fotocycle [228] cinzento

Há dias em que o Porto acorda assim, no prenúncio matinal de uma canícula, uma viagem nublada com intenso sabor a Porto, que é da cor que o olhar entender ver nele, quando os passeios à beira rio sob a clássica morrinha sabem melhor. Aproveito cada momento.

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fotocycle [227] evolução, a marcha para o progresso

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Porto-Fátima-Porto, uma santa volta

Nas minhas pedaladas pós-laborais casualmente encontro o jovem Jacinto  em pedaladas recreativas mais a sua mui querida Branquinha. Bem, a probabilidade de o encontrar a pedalar uma das suas bicicletas no eixo marginal Matosinhos/Freixo são fortes, pois o Jacinto nas suas alegres e bem pedaladas 69 primaveras não está para ficar prostrado no sofá ou num banco de jardim a bater umas cartas.

– Então Jacinto, como vai isso? Esse joelho está melhor?

– Está melhor. O que me mata é estar parado, quando pedalo nem o sinto.

Conversa vai, conversa vem, disse-me o jove que estava a planear nova pedalada a Fátima, no 12 de Maio, para depois regressar de “quimboio”. Logo ali me fiz de convidado a acompanhá-lo. Esta espécie de “bicigrinação”, cumprir os duzentos e poucos quilómetros a pedal entre o Porto e Fátima, já se tornou uma clássica, como tal era mais pelo passeio e pelo convívio. Entretanto, o Manel Couto e o Rui intrometeram-se no plano e elevaram a fasquia para um nível épico.

– Bamos e boltamos? É, ou bai ou racha.

– Autonomia total? Bamos?… E fomos.

O ciclismo de longas distâncias requer apetrechos extras, kit de sobrevivência, vestuário reforçado e pede faróis. O roteiro estava traçado e o desvario teria alguns condimentos saborosos. “Ó pra lá” com a luz do dia e “ó pra cá” sob o céu estrelado. Seriam apenas 18 horas de rabo sentado num selim a rodar as pernocas por mais de 400km. Das 24 horas planeadas para a longa jornada, quatro ou cinco seriam gastas com as bicicletas encostadas a descansar. Foi mais ou menos assim.

Meeting point às 6 da matina. Sob um manto de nuvens suspeitas, quatro animosos amigalhaços encontram-se, tiram a selfie da praxe e dão ao pedal ao longo da margem esquerda do Douro. São Pedro não se fez rogado e à passagem da comitiva pela sua devota Afurada abençoou os convivas com uma valente molha. Refugiados sob o alpendre da esquadra local, ficam a fazer companhia ao polícia de plantão e só meia hora depois retomam difinitivamente a pedalada.

Ainda poucos se aventuravam a colocar o nariz fora de portas e estes bicicgrinos já levavam um bom pré-aquecimento. A manhã estava frescota e húmida e só a espaços o sol aclarava o dia. Esperançados em aproveitar a Nortada, não demorou muito a sentirem a sua infalível pseudo-força. Aquela ventania fria que no verão desalenta os banhistas, é uma benesse para os ciclistas que rumam a sul. Sim, sabe bem quando sopra forte pelas costas, mas é um martírio quando se pedala contra.

– “Ó pra lá” o bento está do nosso lado, “ó pra cá” é que bai ser!, diz o Paulo ao pessoal.

Rumo ao sul, as primeiras horas de pedalada foram cumpridas a bom ritmo. Nota amarga para o manto florestal que desapareceu e para os pinhais sepulcrais de troncos calcinados à espera do golpe final da motoserra. Já a praga do eucalipto renasce espontaneamente das cinzas.

Às tantas o Couto desistiu de dar música à malta e guardou a grafonola chinhoca. O Jacinto seguia ao seu ritmo, dando asas à sua veia poética e ia fazendo as suas reportagens, “Isto é assim”. O Rui mantinha-se introspectivo e focado na estrada. E eu? Eu começava a sentir um certo desconforto no cano de escape, digamos assim. O hemorroidal estava em modo crise!

A estrada nacional 109 não é nada de especial. No seu longo trajecto, de piso nivelado e muito degradado, é enfadonha e agitada q.b.. O motivo de maior interesse é a passagem pelas vilas. A opção da bicicleta como veículo de eleição na estrada é um modo de vida. São velhos e novos, homens e mulheres, que nas suas pasteleiras do século passado desempenham a sua independência, a sua liberdade na mobilidade. Amiúde, passamos por nativos ciclistas onde a bicicleta é sempre um bom tema de conversa…

– E a senhora, também vai a Fátima?

– Ah! Eu, não, eu venho do cemitério.

Parados num semáforo, percebe-se o som de distintivos cliques do desencaixe dos cleats para deixar os Sidi provarem o alcatrão. Um grupeto equipado a rigor e nas suas máquinas velocarbónicas, topam-nos e interagem nas conversas. Assim que cai a luz verde do semáforo, o “Alfa-Pendular” arranca e acelera a toques de urgência, transpirando. O grupeto passa por mim a zunir, em direcção à capital, e um dos prespicazes sprinters tem tempo de ler os dizeres “Randonneurs Portugal” no meu colete laranja, pedindo-me: – Oh pá, manda cumprimentos à Lenita.

Pois precisamente à mesma hora, os meus amigos randonneiros, entre eles a receptora da mensagem, estavam a dar o litro num brevet bem durinho, o Brevet Cávado ao Tâmega 400. A encomenda foi mais tarde entregue na caixa de comentários do FB da nossa heroína, que certamente aplicaria uma carochada de todo o tamanho no pódio mensal da Divisão Velopata, mais propriamente na categoria Jersey Melhor Fêmea Ressabiada, caso fizesse parte de tão restrito e ressabiado clube, p’stá claro.

Na Figueira da Foz, os vaidosos cicloturistas deixam a ponte sobre o Mondego para trás e detêm a pedalada para morfar. Mais ou menos dentro do tempo estimado, esticam as gâmbias debaixo da mesa, dão ao dente e eu dei algum descanso aos glúteos. O Jacinto besunta o joelho direito com uma espécie de betume, pomada analgésica ou lá o que era aquilo:

– Ai se a minha médica sabe disto! Ironizava.

Mas não tardou muito a voltarmos a espalmar o rabo no selim, cada vez mais desconfortável. Ainda intrigados com a conta apresentada, suspeitando que nos haviam metido a unha, pedalávamos agora mais para o interior, aguentando as rajadas de vento lateral. O jovem herói seguia no seu ritmo e, a seu lado, o Paulo maçava-o ainda mais:

– Mais cedo ou mais tarde havemos de lá chegar, ai havemos, havemos.

Depois do desvio habitual na Guia, e depois de um gelado como sobremesa, neste caso como sobreselim, mais à frente depois do cruzamento do Barracão, a estrada outrora esburacada apresenta agora um fofinho tapete negro. Aqui e ali, grupos de peregrinos na berma esquerda que iam aumentando, sendo que num desses encontros resolvo sacar do telemóvel para os enquadrar numa fotografia. Se fosse uma bídio-reportage poderiam escutar a sempre simpática saudação e animado incentivo do Couto.

Nisto, um jipe da Gêénérre surge sorrateiro ao meu lado e o xõr guarda no lugar do morto tem este diálogo comigo:

– Xôr ciclista, não sabe que tem de circular o mais à direita?

– Aããã… Onde! Como! Quem! Mas xôr guarda, estou a circular à direita!

– O xôr está no meio da estrada…

Óbalhamedeuje, vejam lá na foto se estou no meio da estrada?

E no momento em que lhe ia relembrar o nº 3 do artigo 90 do Código da Estrada:

“Os condutores de velocípedes devem transitar pelo lado direito da via de trânsito, conservando das bermas ou passeios uma distância suficiente que permita evitar acidentes” …

– Ainda por cima o xôr ciclista vai de telemóvel na mão…

– Ups!

Aí o xôr ciclista calou-se, meteu a viola no saco, e seguiu viagem.

Batiam as 17 badaladas quando os romeiros alcançaram o prémio de montanha da Serra de Santa Catarina e, satisfeitos, desceram por entre um mar de peregrinos, entre um rio de ciclistas, a ultrapassar uma fila de carros em águas estagnadas.

Chegamos ao Santuário, o “ó pra lá” estava concluído. Não demoramos mais de uma hora para as devidas formalidades, fotos e preparos. Estava uma ventania gelada e quando uma mais afoita rajada nos deita as biclas ao chão, decidiu-se:

– Bamos já para casa.

Reforçada a armadura, o “ó pra cá” estava em acção. Retomou-se a mesma estrada para a descer e entrar na N113, até Leiria. O objectivo seria alcançar a N109 para norte, mas entretanto a N1/IC2 atravessou-se no nosso caminho. A opção é certa, a dúvida é capciosa. Se o arrependimento matasse… Nem sei como saímos dali vivos. O trânsito era infernal e nada os impedia de acelerar. Tal como nós. Quatro ciclistas em fila, encolhidos e assarapantados à espera de encontrar uma placa com os dizeres “BARRACÃO”, para sair daquele turbilhão.

Finalmente escapamos daquela estrada e calcamos alcatrão conhecido, o mesmo que havíamos feito no sentido inverso. Mas algo roncava e não era motorizado. Era o estômago mesmo. Qualquer aroma a comida no ar captada pelas narinas nos impelia os narizes em todas as direcções a espreitar menus. No aconchegado Restaurante Carreira (Carnide) fizemos um repasto à maneira e um brinde à amizade.

Entretanto a noite caiu, o vento amainou e o frio apertava bem. Vesti tudo o que levava, até uns saquinhos de plástico cedidos pela simpática senhora do restaurante eu enfiei nos pés. Passados uns minutos já estavam morninhos. Já os meus comparsas de aventura em bib-shorts e pernas ao léu foram batendo o dente. Satisfeitos e com os focos apontados ao alcatrão, passamos pela Figueira da Foz à conversa para, com um pequeno engano lá pelo meio, no topo da Serra da Boa Viagem reagruparmos. Agora e sempre que surgisse uma pendentezinha, a subitida era já ultrapassada a um ritmo bem mais pesaroso.

Com praticamente um terço da distância por percorrer, logo voltaram as longas rectas da Tocha a Mira. Nesta altura já não se sente as pernas, quando muito sono e a desconfortável tortura do selim, que para mim já não era tão desconfortável assim. Do nada, um motor rosna, tenso, ameaçador à distância. Eu vi logo, o Fittipaldi saia de uma esplanada a queimar borracha. Café  aberto na madrugada significa uma tosta mista e um abatanado, e isso era algo de que eu estava bem necessitado. As paragens fazem-se agora mais demoradas para deixar o corpo descansar.

Os nossos heróis continuam firmes. O jovem Jacinto seguia o velho truque de se ir deixando ficar para trás, muito ao de leve, muito aos poucos, segurando garbosamente os seus ímpetos em nome da sobrevivência, e do rabo. Após um derradeiro esforço, avisa-me que ouviu os conselhos do seu joelho e decidiu aproveitar a reconfortante boleia do comboio urbano das quatro da manhã em Aveiro. Pedalar quase 350 km de uma assentada é desde logo um feito. Parabéns amigo Jacinto, somos gratos pela tua companhia, entusiasmo e inspiração. Outras mega loucuras virão.

O Homem-máquina, metade é a combinação complexa de articulações e músculos, a outra é uma bicicleta. Uma delas é infinitamente ajustável e adaptável, o outro é um ciclista. O ideal é uma união perfeita entre as duas separadas entidades, actuando em harmonia e vontade, excepto a realidade geralmente desigual, que envolve joelhos massacrados, costas doloridas e ombros queixosos.

Despedidas feitas, os três da vida airada aumentam o ritmo, puxando à vez na tentativa de aquecer o motor e distrair a soneira. Até ao dia clarear nada mais se passou senão pedalar com andamentos adequados às necessidades, evitando ter de levantar as nalgas do selim, evitando um desgaste extenuante e desnecessário. As pernas já reclamam descanso e até as subidas mais ligeiras, nos momentos em que a cadência das pedaladas fica reduzida ao mínimo indispensável, é precisa concentração máxima para enxergar as curvas, os cruzamentos e eventuais condutores matinais. À passagem por Ovar caem as primeiras pingas que refrescam ainda mais a carcaça. Faltavam cumprir cinquenta e poucos quilómetros.

Amanheceu, e a visão da cama de casa cada vez mais perto assustou-me. O manto de nuvens negras no horizonte prometia uma banhoca, muito antes de chegar a entrar na banheira. Contornada a praia do Cabedelo na Foz do Douro, já só faltava atravessar o rio para a escalada final da íngreme rua de D. Pedro V. Sentindo a meta já bem perto, com a luz de reserva bem acesa, veio o momento zen. Se São Pedro nos abençoou a partida haveria também de nos abençoar à chegada, na sua Afurada

Quatrocentos e tal mil metros depois, felizes e triunfais, famintos e cansados, após um dia inteirinho a dar ao pedal, eis que os nossos protagonistas se abrigam no mesmo abobadado alpendre da PSP da Afurada, param o registo no Strava e dão por concluído o giro para finalmente terem o merecido descanso.

E agora vou-me repetir:

Para algumas pessoas, estes tipos não passam de um grupo de cotas malucos metidos a radicais. Como assim!? Então, se pedalar por sete ou oito horas, até Fátima, fazem-no apenas por puro prazer e vontade, dar meia volta e voltar da mesma forma ao ponto de partida, é o quê? O mais importante não é o quanto pedalaram. O que importa é curtir a pedalada, apreciar a paisagem e o espírito de grupo. De outra forma eu não saberia descrever esta mistura de adrenalina, vento, sorrisos soltos, sol, curvas, natureza, chuva, esforço, contentamento, sacrifício, ar puro, sono, silêncio, escuridão, carros acelerados, pernas pesadas, vontade e puro prazer.

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teaser – uma santa volta

“E a senhora também vai a Fátima?

“Eu! Ah, não, eu venho do cemitério.

 

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de bicicleta com a luz ao fundo do túnel

Tenho colegas que ainda se admiram quando me vêm chegar a pedais para trabalhar!!! E o que lhes digo?

Olha, a maneira como eu vejo isso, é que qualquer um pode fazer isso. Não é sobre como está a minha condição física ou há quanto tempo pedalo. Para começar precisas de uma bicicleta e algum equipamento, mas no final do dia o facto mais importante é que com determinação suficiente, qualquer coisa pode ser feita. É a tal força de vontade, quer seja para pedalar um quilómetro para o trabalho quer seja para correr uma maratona. Tento dizer que não comecei a pedalar 200 km’s de uma assentada. É em pequenas etapas que vamos progredindo. Vamos superando as dores e as subidas. Vamos apanhar chuva e vento de frente. Vamos suar e cheirar mal. Todas essas coisas são fáceis em comparação com a dificuldade de nos desafiarmos, saindo da nossa zona de conforto. A parte mais difícil é sempre dar o primeiro passo, a primeira pedalada, para fazer algo que nunca fizemos antes. Depois disso, tudo é fácil.

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e bibó Porto, carago

Por ocasião da apresentação de Sérgio Conceição como treinador do Futebol Clube do Porto para a época de 2017/18, não pediamos um treinador de outro mundo mas eu pedia ao mister um Porto de honra.

Em quase um ano à frente do FC Porto, sem reforços ao seu dispor mas com um plantel reciclado e que foi potencializando, Sérgio Conceição levou o meu FêCêPê à conquista do 28º campeonato nacional. Assumiu desde logo o seu modelo de jogo, as suas escolhas e metodologia de treino. «Vim para ensinar, não vim para aprender!» Com o trabalho que foi desenvolvendo, deu pedalada à equipa, conseguiu impor os seus conceitos num grupo de jogadores algo descrentes e até desvalorizados. «Temos de ter paixão por aquilo que fazemos!» Em pouco tempo, reabilitou e potenciou um grupo de jogadores, que não eram mancos mas andavam na mó de baixo, num plantel forte, unido e de qualidade. «Vim por amor ao FC Porto!» Arriscou e ganhou. Foi reforçando o estatuto de ídolo entre a massa adepta portista, motivou a malta com o seu estilo frontal, determinado e exigente, concluindo uma época difícil e conturbada, e que fica ao nível do melhor de sempre do clube. «Uma das nossas forças é o espírito solidário!»

 

 

 

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prato do dia: Tripas…

Depois descobri esta foto dela e bateu aquela saudade…

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isto é Lousã

Por desafio do Rui voltei a trilhar calhaus e terra, salpicar de lama o traseiro, atirar-me de cabeça, literalmente, duas das vezes para o meio do silvado para depois ter de ser resgatado, senão ainda lá estava a servir de pasto às formigas.


Foi numa bicicleta desenrascada a preceito, na companhia do Rui, do Couto, do Sérgio e do Pimenta, bem como de outros entusiastas do bêtêtismo nacional, que participei na 4ª etapa do Circuito NGPS 2018, “Isto é Lousã”. O evento teve como principal ponto de interesse as Aldeias do Xisto e ficar a conhecer os recantos mais bem guardados da “montanha mágica”.


Voltei à Serra da Lousã, para desta vez ir mesmo ao coração da dita que pouco ou nada conhecia. Deixei-me levar por trilhos sinuosos e recônditos, saltar socalcos e escadas entre paredes de xisto, embrenhar-me pelos verdejantes vales a jorrar água por todos os poros, subir às varandas donde se pode desfrutar paisagens de cortar a respiração. Deixei-me guiar pelas geringonças orientadoras dos restantes, numa de tentar não me perder.

Foi um ziguezaguear por trilhos de prazer, pelas encostas de uma serra que esconde sorrisos de sofrimento. São subidas e descidas húmidas e sombrias, polvilhadas de beleza natural e trabalho manual, pelo labor dos que dela vivem em cada pingo de esforço tentando dar equilíbrio e amor a um modo de vida duro num chão armadilhado de xisto escuro e frio.

Foi dar ao pedal por um belíssimo traçado que retrata fielmente o que a Serra esconde. Para cima e para baixo, pelo monte de terra que nos fez explodir todos os sentidos. Abrimos os olhos de espanto com a imponência das montanhas, quase a tocar nas nuvens. Aliviamos a farda quando o sol a pique nos aquecia o lombo. Vociferamos com um granizo inesperado que furava capacetes. Aguentamos imponentes as quedas de água do céu que arrefecia os músculos. Empurrei e carreguei a burra sempre que para trás mijava a burra. Que dia fantástico, efeitos do ambiente. Não houve um único momento desperdiçado em todo o passeio.


A organização premiou os participantes com 2 percursos principais, de 53 e 89 Kms, e uma terceira opção que passou por intercalar ambos os traçados, que totalizava cerca de 60 Kms e que teve a nossa opção. Mesmo com uma arreliadora constipação trazida de véspera, a minha condição física não me deixou ficar mal. Mas nesta coisa do bêtêtê o meu ponto fraco são mesmo as descidas. É que já não tenho idade para descidas à maluca, e a falta de confiança fez-me travar o ímpeto, ao ponto de paranóia, ao ponto de cair quase parado, e não foi por uma vez, nem por duas. Caí três vezes! Acho que bati o recorde! Trouxe nos braços e nas pernas alguns pequenos arranhões, medalhas para me recordar que isto do todo-o-terreno é só para  arriscar de vez em quando.

Mesmo assim gostei bastante. Gostei de estar presente, trouxe-me memórias do passado, revi receios e terei “feito as pazes” com algo, não sei bem com o quê, talvez com uma parte de mim próprio. Obrigado aos meus amigos por me ajudarem nisso.

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é preciso ter galo

Acordado e cheio de pica, abro a porta do elevador e cumprimento o sol que me encandeia pelo envidraçado da porta. Pode soar estranho dizer que me sentia motivado, sair bem cedinho para o trabalho, mas acrescentando ser véspera de feriado, por si só e por ser a meio da semana, cumprir a minha rotina diária no selim da bicicleta augura a melhor das motivações. Assim, antecipando a folga, pedalo cheio de confiança pelo habitual percurso, desfrutando o ar livre, calmamente e usufruindo do brilho solarengo da amena manhã…

Pummm… Crashhhh… fo….. ahhh seu filho de uma cadela!!!

A escassas dezenas de metros da instituição laboral, um jeco sai do meio de carros estacionados, atravessa-se à minha frente e não me deu tempo, nem mesmo de gritar. Quando dei por mim estava estatelado no alcatrão com a bicla em cima de mim, atarantado, tentando perceber o que me tinha acertado.

Paulo… ouvi chamar! Era um colega que seguia para o trabalho a pé, assistiu a tudo e assistiu-me.

Oh pá, foi um cão não foi!? perguntava-lhe enquanto ele me ajudava a levantar.

Foi pá. Estás bem?… O gajo ia atrás de outro cão… ou cadela, sei lá. Estás mesmo bem? Tu vê lá pá!

Ahhh… cão danado. Sacudi a capota, analisei o esqueleto, registei o acumulado de cicatrizes na Sua Alteza, snifff…, ajustei-lhe a direcção e fui a butes, só para confirmar se não ia a andar de lado comó Machado.

Quem é ciclista regular terá certamente peripécias vividas com os rafeiros. Posso dizer que já tenho algum traquejo neste desaguisado entre cães e ciclistas. Tenho algumas teorias para o motivo de tanta animosidade, o que não tenho é imunidade quando os pulguentos se atravessam à minha frente e me atropelam. Com este já é o segundo vadio que me deita ao chão. Um doloroso déjà vu! Outra vez um cão! Caso para dizer, é preciso ter galo!

A dolorosa experiência anterior já aqui a relatei, relembrando a minha infância e adolescência, passadas nos selins do meu crescimento velocipédico, às voltas pelo bairro:

“Durante vários anos, para a grande maioria dos rapazes da minha idade, o prazer de sair à rua a pedalar uma bicicleta resumia-se praticamente a dar a volta ao bairro ou arriscar aventuras pelos bosques. Era uma festa formidável. Um mini-pelotão de ciclistas sem prática reunia-se em frente a minha casa e pedalava horas a fio pelo empedrado, pelo cimento dos passeios, por terras de pó e lama. No dia seguinte estávamos de rastos mas era uma ressaca saborosa. Esse dia era o primeiro dia das férias grandes.

Pedalar naquela época, anos 70 e 80, era maravilhoso. Havia pouquíssimos carros nas ruas e os espantados automobilistas tinham um cuidado redobrado com aqueles loucos. E apelidar-me de louco é pouco. Eu era como as minhas bicicletas, rijo como o aço. A minha segunda bicla oferecida pelo meu pai era de corrida, uma Vilar vermelha, roda 24 de cinco velocidades. Nela eu simplesmente perdia a noção do perigo e a busca da adrenalina algumas vezes não encontrava limites. Alegria, felicidade, prazer em procurar caminhos novos, alguns deles tortos, e não raro o tombo que se dava no meio do trajecto. Fica um exemplo: Já passava da hora de jantar e a noite caía num crepúsculo de Setembro. Pedalávamos a todo o gás. Ultrapasso o Ernesto num contra-relógio irracional pela Rua Dr. Oliveira Lobo, a oposta à minha. Não tive a mínima hipótese. É que nem enxerguei o animal a saltar do passeio e surgir por entre os carros estacionados à esquerda. Quando dei por ele já a roda lhe acertava em cheio no estômago. Desamparado, caí sobre o meu braço e coxa direita. Do cão só lhe ouvi um estridente ganido de dor. Estatelado no chão em cima da bicicleta, surgiu ao pé de mim o esbaforido Ernesto com as seguintes palavras de encorajamento:

“Xiiii Paulo, até fez faísca!!!”.

Invariavelmente esse era o meu estado de corpo, aqui e ali tatuado de mercurocromo.” […]

Outra vez um cão! É mesmo preciso ter galo… e este vai cantar à meia noite.

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fotocycle [226] dois adultos, três crianças e o bobi…

… o cicloturismo em contexto familiar.

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