BRM Soajo 200… “não há espiga”

Desta vez não me esqueci de ligar o despertador e saí do Porto bem cedinho, ainda com a última saída solitária e atabalhoada de Esposende no pensamento. Penso ter sido o segundo a chegar a Marinhas, o habitual ponto de depart dos Brevets a norte, numa manhã gelada e cinzenta, mas com o mote musical dos Foo Fighters, em “minha honra” e a desejar-me “um dia frio ao sol”.

E assim foi, um belo dia ao sol, onde cerca de quarenta randonneurs, entre eles duas randonneuses ucranianas, Mari Pori e Bori Sova mais dois amigos Riazor oriundos da Galiza, juntaram forças e coloriram as estradas rumo à vila de Soajo, o ponto alto do dia. Mas antes de lá chegarmos tínhamos um longo caminho pela frente. Não sendo nada fácil, foi um percurso bastante agradável de ser feito e que me fez reviver algumas das memórias vividas nos vários brevets percorridos pelo verde Minho.

Um percurso com séculos de história, passagem de vidas peregrinas, ora movidas pela fé, ora entregues aos afazeres e tradições populares, através de estradas tranquilas, vistas esplêndidas e aldeias rústicas. As levadas (canais de irrigação) estão sempre presentes no caminho, no certo e longo Caminho, do pão e da fé. Eram usadas para o regadio dos campos de cultivo e para movimentar os moinhos que transformavam o grão na farinha, bem como orientar e refrescar peregrinos ao longo dos caminhos.

Depois de rondarmos o rio Neiva e mais à frente cruzarmos o rio Lima, que nos voltaria a assomar na vinda, iniciamos as primeiras subidas para chegarmos em bom ritmo ao primeiro local de controlo. Com a indicação para um pequeno desvio da estrada principal, paramos junto a um belíssimo solar datado de 1864, assim consta no portão o número que deveríamos indicar no cartão do Brevet. Retratada no seu romance homónimo, a Casa Grande de Romarigães, está intimamente ligada também à vida e família do escritor Aquilino Ribeiro.

Por essa altura a manhã estava perfeita, céu quase limpo, apenas algumas nuvens solitárias, sem vento e com a temperatura a aconselhar o alívio de alguma roupagem. Finalizadas as necessidades, viramos rumo a Paredes de Coura pela bucólica N301, subindo e imaginando as doçarias que iriamos escolher no segundo posto de controlo, uma pastelaria no concorrido centro histórico em dia de mercado. Pacientemente, o José Ferreira aguardava a nossa chegada e registou a nossa passagem no cartão com a primeira carimbadela. Sento-me à mesa e sou reconhecido pelo Andy, amigo das redes sociais e que pedalava pelo seu quintal de adopção.

E como sempre nos PC’s, uns chegam e outros continuam Lá vai o Andy (boa recuperação amigo). Depois de subirmos até quase aos 600 metros, descemos ao rio Vez para, outra vez, voltar a subir, isso tudo e muito mais. Algumas das estradas a percorrer não eram novidade para mim, mas subir o Soajo seria. A visita à já conhecida cidade de Arcos de Valdevez foi fugaz e, como tal, embalamos.

A crescente inclinação da estrada seria uma ninharia para os prazeres que retiramos desta coisa do cicloturismo. Eu, claro, estava a suar mas também a estava a saborear. A manhã foi, entretanto, mudando de humores, ficando cada vez mais escura, mais ventosa, arrefecendo abruptamente.

No topo, a recompensa foram as vistas, incluindo o vislumbre da alva neve lá no topo da Serra do Gerês e que o Pawel fez questão de subir ali para a fotografar.

No coração do Parque Nacional da Peneda-Gerês, a Serra do Soajo é uma das suas atracções mais vibrantes e procuradas. Conhecida pelos seus fotogénicos espigueiros e pela exuberância da natureza envolvente, a aldeia do Soajo tornou-se uma terra muito procurada e visitada. Uma terra que o turismo pôs no mapa, e que a comunidade que nela reside a tem sabido preservar, o seu passado, a sua cultura e a sua autenticidade.

Com o entusiasmo de um prato de sopa que imaginava à minha espera, invadimos a aldeia pelo Largo do Eiró, procurando vestígios da história, arquitectura e o evidente orgulho que os seus conterrâneos têm na sua terra.

Um dos exemplos é o cão sabujo da serra do Soajo: “sabujo” porque é de caça grossa, e serra do Soajo porque não é um cão qualquer. Diz que é “a matriz de muitos cães portugueses”. Esta raça tem a particularidade de ser o cão que no tempo da monarquia, todos os anos os soajeiros enviavam aos reis de Portugal e que, por tal oferta, beneficiaram da isenção de impostos e outros privilégios.

Antes de ir provar a sopa e iguarias d’as Marias, subi lá em cima à Eira do Penedo e fui ver o ex-líbris da povoação. Há quem lhes chame espigueiros, há quem lhes chame caniços, os mais conhecidos estão concentrados numa eira comunitária, assentes num afloramento granítico onde 24 destas altivas construções sobressaem pelo conjunto e pela beleza.

Os espigueiros eram utilizados para guardar o milho, deixando-o bem arejado e protegido de pragas. Consta que o espigueiro mais antigo data de 1782, não identifiquei qual, estando classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1983.

Reunimos o grupeto, com o Alain, o Pawel, o Nelson mais o Jorge e voltamos à estrada, que ia descendo abruptamente para o Lima. A natureza à volta convidava a seguir cada vez mais lento, apertando os travões e apreciando as extensões de terreno onde o cultivo do milho, a criação do gado nas brandas pastorícias são predominantes. Ao longo da estrada íamos vislumbrando as vacas cachenas, ovelhas, e ainda tivemos o encontro feliz com alguns cavalos selvagens do Soajo, o cavalo garrano.

Atravessada a ponte, junto à antiga central hidroeléctrica do Lindoso e ultrapassadas aquelas dezenas de metros de um paralelo manhoso e escorregadio, seguimos tranquilamente ao lado do rio com a cara ao vento, até Ponte da Barca.

Ah, mas havia ainda uma subida pela frente. Revisitamos a ascenção da N101 para a Portela do Vade, onde no ano passado me lembro de nos arrastarmos por ali no decurso do BRM300. Graças à conversa, desta feita a escalada passou depressa, até voltarmos a descer, a voar e a arrefecer.

Foi já sob uns grossos e gelados pingos de chuva que chegámos juntos ao último controlo em Vila Verde. O Zé Ferreira aguardava-nos na esplanada de uma cervejaria onde, para além de boa cerveja artesanal, sobressaiam saborosas sobremesas. Já não tive direito à doce regalia, mas fui salvo pela meia sandes de presunto que trazia no bolso desde o Soajo, hidratada por uma “bejeca” preta, que também fez milagres.

Para os derradeiros quarenta quilómetros os motores estavam já em modo “ralenti”. A cadência ia sendo doseada, as forças partilhadas, enfrentando um vento cada vez mais agreste que soprava frontal. Ultrapassada a malha urbana de Barcelos onde tivemos de lidar com o um tráfego enervante, não demorou meia hora para em Esposende avistarmos o oceano e reencontrarmos a N13, que seguimos até chegarmos em absoluta camaradagem ao ponto de chegada que também foi o de saída, em Marinhas.

E pronto, mais um evento soberbo por velhas estradas e serras minhotas. Magnífico roteiro desenhado e bem organizado por José Ferreira e Manuel Miranda, que também estiveram pessoalmente nos postos de controlo e onde tão bem nos receberam. Um muito obrigado à voluntariosa dedicação destes nossos amigos, que abdicaram da sua participação no Brevet, e que mais uma vez nos proporcionaram um excelente dia de pedalada.

– E o acumulado? – “Não há espiga”.

Publicado em marcas do selim | Etiquetas , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , | 2 comentários

Candeeiros 200, um BRM que se fez luminoso

É sempre bom voltar a locais onde já fomos felizes, penso eu de que… A região do Oeste, situada entre o Atlântico, a malha urbana da capital e a geografia elevada das serras de Montejunto, Aires e Candeeiros, é um belíssimo pedaço do país onde sempre voltarei com muito entusiasmo, a qualquer pretexto especialmente se for para dar ao pedal.

Caldas da Rainha é uma relíquia de Portugal, repleta de história e segredos do passado. A narrativa da cidade está intimamente ligada aos seus recursos hidro-termais. Fundado pela rainha D. Leonor, o hospital termal permitiu um pujante desenvolvimento da vila. Ao longo do tempo, além da cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro, outros artistas foram surgindo e fizeram das Caldas da Rainha um centro de artes plásticas, onde se destacou por exemplo José Malhoa.

Sábado pela manhãzinha deixei a Carla a aventurar-se pelas maravilhas das Caldas, museus e parques da cidade, e fui lesto rumo à Piscina Municipal. Não ia para banhos, pelo menos propositadamente, mas era lá que seria o depart para mais um Brevet Randonneurs Portugal. Com o lema Candeeiros 200, o terceiro brevet deste ano seria mais um a estrear, o que atraiu bastante interesse. À saída, quase 70 ciclistas predispostos, alguns estreantes, teve de novo várias participações femininas. Novidade para o próximo dia 8 de março, sairá para a estrada um Brevet totalmente feminino. Parabéns às participantes e um Bom Brevet.

Embora um pouco instável, a previsão climática prometia melhorias significativas, mas a chuvada anunciada para as 8h não falhou. Enquanto ouvíamos o briefing do Pedro Alves no interior das instalações, as bicicletas no exterior ficaram à mercê da intempérie. Entretanto a chuva parou, o céu permitiu uma aberta e mesmo à hora marcada arrancamos lentamente.

Foto do Alan

Resolvidos alguns erros de navegação, saímos da cidade e encontramos estradas mais tranquilas. Não conseguindo evitar os chuviscos vindos das rodas traseiras dos meus companheiros, sempre que possível tentava ir para a frente. Segui de novo na companhia do Pawel e do Nelson. O Alan também estava lá, pelos menos até ter o primeiro aviso do Garmin para virar algures, atraído na busca incessante de mais uns quantos quadradinhos…Só o voltariamos a ver à noite à mesa do restaurante.

a Carla esperou-nos junto ao Parque D. Carlos I e registou a nossa passagem

Sem cerimónia, as primeiras subidas e as estradas ondulantes permitiram um aquecimento corporal bem necessário. O tempo húmido e o frio assim o aconselhavam.  Há quem goste de subir a parada com um velomobile ou com uma bicla “recumbente”, mas para enfrentar algumas inclinações eu até preferia fazê-las na minha singlespeed. Depois, claro, vingavam-se de nós e desapareciam da nossa vista nas retas e nas descidas.

Para primeiro ponto de controle, o local escolhido foi uma novidade para mim. As Salinas de Rio Maior encaixam-se num vale no sopé da Serra dos Candeeiros que, dada a sua natureza calcária, contem inúmeras falhas na rocha o que faz com que as águas da chuva não fiquem à superfície, formando cursos de água subterrâneos. Uma dessas correntes atravessa uma extensa e profunda jazida de sal-gema que alimenta o poço, que se encontra no centro das Salinas, e de onde se extrai água sete vezes mais salgada que a do mar.

A primeira referência à sua existência data de 1177, mas pensa-se que o aproveitamento do sal-gema já seria feito desde a Pré-história. A minúscula aldeia de casas de madeira, junto à qual se destacam tanques de formas e dimensões irregulares, enchem-se de água salgada dando posteriormente a origem a brancas pirâmides de sal pelo efeito da evaporação.

Primeiro carimbo, tomado o café e um docinho, para adocicar ainda mais o espírito deu-se logo o inicio à principal ascensão do dia. Coisa interessante deste percurso era que iríamos acumular mais de 1.000 metros de elevação em menos de 50 quilómetros. Para dar início ao trabalho propriamente dito, enfrentámos uma apetitosa subida até Chãos. Mas isto não era nada comparado com o que nos esperava.

Foto do Pawel

A Serra dos Candeeiros, elevação com cerca de 600 metros de altitude, é parte integrante do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros e conhecida pelas suas impressionantes grutas naturais. Segundo a memória dos antigos o seu nome provém do facto de terem existido na serra muitos pastores que durante os meses de verão ateavam fogos para permitirem a renovação dos matos. Os fogos faziam a serra parecer um candeeiro e daí o seu nome, por causa das candeias.

Éramos nós a escalar a serra e o asfalto a desfazer-nos em pingos de suor. Pior estava a Loca, a bicla do Pawel, magoada à custa da lei da gravidade, o desviador traseiro empenou e não permitia os andamentos mais leves, tendo o nosso amigo que se sujeitar a um esforço extra para chegar aos topos das rampas mais ingremes. Em Serro Ventoso. Diz que o galo ali é rei e senhor, só que ele não canta de galo. No fim ele tem é galo porque acaba sempre na panela.

O tempo manteve-se instável na maior parte da manhã. Uns fogachos de sol ao longo da descida, mas São Pedro estava de candeias às avessas, só podia! Na ondulação da estrada o vento frontal fazia-se sentir cada vez mais intenso. O céu escureceu e a chuva, que era suposto ter-nos dado problemas apenas no inicio, decidiu que não nos podia escapar e encharcou-nos de alto a baixo um pouco antes de chegarmos ao Mosteiro da Batalha, onde estava programado novo PC.

As Capelas Imperfeitas são colossais mas não servem para abrigo, e foi com todo o cuidado para não me estatelar no escorregadio piso de calcário que procuramos o café mais próximo para reabastecer e aquecer. Os meus pés não sentiram nada de diferente, continuaram molhados e gelados, mas o galão e aquela mega sande mista de queijo e presunto fizeram maravilhas ao ânimo.

Quando retomamos a pedalada já estava um belo dia de sol. A borrasca deu lugar a um céu limpo e soalheiro que nos iria acompanhar até ao fim do dia. Entretanto no labirinto de ruas e travessas que tivemos de transpor, reparo, e paro, junto a um interessante fontanário. Para além do interessante painel de azulejos, foi o candeeiro que me prendeu a atenção. Então, se o brevet é dos Candeeiros fazia todo o sentido fotografar pelo menos um candeeiro! 

Chegámos ao terceiro controlo em Monte Real, com metade da quilometragem feita. Para além da desejada sopinha, e acabar de mastigar a mega sande de queijo e presunto que trazia na sacola, ainda faltava percorrer mais de metade do percurso. A parte mais difícil já tinha ficado para trás e as pernas estavam prestes a melhorar. Aproveito para deixar o nosso agradecimento à dedicação dos voluntários que esperam pacientemente a cada posto de controlo e nos recebem com um sorriso e carimbo na mão.

Um pouco mais à frente a rota convergia para a costa, atravessando o que outrora foi o verdejante Pinhal de Leiria, uma imensa mancha florestal que agora não passa de um deserto depois dos trágicos incêndios de 2017. A estrada plana e a ciclovia que a bordeja convidavam à velocidade, mas aí o forte vento de noroeste refreou-nos as forças para que, assim nós chegássemos ao ponto de viragem para sul, nos desse então uma certa palmadinha nas costas.

Efectuado o autocontrolo na Lagoa da Ervedeira, um pequeno paraíso bem porreiro para espraiar e observar aves, retomamos a plana estrada Atlântica e a ciclovia paralela. Infelizmente a suposta via para pedalar em segurança está mal cuidada e em alguns locais muito perigosa. Aquilo que poderia ser um dos melhores pisos para pedalar, desde que se tenha ventinho pelas costas, acaba por ser desaconselhável e empurra o ciclista para o asfalto, com algum tráfego desarvorado que por ali acelera.

Foto do Pawel

À passagem pelo Farol da Saudade em São Pedro de Moel, sítio de boas memórias, já estava a sentir um certo desvanecimento das energias. Nem a força do vento me ajudava e, enquanto estava com eles, procurava as rodas dos meus amigos, tentando desenvolver alguma divisão de esforços, o que nem sempre ia conseguindo.

Estávamos perto do controlo 6, na Nazaré. Ao contrario da outra vez que por ali passei, em sentido contrário, desta feita estava um sol radioso e parámos no famoso miradouro do Sítio para as fotografias. Sabia de antemão que deveria estar um verdadeiro reboliço por aquelas bandas. Sábado à tarde, bom tempo, um ex-libris turístico por excelência. O que não sabíamos era que vários desfiles pré-carnavalescos nos iriam atrapalhar de certa forma a chegada junto à praia. Ah… entretanto sou apresentado e apanhado pelo verdadeiro Canhão da Nazaré.

No posto de controlo previsto para comermos alguma coisa, aproveitamos a energia extra que o sol nos transmitia e embalamos na corrente, não das ondas gigantes mas no espírito da entreajuda. Até São Martinho do Porto pela estrada nacional foi um tirinho. À beira mar as paragens repetiam-se agora com mais frequência. Transposta a Serra do Bouro, após Salir do Porto a descida para a Foz do Arelho assumiu contornos de satisfação com a brisa marinha, um intenso sol poente e as vistas para o Atlântico onde se consegui facilmente identificar as Ilhas Berlengas.

Nelson e Pawel

Último controle carimbado e um último bilhete postal antes de ir pedalar o último troço de estrada, já mais concorrida, no regresso a Caldas da Rainha para a conclusão triunfante de mais um memorável Brevet dos Randonneur de Portugal. Tenho de estar grato mais uma vez aos meus amigos e companheiros de toda a pedalada, Nelson e Pawel, bem como os demais randonneurs, voluntários e organização, que sabem dar valor ao esforço e à dedicação com a amizade e valentia que estes passeios “breveteiros” promovem.

Aqui deixo o registo no Strava. Até Breve(t)

Publicado em marcas do selim | Etiquetas , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

“a fadiga é o melhor travesseiro”

Manhã ensolarada e inspiradora. Cabelos ao vento. Pedalava eu a minha Pinnarello estrada acima, só com a panorâmica das montanhas, quando olho para baixo e percebo que a geringonça do GêPêéSse não estava no guiador. Instintivamente estico o braço e procuro. Procuro o telemóvel na esperança que a voltinha estivesse sendo registada na aplicação Strava, mas…

“Ora bolas, o bolso está vazio!”… E agora, assim não tenho dados da pedalada para partilhar!”.

A princípio fiquei um bocado chateado, mas continuei, conformado.

Pedalo até à aldeia mais próxima. Decido parar para um cafezinho até que, perante o cenário envolvente, encosto a bicicleta a uma árvore. Idealizo a fotografia que dali, com aquela magnífica paisagem em pano de fundo, a bicicleta ficaria mesmo bem, mas…

“Oh pá, cum carago. Não é que me esqueci que me tinha esquecido do telemóvel!”

Mais tarde, de novo no selim, durante o regresso a casa, medito sobre a dependência que temos das novas tecnologias. Assim, sem as geringonças electrónicas não teria um único Pê éRre conquistado, não teria acumulado nada nem receberia “kudos” dessa pedalada fabulosa. Não poderia analisar com calma os dados do treino. Não Iria partilhar uma única foto dos belos locais por onde havia passado. É como se o meu passeio de bicla nunca tivesse acontecido!…

É nesses momentos de “cabeça-de-vento”, até porque nem comi muito queijo, que o ciclista passa por uma espécie de crise existencial.

“E agora, como vou contar à Internet que fui dar um passeio de bicicleta, épico, verdadeiro empeno com três dígitos e megas de acumulado?!”.

Angustiado, a mente derrapa: “Um gajo senta-se num assento desconfortável, gira as pernas por algumas horas e depois volta para onde tudo começou. Quem precisa disso? Eu até nem gosto muito de pedalar!…” :/

Sinto-me sacudido e não é pelo mau piso da estrada. Uma voz doce, cada vez mais pertinho, cada vez mais insistente, chama por mim e me sugere: “E se parasses de rodar as pernas e me dar pontapés?”

Gradualmente, abro os olhos remelentos, espreito em redor e não encontro a bicicleta. Caio na realidade e rio para mim mesmo. Então não é que tudo não passou de um sonho! Algures, nos idos anos oitenta, eu, vinte verdes aninhos, solto, cabelos ao vento, escalando a serra na minha bamBina Pinnarello!

Bem, toda esta reconstituição dramática não se trata dos dados, mas da própria paixão. Que o que realmente importa é pedalar. Nos sentirmos vivos, livres de dispositivos, deixar que a bicicleta ganhe asas e nos embale, pois ela se tornará parte do nosso corpo.

Ok, eu gravo todos os meus passeios, pedaladas de fim-de-semana, os comutes pré e pós-laborais. Sempre que dá, enquadro a bicicleta e fotografo-a, em locais bonitos da cidade, do mar e das montanhas. É quase egoísmo da minha parte guardar só para mim mesmo, vai daí partilho para quem me segue, as voltas, quilometragens e coisas assim, mas aprendi que desligar e me soltar é o melhor.

Este postal só poderia ser melhorado com um desenho, pois nesse meu devaneio, de um sonho tornado realidade, não tinha o telemóvel para tirar uma foto. Mas como não tenho jeito para desenhar, aqui vai…

Click

Publicado em o ciclo perfeiro | Etiquetas , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

o Lado B do BRM L’Antique 200

Quando em 2013 participei no meu primeiro Brevet dos Randonneur de Portugal, coincidiu com a primeira edição do BRM L’Antique 200. Desde então, este Brevet é considerado o mais enigmático que pedalamos, por variadas razões e também porque é o Brevet que não falha no calendário “randonneureiro” português. A cada ano que passa vem atraindo cada vez mais participantes e um número crescente de novatos nestas “pedalanças breveteiras”. A edição deste ano bateu todos os recordes, com 75 ciclistas participantes, randonneurs de diferentes nacionalidades, sendo o destaque dedicado à valorosa participação feminina com nove randonneuses.

De lá para cá repeti em quatro ocasiões, sempre em anos impares, o que até poderia dizer que é uma espécie de “vira o disco e toca o mesmo”, só que não! Desta vez tocou o Lado B do disco. Girei os pedais numa rotação contrária do percurso que era habitual. No ano passado já se havia percorrido o L’Antique nesta versão. Eu não tive figura presente e foi com imensa curiosidade que voltei ao Ribatejo, para desta vez lhe dar a volta numa prespectiva diferente.

Outro excelente motor para voltar a pedalar pela lezíria ribatejana foi a bamBina Pinarello. Durante a semana antecedente, a escolha da bicicleta esteve em suspense devido às previsões de chuva, sendo que a decisão final foi tomada mesmo em cima do joelho mantendo assim a tradição, que para mim o L’Antique tem de ser cumprido a bordo de bicicletas clássicas, durinhas com’ó aço.

Assim já foi na Cósmica, na Tripas iNBiCLA neste Brevet, e por duas ocasiões fui lá girar a única roda pedaleira de Sua Alteza. Este ano coube à bambina Pinarello dar-me o prazer do seu charme, mesmo que o cabo se tenha partido a determinada altura e a tenha obrigado pedalar, a partir do quilómnetro quaranta e tal, sempre no prato pequeno.  

Depressão vai, depressão vem, as previsões foram melhorando ao longo da semana, para no dia previsto uma janela climática escancarar as portadas e deixasse o sol entrar e nos presentear com um dia em cheio. Cheio de luz, cheio de peripécias e cheio de um espírito breveteiro fantástico.

A benesse climática com que São Pedro nos brindou permitiu que fosse um Brevet sequinho… quer dizer, quase sequinho, porque em muitas ocasiões as pingas de água vinham de baixo, frias e com lama à mistura. Alguns troços da estrada estavam completamente inundados, o que foi para muitos uma experiência diferente, pedalar sobre as águas sem ver onde as rodas pisavam. Mesmo as bicicletas com guarda-lamas borrifaram-se para quem atrás seguia e soltavam autênticos repuxos à pressão no alcatrão. Os vários troços de terra batida reavivaram na mente de todos a razão do cognome deste Brevet. “À moda antiga”.

Ao longo das “estradas de outros tempos” os coletes amarelos e cor-de-rosa iam-se espalhando em pequenos grupos, reagrupando à paragem nos postos de controlo. Em pontos estratégicos do caminho paramos para responder ao questionário de passagem, para descansar as pernas, para algumas fotografias. Nos postos mais importantes, paramos para que os voluntários registassem a passagem com o carimbo no cartão e aproveitar para comer uma bucha. De salientar a abnegação e dedicação dos voluntários que nos esperaram pacientemente nos PêCês e que dessa forma permitem que os eventos BRM se realizem.

Ao longo do percurso a minha mente rebobinava lembranças das paisagem e sítios por onde passava. Prespectivas diferentes, pontos de vista distintos que recordava e, é claro, imagens e cenários alternativos, que no movimento inverso ficavam para trás e nem me dava conta. Por outro lado, ia fazendo uma espécie de contagem decrescente, das distâncias entre aqueles locais e pontos de interesse. Óbvio que é algo que faço com frequência em muitas das minhas clássicas “bate e volta”, mas neste Brevet isso marcou uma abordagem mais bisbilhoteira da minha parte, por ser a primeira vez que fazia o percurso nesse sentido, contrário aos ponteiros do relógio

Exemplo disso foi, após a travessia da Ponte sobre o Tejo, a aproximação a Constância por uma estrada ainda desconhecida, de sentido único e que, nesse sentido, permite uma panorâmica belíssima do casario enquadrado com o vale e com o Tejo. Mas o relógio não pára e o almoço não espera.

Depois da sopinha e da bifaninha, revigorados para enfrentar a restante centena de quilómetros, viramos a poente e levamos com um ventinho que soprava de Norte, às vezes com veemência diretamente nas fuças. A visita à abandonada Quinta da Cardiga teve a variante de se fazer após do quilómetro e meio de lamaçal e do ziguezague às poças d’água.

Ao chegarmos mais perto das margens do Tejo dava para perceber a força do caudal. Nesta altura do ano há sempre o risco de encontrarmos alguma estrada encerrada devido ao nível das águas do Tejo, mas este apenas alagava alguns campos agrícolas sem tocar o alcatrão. O sol de frente e o efeito dos espelhos de água ia conferindo um contraste de uma beleza única à paisagem.

Ao longo do Vale de Santarém, lá no alto da cidade, a varanda das Portas do Sol era cada vez mais visível. Para um lugar ao sol e a pausa do lanche para recuperar energias, para lá chegarmos tivemos de cumprir a única subida do dia por uma estrada exigente, não que seja mais durinha por esse lado, mas porque àquela hora da tarde seguimos com atenção redobrada ao trânsito, mais intenso e confuso, e às direcções que a geringonça ordenava para não nos enganarmos nos atalhos.

Depois de Porto de Muge, e de assinalar no cartão a última questão exigida, o percurso era já sobejamente conhecido. Planície, mosquitos, sol poente, estradas desertas, a par nas conversas, dar as boas noites à noite, preparar o regresso do frio, voltar à estrada nacional, aguentar o trânsito… Vila Franca de Xira no foco e a conclusão de mais um Brevet realizado com sucesso e satisfação. Tenho a dizer que gostei mais desta versão do disco “Long Play”.

O meu agradecimento aos organizadores, aos voluntários, aos companheiros de pedal, o Miranda e o Pawel, na partilha de bons momentos e belas fotografias ao longo de mais um memorável BRM L’Antique 200. Para o próximo, se lá chegar em 2027, espero voltar e, quem sabe, com outra bicicleta. A gOka, embora uma mescla de alumínio e carbono, e embora não parecendo é uma clássica. Afinal, é a bicicleta mais velhinha do meu harém.

Fica a promessa. Até breve(t).

Publicado em marcas do selim | Etiquetas , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , | 2 comentários

estradas seguras para todas as pessoas

Recordo, e partilho, o texto da Petição / Carta Aberta “Cidades Seguras para todas as pessoas”, que a Estrada Viva, “rede de associações, designada oficialmente por EV – Liga de Associações pela Cidadania Rodoviária, Mobilidade Segura e Sustentável” (publicada no jornal Público no dia 21 de novembro de 2021), dirigiu ao Presidente da Assembleia da República e ao Primeiro Ministro de então, dando assim o mote para este postal.

“O que nos define como sociedade evoluída é o modo como tratamos os mais vulneráveis: as crianças, as pessoas mais velhas e as que têm mobilidade reduzida. O espaço público é o espelho das nossas escolhas: se os mais vulneráveis entre nós podem mover-se com liberdade, independência e segurança, todos teremos os mesmos direitos. Mas as nossas cidades têm sido desenhadas para dar prioridade ao automóvel, com vias que convidam ao excesso de velocidade, que não é fiscalizado, criando graves situações de insegurança para todos. Portugal tem dos piores indicadores de segurança rodoviária dentro das localidades da União Europeia [1]. Temos que mudar esta situação.

Em 2019, morreram em Portugal, por atropelamento, 134 pessoas a pé e 26 em bicicleta, a maioria dentro de localidades [2]. Um peão atropelado a 50 km/h só tem cerca de 20% de probabilidade de sobreviver, enquanto a 30 km/h tem cerca de 90% de probabilidade de sobreviver [3].

Em 2017, os Ministros de Transportes da União Europeia assinaram a Declaração de Valeta, que inclui o objetivo de reduzir a zero o número de mortes nas estradas europeias. Como consequência a Comissão Europeia e o próprio Estado Português adotaram a “Visão Zero”: todas as mortes na estrada são eticamente inaceitáveis. A promoção da segurança rodoviária só é eficaz quando assenta num pressuposto básico da ”Visão Zero”: errar é humano. Temos, por isso, de garantir que os erros que inevitavelmente serão cometidos, não sejam erros mortais. O primeiro passo é reduzir a velocidade.

Em 2020, Portugal assinou a Declaração de Estocolmo. Nela se estabeleceu claramente que os Estados signatários deverão priorizar a gestão da velocidade como uma intervenção chave de segurança rodoviária, em particular para “fortalecer a aplicação da lei, para prevenir o excesso de velocidade e determinar uma velocidade máxima de 30 km/h conforme apropriado nas áreas onde utilizadores vulneráveis e veículos se misturam … ”. A Declaração de Estocolmo ressalta ainda que os esforços para reduzir a velocidade têm um impacto benéfico na qualidade do ar e nas alterações climáticas – não haverá mobilidade sustentável sem segurança, nem segurança sem mobilidade sustentável.

Em maio de 2021, a Organização Mundial da Saúde (OMS) patrocinou a 6ª Semana Global de Segurança no Trânsito da ONU, a destacar os benefícios de ruas de baixa velocidade em áreas urbanas e apelando aos países a limitar as velocidades a 30 km/h nas ruas partilhadas entre peões, utilizadores/as de bicicleta e o tráfego motorizado. A OMS, baseada em inúmeros estudos epidemiológicos, é muito clara: o risco de morte e ferimentos reduz consideravelmente quando as velocidades praticadas são abaixo dos 30 km/h.

O Parlamento Europeu, em outubro de 2021, aprovou – com 90% de votos a favor – a recomendação da adoção de uma velocidade máxima de 30 km/h “em zonas residenciais e com um elevado número de peões e utilizadores de bicicleta”, argumentando que o excesso de velocidade é um fator determinante em cerca de 30% dos sinistros rodoviários mortais.

Também queremos zero mortes nas ruas e estradas de Portugal. Vimos, assim, apelar à Assembleia da República e ao Governo que Portugal cumpra a Declaração de Estocolmo, as recomendações da OMS e do Parlamento Europeu e altere o limite máximo de velocidade de 50 km/h para 30 km/h em áreas urbanas, onde o tráfego motorizado interage com peões e utilizadores/as de bicicleta (definido no Código da Estrada como “dentro das localidades” com a excepção de “vias reservadas a automóveis e motociclos”).”

Ainda janeiro vai a meio e já soma um registo trágicio de cinco pessoas mortas no exercício do seu modo de transporte em bicicleta. Têm vindo a aumentar de um modo assutador o número de vitimas resultantes de acidentes rodoviários e atropelamentos nas estradas e ruas do nosso país. É demasiada gente que sai e não chega a casa ou ao destino onde se propunha chegar. É urgente alertar, conciencializar, para evitar este “genocídio” rodoviário. É urgente, reduzir, acalmar, refletir… Fazer qualquer coisa para modificar certos comportamentos nas estradas. O excesso de velocidade, as manobras perigosas, o uso do telemóvel durante a condução. Nós que pedalamos diáriamente para diversos fins e destinos tentaremos ser mais atentos e cuidadosos na estrada.

No domingo passado, numa manhá gélida e chuvosa, mais de 90 ciclistas, homens, mulheres, crianças, animais, acompanhados por vários agentes de autoridade em bicicleta e pela comunicação social (RTP, SIC e TVI), percorreram em desfile algumas ruas do Porto manifestando-se e sendibilizando para segurança e prevenção rodoviária, para a necessidade de melhores infra-estruturas urbanas exclusivas para a circulação das bicicletas, estradas seguras para todos os utilizadores vulneráveis das vias públicas. No nosso pensamento estava a memória das pessoas falecidas em desastres de viação, sobretudo aqueles que como nós se deslocavam neste simples modo de locomoção que é a bicicleta. De igual forma, prestamos a devida homenagem às equipas de emergência, aos profissionais de saúde e agentes de autoridade que diariamente lidam com as consequências traumáticas da sinistralidade.

Vamos lá, partilhem a estrada com segurança.

Nota: Poderão ver os videos e mais fotos do movimento na actividade (clicar para ver) que registei no Strava.

Publicado em motivação | Etiquetas , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , | 1 Comentário

fotocycle [276] com a bicla e o queijo à mão

Anos atrás, após passar a fasquia dos cinquenta, fui diagnosticado com Diabetes tipo 2. Sem ficar admirado com isso, aqui o factor hereditário, de pai para filho, imperou de facto. Reconheço que fiquei um pouco assustado. O meu médico prescreveu medicação diária e me disse o que poderia ou não comer. Zero de açúcar. Meti na cabeça um plano dietético rígido e aumentei a actividade física que incluía a corrida. Só que detesto correr. Se eu já pedalava bastante, as rotinas diárias na bicicleta acabariam se tornando mais necessárias e alargadas. Em seis meses perdi seis quilos. O meu estado físico alterou significativamente mas percebi que o meu corpo reagia de forma repentina, mediante as exigências físicas face às necessidades calóricas. Por diversas vezes tive encontros imediatos com o “Homem da Marreta” e percebi que já não me sentia invencível.

O equilíbrio é delicado. A longo destes anos a bicicleta tem-me proporcionado o melhor remédio para encontrar esse equilíbrio. Para além do óbvio, o ciclismo é de facto uma metáfora quase perfeita para o “equilíbrio”. Estou ciente da importância da alimentação a ter e a manter esse tal equilíbrio, entre carbo-hidratos, proteínas e a ingestão de calorias. Demasiados carbo-hidratos e o meu açúcar no sangue sobe, muito poucos e eu “bato na parede”. Se o exercício diário e prolongado é parte da equação, saber dosear as necessidades é uma importante aprendizagem. Aprendi a “ler”o meu corpo.

A bicicleta é uma coisa maravilhosa. A sua mecânica depende do “motor”, ou seja, do ciclista, e o motor depende do combustível. A bicicleta é a minha rotina saudável, que torna os meus dias de pedalada longa em dias de batota. Naqueles dias que eu acho que tenho desculpa e posso enganar os “diabretes”. Naqueles dias que eu acho que posso consumir à vontade o pão que me apetecer, uma coca-cola e um pastel de nata só para desenjoar. Não é que eu ande a comer muito queijo, mas nesses dias permito-me conquistar castelos e esquecer a maldita doença.

Publicado em fotocycle | Etiquetas , , , , , , , , , , , , , , | 2 comentários

Évora 200, um Brevet bem alentejano

Mal saiu o calendário dos Randonneurs Portugal para o próximo ano, recheado de boas e desafiantes novidades, assinalei o Brevet Évora 200. O primeiro evento da época breveteira para 2025, que se realiza no último dia de Novembro de 2024, fez-me logo pensar que poderia juntar o útil ao agradável. Pedalar e passar um par de dias com a minha cara metade numa cidade onde já fomos felizes.

Mais do que revisitar Évora num fim-de-semana, pedalar 200 km em boa companhia, por estradas ondulantes, esburacadas q.b. e com poucos carros a chatear, era por demais aliciante. Depois de toda a logística tratada com antecedência, na sexta-feira à tarde fiz-me à autoestrada mais a Maria, com a bamBina Pinarello amarrada no tejadilho da viatura rumo à capital do Alentejo, O extra seria o de, pela primeira vez, participar no BRM Évora 200.

“Cicloturistar” pelo Alentejo é sempre uma experiência gratificante. Já tinha dito isto, não já? É que a memória ainda guarda momentos fantásticos da minha travessia pela N2. Das paisagens ondulantes, das estradas silenciosas, das pessoas e do modo de vida secular da região. Desta vez, porém, teria a companhia de sessenta e seis outros ciclistas, a pedais, com máquinas infernais e de coletes fluorescentes.

Sábado de manhãzinha, depois de percorrer estreitas ruas de paralelos rombudos e escorregadios, o pessoal foi-se juntando para o inevitável bikechecking, proporcionando encontros e reencontros, conversas de circunstância, apreciações das bicicletas em exposição, até que se deu início ao bike tour, saindo em pequenos magotes pelos arruamentos históricos da cidade considerada património mundial da UNESCO.

Enquanto a suave neblina se ia dissipando, o sol nascente espreitava dando um tom luminoso fenomenal ao asfalto e aos descampados. Depressa nos livramos das cercanias urbanas e nos vimos envolvidos pelas soalheiras planícies alentejanas, ideais para qualquer tipo de ciclismo, onde a beleza natural é um constante panorama à nossa volta. Não resisti a parar para captar um momento fotográfico, suficiente para de imediato me obrigar a dar bem à perna se queria apanhar os fugitivos.

Uma brisa fleumática, misturada com aquela ânsia de calcar os pedais, tornou o meu ritmo veloz e, só passados uma vintena de quilómetros, à entrada de Machede, consegui finalmente alcançar as rodas do Pawel e do Nelson, formando assim um trio ciclista por todo o brevet. “Breveteiros” vindos do norte para participar no brevet mais a sul, éramos poucos mas eramos bons. Cof…cof…

Embora planos, os quarenta quilómetros seguintes não nos permitiam uma pedalada tranquila. O asfalto remendado, e em alguns locais bem esburacado, obrigava o ciclista a cuidados redobrados. Atentos aos poucos carros que surgiam, fomos rodando tranquilamente, até que por nós passa zunindo um dos três Velomobiles, tão rápido que nem tive tempo de o fotografar. Passada a localidade de Montoito prosseguimos para Reguengos de Monsaraz, onde faríamos o primeiro controlo num pequeno café.

Carimbado o cartãozinho amarelo, bastou a necessidade de ir verter águas para, entretanto, voltar e me deparar com um pelotão esfomeado rodeando o balcão do café. Felizmente, mesmo ali ao lado na praça, uma confeitaria bem fornecida providenciou o meu primeiro abastecimento sem grandes demoras. Fotografias e reajustes na vestimenta, logo retomamos a pedalada para ir admirar o Alqueva e a vila fortificada de Monsaraz, bem lá no cimo do lago.

A escalada do dia estava em acção. Boquiaberto com as lonjuras a perder de vista, note-se que a respiração e o coração acelerado não tiveram nada a ver com isso – certo!? – novo posto de controlo no miradouro junto ao icónico monumento de homenagem ao Cante Alentejano. Rápido se reagruparam alguns breveteiros, ofegantes da curta mas exigente subida. Depois dos cliques fotográficos ao Alqueva e a outros, prosseguiu-se para a descida, deixando uma visita à vila e ao castelo para outras núpcias/férias.

Recomendado pelo Nelson, fizemos uma breve paragem em Telheiro para apreciar e fotografar o seu original e belíssima fonte e chafariz azul e branco. Bem ao estilo alentejano. Informação recolhida posteriormente, pelas inscrições na fonte podemos confirmar a sua existência desde tempos remotos. “O chafariz foi contruído em 1422, mais tarde em 1723 foi construída a fonte atual, e em 1930 esta foi alvo de obras de recuperação.” Com isso, fomos alcançados e acabamos engolidos por um minipelotão, que montados nas suas máquinas modernas seguiam a bom ritmo, atravessando montados de sobreiros e azinheiras.

Diz que o Alentejo é todo plano! Pois é, excepto quando não é. A ondulação do asfalto da estrada M514 passou a ser o prato forte, mesmo antes da hora de almoço. O grupo revezava-se, uns iam entrando, outros iam saindo, conversas de circunstância, quando dei por mim estávamos às portas da Vila do Redondo. Com metade do brevet concluído, era chegado o momento sempre desejado de confortar as barriguinhas.

Numa esplanada da praça da vila ficava o terceiro posto de controlo, onde um dos voluntários, essenciais na realização dos brevets, se encarregava de registar a chegada dos participantes. Carimbado o cartão, fui de imediato tratar do mata-bicho e engrossei a bicha no Beldroegas Bar, à espera da sopinha e da sandes de presunto. Até deu tempo para reparar nas paredes do estabelecimento estavam decoradam com vários motivos tauromáquicos e monárquicos, o que revela muito dos costumes saudosistas desta terra.

O Alentejo é uma região repleta de aromas, cores e património cultural. Seja pelas paisagens verdes e douradas intocadas, pelas colinas ondulantes, pelas casinhas de cal branca com retoques azulados, das aldeias medievais e cidades históricas, dos castelos, igrejas, palácios e conventos, agora convertidos em alojamentos requintados, seja qual for a razão e motivação, um passeio de bicicleta por aquelas paragens é sempre deslumbrante. As milenares tradições, história e cultura que esta região vinícola tem para oferecer, torna este pedaço de Portugal um local pitoresco e cheio de charme.

O que não é nada charmoso é ter de percorrer parte da estrada nacional nº 4. Se os bons argumentos paisagísticos estavam ainda presentes, a sujidade desta estrada, aliado ao bulício rodoviário, veio a revelar-se algo problemático. Espalhados pela estrada, restos de pneumáticos de camiões eram um perigo eminente para os pneumáticos fininhos das nossas biclas. Pedalávamos nós a bom ritmo até que se escuta o gutural berro de alguém: “FURO”, e rapidamente se acionaram os travões. O recanto junto aos portões da Quinta das Cerejas tornou-se assim um providencial refúgio para a nossa paragem forçada.

Se a fama do pneu Continental 5000 à resistência ao furo é sobejamente conhecida pela malta das biclas, já a resistência do pneu para sair do aro é desesperante. Passados longos minutos de uma luta desigual, só mesmo com a força bruta conjunta de seis mãos se obteve sucesso. Um pedaço de arame espetado na borracha denunciava o móbil do crime. Escusado será dizer que, trocada a câmara, voltar a colocar o pneu no aro foi outro filme… de suspense!

Continuamos então para norte, rumo a Estremoz, famosa pelo mármore branco e pelo seu castelo. Ao longo da estrada outros dois grupetos que jaziam parados, também vítimas da EN4, a reparar furos. Estremoz é mais um bom spot para reabastecer energias, “num posto de controlo onde a doçaria vale mesmo a pena”, diz no site dos RP, mas que me desculpe o senhor do café. Bolo Jesuíta tem de ser o de Santo Tirso, que é bem diferente daquele que comi, mas, a bem da verdade, digo-vos que estava mesmo fresquinho.

Até Evoramonte a estrada volta à calmaria natural da região, mas a topografia vai aumentando, gradualmente. Avistamos o inconfundível e imponente castelo lá no cimo. Diz que as vistas que a vista de lá alcança são espantosas, mas não o fomos visitar. Tivemos de parar no centro da vila para novo controlo de passagem, num café com uma questão sobre o café que deveríamos assinalar no papelucho amarelo. Vai daí, aproveitei a pausa para tomar outro café. Pois com certeza que teria de ser Delta.

Recomeçamos a bom ritmo, descendo. O percurso segue agora por estradas mais planas, com pequenas ondulações e campos abertos,a que já nos havíamos habituado. Reagrupamos com outros randonneurs e fomos entabulando conversas, sobretudo abordado pela persistente curiosidade dos meus companheiros de circunstância sobre a minha montada, recebendo vários elogios à beleza da bamBina Pinarello.

Uma viragem à esquerda e entramos no Vimieiro, uma pequena e típica aldeia alentejana que se diz ser terra de músicos. Não fomos recebidos com honras musicais, mas de novo obrigados a fazer um pit-stop para responder a outro quiz no cartãozinho do Brevet. Rapidamente a noite ia caindo, tornando cada vez mais visíveis as luzes vermelhinhas das nossas bicicletas, que se iam espalhando ao longo da estrada.

As estradas quase sem trânsito e a luminosidade do fim do dia davam uma atmosfera especial à pedalada. Avisam-me que fiquei sem a luz traseira. Pois um calculo mal efectuado no carregamento da bateria e o facto de me ter esquecido da luz suplente, fez com que fizesse a parte final desse modo. Embrenhado no grupeto sentia-me mais seguro, o que não me passou despercebido foi um rato cruzar-se mesmo à frente do potente feixe de luz dianteira da minha bicicleta. Não acabou esmagado por sorte, a dele!

Rodando em formação, martelavam-se os pedais a bom ritmo, em concentração máxima. Não tardou muito a que avistássemos a placa indicadora da nossa entrada no concelho de Évora. Logo, logo, estávamos a calcar de novo os paralelos rombudos e escorregadios, primeiro ao redor e depois dentro das muralhas. Batiam as 18 horas e o transito em direcção ao centro entupia as estreitas ruelas evorenses. A chegada foi algo atribulada, mas com sucesso total. Todos os “concorrentes” chegaram ao final, felizes e contentes.

O Alentejo é sempre um dos destinos a revisitar e uma experiência de pedal a não esquecer, e este Brevet é muito mais do que um loop de 200 quilómetros. É um excelente convívio com outros da mesma espécie e que como eu apreciam o desafio das longas distância. É uma volta pela história que vale a pena desfrutar. Totalmente diferente de estar num carro ou até num comboio ou autocarro. Ali não olhamos a paisagem pela janela. Eu e os meus amigos Pawel Pesz e Nelson Vaz fizemos parte dela.

Foto: Pawel Pesz

Até Breve(t)

Publicado em marcas do selim | Etiquetas , , , , , , , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

fotocycle [275] quentinhas e boas na brasa da bamBina

Por estes dias, por estas noites, quem passa numa praça, avenida ou rotunda, quem simplesmente pedala pelo passeio, é envolvido e transportado pelo delicioso e persistente cheiro das castanhas a estalar nas brasas. É um aroma que cada português transporta desde a infância e que associa a momentos próprios desta época do ano. É um “cheirinho” que se liberta da carreta fumarenta e que nos invade inebriante as narinas. Irresistíveis e tostadas, as castanhas passam das mãos enegrecidas do assador para as nossas, envoltas num confortante cartucho de papel. Assim, muito boas e ainda quentinhas quando chegaram a casa, as castanhas deram calor e perfume às pedaladas. Só me faltou o copinho de jeropiga, que logo, logo, tratamos de a provar e as castanhas empurrar.

Publicado em fotocycle | Etiquetas , , , , , , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

a Ecopista é Tua e de quem nela pedalar… ou caminhar

Antes de entrar no tema que me traz de volta, devo reforçar a minha opinião pessoal sobre o aproveitamento da adaptação dos abandonados canais de linha ferroviária em vias pedonais e cicláveis. A forma como nas décadas de 80 e 90 do século passado foram encerradas muitas linhas de bitola estreita, meramente pelo quero, posso e mando político, sem dar cavaco aos interesses do povo, e que foi bastante prejudicial em termos sociais e económicos para as populações e para o comércio que do comboio se servia, foi crime de lesa pátria. Nesses anos os governos cavaquistas arrasaram por completo a maior parte das infraestruturas ferroviárias do país, argumentando com interesses economicistas, o que permitiu a delapidação do património ferroviário pelos interesseiros da clientela de pacotilha.

Evidentemente que seria necessária uma restruturação e modernização da rede ferroviária nacional face ao investimento e desenvolvimento de infraestruturas rodoviárias, associada à lentidão do comboio perante o concorrente rodoviário, mas temos de admitir que alguns encerramentos foram injustos e funestos para as populações, no combate à interioridade e no desenvolvimento económico dessas regiões. Parece haver agora alguma vontade política para reverter alguns desses erros e reabrir algumas linhas, como tem sido a eterna promessa de recolocar os carris, reconstruir as estações e apeadeiros degradados, abrir as pontes deixadas ao abandono, da antiga Linha do Douro, no troço entre o Pocinho e Barca d’Alva! Só que nada de concreto se tem feito.

O percurso da Ecopista do Tua, desenvolve-se pelo canal da antiga Linha Ferroviária do Tua, que em Foz-Tua fazia a ligação com a Linha do Douro e dali levava os passageiros em linha estreita para o interior transmontano. Em 1887 foi inaugurado o primeiro troço até Mirandela e em 1906 foram completados os seus 133 kms de extensão até Bragança. No seguimento dos encerramentos unilaterais de muitas linhas férreas deste país, em 1991 o troço entre Bragança e Mirandela foi definitivamente encerrado. Os carris e o material circundante foram sendo retirados, mesmo perante a oposição e os protestos das populações. Em 1995 foi reaberto o troço entre Mirandela e Carvalhais para o Metropolitano de Superfície, sendo a exploração do serviço de passageiros realizada pela empresa “Metro de Mirandela”, serviço que já foi desactivado. A circulação ferroviária manteve-se entre Mirandela e Foz-Tua, entrando sucessivamente em declínio, resultando em graves acidentes ocorridos entre 2007 e 2008. Os carris são então arrancados e é iniciada a construção da barragem de Foz-Tua, o que leva ao encerramento definitivo desta linha de comboios, considerada por muitos (infelizmente nunca a percorri) como uma das mais belas do mundo.

A reconversão em ecopistas, ecovias e ciclovias destes antigos canais ferroviários é uma forma dos municípios aproveitarem e preservarem parte deste património abandonado. O investimento para fins recreativos e turísticos permite ao novo utilizador conhecer o remanescente património paisagístico e arquitectónico das antigas linhas de comboio. Desta forma pode-se conhecer, ou recordar, quase à mesma velocidade das viagens do passado, o traçado serpenteante destes canais rasgados pela força do Homem. Contemplar paisagens magníficas sobre os vales escarpados dos rios. Conhecer a riqueza cultural, a natural e das populações. Visitar recantos deste património da humanidade entre socalcos e serras. Divulgar a cultura de um Portugal profundo e que era tão bem servido por este magnifico meio de transporte. 

Nesta epopeia de três dias, o cicerone Manuel Couto e este que se fez convidado viajamos com as nossas companheiras de duas rodas no comboio Miradouro ao longo do rio Douro para, no Pocinho, iniciarmos a pedalada, tendo como destino final a pequena aldeia transmontana de Romeu. Ao invés da primeira vez que lá fui, e que percorremos de bicicleta o que resta da antiga Linha Ferroviária do Corgo entre a Régua e Vila-Real, desta vez aproveitando o asfalto da EN102, em lugar de reviver o gradual esplendor panorâmico da Ecopista do Sabor, encurtamos de sobremaneira a pedalada, sem, no entanto, acumularmos um bom esforço para lá chegar.

O primeiro contacto que tive com a ciclovia da antiga Linha do Tua foi no curto troço asfaltado dentro da cidade de Macedo de Cavaleiros. No centro, a antiga estação foi remodelada e reparei no cuidado que tiveram em construir uma espécie de “estação de serviço” para os ciclistas, com biciparques, ponto de carregamento para e-bikes e uma estação para lavagem e pequenas reparações. Ponto negativo que tenho a apontar são os inúteis balizamentos existentes ao longo da ciclovia. Certamente que estruturas deste tipo se justificam para a segurança dos ciclistas, sobretudo no cruzamento com as estradas, mas no caso, muitas delas não se justificam e só dificultam a passagem dos ciclistas, especialmente aqueles que viajam em modo bikepacking com alforges laterais nas bicicletas. Depois, o ciclista mais afoito para evitar entrar nestas “ratoeiras” passa à volta em algumas delas!

Após o jantar, e de iluminação ligada pela estrada afora, fomos dormir a Romeu para continuarmos a jornada no dia seguinte.

(aqui o registo “stravico” da jornada)

Antes de darmos ao pedal, juntou-se o Joel e assim se formou um trio ciclocurioso, um numa bêtêtê pura, outro numa espécie de motocross a pilhas e eu numa aspirante a gravel bike e que se fez grande. Seguindo a primeira sugestão do Couto, fomos revisitar e dar a conhecer ao Joel as memórias de Clemente Menéres, industrial portuense que nos finais do século XIX revolucionou a região, especialmente na exploração da cortiça. Abandonámos as bicicletas no mato e subimos a fraga granítica onde se tem um dislumbre mágico da Natureza envolvente.

Pelo caminho confirmou-se estar aberto à circulação o ultimo troço recuperado do antigo canal ferroviário da Linha do Tua e assim se decidiu rumar a Macedo de Cavaleiros. O traçado em gravilha está inserido na mata do Quadrassal, uma extensa mancha natural de sobreiros e bosques de sobreiro e zimbro. Território integrado na Rede Natura 2000, uma área protegida tutelada pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, que abrange a União de Freguesias de Avantos e Romeu, as freguesias de Cedães e de Vale de Asnes, no concelho de Mirandela, e a freguesia de Cortiços, no concelho de Macedo de Cavaleiros.

Depois de um reforço calórico decidimos ir pedalar junto às calmas águas da Albufeira do Azibo, por um trilho suave, local de grande beleza e importância turística, mas sobretudo ecológica. Depressa chegamos à famosa praia fluvial, onde nos detivemos para um bom almoço e dali traçarmos os objectivos para o resto do dia, antes do regresso à aldeia de Romeu para o repasto no Restaurante Maria Rita.

Ficou logo decidido que iriamos fazer o trilho em “loop” de 25km à volta da albufeira, mas ainda antes dessa aventura, e para se fazer uma boa digestão, demos uma saltada a Podence para algumas tropelias. A aldeia estava muito mais calma, tendo em conta a última vez que por lá andei, e depois de umas fotos e explorações, os caretos não quiseram saber de nós, e nós descemos de novo à praia, para o inevitável mergulho antes da boa da suadela.

Ainda envolvidos pela serenidade das águas azuis da albufeira e pelas margens arborizadas que a rodeiam, aos poucos a rota tornou-se desafiante. O trilho sai das margens e à passagem junto à aldeia de Santa Combinha dá-se o inicio a um sobe e desce sem misericórdia. A minha Maneirinha não se fez rogada, nem aos declives e muito menos ao terreno inóspito para uma bicicleta com pneus de 30mm! Claro que, para o meu bem-estar físico, respeitei o terreno e apeei nos pontos mais complicados do percurso, especialmente quando tinha demasiada areia e pedras soltas.

À medida que fomos explorando uma das joias naturais de Portugal, deixamos de vislumbrar as águas e ficamos embrenhados pela mata de sobreiros, pela solidão e pela vida selvagem. Consultando o traçado no GPS, mergulhados na beleza da natureza e desfrutando de vistas deslumbrantes, descemos de novo à tranquilidade das águas da albufeira e a um céu repleto de nuvens lenticulares. Por alturas da barragem do Azibo seguimos por estrada para Vale da Porca, onde após um lanchinho e pedalada mais rápida, junto ao antigo apeadeiro de Castelãos retomamos o alcatrão da Ecopista. Deste local em diante, na direcção de Bragança, o antigo troço da Linha do Tua permanece abandonada e à espera da reconversão. Recolocamos os pneus no asfalto da ciclovia e mais à frente a terra batida da Ecopista em direcção a Romeu.

Definitivamente esta rota é perfeita para caminhantes e amantes da natureza, para o lazer de um dia em família, para ciclistas de todos os níveis de habilidade usufruírem de uma experiência agradável, que tanto pode ser um passeio tranquilo ou uma aventura deslumbrante.

(aqui o registo “stravico” da jornada)

No terceiro dia da nossa jornada, com o bacalhau do Maria Rita bem digerido mas com a mousse de chocolate com azeite ainda no pensamento, arrumadas as trouxas fizemo-nos à estrada e retomamos o troço de Ecopista que ainda faltava percorrer, de Romeu para Mirandela. Antes disso, o Couto levou-me a um dos pontos altos da, também conhecida como, aldeia das rosas: o Santuário de Nossa Senhora de Jerusalém, pequena capela rodeada de olivais e que fica bem no alto, de onde se pode desfrutar de uma paisagem sublime.

A história de Jerusalém do Romeu está intimamente ligada à história da família Menéres, ao fundador e descendentes que aqui investiram na agricultura e criaram postos de trabalho e condições à fixação dos seus trabalhadores e famílias. O fundador Clemente Menéres foi também o grande impulsionador da construção do caminho de ferro, principalmente para o escoamento da cortiça. Velho edifícios, como a antiga escola primária, os armazéns da Quinta do Romeu e a abandonada estação de comboios, são construções que resistiram ao tempo e preservam o passado. Outro local de muita e surpreendente história, que juntamente com o Restaurante Maria Rita atraia visitantes, era o Museu das Curiosidades, que duplamente tive a oportunidade de visitar mas que infelizmente foi encerrado.

Passada a antiga passagem de nível, onde se atravessa a EN15, uns metros mais à frente, temos a primeira interrupção na progressão pela Ecopista. A antiga ponte ferroviária de Jerusalém do Romeu ainda não foi restaurada, fazendo com que para se retomar a pista da outra banda do vale, o cicloturista ter de fazer um pequeno desvio, primeiro com uma suave descida, para, posteriormente, enfrentar a correspondente e exigente subida.

A partir deste ponto da Ecopista, a paisagem muda radicalmente, fazendo com o que o ciclista cruze terrenos agrícolas e vinhedos. O trilho segue ao lado da estrada nacional até que, após passar ao lado da povoação de Vale de Lerda, volta a ver interrompida a passagem por outra ponte ferroviária com a data de restauro em suspenso. Novo desvio e novo cruzamento numa desactivada passagem de nível, a Ecopista da extinta Linha do Tua segue agora a EN15 pela berma esquerda até ao cruzamento/rotunda para Carvalhais. A partir deste ponto para se entrar em Mirandela o ciclista poderá recorrer às faixas cicláveis desenhadas no asfalto, enquanto pode ir observando o troço agora abandonado do antigo Metro de Mirandela até à estação de comboios no centro da cidade.

Preparados para forrar os estômagos com o tradicional rancho à transmontana, com os bilhetes comprados para o autocarro das 18 e tal, fomos de barriga cheia fazer uma sesta para a relva refrescante da praia fluvial de Mirandela. Entretanto, e na incerteza quanto às exigências de transporte de bicicletas pelas transportadoras rodoviárias diz respeito, fizemos uma tourné ciclística pela cidade, visitando lojas dos chineses à procura dos maiores sacos de lixo do mercado. À hora marcada, na estação rodoviária, chegava o autocarro da FlixBus proveniente de Bragança e com destino ao Porto, abordamos o simpático motorista que, exibindo a sua proeminente barriguita, nos convidou a colocar as bicicletas sem requisitos no porão do autocarro. Depois disse-nos que também ele, em tempos, havia pedalado bicicletas!

(aqui o registo “stravico” da jornada)

Obrigado pelo convite amigo Couto. Venha a proxima aventura.

Publicado em marcas do selim | Etiquetas , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

N + uma Maneirinha

A proporção de bicicletas que possuímos é, como todos sabemos, N + 1, onde N é o número de bicicletas que temos e o +1 é aquela que sonhamos vir a ter. A simples troca de bicla não se aplica aqui.

Esta ânsia de encontrar uma boa justificação para ter mais uma bicicleta é evidente na mente da maioria dos ciclistas.

Longe vão os dias quando uma bicicleta servia para todas as ocasiões. Usada e abusada, no processso de aprendizagem, nas voltinhas ao bairro com os amigos, compartilhada entre os irmãos, passada de pais para filhos.

Hoje em dia o mercado é cada vez mais variado e as bicicletas são mais especializadas, criadas de acordo com algo mais específico e que supostamente necessitamos. Agora não é tanto o caso de nos adaptarmos a elas, mas escolher a “máquina” que melhor se adequa à necessidade do utilizador.

Há uma bicicleta certa para cada função, seja para um trilho de cascalho, estradão enlameado, para utilização urbana ou rodar por longas horas em alcatrão lisinho. A bicicleta é escolhida especificamente para dar o melhor rendimento ao exercício que desejamos, à segurança, ao ritmo e finalidade da pedalada.

As marcas e designers vêm nisto do N + 1 uma boa razão para manter activas as necessidades e sobretudo os caprichos individuais. É um desafio permanente de evolução tecnológica, que acontece bem na frente dos nossos olhos e que estimula querer o mais sofisticado. O mercado faz o seu papel no incentivo para o “upgrade”, reforçando o desejo de expandirmos horizontes e tentarmos algo diferente.

“Qual será a tua próxima bicicleta?” É quase certo que a resposta esperada é “o último modelo”, mas uma coisa é o que queremos e outra é o que podemos ter. O factor económico é preponderante e na mente do pretendente, para fazer novo investimento só precisa se certificar junto da sua “cara metade”. Ou então não, e parte destemido para o elemento surpresa. “Querida…”

No “parque velocipédico” lá de casa tenho uma Del Sol LXi comprada em 2003 na ETIEL, aka Ciclo Coimbrões. De acordo com as especificações da minha “cara metade”, esta bicla de alumínio, tipo beach cruiser, fê-la voltar ao selim e durante alguns anos a acompanhar-me em passeios à beira-mar, até que um tal de síndrome vertiginoso apareceu e obrigou-a a pôr termo às pedaladas.

Ficou guardada, sendo oportunamente adoptada pelo herdeiro e que o ajudou a fortalecer tanto o seu crescimento bem como a desenvoltura das suas pedaladas recreativas / escolares. Entretanto o rapaz botou os olhinhos em algo mais cross e mais trail, e a velha bina voltou para o banco de suplentes.

A Maria Del Sol é uma ótima bicicleta e fui incapaz de me desfazer dela. Aproveitei as suas potencialidades para a tornar numa espécie de rain cruiser, sobretudo para ser usada nas minhas pedaladas “commutianas” diluvianas. Com pneus mais largos e guarda-lamas à maneira, um resistente porta-couves a apoiar um volumoso par de alforges, inevitavelmente ficou muito mais pesada, mas a lentidão da pedalada nunca me desencorajou a investir nela, sobretudo em calços de travão.

Depois de vários anos e quilómetros de bons serviços estava a pedir nova manutenção geral. A idade, a dela e a minha, começavam a pesar, e assim que me deparei com este modelo “Roadlite CF8” da Canyon, achei que seria uma boa oportunidade para a Maria Del Sol passar à reforma.

As dúvidas em comprar uma bicicleta via online eram bastantes, no entanto foram sendo afastadas com a ajuda da competente assistência de comunicação com a marca, bem como no processo de compra e posterior envio e preparação da bicicleta.

Especialmente estimulado pelo preço promocional, pelas características híbridas desta fitness bike, depois de muito pesquisar e matutar mandei-a vir, sem sequer a ter experimentado. Segundo os critérios da marca, estando eu na fronteira de tamanhos entre um XS e um S, veio o XS, não só porque era o único tamanho disponível, mas no que diz respeito ao quadro de bicicleta, o mais pequeno torna-se sempre mais fácil de configurar para o nosso corpo acomodar.

Assim que chegou o caixote, a desembalei e montei, permiti que fosse o herdeiro a dar-lhe os primeiros giros dos pedais. Muitos minutos depois o Rafa lá voltou e o seu entusiasmo era por demais evidente: “Pai, posso ficar com ela?” Eh pá!… Parece que acertei nisto!

Não sabia bem o que esperar quando, pela primeira vez, passei a perna sobre a esta pequena máquina. Pensada para uma utilização sobretudo urbana, para circular em todas as condições climatéricas, a Roadlite CF8 é, ao fim e ao cabo, uma bicicleta de estrada, leve e rápida que, por acaso, tem um guiador plano em vez do dropbar tradicional. A geometria do esbelto quadro e dos periféricos em carbono, fornecem um excelente comportamento e o ajuste que se espera de uma “estradeira” de alto desempenho.

O prato único de 46 dentes é suficiente e competente na transmissão de potência ao SRAM NX Eagle. A simplicidade mecânica do escalonamento das 12 velocidades, do 11 aos 50 e vice-versa, é bastante rápido e suave. Com facilidade se trocam as velocidades, não comprometendo a eficácia e o desempenho em relação a uma transmissão tradicional, o que oferece maior amplitude de andamentos, especialmente para ajudar as pernas nas subidas mais íngremes.

Os travões de disco eram uma novidade para mim. Não sendo topo de gama, são hidráulicos, dando-me a garantia e confiança necessária que exercem cabalmente a sua função, especialmente nas pedaladas à chuva. As rodas 650b que a Canyon equipou neste modelo, tornam esta bicicleta ainda mais manobrável e eficiente. Os pneus tubeless de 30mm, G-One Speed da Schwalbe, são excelentes para uma pedalada eficaz na estrada, confortável no paralelo, sem sacrificar a tracção em estradões de terra e gravilha. Os originais guarda-lamas para o inverno também vieram e que nela serão instalados no devido tempo.

O guiador plano acrescenta um nível de conforto e versatilidade para as pedaladas urbanas que é difícil de encontrar numa bicicleta de estrada convencional. A posição de condução facilita o equilíbrio e desempenho sem sacrificar a velocidade. A estabilidade e a manobrabilidade, tornam a Roadlite bastante versátil nas deslocações diárias, na disputa com o trânsito na hora de ponta, já para não falar da simples alegria de percorrer estradas rurais tranquilas ou caminhos de cabras pela Natureza.

Desde há coisa de um mês aos comandos desta minha ultima aquisição, só agora faço a sua apresentação e o relatório de boas vindas porque, para além das rotineiras voltas diárias pela cidade e arredores, esperei para fazer um longo e completo test ride à Maneirinha, como lhe chamo.

No passado feriado acompanhei um grupo de amigos em parte dos caminhos de Santiago pela costa portuguesa, para depois fazer o consequente regresso por asfaltadas estradas interiores. Esta voltinha proporcionou fazer uma completa e exigente rodagem em diferentes tipos de terreno, numa distância considerável. Resumidamente, a bicicleta teve nota positiva com distinção.  

A direção rápida e estável torna mais agradável percorrer sinuosas estradas rurais e contornar curvas apertadas, bem como nos trilhos de gravilha e areia. Pedalar com uma pressão pneumática mais baixa permite receber todo o conforto e segurança dos pneus, seja no paralelo mais manhoso, seja no fofinho asfalto. Aprecei bastante a leveza do conjunto, especialmente quando fui obrigado a carrega-la em ombros pela praia. Nunca me imaginei subir com desenvoltura a ingreme e agressiva Rua do Ferraz e a resposta rápida à força nos pedais foi brutal. Também apreciei o guiador plano e a posição um pouco mais vertical que desfruto aos comandos da bina, o que ajuda a gerir e melhorar a postura, tornando mais fácil manter-me atento ao trânsito à minha volta, sobretudo quando cruzamos alguns centros urbanos.

O selim é definitivamente o ponto fraco da bicicleta. Sofrível para os commutes curtos, é absolutamente desconfortável para o rabo suportar as longas horas a pedal. Valeu-me a carneira dos calções! Este é porventura o único componente que definitivamente será substituído num futuro próximo.

Concluindo. Gosto bastante da versatilidade da Maneirinha e tenho a certeza que foi uma excelente aquisição para o parque velocipédico lá de casa. Embora não pense trocar nenhuma das outras minhas beldades pedaláveis, Sua Alteza, a gOrka, a bamBina, por uma bicicleta de plástico carbono, que não é uma coisa nem outra, mas tudo numa bicla só, é fácil perceber a afeição que ganhei por esta biclazinha.

Maneirinha, uma bicla à maneira

Publicado em bicicleta | Etiquetas , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário