Depois de ler esta “crónica” do Rafael Barbosa, editor executivo do Jornal de Notícias, vi a luz. Estive por estes dias a pensar e cheguei à conclusão que ando há anos a fazer isto mal! Afinal, “isto” é coisa de pobre! Isto de dar voltas e voltas aos pedais, enfrentando automobilistas e a chuva, exposto ao frio e ao sol abrasador, suando nas subidas, apanhando mosquitos nas descidas, ao vento, com lama nos pés e merda de pássaro no capacete, para chegar cansado e esfarrapado pelos tombos… Ando eu aqui a levar uma vida de pobre assim, me desapegando de tantas coisas boas da vida, como o quentinho da sofage, do ar condicionado, dos cavalos potência, do cú tremido! Que pai sou eu que deixa o filho sair à rua a pedalar para a universidade, coisa que faz desde os tempos da escola secundária, o que irão pensar de mim, meu deus! Que mau exemplo.
Bom, não vou negar que quem tem um carro velho, com quinze anos, estacionado na rua, e opta por uma bicicleta para se deslocar, de e para o trabalho, a fim de economizar na gasolina e no estacionamento (afinal de contas o preço do metro e do autocarro também não é barato) é porque tem um poder aquisitivo baixo, ganha mal e não se pode dar a luxos, não é mesmo? Por outro lado, usar o dinheiro que desperdiçaria com a gasolina poderia ajudar este pobre coitado a comprar comida no final do mês. Só que eu pensei em algo diferente, e só quem pode e junta um dinheirinho, pois que a pode comprar. A felicidade.
A bicicleta nos ensina que são as pequenas coisas que nos trazem a felicidade do dia-a-dia. E a felicidade também se compra, custa algum dinheiro, dinheiro que se poupa, na gasolina e no tempo, dinheiro que se gasta em manutenção e acessórios, ou na compra de mais uma bicicleta, que também não são nada baratas. Não quero dizer que o ciclista se contente com pouco. Longe disso! Mas digo que nós, os que entendemos bem o uso da bicicleta, não nos apegamos a coisas que nos trazem dor e sofrimento. Não nos apegamos a coisas que nos tiram a paz de espírito, e qualquer coisa que para muitos pode parecer uma criancice. Para nós ciclistas é algo muito agradável e maravilhoso: passear, trabalhar, divertir, viajar, conviver, entre muitas outras coisas.
Se perguntar a uma pessoa que trocou o carro pela bicicleta, para a sua mobilidade diária, como é que se sente hoje, certamente lhe dirá que se sente menos stressado, sente o tempo mais bem gasto e vê a vida com outros olhos. Nesta sociedade de consumo, onde o valor material tem um carácter muito mais fortuito do que essencial, fazer da bicicleta uma opção das nossas vidas não nos faz mais pobres. Podemos até ter o melhor carro, a maior casa do bairro, viver das aparências, coisas que só nos dão preocupações, a bicicleta pode ser, e é, a mola propulsora do sistema para uma melhor qualidade de vida. Dizer que “andar de bicicleta é coisa de pobre” é um preconceito descabido e retrógrado, de quem é de facto pobre de espírito, de quem sobrevive na bolha do popó, congestionando as ruas e as próprias coronárias. Deixa-te disso pá, desembrulha, pedala, sente a chuva na cara, sente o vento na pele, aprecia a paisagem à volta e a alegria de viver.
