isto é jogar à roleta russa

Abundam os estereótipos sobre os ciclistas. Estereótipo, cliché, chavão, qualquer que seja o palavrão, existe o preconceito generalizado sobre o pessoal que pedala na estrada. A característica frequentemente mais depreciativa é de que todos os ciclistas são um perigo. São acusados das coisas mais aberrantes e incompreensíveis pelos enlatados que não nos querem na estrada e nos vêm como o supremo de todas as coisas más, ora porque estamos no caminho, ora porque somos uns incumpridores, ora porque representamos uma mudança, o que para eles parece ser difícil de aceitar. E o exagero é a norma. Todos os estereótipos impõem exagero, é um elemento chave do preconceito, e daí até generalizar a coisa é um instantinho.

Sinceramente, compreendo o porquê de em determinadas situações quem pedala não se sentir obrigado, por exemplo a parar perante um qualquer sinal vermelho! Até porque muitos dos semáforos instalados nas cidades estão ali mais para regular a velocidade dos veículos motorizados. O semáforo tornou-se o sinal vermelho de tudo o que há de crendice contra os ciclistas. E quando nos apontam o dedo demonstram muito da sua ignorância e do seu carácter, pois perante o mesmo incumprimento, constantemente observado no comportamento abusivo de todos os automobilistas, estes desviam a conversa, devolvendo com o falso argumento da pretensa obrigatoriedade de um seguro para os ciclistas, de matriculas para as bicicletas, bláblá… de penalizações só porque há quem se atreva a usar corpinho na mobilidade, querendo o pé da igualdade nos direitos à estrada.

Bem ou mal, o comportamento adoptado pela maioria pédica e velocipédica é parte da mesma cultura rodoviária que observamos por todo o lado. Nesta estrada da vida da loucura já nada me espanta. Já testemunhei comportamentos e acções que me deixaram de tal maneira atónito que me fizeram avaliar se realmente vale a pena arriscar. Ao volante, como ciclista no papel de automobilista, também me saltam as estribeiras quando presencio comportamentos arriscados e inconscientes de indivíduos a pedais. Alguns fazem coisas tão bizarras que me custa imaginar o que estariam a pensar naquele momento. E não falo de ciclistas inexperientes, nem daqueles que estão na via pública como se estivessem no parque de dversões. Falo dos lunáticos que obstinadamente abusam da sorte.

Desde aquele final de dia, quando fui testemunha da loucura de um indivíduo que pedalava à minha frente em plena auto-estrada A1, tenho dado o dedo mindinho a torcer sempre que ouço/leio criticas do mau comportamento dos ciclistas na estrada. Contradigo-os que esse não é o meu comportamento, nem o da maioria, mas sou obrigado a reconhecer que há muitos por essas estradas a jogar à roleta russa.

Se hoje recordo esse episódio, da quase fatalidade de um lunático a pedalar numa auto-estrada, a colocar-se e a colocar outros num perigo tão estúpido como desnecessário, é porque acabo de ler esta notícia: “Ciclista na A1 causa surpresa”

O homem encontra-se já referenciado pelas autoridades por causa desta prática. (Ler mais em: http://www.cmjornal.pt/portugal/detalhe/ciclista-na-a1-causa-surpresa?ref=portugal_outras)

Desde aquele episódio que certo dia testemunhei até à “surpresa” de ontem, medeiam cinco anos! Será que é o mesmo tipo que eu vi e evitei atropelar e continua a querer fintar a sorte!? Se é, como pode o mesmo indivíduo arriscar a pele assim há tanto tempo, sem levar um susto ou um piparote de um pára-choques!?

Eu cá se pudesse ter conversado com este anormal ter-lhe-ia pedido os números do euromilhões, ou perguntado se é um tipo com tendências suicidas e anda com um azar do caraças! É que para se matar bem que o poderia fazer sozinho e não esperar a que a bala esteja no cano.

Apenas pedalar uma bicicleta não se qualifica como ciclista. É preciso ter conhecimento da estrada, valorizar a própria e a segurança de toda a gente. Devemos saber os limites da própria bicicleta. Não é tanto uma questão de dizer às pessoas como ou onde devem pedalar, mas sim um meio de informar que é necessário ter alguma responsabilidade. Queremos que os automobilistas respeitem os ciclistas, que partilhem devidamente a estrada, e para isso devemos dar o nosso exemplo de responsabilidade e de noção onde a bicicleta pode e deve estar.

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ciclista vs motociclista

À pergunta que já me fizeram quando me viram a pedalar pela cidade:

“Não é perigoso andar de bicicleta?”.

Oh pá, depende, respondi. Mas também te digo, se me fazes essa pergunta é porque tens a noção que o comportamento dos condutores não é o melhor. Mais a mais, sendo tu um condutor de um veículo de duas rodas com motor lá pelo meio já deves ter dado conta disso.

À terceira é de vez, costuma-se dizer. E porque hoje voltei a ser incomodado por um motociclista que me quis deitar fumo aos olhos, o gajo deixou-me pior que uma lesma quando me respondeu: “Eu também sou ciclista”!

Se a ignorância em relação às regras do Código da Estrada é um mal epidémico da trupe colectiva que segue a morte lenta do pára-arranca, aparentemente a peçonha do “sai da minha frente” buzinado é extensivo aos condutores de secadores de cabelo.

Ora bem, se há tempos a Câmara do Porto alargou a circulação de motociclos e ciclomotores em corredores BUS, eu não tenho culpa que os mesmos estejam constantemente ocupados por automóveis, uns estacionados, outros a tentar entrar ou a querer sair de um parque de estacionamento. Como deveria saber, sendo ciclista como diz, às bicicletas não é permitida essa benesse.

Seguia na minha, ocupando o eixo da via, numa via que tem dupla faixa de rodagem no mesmo sentido. Finda a via reservada a alguns veículos, tomo a minha posição na faixa mais à direita e percebo a buzina esbaforida de alguém atrás de mim. Um ciclomotorizado ultrapassa-me nem a meio metro do meu cotovelo e com a luva direita aponta para o lado, agita a mão dando-me a entender que eu deveria sair da sua frente e ir para o passeio, ou coisa assim!

Imediatamente à paragem no semáforo vermelho, de dedo em riste acenei-lhe um rotundo não e disse-lhe: Olhe lá, não estou obrigado a circular encostado ao passeio…

Hummffmummmffff…, resmungava-me o gajo de dentro do capacete.

Hããã, o quê? Não meu amigo, não sou obrigado a prestar-lhe vassalagem rodoviária. Circulo no eixo da faixa de rodagem o mais à direita possível, conservando das bermas, dos passeios e dos carros estacionados uma distância suficientemente segura para mim. Mais a mais, você deveria ter mantido uma distância lateral mínima de 1,5m. quando me ultrapassou, e em vez disso quase me vazou a vista apontando-me para o passeio!

Hummffmummmffff…

Hããã, o quê? Então o gajo lá levantou o capacete para me perguntar se eu sou ciclista!

Bem… olho para a bicicleta, encolhendo os ombros. O que é que acha?

“É que eu também sou ciclista e digo-lhe que tem de pedalar encostado ao passeio”, ripostou.

Você é ciclista!? Deve ser, deve, tipo ciclista de fim-de-semana! Abriu o verde… Olhe, passe bem… e cada qual foi à sua vida.

Acho que sei o que foi. O gajo terá ficado piurso quando, à entrada da rua de D. Manuel II, eu ocupei o espaço livre demarcado entre a faixa de retenção e a passadeira, um espaço existente na parte final da rua Adolfo Casais Monteiro, seguro para os ciclistas se posicionarem à frente dos demais veículos a motor enquanto aguardam o semáforo verde para transitar. E digo já que deveria ser assim em todas as intercepções.

Na estrada um ciclomotor não prevalece em relação ao velocípede. Ambos estão sujeitos às regras. Comummente são biciclos, dotados de duas rodas portanto, sendo que na rua as bicicletas e os ciclomotores ocupam sensivelmente a mesma largura de ombros dos seus utilizadores. E esta é basicamente a única semelhança entre a espécie ciclo, pois o apenso motor, a combustão ou eléctrico, faz toda a diferença. Obrigatoriedades, registos, seguros, são impostos à circulação na via pública, sejam motociclos, triciclos, quadriciclos, Mobiletes, Solex’s, com ou sem carro lateral, enfim a todo o tipo de veículos de duas rodas motorizados com pedais.

O ciclista saberá melhor que ninguém ocupar a melhor posição na faixa de rodagem. A actual estrutura rodoviária privilegia quase exclusivamente os motorizados, fornecendo aos utilizadores dos motores uma utilização desmesurada e egoísta do espaço público. Os ciclistas, como utilizadores vulneráveis da via, privilegiam a vida e zelam pela sua integridade física.

A manobra da ultrapassagem aos velocípedes por parte dos ciclomotores obedece às mesmas regras. Esperar uns segundos para depois voltar a infligir esse enorme esforço físico, que é pressionar ligeiramente o acelerador, deve ser penoso para os motorizados. A falta constante de se colocar no lugar do outro, o pensar no bem-estar do outro que circula à sua frente, só aumenta a falta de respeito e a agressividade.

Resumindo: para o motorizado, os ciclistas fazem o que querem, e ainda por cima não pagam nada. O motorizado, seja qual for o tipo de veículo, para o que sente o aumento dos impostos de circulação, o preço dos combustíveis, as crescentes limitações de circulação em centros urbanos, os controlos policiais, os engarrafamentos e a falta de estacionamento ilimitado, entre outras coisas, o ressentimento obtuso perante os ciclistas é espontâneo. E alguns ciclistas alinham nesse pensamento! Com pontos de vista profundamente contraditórios, dizem que uma vez ao volante cumprem escrupulosamente o código. Dizem que o cumprem sem saber que o mesmo já foi revisto e alterado, faz quatro anos. Acham que tendo um acelerador no pé ou na mão têm o direito a usufruir do mesmo a seu belo prazer. Mas, se nem os ciclistas se entendem, como vou esperar que os utilizadores da estrada se entendam uns com os outros? Ninguém cumpre nada e ponto final, parágrafo.

Também cumpriria a cem por cento se de facto as infra-estruturas rodoviárias fossem construídas a pensar em todos. Se houvesse uma fiscalização de facto efectiva e que devolvesse o sentimento de segurança às estradas. Se cada vez que pedalo numa estrada não tivesse de conviver com gente profundamente inconsciente. Manobras perigosas, excesso de velocidade, uso do telemóvel na condução, estacionamento ao deus-dará… Alguns ciclistas não cumprem as regras porque acham que as regras não se aplicam a eles. Pois bem, o sistema não foi feito a pensar neles, como tal sentem-se mais seguros assim. O presenciamento constante dos atropelos rodoviários aumenta a sensação de impunidade e de insegurança. Por isso mesmo alguns ciclistas dizem jogar pelas mesmas regras. Sendo confrontados diariamente com os abusos dos automobilistas, não admira que alguns sintam a necessidade de, por razões de segurança, fintar o CE.

Mas voltando à pergunta inicial, a minha resposta é: “Não. Pedalar na cidade ou na estrada não é perigoso, se forem tomadas algumas medidas a que se pode chamar de condução defensiva”. Isto significa uma condução prudente, atenta e sem precipitações, que não se limita a seguir as regras do código da estrada, mas que também tenta prever as possíveis situações perigosas antes que estas aconteçam. A diminuição da sensação de insegurança constante nas nossas ruas e estradas trará cada vez mais utilizadores de bicicleta.

isto sim é uma mota

Boas pedaladas.

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reciclando [37] é uma espécie de quente e frio

Na bicicleta o frio não se estranha, entranha-se. Afinal estamos no Inverno, o que não é de estranhar portanto que mesmo enchouriçado de roupa mal coloque o nariz fora da porta sinta um arrepio na espinha. O dia desponta bonito, mas não eram aqueles imberbes raios de sol reluzindo no alumínio da bicicleta que me fariam aquecer. Ao pedalar bem cedo para o trabalho, ou outro sítio qualquer, estamos livres e ao mesmo tempo expostos aos elementos matinais. De luvas térmicas e gorro enfiado a tapar as orelhas, mais que preparado para enfrentar este briol, dou as primeiras pedaladas do dia. O ar gelado morde-me a pele, penetra nas narinas e arrefece os pulmões. Rajadas de vento d’Este esbofeteiam-me o rosto e acordam-me de vez. Automaticamente levanto o rabo do selim, activo as pernas para dar ritmo aos pedais. Escalo ao topo da montanha, neste caso o viaduto sobre a VCI. Encolho-me no cachecol e prossigo, fungando. Lentamente a energia da pedalada reconforta, o movimento pedaleiro revigora e equilibra-me os níveis de humor. Ao arredondar a primeira curva já sinto a diferença com o corpo a aquecer, mas que está um frio do carago, lá isso está!

Quinze minutos depois, uma vez chegado ao destino, estou pré-aquecido e mais que pronto para começar a trabalhar.

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ciclofilia [144] A freira e a bicicleta: apoio a mulheres e meninas congolesas

“A irmã Angélique Namaika recebeu o Prêmio Nansen para os refugiados em 2013 por ajudar mulheres e meninas deslocadas na República Democrática do Congo. A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) está à procura de uma nova heroína ou herói que apoie os refugiados.

O Prêmio Nansen do ACNUR visa reconhecer o trabalho de indivíduos e/ou grupos para ajudar pessoas em situação de refúgio. Você conhece alguém com esse perfil? Não perca! As inscrições vão até dia 8 de fevereiro! unhcr.org/nominate

Saiba mais sobre o trabalho da irmã Angélique em https://goo.gl/bgvajy e https://goo.gl/7MW1se

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fotocycle [222] o quadro diário

[…] Porque não havemos de ir pelo caminho mais bonito? Porque é que vamos sempre com pressa, sem tempo de reparar nas mudanças dos dias e das luzes e dos verdes? Porque é que não aprendemos com os turistas que gastaram dinheiro para vir para aqui olhar para as coisas em que já não reparamos? […]

Para emoldurar o postal d’hoje pego numa das fotos que captei antes d’ontem, durante o meu commuting pós-laboral, ao longo do caminho mais bonito. Depois de oito horas de trabalho, e sempre que é possível, pedalo de volta a casa através de lugares tranquilos, sem qualquer senso de urgência, multiplicando distâncias. Na minha bicicleta a estrada é plana, a cidade é feliz. Me sinto um afortunado. Vou onde o tempo parece fazer uma pausa, absorvendo o momento, as temperaturas, os cheiros, as cores dos dias. Pairando no vento, paro quando sinto vontade de fazer mais uma fotografia. Procuro aqueles agradáveis instantes de luz solar, onde a magia da cidade maravilha turistas e também ciclistas. Aproveito todos os momentos.

Para emoldorar o quadro diário, o mote é um excerto da belíssima  crónica de Miguel Esteves Cardoso “A cegueira diária“,  publicada na edição de ontem do Público.

De seguida copipasto a crónica na íntegra:

“Portugal está cheio de caminhos secretos, mas não são necessariamente os mais bonitos. Os caminhos mais bonitos até são conhecidos — basta ter a carta correcta e fazer umas perguntinhas —, mas as pessoas evitam-nos, porque são demorados. Para se perceber o absurdo vou repetir: os portugueses evitam os caminhos bonitos, porque demoram bastante tempo a percorrer. Sim, a beleza prolonga-se no tempo. Não é só um minuto ou dois de encantamento. Pode ser mais de uma hora. É inaceitável.

A vida é curta de mais para ir pelos caminhos feios. Encafuamo-nos em casa ao fim do dia e só saímos no dia seguinte para trabalhar. Para trabalhar encafuamo-nos num edifício, de onde só saímos para voltar para casa. O caminho entre estes dois encafuanços é muitas vezes a única viagem do nosso dia. O caminho pode ser a nossa única liberdade, o nosso momento de vida selvagem, umas pequeníssimas férias, só ligeiramente proibidas, mas por isso mesmo mais merecidas.

Porque não havemos de ir pelo caminho mais bonito? Porque é que vamos sempre com pressa, sem tempo de reparar nas mudanças dos dias e das luzes e dos verdes? Porque é que não aprendemos com os turistas que gastaram dinheiro para vir para aqui olhar para as coisas em que já não reparamos?

Aprende-se muito quando se está a mostrar a nossa terra a uma pessoa amiga. Escolhem-se os caminhos que mais cantam, aqueles para os quais nunca temos paciência. O pasmo da nossa amiga abre-nos os olhos para a cegueira da nossa preguiça e falsa, falsa economia.”

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altos e baixos de um ciclista urbano, na medida exacta das biclas que sustenta

Um dos pontos altos na vida de um ciclista urbano é a eficiência da bicicleta na mobilidade urbana. Especialmente o modo como vive a cidade, evitando todo o stress diário proveniente das horas de engarrafamento urbano. Já um dos pontos baixos é quando em algum lugar ao longo do caminho a sua bicicleta faz birra.

Ultimamente as concubinas do meu agregado velocipédico têm-me dado água pela barba, a que não tenho, e feito desembolsar alguns muitos euros, que também não tenho. E a sequência de imprevistos têm-se multiplicado a um ritmo alucinante para a minha debilitada conta bancária. Cada qual na sua especialidade, e num curto espaço de tempo, para além de me terem deixado apeado, para depois voltar a casa a penantes, têm-me apresentado avultadas despesas de manutenção!

A coisa começou numa bela manhã quando levei a mais levezinha para um curto passeio e ela fez de mim o elo mais fraco. Subitamente, na mais inclinada escalada cá do burgo, a gOrka fartou-se dos meus abusos e quebrou a corrente que nos unia. Para mal dos meus pecados, e para lhe devolver a confiança e o glamour, tive depois de abrir cordões à bolsa ofertando-lhe fina joalharia italiana. Só depois de ver montados um desviador novinho em folha, a dentadura na roda e uma corrente de ouro, é que fez as pazes comigo. Assim, lá voltou ela toda lampeira a pavonear-se por aí.

Entretanto a Tripas teve uma contrariedade… quer dizer, eu é que fui contra um obstáculo. Numa noite escura e no regresso de um longo passeio, não enxerguei a borda de um passeio e assim se acabou o passeio. Assumo a culpa.  Tive um grande estouro a bordo da minha querida faz-tudo. Felizmente não senti a aspereza do asfalto mas fiquei de rastos quando vi a bela merda que fiz. O quadro não estava mesmo nada bonito. Ferida na sua beleza, a lista de danos é tão medonha que nem quero pensar. Ainda se encontra em reabilitação, internada nos cuidados intensivos da clínica iNBiCLA. Felizmente é recuperável, e dentro dos possíveis o prognóstico pode-se considerar favorável. Aguardo pacientemente voltar a tê-la nos meus braços, perfeita e refeita para me alegrar as pedaladas.

Na falta da Tripas, e para não molhar o rabo, nos dias à chuva tem sido a Maria del Sol a escrava para todo o commuting. Ora, com as molhadas invernais das últimas semanas a borracha vai desaparecendo dos calços, tal como os euros fogem dos meus bolsos. Mas já não é de agora que ela andava a pedir calços novos. Das últimas vezes que lhe apertava a manete do travão sentia cada vez mais forte um silvo metálico vindo do aro traseiro. Alerta imediato para se fazer o diagnóstico no especialista. E prontes, lá teve aqui o je de investir mais uns trocos num vêbreique ximano, a destoar de tudo o resto. Vai daí, no dia seguinte e no regresso a casa, talvez propositado por ter não lhe ter oferecido o par da frente para fazer pandan, ofertou-me ela um parafuso cravado no pneu da frente! Mais uma vez lá foi obrigado o pobre ciclista caminhar um par de quilómetros até à oficina mais próxima.

Mas a história não acaba aqui.

Ontem estava um belo dia de primavera inverno. Decidi que seria um dia perfeito para Sua Alteza dar um ar da sua graça e sair à rua. Sendo a fidalga uma bicla de requinte, achei que seria a altura ideal para a levar à secção de sapataria da Velo Invicta escolher uns bitorinos clássicos. Os velhos pneus já estavam a ficar mais carecas que o Barbosa. Pois a senhora não calça uns pneus quaisquer, não! 27 x 1 ¼ … e viva o luxo! Espantosamente, o serviço foi feito com toda a celeridade e mestria. Em meia hora já estávamos despachados, vai daí entendi estender o regresso ao doce lar e descemos à Ribeira.

Acelerava eu alegremente pela marginal do Douro quando começo a sentir Sua Alteza algo estranha. De início eram ligeiras as vibrações no guiador, as quais rapidamente foram dando lugar a saltos estranhos. Quando ela já ia aos pinotes abrandei, para de repente parar com o pneu da roda da frente estranhamente preso ao travão. Para meu espanto vejo o pneu fora do aro e com a língua à mostra! Que raios!!! O que se passou aqui? Uma vez que os pneus eram novos, caso tivessem pressão em demasia aliado ao aquecimento do ar no interior da câmara de ar,  não estando ainda a borracha do pneu bem “colado” ao aro, cedeu! Solução? Esvaziar totalmente o pneu frontal, recolocá-lo no aro e esperar que uma veloalma caridosa, e previdente, com bomba de ar para válvula shrader no kit de sobrevivência, me valesse. Mas não! Como ninguém apareceu, ou se voluntariou à força, lá tive eu, mais uma vez, de subir a íngreme Rua D. Pedro V a penantes de braço dado com a bela da bicicleta. Valeu o Urban Cicle Café estar a meio caminho e aberto para me restabelecer com um cimbalino e uma nata, e emprestar a bomba de ar para dar umas bombadas a Sua Alteza.

Bicicletas, vá-se lá entendê-las!

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fotocycle [221] simpli…cidade

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can’t miss [187] velopata

“Perguntam vocês “O que é um Velopata?”.

Tal como a descrição acima indica um Velopata é alguém que sofre de Velopatia, uma condição em que o indivíduo sofre de um amor incondicional por bicicletas. É alguém que acredita que o mundo seria um local bem melhor se TODOS andassem de bicicleta.

Não acreditam?” […]

Eu acredito, não fosse um caso perdido de velopatia aguda. Não fosse eu um velopata crónico, daqueles que não passa sem a dose diária de velocaína nas veias… acho que já estou a ressacar!

E acredito que, naquelas horas fora do selim, sentado numa cadeira rotativa em frente ao computador, tendo umas boas sessões de veloterapia literária, textos bem escritos, de ironia mordaz e boa disposição, velocomédia no seu melhor, me ajuda a passar melhor estes momentos de abstinência velocipédica… estou mesmo a ressacar!

Prontes, já que ainda é muito cedo para matar o vício ao pedal, vou aliviando os sintomas lendo as aventuras velocipédicas do Velopata. (https://velopata.wordpress.com/).

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entre a compaixão de quem envelhece ao volante, a ignorância dos pobres de espírito e a admiração pelos que pedalam contra ventos e preconceitos

Depois de ler esta “crónica” do Rafael Barbosa, editor executivo do Jornal de Notícias, vi a luz. Estive por estes dias a pensar e cheguei à conclusão que ando há anos a fazer isto mal! Afinal, “isto” é coisa de pobre! Isto de dar voltas e voltas aos pedais, enfrentando automobilistas e a chuva, exposto ao frio e ao sol abrasador, suando nas subidas, apanhando mosquitos nas descidas, ao vento, com lama nos pés e merda de pássaro no capacete, para chegar cansado e esfarrapado pelos tombos… Ando eu aqui a levar uma vida de pobre assim, me desapegando de tantas coisas boas da vida, como o quentinho da sofage, do ar condicionado, dos cavalos potência, do cú tremido! Que pai sou eu que deixa o filho sair à rua a pedalar para a universidade, coisa que faz desde os tempos da escola secundária, o que irão pensar de mim, meu deus! Que mau exemplo.

Bom, não vou negar que quem tem um carro velho, com quinze anos, estacionado na rua, e opta por uma bicicleta para se deslocar, de e para o trabalho, a fim de economizar na gasolina e no estacionamento (afinal de contas o preço do metro e do autocarro também não é barato) é porque tem um poder aquisitivo baixo, ganha mal e não se pode dar a luxos, não é mesmo? Por outro lado, usar o dinheiro que desperdiçaria com a gasolina poderia ajudar este pobre coitado a comprar comida no final do mês. Só que eu pensei em algo diferente, e só quem pode e junta um dinheirinho, pois que a pode comprar. A felicidade.

A bicicleta nos ensina que são as pequenas coisas que nos trazem a felicidade do dia-a-dia. E a felicidade também se compra, custa algum dinheiro, dinheiro que se poupa, na gasolina e no tempo, dinheiro que se gasta em manutenção e acessórios, ou na compra de mais uma bicicleta, que também não são nada baratas. Não quero dizer que o ciclista se contente com pouco. Longe disso! Mas digo que nós, os que entendemos bem o uso da bicicleta, não nos apegamos a coisas que nos trazem dor e sofrimento. Não nos apegamos a coisas que nos tiram a paz de espírito, e qualquer coisa que para muitos pode parecer uma criancice. Para nós ciclistas é algo muito agradável e maravilhoso: passear, trabalhar, divertir, viajar, conviver, entre muitas outras coisas.

Se perguntar a uma pessoa que trocou o carro pela bicicleta, para a sua mobilidade diária, como é que se sente hoje, certamente lhe dirá que se sente menos stressado, sente o tempo mais bem gasto e vê a vida com outros olhos. Nesta sociedade de consumo, onde o valor material tem um carácter muito mais fortuito do que essencial, fazer da bicicleta uma opção das nossas vidas não nos faz mais pobres. Podemos até ter o melhor carro, a maior casa do bairro, viver das aparências, coisas que só nos dão preocupações, a bicicleta pode ser, e é, a mola propulsora do sistema para uma melhor qualidade de vida. Dizer que “andar de bicicleta é coisa de pobre” é um preconceito descabido e retrógrado, de quem é de facto pobre de espírito, de quem sobrevive na bolha do popó, congestionando as ruas e as próprias coronárias. Deixa-te disso pá, desembrulha, pedala, sente a chuva na cara, sente o vento na pele, aprecia a paisagem à volta e a alegria de viver.

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reciclando [36] Stop. A vida parou. Ou foi o automóvel?

Desde novinho, ainda viajava eu no banco de trás do Fiat 600, aprendi a identificar a placa octogonal vermelha com quatro letras em branco e que indica paragem obrigatória (um triângulo invertido colocado dentro de um sinal circular onde constava a inscrição “Stop” foi usado durante anos). Desde crianças que todos fomos familiarizados com esse sinal de trânsito e o anglicismo inerente à palavra. Sendo um termo inglês, tem um significado universal e é conhecido praticamente em todo o mundo. Depois, com a licença de condução ainda verde na carteira, cumprimos religiosamente o código quando, ao volante, nos aproximamos de um desses autoritários STOP. Mas, com a prática e o consequente “à vontade”, o cumprimento vai abrandando. Às vezes, ao nos aproximarmos de um cruzamento, apenas calcamos o travão no último segundo. Olhar à esquerda, depois à direita, e, se não vier ninguém, então engrenar a primeira e voltar a acelerar. Se conseguirmos ver se caminho está livre, esquecemo-nos de parar ou, melhor ainda, de dar prioridade a quem a tem. A pretensão de obediência por vezes torna-se inconveniente. Nos sinais de stop, semáforo vermelho ou passadeira, alguns automobilistas hesitam, espreitam, reduzem a engrenagem mais para ver se a polícia está à vista do que para cumprir a regra, como se a simples presença da polícia o obrigasse!

O sinal de paragem obrigatória representa mais do que parece. Mais do que nos fazer parar e evitar um acidente, impõe-nos civismo, faz-nos recordar que estamos a jogar um jogo com a vida dos outros. Como ciclistas, devemos desenvolver o hábito de olhar para todos com desconfiança, principalmente nos cruzamentos. Mais agora, que não somos obrigados a ceder prioridade quando nos apresentamos pela direita, mas todos os veículos que se aproximam de um sinal de stop têm de parar. E eu presumo sempre que não vão parar. É raro o dia que testemunho automobilistas a falar ao telemóvel, na conversa com o passageiro do lado, a olhar para algo perdido no interior do carro. Até a comer ou a retocar o rímel no espelho retrovisor. Sinais que não estão a adoptar uma condução segura e que não estão minimamente atentos. A medida cautelar é soltar um pé dos pedais e preparar uma travagem de emergência, ou uma manobra rápida de evasão para evitar o encontro indesejado com a chapa de um carro. Por força do hábito, chamo a atenção dos automobilistas, mesmo que isso os irrite. Seja como for, na estrada, na nossa direcção, num cruzamento, quando não tivermos um sinal de Stop pela frente, nunca confiar. Quem nos diz que eles vão parar? E se não podem parar?!

ndr: “Stop. A vida parou. Ou foi o automóvel?”, é de leitura obrigatória o artigo de Carolina Toneloto: “O trânsito das grandes cidades faz com que a vida pare como no poema de Carlos Drummond de Andrade. Como viabilizar a mobilidade urbana sem causar tantos danos às pessoas, às cidades e ao meio ambiente?”

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