já diz o povo, “há chuva que seca e sol que refresca”

Este dia estava programado há semanas, verificar in loco o trajecto que desenhei para um possível brevet 200 dos Randonneur Portugal, com saída e chegada ao Porto.

O meeting point no Jardim do Calem, á hora marcada, para além do Miranda, do Pawel e do Jorge, a chuva também marcou presença! Mas onde estava o apetecido dia maravilhoso banhado pelo sol de Julho? Pois… encolhidos, sob uma morrinha “bué da chata”, foi a maneira de se começar a pedalada. Ao longo da manhã, a chuvinha “molha-tolos” deixou estes quatro tolos molhados até aos ossos.

Rumamos ao longo da costa, e um suave, mas desgastante, vento de sul misturado com o ar grosso e húmido não mostrou sinais de aliviar até à nossa investida para o interior. O Jorge seguiu outro rumo, e foi bem para lá da nossa passagem pela engalanada Terra de Santa Maria, e do seu imponente castelo, que a viagem foi, pouco a pouco, ficando mais seca e luminosa.

O objectivo é explorar o território e a fórmula é a certa: estradas sinuosas, a maioria com mau piso, povoações quase desertas, no meio do nada, aromas e testemunhos em busca do prato do dia. Aqui está o segredo do ciclismo, o gosto de ir descobrindo, na pedalada lenta ao ritmo do nosso próprio esforço. Procurar um petisco que possamos saborear, desvendar os segredos que as mães apaixonadas pela sua terra preparam com tanto carinho e dedicação. É verdade, a barriga já dava horas, e quando se pode aliviar o rabo do selim, ouvindo os sinos do início da tarde, é não só um pretexto mas sobretudo um alívio.

Com alguns erros no desenho do percurso, que doravante será coisa para se ir afinando no papel, a tournée prosseguiu calma. As estradas são geralmente tranquilas e sem muito tráfego. A geringonça ia-nos guiando na direcção certa, supostamente, mas o nosso sentido de orientação ia lançando alertas quando se avistavam inesperadas e ingremes rampas que nos apareceram pela frente. E foram algumas.

Agora está sol. Arouca seria o prato seguinte, sem, no entanto, acrescentar a Serra da Freita à sobremesa. O rumo seguiria serpenteando o fundo do vale, palmilhando quilómetros de suaves subidas e descidas, sem qualquer agressividade. O sol polvilhava o seu calor, e para usufruirmos do ar fresco pedalamos de peito aberto, secando a roupa na corda bamba.

Em plena época de romarias, a balburdia dos festejos e os cortes de estrada atrapalham de alguma forma. Abrandamos e espevitamos a curiosidade com o pé no chão. Sair dali resultou em grande desacerto. Consultada a bussola retomei definitivamente o rumo certo e apanhei os compinchas mais à frente, em plena subida ao Monte de Santo Adrião. Se formos devagar pela sombra e sem o frenesim rodoviário, o maior presente que podemos receber é o de poder ver tudo.

Nestas longas e extensas pedaladas, há quem as interprete como um desafio para si próprio, quem percebe a viagem como um mero passeio, parando para conversar sempre que pode, talvez com a desculpa para roubar uma laranja, esperar a malta para reagrupar, tirar mais uma fotografia a paisagens que só precisam de ser admiradas. Só desculpas!

Podemos sentir o cheiro do monte, daquelas flores que crescem espontaneamente nas bermas entre uma estrada esburacada e o mato rasteiro. Nas retas há sempre oportunidade para uma boa conversa, escutando o balido das ovelhas seguido do chilrear dos pássaros. Nas curvas, o tempo de repente fica em silêncio e entra-se num vórtice, girando os pedais em modo automático, com as costas ao vento.

Os atalhos sugeridos pelo planeador de percursos tem por vezes o condão de nos levar a pequenos tesouros escondidos. Nas vielas das aldeias, aquele empedrado que faz a corrente chacoalhar no metal e o selim cada vez mais tormentoso. Cores que logo se uniformizam com as casas. As tradições que não se diluíram ao longo do tempo, que saltam à vista pintando molduras do modo de vida de homens e mulheres do campo.

O céu parece parvo… pardo, todo escurecido e eu me pergunto se vai morrinhar ou chover! É certo que vai. Novelos ásperos de nuvens sombrias e o vento espiam-nos por cima do horizonte. Pedalamos ao vento. subindo por Capela, asfalto que sempre pedalei, descendo para a velha estrada ao longo do rio. Eis a chuva prometida, aborrecida, intrometida, para o final da corrida.

Ao Porto chegamos, encharcados da cabeça aos pés, e aí eu penso que na bicicleta cada vez é diferente. Um dia inteiro a viajar de bicicleta tem uma certa incerteza (!). Primeiro estamos um pouco desconfiados do tempo, depois começamos a descobrir coisas, entretanto desafiamos a escalada e ganhamos. Experimentamos um atalho e perdemos. O calor escaldante e a chuva inclemente. A oportunidade de tentar outro caminho.  E colocar o coração em paz. Mil coisas novas a cada vez.

Foi agradável.

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a Via Nordeste e os seus 32 sobreiros

Um dos meus habituais percursos pós-laborais passa pela quietude dos parques Oriental e Urbano de Rio Tinto, para depois ter de gramar com o reboliço rodoviário da Estrada Exterior da Circunvalação (N12) a caminho de casa.

Uns metros antes de eu desembocar na Circunvalação contorno o nó de Rebordãos (N12-1), do qual uma nova e larga estrada, “rasgada” e inaugurada recentemente, sai em direção ao interior de Rio Tinto. Como essa via não segue na minha direcção, ainda não me havia aguçado a curiosidade de ir por ali à descoberta, até que um destes dias decidi virar a bicicleta a norte e finalmente conhecer aquilo.

Não fui muito longe. O trânsito circula naquela via apenas nos seus 300 metros iniciais, entre o nó e a nova rotunda da Rua da Castanheira. A partir daí a Via Nordeste, assim chamada, está bloqueada ao trânsito e com a obra parada a meio.

A futura Via Nordeste (pedonal e ciclável), entre Rebordãos e a Rua da Granja, encarada como “uma das principais vias do concelho com vista à promoção de uma melhor fluidez de trânsito, para o interior e exterior de uma das freguesias do concelho de Rio Tinto”, ligará, nesta fase, o nó de Rebordãos à Rua da Granja numa extensão de 2,2 km, com um prazo inicial de execução de 730 dias. Posteriormente será feita a ligação à Via Estruturante Norte-Sul, permitindo criar um anel rodoviário em torno de Rio Tinto e Baguim do Monte, assim como a ligação à A4.

A Câmara Municipal de Gondomar (CMG) ainda não obteve autorização para cortar os 32 sobreiros que estão a impossibilitar a conclusão da Via Nordeste. Parada a construção, entretanto abandonada pelo empreiteiro, esta paragem da obra já gerou prejuízos de cerca 4 milhões de euros ao município de Gondomar, segundo a imprensa. Este impasse burocrático dura há dois anos e, sem fim à vista, o presidente da CMG, Marco Martins, enviou entretanto uma carta à nova ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, a pedir ajuda.

Na origem da situação, diz o autarca, está um desentendimento entre o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e a Agência Portuguesa do Ambiente (APA).

Explicação:

“Desde abril de 2022, duas entidades sob tutela do Ministério persistem em solicitar informação contraditória. O município sempre considerou que a Via Nordeste não necessitava de Avaliação de Impacte Ambiental (AIA) por ter uma extensão de cinco quilómetros (inferior a dez quilómetros que é a extensão a partir da qual é exigível AIA”, descreve Marco Martins. O presidente refere que “o ICNF exige uma declaração da APA de pronúncia do enquadramento no âmbito do Regime Jurídico da Avaliação de Impacte Ambiental, declaração que o município tem vindo a solicitar desde março de 2022, com várias insistências que a APA nunca esclareceu, confundindo os troços da Via Nordeste”.

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fotocycle [274] assim vai a Primavera

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fotocycle [273] Penna do Dono

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emoções de uma longa jornada, o BRM Minho 300

Alguns milhares de quilómetros por ano, pedaladas laborais nos dias da semana e um gosto pelo ciclismo “vintage”, paixão que há cerca de dez anos descobri com a predisposição para o ciclismo de longas distâncias. Na verdade, os Brevet’s dos Randonneur Portugal tornaram-se para mim um autêntico ritual, um encontro de amigos que aguardo com expectativa e que aquece a cuirosidade e os músculos à medida que se aproxima um sábado “breveteiro”.

Para além de revisitar o Minho num brevet com uma distância de respeito, mesmo com a celebração das 58 primaveras à porta, não via motivos para me poupar. Enquanto tiver pernas, motivação e técnica conseguirei fazê-los. O foco da minha participação nesta longa jornada seria o de levar a bicicleta “moderna” que escolhi para suceder à Tripas iNBiCLA, com quadro de aço, mudanças no quadro, travões de pinça e cubo luminoso na roda, testando a máquina e o homem.

Desta feita o meu “ferro” escolhido para a ocasião era uma bicicleta a estrear nestas “pedalanças”. A bamBina de seu nome, recebida das mãos do CEO da iNBiCLA ainda com a tinta fresca, faria a sua estreia num brevet durinho, numa espécie de vira minhoto ao longo de 300 e tal quilómetros. Assim, e com pouco mais de duas voltas mais alongadas para a testar, experimentar o quadro Pinarello e os componentes que herdou da defunta Tripas, queria sobretudo desfrutar das sensações que o anorético Columbus KL seria capaz de me oferecer. Perfeita.

Os brevet´s são tudo menos uma corrida. São para mim um grande divertimento com alguma conquista pessoal. Já me apelidaram de “maluco” que se aventura nos longos percursos em bicicletas pesadas, com mudanças pesadas, difíceis de operar. Ou mesmo sem mudanças, impraticável para algumas subidas, mas se está assim tão difícil, pois então que se desmonte e se façam parte das subidas a pé, caminhando e fotografando. A beleza do cicloturismo é precisamente essa. Com a variedade de percursos, entre aldeias e paisagens, a forma de interpretar a coisa é como quisermos, com a bicicleta que tivermos e no ritmo que melhor nos adaptarmos.

Adormeci. Com menos de uma hora para o depart e a mais de uma hora de carro até ao Posto da Cruz Vermelha em Marinhas, Esposende, sabia que não encontraria ninguém à minha espera a não ser a menina da recepção, que com um sorriso me entregou o cartãozinho do brevet. Cheguei, engoli um bolinho e um café, preparei-me e arranquei no escuro, com meia hora de atraso, pedalando sozinho atrás do prejuízo. Por isso mantive o foco na estrada e no céu, cada vez mais alaranjado. A manhã estava bem fresca, mas as temperaturas iriam subir, e muito.

Com o sol a despontar no horizonte, chegava a Barcelos para o primeiro controle do dia, só não sabia que não teria ninguém à minha espera. Uma falha de comunicação e o José Ferreira, um dos organizadores dos brevet´s Randonneur Portugal a norte e que fazia o controle de passagem, já não contava comigo. Após umas voltas em vão e uma foto para registar a passagem, prossegui a bom gás para encontrar os primeiros companheiros de route que já estavam de partida do segundo posto de controle, ao quilómetro 50 em Ponte de Lima.

A fome começa a fazer-se sentir, não tanto por estar a pedalar há duas horas mas porque devido ao meu atraso o pequeno almoço foi descurado. Mesmo assim, a paragem para o primeiro reabastecimento foi rápida, pois é importante não comer demasiado. Os quilómetros que me esperavam eram muitos e é melhor saborea-los aos poucos, provando tudo nas doses certas para não me pesar muito. As estradas que percorremos neste Brevet eram, na sua maioria, sobejamente conhecidas e o primeiro dos suculentos pontos altos do dia estava a caminho. Transpor as fraldas da Serra d’Arga.  

Na descida para Vila Praia de Âncora pressinto a brisa marítima e até Caminha cumpro mais uma bela etapa do dia. A partir daí o plano passa em procurar o pavimento plano das ecovias do Minho. O rio, a passarada e os peregrinos para Santiago seriam os meus parceiros. Chego a Valença e encontro três ciclistas de coletes amarelados que, como eu, já se queixavam do calor.

Da antiga linha ferroviária para Monção, das primeiras a serem encerradas e transformadas em pistas “velocipédicas”, tudo muito lindo, tudo muito tranquilo, a não ser as barreiras e o piso bastante degradado. As lombas que resultam do crescimento das raízes, provocaram-me um valente susto e deixaram a bamBina com queixas. Subitamente a corrente dá em falso, estranho, desmonto, e dou com o desviador traseiro sem uma das roldanas. “Que diacho!” Vá lá que as pecinhas, espalhadas no chão, estavam intactas e não rebolaram para o desconhecido. O parafuso deveria estar solto e aquele solavanco foi quase o rastilho para o desastre. Os três companheiros com que me havia cruzado param ao meu lado e auxiliam-me na reparação da pequena avaria. Grato ao João, ao Marcos e ao Juan, com quem prossegui para almoçarmos juntos.   

A estrada eleva-se gradualmente e torna-se quase deserta. Depois de Melgaço raramente passamos por veículos a motor. Quem por nós passa são os randonneurs mais céleres que já desciam o percurso no sentido inverso desde S. Gregório, a localidade mais a Norte de Portugal, onde o roaming espanhol continua a sobrepor-se ao luso, onde o Café Coelho continua sem carimbo, e onde o José Ferreira nos aguardava para fazer o registo da nossa chegada com a respectiva carimbadela.

Meia volta pela mesma estrada, mas a descer, até que quase nas duas centenas de quilómetros percorridos se inicia a subida do dia em direcção ao Sistelo. Com algumas rampas de forte inclinação para aguçar o apetite, os oito quilómetros que se seguiarm foram percorridos sob um calor sufocante, até ao conhecido posto de controle em Portela d’Alvite, mas sem o direito às sandes de presunto que eu esperava trincar. Em todos os casos, para enfrentar o desce, e sobe e desce, que teriamos pela frente, convinha mesmo comer e beber alguma coisa.

A noite ainda vinha longe, no entanto achei conveniente ligar o farol moderno que a bamBina herdou da Tripas. Parece um elemento estranho para um quadro com pedigree Pinarello, mas tem um feixe de luz potente, que não gasta pilhas e ilumina perfeitamente a estrada, a tal ponto que quando seguia atrás do grupeto quase poderia dizer que eles não precisavam de ligar as suas luzes.

Ponte da Barca cruzada e lentamente cai a noite. Durante a ascensão para Vila Verde a pedalada torna-se algo monótona, mas como não se está sozinho dá para entabular conversas e não ouvir tanto o barulho da corrente. À custa de tantos anos à seca dentro de um caixote, range cada vez mais, quilómetro após quilómetro, a suplicar por uns pingos de óleo. Após paragem mais demorada num ponto de controle que nos permitiu confortar barriga, o reforço térmico foi providencial. Mais à frente, sensivelmente ao km 300 nova paragem no famoso posto de controle em Punhe, desta vez para a responder a um questionário sem a desejada dose de cafeina. De pernas esgotadas e baterias fracas, os últimos quilómetros em direcção a Marinhas até se passaram depressa. É quando começamos a ansiar pela chegada, cada vez mais próxima, que encontramos no fundo do depósito um aliado adicional, aquele shot de adrenalina que nos ajuda a concluir o Brevet, bem para lá das 23h.

Uma das conversas que tivemos durante um bom período foi em relação à escolha da bicicleta certa para determinado tipo de Brevet. A bicicleta certa significa uma bicicleta que antes de tudo funcione e que depois tenha as relações de transmissão adequadas à condição física e ao percurso que temos pela frente. Uma coisa é certa, em comparação às modernas bicicletas de carbono, os antigos modelos de aço são mais difíceis de pedalar em percursos com bastante acumulado, mas o facto é que a maior suavidade do quadro, as sensações e o desempenho, mudam o caráter da bicicleta, mudam de acordo com a velocidade do momento e mudam de acordo com o terreno. Uma bicicleta de aço tem uma alma calorosa, e quanto mais se usa mais se pode descobrir a verdadeira essência da tabela periódica dos elementos.

Trezentos e treze quilómetros depois paro e descontraio com emoção. Emoção com aquele sentimento de desafio concluído. Emoção partilhada com quem se faz parte do caminho e se coloca o último carimbo. A emoção que volta a ser exclusiva quando se diz cá por dentro “pronto, está feito”.

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c’è una nuova bamBina in città

As bicicletas com aquele charme clássico italiano, o L’Eroica style, ainda são apreciadas e procuradas em todo o mundo. Marcas históricas que nasceram das ideias e determinação de ex-ciclistas, que marcaram presença no ciclismo ao longo dos tempos.

Tubos de aço soldados e pintados à mão, embelezados com cromados, pantografados e acabamentos personalizados, que nos remete aos tempos das autênticas obras de arte sobre duas rodas. Aquele material antigo com o qual as bicicletas foram feitas há mais de cem anos e que continuam a dar alegrias e muita satisfação a muitos ciclistas, exactamente como acontece comigo.

Recriar uma bicicleta vintage requer uma lista de componentes de época. Peças mecânicas de tecnologia requintada, de criação italiana ou outra, estão entre as mais procuradas pelos entusiastas das clássicas fiéis aos modelos originais. Verdadeiras “máquinas” intemporais, cada uma delas com muito para contar, com pormenores que são pistas para encontrar a sua história. No entanto outros sobreviventes escondem bem os seus segredos.

Para substituir o danificado quadro da Tripas iNBiCLA, a minha intenção inicial era construir de raiz um quadro à minha medida com atributos Tourer/Randonneur.  Por vicissitudes várias a soldadura dos tubos Reynolds não se completou, o que me obrigou a colocar o plano B em acção: encontrar um quadro de aço que simplesmente me enchesse o olho e as medidas corporais. Descobri um puro-sangue italiano de tubos Columbus bem longe de casa.

Sendo uma das marcas velocipédicas mais carismáticas, a Cicli Pinarello implementou muitas das novas ideias na construção manual dos seus quadros. Com geometria mais apropriada à corrida, que permitiu um historial vitorioso nas míticas estradas de França e Itália, este Columbus KL modelo Super Prestige é elegante e pede componentes clássicos a condizer. Tenho tudo aqui: Cinelli, Mavic, e um mix de genuína joalharia mecânica com aquele logotipo alado que deu asas ao ciclismo, a Campagnolo.

O quadro, que, no fundo, é a base de tudo, é uma tela em branco que possibilita juntar o gosto pessoal à inspiração do master das pinturas. É isso que aprecio no mundo das bicicletas customizadas, a originalidade que as faz fugir dos padrões que são impostos no catálogo. E para inspirar o verdadeiro artista, pedi-lhe um acabamento de catálogo, o efeito defumado do modelo da TT Asolo Prólogo.

Com a sua perícia e criatividade, o meu amigo Vitor Machado deu-lhe o seu toque especial. Para lá da mestria na pintura, da perfeição nos acabamentos, a ilusão pretendida foi conseguida com a chama de um maçarico. A escolha de um lettering incandescente tornou esta bicicleta exclusiva ainda mais “especial”. Esta bina é uma brasa. 

Para mim não há de todo uma regra a seguir na geometria de um quadro. Acho que, em grande parte, o acerto pretendido está mesmo nessa liberdade e criatividade em fazer algo diferente do que seria suposto. Neste ponto é natural que existam toda uma série de limitações, ao nível de roscas, espaçamentos, e pequenos pormenores que possam complicar um pouco a coisa. Nesse sentido, a aposta foi não só manter o formato original como adaptar o material existente, misturando conceitos dentro das possibilidades para se chegar ao resultado pretendido, uma espécie híbrida: uma “commuter” diária, uma “estradeira” para as voltas ao fim-de-semana e uma “randonneur” para as longas distâncias, com a matéria prima herdada da defunta Tripas iNBiCLA, mesmo que não fosse garantido o conforto de uma endurance de gema.

Aprecio ver uma bicicleta recuperada e fiel à sua origem. Há quem dê mais valor à pintura original mesmo que exiba as cicatrizes do tempo, a “patina”. Também respeito quem desaprove quando se desvirtua um conceito. As bicicletas clássicas no seu estado original não deixam de evidenciar a sua história se porventura lhes for montado material contemporâneo. Não me choca ver a mistura do antigo com o moderno. O material vintage, original, em bom estado e de qualidade é caro. Isto tudo para dizer que, basicamente, não há fronteiras nem regras nisto das bicicletas antigas. O que manda mesmo é o gosto pessoal e a possibilidade de o pôr em prática.

Certamente que o metal tem o seu peso, mas desde quando as emoções são pesadas numa balança? Pedalar uma velha bicicleta de aço certamente nos fará redescobrir sabores e emoções antigas. Decididamente, os progressos notáveis ​​da tecnologia nos agrada. Assim é em tudo na vida, o que poderá fazer pensar que uma moderna bicicleta de carbono, cheia de fibra, teve uma querida avó de aço, tão bela e fascinante…

Esta é a bamBina, uma Pinarello com o sabor do passado e que promete satisfação por muitos e bons quilómetros.

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can´t miss [236] Crónicas do Sr. Ribeiro

Partilho porque faço minhas as palavras das Crónicas do Sr. Ribeiro

“Mea Culpa, Mea Culpa

Eu ciclista me confesso, Mea Culpa, Mea Culpa! Vou já deixar aqui, eu não paro nos semáforos de velocidade da marginal. Nem sequer hesito. Eu não os fechei, não paro. Ora pensem lá comigo. Estou de bicicleta, um veículo fininho onde o pára-choques sou eu, vou arriscar parar num semáforo onde há uma larga percentagem de carros que não o fazem? E se um deles vem distraído ou furioso a ultrapassar pela direita o marreta que fechou o semáforo? Ele vê-me? E vai conseguir parar? Não arrisco. Não paro. Podem mandar a multa para minha casa.

Também vou já adiantar que só deixo peões passarem nas passadeiras se os tiver visto à distância.Os que aparecem mais em cima, ou que estão escondidos por carros, peço desculpa e sigo. Uma vez mais, estou com os pés presos, se eu travar de repente, a probabilidade de cair, no meu caso que sou nabo, é de 80%, no caso de um craque é de 30%. Acresce que as bicicletas, por melhor que sejam, ainda não têm abs, nem aquele sistema anti derrapagem, normalmente, uma travagem muito brusca implica um mínimo de perda de controlo. O resultado potencial é eu espetar-me e levar o peão comigo. Prefiro o insulto. Podem mandar a multa lá para casa.

Mais… Ah! Nas rotundas, quando há duas faixas, normalmente entro assim que tenho espaço e circulo bem por fora, escondido. (a circulação pela direita é em cumprimento do artigo 14-A n.º 2 do Código da Estrada) Aqui são várias as questões, o medo que o carro atrás de mim não trave na entrada da rotunda e a ausência de destreza com os pés e tirá-los dos pedais, etc. Já sabem, vivo tranquilo com isso, é só enviar a multa.

Por fim, quando paro nos semáforos arranco sempre antes do verde. Logo que o semáforo da intersecção fecha, eu vejo se não vem ninguém e arranco. É mesmo uma questão de segurança. Primeiro, é perigoso, como já expliquei estar parado num semáforo numa bicicleta. Segundo, dá-me tempo para arrancar e encaixar nos pedais antes que o carro atrás de mim arranque nas minhas costas e me aperte para passar. Siga, multa lá para casa.

Estes são os ilícitos que eu cometo e que podem irritar os automobilistas, vivo tranquilo com isso.Quais é que não cometo (porque não são ilícitos)?
1 – Andar fora das ciclovias Raramente uso ciclovias, são estreitas, normalmente em mau estado e cheias de peões. Acresce que a lei não obriga – artigo 78.º, n.º 1 do Código da Estrada:
“Quando existam pistas especialmente destinadas a animais ou veículos de certas espécies, o trânsito destes deve fazer-se preferencialmente por aquelas pistas”. Preferencialmente significa que não é obrigatório. Ou seja, ando quando sinto que é mais seguro, se não for, não ando. Escusam de mandar para lá, não vou.

2 – Andar sem estar encostado à berma O artigo 90.º do Código da Estrada é claro:
“Os condutores de velocípedes devem transitar pelo lado direito da via de trânsito, conservando das bermas ou passeios uma distância suficiente que permita evitar acidentes.” Eu conservo esse espaço, por causa de valetas, tampas de esgoto, e buracos – mais habituais nas bermas. Acresce que se for uma via de só uma faixa, com traço contínuo, os carros não me podem ultrapassar, por isso e para me proteger ocupo o meio da faixa.
Porque não me podem ultrapassar? Eu explico. Ora, imaginemos uma faixa de rodagem. Qual a sua largura? Vamos dizer 3 metros. Eu vou a cerca de 50 cms da berma, para evitar as tais valetas, etc., tenho mais de 40 cms de largura de ombros, sobrando 2 metros até ao dito traço contínuo. Como o artigo 38.º, n.º1 e do Código da Estrada exige “Na ultrapassagem de velocípedes ou à passagem de peões que circulem ou se encontrem na berma, guarda a distância lateral mínima de 1,5 m e abranda a velocidade”. Assim, a não ser que o carro que me ultrapassa tenha apenas 50cm de largura, não é possível ultrapassar-me numa faixa com traço contínuo. Como, normalmente, quando o fazem, acabo eu a ser empurrado para a berma, vou logo no meio da faixa para evitar essa situação.

3 – Andar a dois na faixa. Esta é das que mais irrita os automóveis, mas atentem para o artigo 90.º, n.º 2 do Código da Estrada:
“Os velocípedes podem circular paralelamente numa via, exceto em vias com reduzida visibilidade ou sempre que exista intensidade de trânsito, desde que não circulem em paralelo mais que dois velocípedes e tal não cause perigo ou embaraço ao trânsito.”. Vamos a isto.Podem andar a dois é o princípio. Excepto: 
1 – vias com reduzida visibilidade –  concordo e quando ando de bicicleta, chegando a estradas com pouca visibilidade, eu acelero sempre ou deixo ficar para trás para ir sozinho. Trata-se de prudência e segurança – acresce que é normal, nestas vias, ser ultrapassado por um selvagem que sem ver anda a mil à hora. Prefiro sempre não arriscar a ter razão.
2 – sempre que exista intensidade de trânsito – não compreendo, a utilização de um conceito vago e indeterminado não devia ser aceite em termos legais, menos ainda numa questão de segurança. Muita intensidade? Pouca intensidade? Intensidade são quantos carros? São carros parados? Marcha lenta?
Aqui vai ter de imperar o bom senso. Uma vez mais, muitas vezes em filas de trânsito, opto por não partir as duas filas, por uma questão de maior visibilidade. Filas de trânsito significam, quase sempre, manobras bruscas, e uma bicicleta facilmente cai num ângulo morto. Gramava que esta questão fosse de alguma forma melhor contextualizada.
3 – desde que não circulem em paralelo mais que dois velocípedes – aceito. Até porque aqui, no limite, impossibilitaria, sempre a ultrapassagem, porque seria 50cms da berma, mais 50cm do primeiro ciclista, 1,5m de distância, 50cm do segundo ciclista, 1,5 de distância, 50 cms do terceiro, quando chegássemos à distância de segurança de ultrapassagem estaríamos a levar com um carro em cima.
4 – tal não cause perigo ou embaraço ao trânsito – claro que sim, mas com atenção a uma dúvida que tenho. Imaginemos um pelotão grande, são 40 ciclistas, vão paralelos, tranquilos, fica um pelotão de 20 de comprimento. Reduz a uma faixa, mas dá para ultrapassar, por isso seria o sítio para encaixar um a um.  Mas é mais fácil e seguro ultrapassar 40 em comprimento ou 20? Não tenho resposta, nestas situações tenho só medo. E, para já, são estas as questões que me lembro. No fim do dia, só gostava que não me fizessem tantas razias. Eu não vou andar de bicicleta para chatear automobilistas, juro que não. Encosto sempre que posso, e até sinalizo, quando tenho melhor visibilidade, quando já fica seguro ultrapassar. Agradeço sempre que percebo que esperam para não me apertar.

Por favor, não me matem por causa das minhas transgressões, além de as ter explicado, prendem-se com segurança, acho que não é proporcional

“Usas lycra e arrancas antes do verde, vou mas é passar-te por cima!!””

fonte: https://www.facebook.com/share/p/N44vfTZ8Zb3pPCVx/?mibextid=K35XfP

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fotocycle [272] dose dupla

A bicicleta é o meu meio de transporte. É o meu meio para ir e voltar do trabalho. É um meio de lazer e descontracção. É o meu ginásio. É gratuito… quer dizer, anda a sandes e a cerveja, mas é barato. É ecológico e está sempre disponível, de manhã e à noite, faça sol ou faça chuva, haja ou não transportes públicos… Já nem sei o que é andar de transportes públicos!

Todos os dias vou de bicicleta para qualquer lado. Como tenho tempo, à tarde no pós-laboral concilio duas horas e qualquer coisa para regressar a casa, tempo suficiente para pensar, descarregar e parar de pensar, só pedalar. Ao fim-de-semana lá vou eu, ao sábado e ao domingo, licra no corpo para mais quilómetros de satisfação, com outra disposição, bem mais rápido, mais longo e mais suado.

De qualquer forma, com qualquer bicicleta, nada é melhor que levar com mosquitos na testa.

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Rapha Festive 500. If it’s not on Strava, it didn’t happen

Todos os anos, desde 2010, naquela semana estranha entre a véspera de Natal e o Ano Novo, a marca de roupas de ciclismo Rapha desafia os ciclistas a pedalar 500 quilómetros em oito dias. Para além do marketing associado, o desafio proposto pelo Clube Rapha é uma forma de incentivar o derradeiro esforço velocipédico para se atingir metas anuais, queimar calorias natalícias em excesso… ou, simplesmente, arranjar uma desculpa e fugir de casa por algumas horas!

Em 2023 o desafio entrou no seu 13º ano de existência. Se pedalar uma média de 62,5 km por dia durante 8 dias não é nada de outro mundo, eu que até nem sou muito destas coisas, quando há uma bela Cannondale bike XPTO em jogo, cliquei no botão e fiz a inscrição. Não meti férias nem me socorri do rolo, coisa que nem tenho, mas com determinação e empenho, sem comprometer rotinas e compromissos natalícios, teria as condições necessárias para o sucesso da coisa.

Há sempre uma forte probabilidade dos afazeres da quadra natalícia virem a atrapalhar a pedalada, como o facto da época festiva envolver muitas comezainas e algumas bebedeiras. Depois, temos os compromissos familiares a que não conseguimos fugir. Ir fazer compras de última hora também não nos dá o livre-trânsito de desaparecer porta fora e ir pedalar durante um bom par de horas. As festividades têm de ser bem negociadas, lá em casa e com as bicicletas disponíveis.

Se poderia fazer tudo de uma vez… eh pá, há quem o faça, mas para quê!? O objectivo aqui seria aproveitar o tempo livre nas folgas e vésperas dos feriados para umas voltas mais esticadas, e ir dando ao pedal consoante a possibilidade ao longo dos dias de trabalho. Infelizmente, para mim, o Natal não é sinónimo de férias, nem no Algarve e muito menos nas Caraíbas, e, caso assim fosse, a bicicleta seria mesmo a última coisa a ser incluída na bagagem.

Quando se trata de dia útil para pedalar, à partida o dia de Natal estava para mim fora de questão. Mesmo assim, com a desculpa de ir fazer o papel de Pai Natal, lá consegui sair no dia 25 para uma mini-micro volta de 15km (foram mais, mas o Strava stravou e mais não contou). Já foi muito bom para “desmoer” as rabanadas. Por acaso até foi o dia mais agradável no que ao clima dizia respeito, mas sabendo que no dia seguinte iria abrir o presente da tolerância de ponto governamental, não me preocupei e programei o dia para a voltinha mais extensa.

Chova ou faça sol, as pedaladas casa-trabalho vs. trabalho-casa diárias, o “#commutescount”, são para cumprir. São Pedro tem sempre uma palavra importante a dizer e eu sabia à partida que teria de lidar com o senhor Inverno. Se não é frio é chuva, se não é o vento é tudo misturado. O melhor é não contar com as alterações climáticas no… e estruturar bem a coisa. Mas, com três dias de chuva inclemente, precisamente nos chamados dias úteis, isto nas previsões mais otimistas, a coisa ira resumir-se aos mínimos indispensáveis, o que não daria para acumular quilometragem em metade do prazo disponível. Feitas as contas, no derradeiro fim de semana do ano civil de 2023 teria de pedalar contra o prejuízo. 

Pedalar, seja para cumprir 500 quilômetros em 8 dias, seja para pedalar os 4 que separam a casa do trabalho, a bicicleta tem de estar preparada e afinadinha. Na estrada estamos sempre sujeitos a avarias e não temos uma oficina ao virar de cada esquina e que nos desenrasque. O selim da gOrka teimava em desapertar e por mais aperto que lhe ia dando, o parafuso ia me moendo a paciência e as costas. Esse handicap teve influência na escolha de percursos para os derradeiros dias, pois a cada paragem lá ia eu fazer fosquinhas com a chave umbraco. As voltas basearam-se num raio de acção mais curto do que inicialmente pretendia.

Um parafuso de titânio é coisa para resolver definitivamente o problema, só que não! O busílis da questão estava na base do espigão. Depois de tanto apertar e reapertar, no final da volta de sábado, forçadamente encurtada, decidi atacar o problema pela raiz. Assim que parei a actividade no Strava e entrei na arrecadação, de roupa suada colada ao corpo, estive mais de uma hora para solucionar o problema à boa maneira McGuyveriana. Quando entrei no chuveiro estava certo que no derradeiro dia do desafio não iria sentar as nalgas num baloiço. Eis o último dia do ano que veio a ser um 31!  

A manhã estava bastante sombria. Pouco depois de me fazer à estrada, uns pingos de chuva misturavam-se com alguns pingos do meu nariz. A ressaca de uma noite tremida e a perspectiva de 90 km pela frente não foram, no mínimo, as melhores motivações para sair da cama. Para além disso, pernas fraquejadas e vento contrário não combinam bem. “Oh diacho, tu queres ver!” Não era minha pretensão repetir rotas, então optei pela monotonia perto de casa em vez de arriscar e morrer na praia. Assim, com o ritmo adequado à energia, segui o plano da praia, aproveitando para passar pela casa do velhote e lhe dar um abraço.

Assim, quando finalmente entrei em casa e pendurei a bicicleta havia acumulado mais quatro quilómetros para além dos mínimos exigidos. Ena… Para lá da satisfação pessoal de concluir o dito cujo desafio, ficando assim habilitado à tal máquina que, só em sonhos, me poderá sair na rifa – quem não arrisca não petisca, não é mesmo? A medalhinha digital da Rapha Festive 500 vai permanecer na sala de troféus como o resultado do esforço e da minha teimosia tenacidade. De que me posso queixar quando se ganha um prémio bónus acrescido. Para lá de ter tido um reveillon 2024 de molho, uma noitada bem suada, ainda tive direito à participação, nos dias seguintes, no Brufen 600! Ca Categoria, hein…

Bom Ano e Boas pedaladas.

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Pai Natal, conta-me histórias

Sua Alteza é crente, ainda acredita no Pai Natal. Viu o velhote e, numa de Operação Influencer, parou e intercedeu para que eu receba no sapatinho de encaixe a bicicleta há muito pedida. Mas eu sei o que ela quer. O caruncho e a ferrugem já lhe estão a emperrar a pedaleira. O que ela realmente deseja é dividir as minhas nádegas com outro selim. O senhor das barbas riu-se… “Oh Oh Oh… tu queres é que te conte uma história. Pois bem: Há muito, muito tempo, que depois do Natal e do Ano Novo, três magos em camelos chegam de um reino longínquo, e trazem presentes… Sabe-se lá se não é desta que tens o teu presente de volta, que um desses reis venha a pedalar na velha nova bicla do Paulo!!!”

Com ou sem presentes no sapatinho de encaixe, o que interessa é que todos tenham um Feliz Natal.

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