodoviária no meu comute diário, numa lúdica aventura betêteira ou numa ida nocturna ao WC para aliviar a bexiga, mexer as perninhas faz sempre bem.

Espero ter vontade suficiente para me levantar todos os dias da cama e me desafiar, mesmo que seja só para ir trabalhar. Que enfrente a estrada e alcance o cume de pelo menos uma montanha.

Anseio que o trambolhão da praxe seja suavezinho, venha como mais uma lição e que tenha paciência e perspicácia para aprender essa mesma lição, pela enésima vez… Pelo menos faço figas para que não mande mais nenhuma bicicleta para o galheiro!

Aspiro manter as amizades fortes e fazer muitas outras. Novos companheiros de estrada com quem possa compartilhar sonhos e objectivos. Correr o risco de enfrentar as distâncias e os incautos automobilistas. A escuridão e reflectir a minha presença na via, até ao nascer do sol. Ah… e que as assaduras não esgotem o stock de Halibut.

Confio que as correntes e os cabos do desviador se aguentem à bronca. Caso cedam, então  que aconteça a pouca distância de casa ou pertinho de uma loja de bicicletas. O mesmo espero que aconteça com os infalíveis furos, ou pelo menos que não me chateiem quando me esquecer da câmara sobressalente… ou da bomba-de-ar!

Parar de comprar coisas de ciclismo que já tenho ou que então não precise, mesmo que as promoções me consumam. Posso sempre tentar algo que parece ser impossível, encontrar as meias certas ou os óculos escuros quando estiver pronto para sair para mais uma pedalada, mas não prometo.

Finalmente, que tenha tempo e capacidade iguais para me deliciar com uma viagem requintadamente longa para depois ter um dia de descanso requintadamente preguiçoso. Claro que o desejo de liberdade é mais forte que a paixão, certamente encontrarei o valor em ambos. Pelo menos ter assegurada aquela boleia de resgate quando não houver outra salvação.

E é tudo, acho…!

Bom ano, nota 20, e boas pedaladas.

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2019 em poucas imagens… em poucas palavras

Estes são alguns dos bons momentos deste ano que finda, um ano positivo em termos de contabilidade do pedal, onde mais de 70% dos dez mil quilómetros acumulados a rodar as pernocas foram registados na utilização diária da bicla.

O único e doloroso senão foi o acidente com outro ciclista durante o meu commute pós-laboral.  Felizmente as consequências físicas são (espero) recuperáveis.  No que diz respeito ao esqueleto da minha querida bicla Tripas, que levou a pior, está ainda em reconstrução.

O blogue é que tem estado um pouco bastante murcho, mas lá vai sobrevivendo às agruras da falta de tempo, inspiração, pachorra mesmo, deste seu mentor que para o manter mais ou menos interessante para os seus dois ou três seguidores, lá vai publicando conteúdos de interesse duvidoso, só para manter este muquifo livre de teias de aranha.

Mais uma vez o ano passou a voar. Aliás, todos somados, fica sempre aquela sensação de que os anos passam cada vez mais depressa. Mesmo assim, desejo para mim e para os meus amigos que 2020 seja fantástico, que continuemos a fazer da bicicleta um instrumento da nossa liberdade e necessidade, mantendo rotinas e acrescentando novas rotas ao mapa das realizações pessoais.

Bom ano e boas pedaladas.

 

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pesado, sem estar a falar de papo cheio

O dia depois do Natal é aquele dia em que só conseguimos rebolar.

Depois uma tempestade a seguir a outra, da depressão Fabien a seguir à depressão Elsa, com chuva e rabanadas de vento à fartazana, as pedaladas têm sido limitadas ao estritamente necessário – era isso ou aqui o que vos chateia teria ido na enxurrada e não chegaria a provar da doçaria natalícia.

Ao contrário das catástrofes naturais, para as quais raramente estamos preparados, sentiu-se também o sobressalto da depressão Centeno, para o qual o dique da paciência está prestes a rebentar. Este Orçamento do Estado para 2020, com um superávite previsto de 0,2% e um enorme aumento de 0,3% para os funcionários públicos, que como eu não vêm um cêntimo ser acrescentado ao ordenado base vai para mais de dez anos, também dá para rebolar, se de riso ou de choro já não sei bem!

Eu sei, eu sei… Para post pós-natalício isto está um tanto ou quanto pesado. Vou ali comer mais uma rabanada, a ver se adoço o bico e se engrosso mais um bocado.

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uma pequena prenda de Natal

A Avó que Percorreu o Mundo de Bicicleta

de Gabri Ródenas; Tradução: Maria João Ferro

 

Sinopse

“Um livro de autoajuda em que o leitor é o verdadeiro protagonista.

Doña Maru tem noventa anos e uma vida pacata em Oaxaca, México. Percorre diariamente de bicicleta uma longa distância para levar doces, alegria e o seu sorriso às crianças do orfanato. Criada, ela própria, num orfanato, no Chile, de onde fugiu com treze anos, sabe bem o que é estar só no mundo. A vida não foi fácil para ela, mas a velha senhora sempre manteve o caráter rebelde e ouviu os murmúrios do seu coração.

Quando descobre que tem um neto, em Veracruz, decide partir a galope no cavalo de vento? A sua velha bicicleta? Em busca do rapaz numa viagem reveladora do poder dos sonhos.

Com esta fábula cheia de magia, humor e espírito positivo, Gabri Ródenas convida-nos a abrir a caixa dos tesouros que a vida nos oferece – a esquecer o que nos entristece ou o que nos aborrece para abraçarmos uma existência mais emocionante, mesmo que de início isso nos possa parecer desconcertante e insólito. É um convite para vermos a realidade tal como a víamos nos longos verões da nossa juventude, em que tudo resplandecia e o mundo se revelava pleno de aventuras e oportunidades.”

Nota do autor
«O teu coração sempre soube do que necessita e que caminho deve seguir, embora não lhe tenhas prestado atenção. Agora aprenderás a fazê-lo. Precisas apenas de ouvidos para escutar e um coração para sentir.»
Gabri Rdenas

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fotocycle [246] pedalar é…

… o livre pretexto de escolher a rota. A regalia de contemplar o que vem após uma curva. Colorir o horizonte e ficar a ver navios.

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gesso… Nããã! Gelo Challenge

“GESSO CHALLENGE… 16 de novembro. Mais pormenores brevemente”.

E depois do “brevemente”, novo post:

“Entendam que é um passeio completamente desorganizado, regido por uma anarquia total (pelo menos assim tem sido). Se esperam médias altas, essas irão aparecer apenas na descida da Graça e nem para todos. Resumindo, uma voltinha domingueira. Mas mesmo sendo completamente desorganizado, há alguns pormenores a terem em conta…

– Dia 16 de novembro pelas 8h.

– Haverá uma paragem sensivelmente a meio para um cafézito e umas 200 fotos.

– Para aqueles que queiram fazer apenas o percurso da ida, iremos proporcionar meio de transporte de regresso… A vossa própria bicicleta. Por isso se querem regressar a casa tratem de vida ou dêem ao pedal 😛

– Toda a despesa feita pelo “organizador” durante o dia terá que ser suportada pelos participantes 😛

– Como sempre, este será o percurso que eu irei fazer, mas todos são livres de, regidos por uma anarquia total, fazerem aquilo que bem entenderem.

[…]

“Ainda está muito escuro lá fora”,  conferia a meteorologia com o telemóvel na mão e fazia contas a quantas camadas de roupa iria precisar.

Encontro o Senhor Machado à hora marcada, e a par se rumou, a parlar até Ermesinde City, para desespero de um ou outro enlatado, para aquecer um bocado, para o rendez vous e partida oficial na Tasca da Trabancela.

Mais um ano e mais uma edição, a nona, deste mega evento de renome mundial, internacionalmente conhecido como Gesso Challenge.

Basicamente, diz o organizador, é manter a tradição de anos anteriores.

Reunir alguns masociclistas na tasca, pagar o café para formalizar a inscrição, e desde logo encetar a pedalada ao alto da nossa tão querida Graça para uma boa dor de pernas, comemorar a amizade e esperar que para o ano se repita… o evento, pois claro.

Tudo começou com uma ida do nosso anfitrião ao cocuruto do Monte Farinha, o alto da Senhora da Graça conhecido a nível nacional, e não só, porque é ali que se cumpre anualmente uma das chegadas mais emblemáticas da Volta a Portugal em Bicicleta.

Esta estrada é a síntese entre o esforço heróico de quem se aventura a subir os 8, 4 quilómetros no pico do verão e a recompensa de uma paisagem arrebatadora. Santuário dos aficionados das pedaladas, os 7,2 % de média de inclinação desta mítica subida são um desafio de referência para qualquer ciclista, antecipando o possível sobreaquecimento do motor.

Mais uma vez consegui a proeza de ser o último a chegar lá acima!

Mas se no pico do verão a recompensa da escalada é a consequente relaxante e refrescante descida, num dia outonal como este a descida não teve assim tanta graça. Vestida toda a roupa para enfrentar o gélido atrito da descida, só mesmo a vontade de chegar à pizzaria, sonhando com a crepitante e fumegante Quatro Estações tamanho familiar à minha frente, deu para curtir uns largos minutos de descida rápida quase em hipotermia.

Aquele sábado tinha tudo para que me convencer ficar esticado no sofá com a mantinha nas pernas, ao comando do zapping mode. Mas não. Um tal de Frinxas el Térribelé®️ havia lançado o desafio e eu, de novo, caí que nem um patinho.

Qual gesso challenge qual quê?! GELO CHALLENGE, isso sim.

Depois das despedidas à Senhora, foi rolar calmamente pela encantadora ecopista do Tâmega até Amarante e tomar a consciente decisão do desvio para Vila Meã e recorrer aos préstimos da CP, esperando pelo climatizado comboio urbano para o Porto.

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mar de plástico

Em exibição em frente ao SeaLife, na Rotunda do Castelo do Queijo, a escultura “Mar de Plástico” representa a vida marinha em risco de ser plastificada.

Todos os dias ouvimos novas notícias preocupantes sobre o plástico que chega aos oceanos. Animais marinhos que dão à costa mortos devido à ingestão de plástico. Estudos científicos calculam que mais de 8 milhões de toneladas de plástico chegam aos oceanos todos os anos, que existam já mais de 150 milhões de toneladas de plástico e que em 2050 exista mais plástico no mar do que peixes. Todos estes números são dramáticos e a lista de notícias assustadoras podia continuar indefinidamente.

A escultura, que foi inicialmente produzida em 2016 pela ESAP (Escola Superior Artística do Porto) para a Campanha Ocean Action do CIIMAR, foi exibida em vários espaços públicos do Porto, Matosinhos e Gondomar, mas com o passar do tempo o plástico foi-se degradando de forma acentuada. Com a passagem da exposição itinerante “Mar de Plástico” pelo SeaLife surgiu então a ideia de reabilitar a obra, tendo que se substituir as mais de 800 garrafas e peixes.

Este foi um trabalho muito moroso, que contou com o apoio precioso de centenas de alunos e professores de escolas básicas, secundárias e Jardins de Infância do Porto, Matosinhos, Maia e Vila da Feira, que ajudaram a recolher as garrafas ou a cortar, escrever mensagens ou pintar os peixes.

Nas mensagens criadas pelos jovens podem ler-se vários pedidos para se salvar o Oceano, mas também conselhos práticos sobre como evitar o uso de plásticos descartáveis, reutilizar e reciclar todo o plástico, ou nunca deitar qualquer lixo para o chão, para a sanita e janela fora para a berma da estrada.​

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can’t miss [205] voltaaomundo.pt

Na Holanda, é comum ir de fato e gravata numa bicicleta

[…]

«Pedalar é parte da nossa forma de viver. Está enraizado na nossa cultura quotidiana», afirma o embaixador da Holanda em Lisboa, logo acrescentando que «desde muito pequenos é para os holandeses uma forma de desenvolver a sua personalidade, no sentido de que podem decidir onde ir e como ir. É uma expressão de liberdade».

[…]

podes ler o artigo completo em: https://www.voltaaomundo.pt/2019/09/24/na-holanda-e-comum-ir-de-fato-e-gravata-numa-bicicleta-b/viajantes/264935/

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ao que cheguei, brincar com boneca e querer andar de baloiço

A apenas 30 quilómetros do Porto e a 25 de Penafiel, a Serra da Boneca é um dos destinos preferidos da malta das pedaladas. Os ciclistas que pretendem subir os cerca de 520m de altitude por estrada ou mesmo na vertente bêtêteira, têm três opções de percurso. De Penafiel, via Capela, ou de Entre-os-Rios, a EN319 proporciona uma subida gradual e suave. Quem opta por lá chegar vindo pela marginal do Douro, sai da EN108 em Sebolido e tem logo divertimento garantido.

São 4.5 km para pouco mais de 400 metros de declive. É sempre a subir, sem piedade, com a vantagem de não apanhar trânsito e da paisagem duriense se abrir esplendorosa à nossa volta. Junto ao aterro sanitário o cenário não é o mais bonito mas a pendente é rude e desafiante, e não admira ver quem tenha de a vencer aos zigue-zagues, até para evitar as enormes crateras no asfalto. Como incentivo pode ser que apareça a matilha de cães que por ali costuma emboscar os mais lentos.

Empenhados em criar uma nova atracção para o território natural da serra, um grupo de jovens de Sebolido angariou apoios e construiu um baloiço rústico de madeira que se tornou um caso de popularidade nas redes sociais. Para chegar ao Baloiço da Boneca o ciclista tem ainda de percorrer umas centenas de metros em caminhos de gravilha, piso mais apropriado às bêtêtês, mas com a resistência física e mental do aventureiro, com o culminar nos limites de aderência para tão finos pneus, pode chegar bem à central eólica onde se encontra o baloiço. Lá em cima, a mais de 500m de altitude, as vistas compensam largamente todo o esforço. Podemos ver o rio Douro e todas as serras circundantes. Num dia claro até se consegue ver a linha de costa como pano de fundo.

Depois, de rabo bem assente e mãos firmes nas cordas, basta baloiçar com os olhos no horizonte e deixar a imaginação voar. O rio Douro possui um protagonismo importante, integrando uma paisagem absolutamente empolgante, de roubar o nosso fôlego. Imagino tal sensação ao recordar a experiência que tive ao baloiçar o Baloiço de Trevim, na Serra da Lousã!

Pois é, sábado passado passei pela Boneca e resolvi fazer o desvio para experimentar o tal baloiço. “É pá, cum carago!”… Assim que vi a longa fila de carros acantonados junto à cancela, na berma do acesso ao parque eólico, fiz umas contas rápidas e percebi que para dar umas baloiçadas e fazer o registo fotográfico a bicha deveria ser pior que num balcão da Segurança Social no final do mês! Não nos esqueçamos que a novidade está a ter um grande sucesso e, além de proporcionar adrenalina e vertigem, permite fotos espantosas que se tornam um sucesso viral nas redes sociais. Tudo bem, a malta que vai de popó, faz pó, faz pose e o postal para os likes. Se tiver juízinho porta-se bem e não deixa lixo.

Nem sempre encontramos o que procuramos, mas podemos pensar em alternativas. De bicicleta, o cume de uma serra tem sempre o lado suado da conquista e o prémio arrebatado é uma paisagem esmagadora. Na verdade, fiquei satisfeito só por estar ali. Foi como se levasse o baloiço comigo. Foi como se baloiçasse em simultâneo com a estrada, com o vento, com algum parceiro de circunstância, para a frente e para trás, de um lado para o outro, porque de bicicleta a viagem nunca é em vão.

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guerrinhas

Antes de mais um pouco de história:

Em meados do século XIX a freguesia da Foz do Douro é integrada no concelho do Porto. Carreiros, um molhe de grande importância, funcionava como porto alternativo ao do rio Douro, especialmente quando o mar impossibilitava a entrada de barcos na barra. A ligação deste porto de abrigo fazia-se por atalhos e carreiros, o que deu origem a vários topónimos: “Carreiro Mau», “Carreiros” e “Molhe de Carreiros”. À nova estrada rasgada paralela ao mar deu-se a toponímia de Avenida de Carreiros, que mais tarde viria a transformar-se em duas longas e amplas avenidas.

A parte compreendida entre a Rua da Senhora da Luz e o Molhe de Carreiros, com o advento da Republica, passou a designar-se Avenida do Brasil. O troço que seguia para Norte, para Matosinhos, foi já no segundo quartel do século XX melhorada e alargada, tornando-se na espaçosa Avenida de Montevideu, desembocando na Praça de Gonçalves Zarco, a popularmente afama Rotunda do Castelo do Queijo.

Esta frente de mar constitui uma significativa mais-valia para a qualidade de vida, sobretudo dos residentes na área urbana, seja pela zona de lazer proporcionada, seja sobretudo pelos benefícios para a saúde provenientes do ambiente marítimo. Com o melhoramento das vias rodoviárias, os transportes de ligação, de e para o centro da cidade, transforma-se a Foz na primeira estância balnear do Porto. A colónia britânica ajudou a criar a moda de ir a banhos e rapidamente foi imitada por algumas famílias do Porto e arredores com maior disponibilidade económica. Verifica-se a expansão da mancha urbana entre o Castelo da Foz e o Castelo do Queijo, sobretudo com casas apalaçadas e chalés de famílias abastadas.

Em 1865 é concluída a estrada marginal do Douro, da Ribeira até à Foz, o que reduz significativamente o tempo de viagem. Até então os únicos meios de transporte da cidade para a Foz era o barco, o burro ou o carroção, puxado por uma junta de bois. A viagem demorava entre seis a oito horas. Depois da linha do “americano”, um carro sobre carris puxado por cavalos, reduziu em muito o tempo de viagem. Aos poucos a tracção animal é substituída pela tracção a vapor e depois pela electricidade. Com a electrificação da cidade, colocaram-se carris e uma vasta rede de linhas de carros eléctricos ligou o Porto aos concelhos vizinhos. A linha nº 1 do eléctrico passou a servir toda a marginal fluvial e marítima. As modernas Avenida da Boavista e Estrada da Circunvalação chegam ao litoral e tornam-se vias estruturantes para a ligação rodoviária do centro às praias.

O espaço entre as avenidas e o mar transforma-se em espaço público. Dotam-se as praias de equipamentos qualificados. Alargam-se os passeios, abrem-se esplanadas, desenham-se jardins ornamentados com estátuas, fontanários e a famosa Pérgula, dando um outro carácter à frente marítima. Mais e maiores edifícios de habitação são erguidos.

A Foz deixa de ser apenas uma estância balnear para a burguesia portuense, e cada vez mais num local de residência e comércio. Aos poucos vai perdendo a sua escala rural e o ambiente calmo. Aumenta progressivamente o número de habitantes e de visitantes. Os autocarros substituem os eléctricos sendo os carris arrancados dos paralelos. Para os automóveis, quatro amplas faixas de rodagem e baias de estacionamento pintadas no asfalto. A primeira via exclusivamente dedicada às bicicletas da Invicta é rasgada de uma ponta à outra, no passeio. Para os ciclistas, um tapete de cor verde dá um toque hipster moderno à zona pedonal. As avenidas do Brasil e de Montevideu são agora um importante eixo de ligação rodoviário de entrada e saída da cidade.

Findo o “era uma vez” vamos agora à actualidade.

A CMP fez recentemente nova intervenção nas referidas avenidas “com o intuito de beneficiar a faixa de rodagem e passeio poente através da recuperação do estado dos pavimentos e implementação de um novo esquema de mobilidade local, com vista a melhorar a segurança rodoviária e pedonal”.

Oportunamente, aqui fiz o anuncio da obra e expus as minhas dúvidas e perplexidades sobre esta intervenção, tanto na  óptica pessoal como no ciclista urbano que há em mim.

Mas a obra ainda não estava concluída e já estalava a polémica. Os aceleras e incautos azelhas deste país declaravam guerra a Rui Moreira e à CMP. A falta de espaço para os automóveis, a redução de velocidade, 400 mil euros para o lixo, o perigo dos mecos de retenção para os seus frágeis pneumáticos, e agora quem paga os estragos dos carrinhos. E a maldita da ciclovia… Os ciclistas que fiquem no passeio, bradam ainda.

nova ciclovia da Foz

Assistindo a esta guerrina, e depois de testar in loco nas minhas habituais pedaladas do trabalho para casa, até acho que está melhor assim. Para o ciclista/cicloturista/commuter a intervenção facilita a sua mobilidade, permite circular a uma maior velocidade, contribui para a acalmia de tráfego. Claro que existem pontos sensíveis, onde há que redrobar cuidados, como as paragens de autocarro e as passadeiras. Certamente não é aconselhável para que as crianças andem de bicicleta por ali, a aprender ou a passear, mas sempre o poderão fazer no passeio, pois assim a lei o permite.

Se por um lado aumentou o espaço pedonal com a colocação da ciclovia ao nível da faixa de rodagem, o espaço para os carros ficou comprometido. Ok, se por ali o estacionamento em segunda fila é prática frequente, não vejo porque reclamam tanto com o estreitamento das faixas. Creio que seria de todo lógico tornarem estas avenidas zona 30 (limite de velocidade a 30km/h), como se verifica na contígua Rua Coronel Raul Peres. Para mim, esta intervenção só pecou por não se terem lembrado desta ideia com cinco anos: Repor  os carris do eléctrico até Matosinhos. Aí é que seria bonito…

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