uma aventura no Oeste

BRM 200 Montejunto ao Atlantico #11
Depois de uma voltinha ensopada mas saborosa pelos encantos do Parque da Peneda-Gerês, lá estava eu de novo a preparar os alforges para repetir a dose. Dez horas em cima do selim. A mesma sensação, o mesmo empenho e entusiasmo de outros brevets, mas quando se trata de inaugurar um brevet Randonneur Mondial dos Randonneur de Portugal a motivação e ambição redobram. Pedalar duzentos e tal quilómetros com a aliciante de escalar a Serra de Montejunto, no novo Brevet Montejunto ao Atlântico 200. Uma aventura à conquista do Oeste… Hiiiiháaaa…

BRM 200 Montejunto ao Atlantico #2
A ideia inicial seria madrugar no Sábado e seguir directo com o amigo Jacinto para o depart, mas a sugestão do Gilberto em alugar uma barraca no Land’s Hause Bungalows veio a ser uma excelente sugestão. Assim a excursão começou de véspera. Chegada a diligência ao ponto de encontro, foi tempo de atrelar os ginetes à carroça, aproveitar o dopping mecânico e acelerar por um bom par de horas a caminho do distante Oeste. Até à Burinhosa. Fazendo jus ao espírito randonneiro, o nosso amigo Miranda havia lá chegado primeiro, uma vez que preferiu fazer o pré aquecimento a pedalar desde Esposende. Aproveito o ensejo para agradecer a amabilidade e simpatia de Pedro Alves e família em nos ter recebido e improvisado um jantar, enquanto a restante comitiva disputava uma renhida partidinha de matraquilhos.

Burinhosa é uma pequena aldeia do concelho de Alcobaça conhecida por reservar um dia por ano para se transformar na Capital da Bicicleta. No mês de Julho a aldeia recebe centenas de bicicletas antigas e seus entusiastas proprietários, numa festa com bastante pedalada. Durante a ENBA a taxa de velocípedes supera largamente a taxa de habitantes. Tratando-se de uma terra de coleccionadores de bicicletas, este encontro anual merece grande destaque, calculando-se em mais de 800 máquinas de outros tempos que são reunidas e depois desfilam com vaidade ao sabor das correntes e das campainhas.

A táctica estava lançada: todos ao Montejunto e fé em São Pedro, mas ao rufar dos tambores tivemos a primeira certeza do dia, pela frente teríamos um brevet bem regado. O rendez-vous estava marcado para o saloon da Associação Nacional de Bicicletas Antigas, anfitriã à partida e à chegada. Tempo para ultimar os preparativos, cumprir as formalidades do bike check, do briefing, aparelhar as montadas e, às oito em ponto, deu-se início à corrida ao ouro, uma aventura digna desse nome. O mote era pedalar do mar à serra, num novo duelo multifacetado. A quadrilha não se intimidou com a chuva, mostrou coragem e deu o peito às balas.

O horizonte mostrava-se cinzento mas a manhã estava amena. Os elementos chuva e vento são conhecidos, porém a forma como estão misturados pode fazer a diferença. E fez, assim como a muito complicada navegação deste brevet. Depois de Pataias, passamos pelas cercanias da Nazaré e de S. Martinho do Porto, zonas de extraordinária beleza natural que ficariam reservadas para o regresso. Cruzamos a linha férrea do Oeste diversas ocasiões, uma delas com as biclas às costas, e chegamos às Caldas da Rainha a meio da manhã, onde não houve tempo para visitar o Museu do Ciclismo que reúne espólio e registo histórico do ciclismo no nosso país. A rolar bem na N8 avistámos a vila medieval de Óbidos, mesmo ali ao lado a convidar uma visita. Mas não, não fomos ao chocolate, estávamos só de passagem. Deu para apreciar ao longe o imponente castelo e as muralhas desta maravilha de Portugal. A pedalada continuava certinha, mas eis que um senão atrapalhou o meu espírito ousado. Aí, ao quilómetro sessenta e tal, com tudo a marchar bem, o alcatrão traiçoeiro foi mais rápido no gatilho e derrubou-me ao chão. Mais ferido no orgulho que no corpo, foi levantar, sacudir as moscas e continuar a pedalar.

Bombarral City convidava a parar e abastecer a cavalgadura, mas o alvo estava marcado. A Serra de Montejunto, que crescia na linha do horizonte, meio encoberta pela neblina. A região Oeste é um todo, vilas e aldeias com um ritmo muito próprio. É uma calma e pacífica região, um mundo a descobrir, um universo longe da azáfama e da agitação, com paisagens salpicadas de castelos medievais, ruínas, solares e moinhos. A estrada empina e dá-nos as boas vindas, avisando do que aí vem. Depois a paisagem abre-se numa esplêndida encosta de vinhas, oferecendo o último descanso para atacar a magnífica Serra de Montejunto, pela subida mais acessível que é por Vila Verde dos Francos.

Entrando na localidade deu-se início às hostilidades. A tarefa previa-se penosa mas a subida é bastante acessível. A Serra de Montejunto é o miradouro natural mais alto da Estremadura, elevando-se a 666 metros de altitude. É uma pequena ilha que emerge uma planície de aluvião, no meio de terras lavradias e florestais. Durante a subida fui ficando para trás, disparando em todas as direcções. Mesmo estando um dia triste, para os olhos foi um regalo. Fui fazendo algumas paragens para recuperar o fôlego e melhor enquadrar as fotografias daquela imensidão e beleza, de todas as perspectivas da varanda. Tanto a subir como a descer, por mim passaram vários ciclistas em modo treino. A inclinação do chão foi sendo suavizada pelo vento, que mesmo aumentando de força soprava pelas costas. Quase no topo, onde se cruzam várias estradas, tiro mais uma foto e piro-me para o parque de merendas, onde pela primeira vez se carimbou o cartão brevet e finalmente se comeu algo quente. Não havia sopa, só um megacardápio de tostas, de megatostas.

Meia hora depois, estava pronto a continuar pra bingo. O restart foi uma tortura, sentia-se um vento frio, desagradável, ainda para mais com uma longa descida pela frente. Virei para Pragança, onde as encostas desta vertente são as mais complicadas e assustadoras, principalmente para a quem as sobe, por isso fui descendo a um ritmo cuidadoso. Não pressenti que o dito cujo homem marreta andasse por ali. Talvez só amedronte os corajosos que vão a penar no sentido inverso, não tenho a certeza. Dei as boas tardes a dois desses corajosos.

Chegado ao povoado, e como não queria dar o ouro ao bandido, na dúvida por onde seguir dei meia volta e esperei que um companheiro de route surgisse ao fundo da curva. Apareceu o Alexandre e juntos seguimos à conversa, pedalando contra a borrasca por muitos e complicados quilómetros. A chuva voltou com toda a força e o amaldiçoado vento, fortíssimo, de frente, com rajadas que quase nos abalroavam, fez com que a nossa progressão fosse penosa. Depois do Cadaval, nova passagem pelo Bombarral, e eu ia avançando de cabeça baixa. Não tendo hipótese de seguir na roda do companheiro de ocasião, deixei-o ir e mantive o meu ritmo, a pensar numa sopinha que saberia que nem gingas. Cheguei finalmente à terra dos dinossauros, e foi já na Lourinhã que num café reencontrei o grupeto que saboreava uma sopa quente, abrigados da maldita chuva que parecia não querer parar.

Depois de uma vista de olhos ao itinerário, e querendo aproveitar a companhia e boleia do grupo, ponho-me a caminho com o objectivo de chegar à Praia da Areia Branca e atacar o forte de Paimogo. Vislumbramos finalmente o oceano e as belas praias da região da Lourinhã. Praias moldadas ao sabor da maré, natureza deslumbrante, falésias e enseadas que definem a linha de costa, a Costa de Prata. Não me deixando intimidar com o monstro, seguimos a rota dos dinossauros até que o temporal lá amainou. Um par de pernas de um T-Rex ter-me-ia feito um certo jeito por essa altura. Depois de um enlameado terrato à chegada ao forte, e consequente resposta ao questionário do controlo de passagem e registo fotográfico, logo de seguida nos aventuramos pelo constante sobe e desce da típica estrada do Oeste, esburacada e serpenteante.

Voltamos ao interior, mais uma vez pelo sossego do campo. Serras, rios, pomares, um rebanho de ovelhas, tranquilas aldeias que dão um carácter verdadeiramente genuíno à região. A experiência de pedalar torna-se mais desafiante, porque o relevo engana, rompe pernas, baralha de algum modo o sentido de orientação. O esforço é altamente subjectivo, a cabeça é sempre quem manda… e o estômago reclama. A tranquila margem da Lagoa de Óbidos justificou algum descanso às montarias para apreciar outros atractivos da região. Estivesse um dia de sol e calor, não seria de enjeitar um mergulho naquelas águas calmas.

Depois da Foz do Arelho a romaria seguiu para norte, ao longo da Estrada Atlântica. Com boa visibilidade até se avistariam as Berlengas, mas como o sol não quis nada connosco tivemos o Sr. Atlântico como companhia e o vento de sul, que nos foi empurrando até São Martinho do Porto. Esta encantadora vila estende-se ao longo de uma deslumbrante baía, um microcosmos emoldurado pela beleza do Atlântico. Aberta para o oceano através de uma frincha com cerca de duas centenas de metros, entre as colinas de Santana, a sul, e Farol, a norte, a baía foi em tempos conhecida como o “bidé das marquesas”, pelas suas tranquilas águas e areias finas, e por ser uma estância balnear muito concorrida pela burguesia da época. Na avenida marginal, o centro cosmopolita desta encantadora vila, destacam-se o comércio, as moradias tradicionais e toda a movida que é mais movida nos meses de Verão. Tudo muito bonito, mas a navegação exigente e as longas rampas da Serra da Pescaria prendiam-nos toda a atenção. Envoltos em nevoeiro chegamos ao último posto de controlo, para me levantar do selim, carimbar o cartão de brevet e captar um moinho. Dou uma última olhadela mas já não se avistava mais nada.

O vento de sul ao longo do Atlântico é reconfortante, e por esta altura com quase duzentos quilómetros nas pernas as descidas também o são, mas nada se compara a mais uma subida para aquecer a carcaça. Descemos ao nível do mar. Havia já caído a noite quando chegámos à Nazaré, passamos ao largo da praia para enfrentarmos a subida para o Sítio, contornando todas aquelas rotundas. Lá em cima, no Miradouro do Suberco, a 110 metros de altitude, abre-se a um dos mais belos panoramas marítimos de Portugal. Acho que já todos conhecem o Sítio! Não fomos lá e continuamos a pedalada. Seguimos com a pressão nos pedais, pernas queimadas, ácido láctico acumulado no corpo mas com a bicicleta e corpo unidos. A sugestão que nos foi dada no briefing seria a de pedalar pela pista ciclável da Ciclovia Atlântica, devido sobretudo aos excessos dos automobilistas que muito aceleram por ali, mas a nossa opção foi continuar destemidos e aventureiros pela estrada. Durante alguns minutos os focos apontaram o asfalto até nos enfiarmos pelas matas do Pinhal de Leiria, de grande beleza paisagística, mas do qual só se sentiam os aromas a pinheiro e eucalipto. Até à Burinhosa foi um saltinho, onde chegamos descontraidamente a pedalar pelas labirínticas ruas da aldeia até regressar ao saloon da Associação, beber um trago e entregar o cartão à xerife.

BRM 200 Montejunto ao Atlantico #40
E pronto. Mais uma magnífica jornada a dar vida à loucura das serras, que é muito do agrado de alguns pedalantes cá da tribo. Como um sonho acordado onde nunca se percebe bem o que é real e o que é mítico, este western spaghetti à moda randonneur foi uma aventura singular, difícil, que assumiu contornos de satisfação, queda e negociação com a dor, sem problemas para o meu lado aventureiro e sensorial. Senti a exaustão das últimas pedaladas, e só tenho é de estar grato aos companheiros Gilberto, Pedro e Miranda que sabem sempre o sabor de ter chegado, de ter vencido. Mais uma vez a minha admiração ao nosso amigo Jacinto, que passado uns minutos chegava sorridente e triunfante.

Era uma vez no Oeste… That´s all folks

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Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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6 respostas a uma aventura no Oeste

  1. Nelson Branco diz:

    Mais uma grande aventura… mais uma mão cheia de excelentes registos fotográficos… Estão em grande forma rumo aos 600 🙂

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  2. paulofski diz:

    Obrigado. 600!? Bem, com 200 do Gerês, mais estes 200 e os 300 do Baixo Minho, dá 700! 🙂
    O Portugal na Vertical pode ser muita areira para a minha camioneta e tem sempre uma gestão e ogística complicada. Assim, às prestações, acho que já está bem 🙂

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  3. Ângela Gouveia diz:

    Que grande aventura Paulo e que leitura deliciosa. Já li duas vezes e senti renascer as emoções de um brevet

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  4. paulofski diz:

    Obrigado Ângela, uma aventura e pêras. De certa forma é isso que se pretende, que o texto e as fotos transportem por palavras quem não possa lá ter estado e vivido a experiência. Espero que estejas a recuperar ebem e voltes em breve.

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  5. Anónimo diz:

    Grande aventura com excelenteprosa que nos transporta sem no entanto nos fazer suar. Fotos condizem com os belos destinos . Tenho de tentar uma dessas aventuras.

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  6. paulofski diz:

    obrigado pelo comentário, volte sempre

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apenas pedalar ao nosso ritmo.

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