ciclista vs motociclista

À pergunta que já me fizeram quando me viram a pedalar pela cidade:

“Não é perigoso andar de bicicleta?”.

Oh pá, depende, respondi. Mas também te digo, se me fazes essa pergunta é porque tens a noção que o comportamento dos condutores não é o melhor. Mais a mais, sendo tu um condutor de um veículo de duas rodas com motor lá pelo meio já deves ter dado conta disso.

À terceira é de vez, costuma-se dizer. E porque hoje voltei a ser incomodado por um motociclista que me quis deitar fumo aos olhos, o gajo deixou-me pior que uma lesma quando me respondeu: “Eu também sou ciclista”!

Se a ignorância em relação às regras do Código da Estrada é um mal epidémico da trupe colectiva que segue a morte lenta do pára-arranca, aparentemente a peçonha do “sai da minha frente” buzinado é extensivo aos condutores de secadores de cabelo.

Ora bem, se há tempos a Câmara do Porto alargou a circulação de motociclos e ciclomotores em corredores BUS, eu não tenho culpa que os mesmos estejam constantemente ocupados por automóveis, uns estacionados, outros a tentar entrar ou a querer sair de um parque de estacionamento. Como deveria saber, sendo ciclista como diz, às bicicletas não é permitida essa benesse.

Seguia na minha, ocupando o eixo da via, numa via que tem dupla faixa de rodagem no mesmo sentido. Finda a via reservada a alguns veículos, tomo a minha posição na faixa mais à direita e percebo a buzina esbaforida de alguém atrás de mim. Um ciclomotorizado ultrapassa-me nem a meio metro do meu cotovelo e com a luva direita aponta para o lado, agita a mão dando-me a entender que eu deveria sair da sua frente e ir para o passeio, ou coisa assim!

Imediatamente à paragem no semáforo vermelho, de dedo em riste acenei-lhe um rotundo não e disse-lhe: Olhe lá, não estou obrigado a circular encostado ao passeio…

Hummffmummmffff…, resmungava-me o gajo de dentro do capacete.

Hããã, o quê? Não meu amigo, não sou obrigado a prestar-lhe vassalagem rodoviária. Circulo no eixo da faixa de rodagem o mais à direita possível, conservando das bermas, dos passeios e dos carros estacionados uma distância suficientemente segura para mim. Mais a mais, você deveria ter mantido uma distância lateral mínima de 1,5m. quando me ultrapassou, e em vez disso quase me vazou a vista apontando-me para o passeio!

Hummffmummmffff…

Hããã, o quê? Então o gajo lá levantou o capacete para me perguntar se eu sou ciclista!

Bem… olho para a bicicleta, encolhendo os ombros. O que é que acha?

“É que eu também sou ciclista e digo-lhe que tem de pedalar encostado ao passeio”, ripostou.

Você é ciclista!? Deve ser, deve, tipo ciclista de fim-de-semana! Abriu o verde… Olhe, passe bem… e cada qual foi à sua vida.

Acho que sei o que foi. O gajo terá ficado piurso quando, à entrada da rua de D. Manuel II, eu ocupei o espaço livre demarcado entre a faixa de retenção e a passadeira, um espaço existente na parte final da rua Adolfo Casais Monteiro, seguro para os ciclistas se posicionarem à frente dos demais veículos a motor enquanto aguardam o semáforo verde para transitar. E digo já que deveria ser assim em todas as intercepções.

Na estrada um ciclomotor não prevalece em relação ao velocípede. Ambos estão sujeitos às regras. Comummente são biciclos, dotados de duas rodas portanto, sendo que na rua as bicicletas e os ciclomotores ocupam sensivelmente a mesma largura de ombros dos seus utilizadores. E esta é basicamente a única semelhança entre a espécie ciclo, pois o apenso motor, a combustão ou eléctrico, faz toda a diferença. Obrigatoriedades, registos, seguros, são impostos à circulação na via pública, sejam motociclos, triciclos, quadriciclos, Mobiletes, Solex’s, com ou sem carro lateral, enfim a todo o tipo de veículos de duas rodas motorizados com pedais.

O ciclista saberá melhor que ninguém ocupar a melhor posição na faixa de rodagem. A actual estrutura rodoviária privilegia quase exclusivamente os motorizados, fornecendo aos utilizadores dos motores uma utilização desmesurada e egoísta do espaço público. Os ciclistas, como utilizadores vulneráveis da via, privilegiam a vida e zelam pela sua integridade física.

A manobra da ultrapassagem aos velocípedes por parte dos ciclomotores obedece às mesmas regras. Esperar uns segundos para depois voltar a infligir esse enorme esforço físico, que é pressionar ligeiramente o acelerador, deve ser penoso para os motorizados. A falta constante de se colocar no lugar do outro, o pensar no bem-estar do outro que circula à sua frente, só aumenta a falta de respeito e a agressividade.

Resumindo: para o motorizado, os ciclistas fazem o que querem, e ainda por cima não pagam nada. O motorizado, seja qual for o tipo de veículo, para o que sente o aumento dos impostos de circulação, o preço dos combustíveis, as crescentes limitações de circulação em centros urbanos, os controlos policiais, os engarrafamentos e a falta de estacionamento ilimitado, entre outras coisas, o ressentimento obtuso perante os ciclistas é espontâneo. E alguns ciclistas alinham nesse pensamento! Com pontos de vista profundamente contraditórios, dizem que uma vez ao volante cumprem escrupulosamente o código. Dizem que o cumprem sem saber que o mesmo já foi revisto e alterado, faz quatro anos. Acham que tendo um acelerador no pé ou na mão têm o direito a usufruir do mesmo a seu belo prazer. Mas, se nem os ciclistas se entendem, como vou esperar que os utilizadores da estrada se entendam uns com os outros? Ninguém cumpre nada e ponto final, parágrafo.

Também cumpriria a cem por cento se de facto as infra-estruturas rodoviárias fossem construídas a pensar em todos. Se houvesse uma fiscalização de facto efectiva e que devolvesse o sentimento de segurança às estradas. Se cada vez que pedalo numa estrada não tivesse de conviver com gente profundamente inconsciente. Manobras perigosas, excesso de velocidade, uso do telemóvel na condução, estacionamento ao deus-dará… Alguns ciclistas não cumprem as regras porque acham que as regras não se aplicam a eles. Pois bem, o sistema não foi feito a pensar neles, como tal sentem-se mais seguros assim. O presenciamento constante dos atropelos rodoviários aumenta a sensação de impunidade e de insegurança. Por isso mesmo alguns ciclistas dizem jogar pelas mesmas regras. Sendo confrontados diariamente com os abusos dos automobilistas, não admira que alguns sintam a necessidade de, por razões de segurança, fintar o CE.

Mas voltando à pergunta inicial, a minha resposta é: “Não. Pedalar na cidade ou na estrada não é perigoso, se forem tomadas algumas medidas a que se pode chamar de condução defensiva”. Isto significa uma condução prudente, atenta e sem precipitações, que não se limita a seguir as regras do código da estrada, mas que também tenta prever as possíveis situações perigosas antes que estas aconteçam. A diminuição da sensação de insegurança constante nas nossas ruas e estradas trará cada vez mais utilizadores de bicicleta.

isto sim é uma mota

Boas pedaladas.

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Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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apenas pedalar ao nosso ritmo.

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