engenhocas criativas, banais e outras que tais

Na leitura diária por coisas relacionadas com biclas, muitas vezes me deparo com inusitadas e interessantes criações. E uso a palavra “interessantes” com reserva, porque se muitas das invenções que encontro são geniais, na minha opinião, outras são muito fraquinhas, ou então são puras tolices potencialmente perigosas. E repito que é a minha opinião. Claro que se eu achar que tal criação se destaca eu publico. Não mantenho nenhum interesse no tipo de negócio e não sou pago pelos criadores e fabricantes dessas produções para publicá-las aqui.

Categoria soluções bué de fixes ou mesmo geniais: uma ideia luminosa

As luzes são um item essencial que deve equipar a bicicleta de cada ciclista urbano. Quando colocadas no guiador ou no guarda-lamas, as luzes pouco iluminam o pavimento por onde se pedala. Certamente que haverá uma série de soluções comerciais, mas quase todos elas serão muito caras. Pois o meu amigo Nuno criou uma solução em conta colocando um foco luminoso acoplado aos ilhós da forqueta da sua bicicleta. Com um par de baratos cabides de casa de banho “Grunthal”, alguns espaçadores de v-brakes, uma anilha, um parafuso M5 e respectiva porca. Aqui podem ver o gadget ao pormenor.

Categoria reinvenção da roda ou mesmo muito fraquinha: Um porta-couves todo macho para o ciclista urbano

Apresento o “The Bike Crate”, “uma solução prática e elegante para os problemas de transporte enfrentados pelo comum ciclista urbano”, dizem! Palavras minhas, eu diria que isto não passa de um caixote todo pimpão para que as biclas dos gajos não tenham de ser iguais às das gajas. Enquanto há cestas de bicicletas em muitos estilos para as bicicletas das mulheres, não é fácil encontrar boas soluções no mercado que se adequem ao estilo dos homens. Bagageiros e alforges frágeis vemos em muitas biclas, mas poucos desses produtos conseguem se tornar em práticas e elegantes soluções. Carregar pesados sacos plásticos no guiador, grandes malas ao ombro ou pesadas mochilas nas costas é desconfortável e muitas vezes não é seguro. “Eis um novo ícone que se vai tornar comum no quotidiano urbano como a vulgar cesta de bicicleta”. É mais ou menos este o conceito que os senhores da MAIK pretendem vender com isto:

Categoria ideias malucas e até potencialmente perigosas: uma carga de trabalhos

Este tipo cruzou uma bicicleta com um carrinho de mão! Não se sabe se foi por necessidade ou mero passatempo, o que se pode ver é que imaginação e alguma dose de loucura não lhe faltam. Pelo menos não lhe faltou criatividade e gostei de ver a adaptação que fez para unir os dois objectos. Quer me parecer que aquilo não passa de um brinquedo para impressionar as garinas. O ângulo do carrinho não permite carregar quase nada e é até perigoso pedalar aquela coisa pela rua. A única vantagem que consigo descortinar é, caso atropele alguém, o infortunado, ou afortunado, ficar sentado e assim fazer uma viagem de borla.

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a azulinha

a azulinha na clínica a receber um lifting

Um dos presentes mais formidáveis que uma criança pode sonhar é receber uma bicicleta. A Azulinha foi escolhida à medida do freguês, pois tinha de ser azul. Pesada como chumbo mas suave a rodar, esta pequena bicla ajudou o Rafa a crescer e a tomar o gosto pelas pedaladas.  A princípio ela o levava a passear com o pai e aos poucos foi-lhe dando uma liberdade e independência inéditas. Com ela, ele ia longe, rápido e sozinho a toda parte. Só que o Rafa foi crescendo e o seu selim não subiu mais. Foi trocada por outra bicicleta e acabou esquecida a um canto, a estorvar e sem serventia. No entanto a bicicleta tem várias vidas. Certo dia foi lembrada, levada e oferecida. Terá um novo dono para que volte a rodar em verdadeiras aventuras pelas ruas da vida. Para oferecer um belo sorriso a outra criança que com ela sairá em novas aventuras com um bando de amigos audazes e felizes.

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empreendedorismo: Ricardo deu a volta ao desemprego e vai fazer entregas de bicicleta

Por enquanto, o serviço vai abranger o centro do Porto. Foto: Alexandra D. Marques

O trânsito e o estacionamento dão dores de cabeça a muitos dos condutores que percorrem as ruas do Porto, mas não a Ricardo Duarte. O ex-topógrafo, de 34 anos, ficou desempregado e vai abrir a primeira empresa de estafetas ciclistas do Porto.

“Hoje em dia a ecologia é um assunto primordial, o custo e a eficácia idem aspas”, constata o mentor da HandBikeHand.

Empresas deste tipo já existem em muitas cidades europeias, inclusive Lisboa, o que inspirou Ricardo a trazer o conceito para o Porto.

As dimensões da cidade facilitam o serviço, que, para já, vai operar apenas no Porto. ”Consigo ir da parte ocidental da cidade à parte oriental em cerca de uma hora”, confirma Ricardo.

Tudo o que couber na mala

A paixão de Ricardo pelas bicicletas vem desde criança, quando andava com os seus amigos, até à vida adulta. Recentemente, fez uma viagem até ao Norte de Espanha de bicicleta.

Desde flores para a namorada a compras e projectos, “tudo o que couber na mala” é possível transportar.

O custo vai variar consoante a zona (há 3 zonas) e é mais barato se for feito antes da 13h. Uma viagem antes dessa hora dentro da zona 1 (baixa e centro histórico), por exemplo, fica por 6 euros.

As entregas ainda não começaram (Ricardo está a terminar o processo de formação da empresa), mas o ex-topógrafo espera começar a fazê-las a partir de dia 25.

“De um pequeno estudo do mercado que fiz, as respostas foram muito satisfatórias e existem algumas áreas que penso serem mais fáceis de atingir, como gabinetes de arquitectura e de engenharia, transportando projectos, desenhos, etc.”, avança.

Por enquanto, o projecto conta apenas com Ricardo, mas o objectivo é expandir o negócio e construir uma rede de estafetas que faça “uma distribuição diária” no Grande Porto.

Por:   – Porto24

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mind over mater, versão nocturna

Após ler o postal do nosso amigo César, lembrei-me da fotografia que tirei já altas horas na noite passada (mais precisamente às 23:30h), quando de volta a casa pedalava pela ciclovia do viaduto da Prelada sobre a Via de Cintura Interna.

Igual a tantas outras vezes, era esse o panorama àquelas horas: três imensas filas de veículos engarrafados a passo de caracol.

Faço minhas as palavras do César:

“É giro perceber que, desmontando o modelo, se consegue olhar para o carro com uma distância suficiente para o pôr em causa, tal como outra coisa qualquer. Pride!

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fotocycle [10] cavalinho

yooohhhh…

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keep on moving

Albert Einstein já dizia: “Viver é como andar de bicicleta: É preciso estar em constante movimento para manter o equilíbrio”.

E nem é preciso ser génio para perceber isso. Parabéns Sr. Einstein (faria hoje 133 anos).

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cidades a pedalar

Se há tendência urbana que parece ter vindo para ficar é a do uso da bicicleta no dia-a-dia. As autarquias investem na criação de percursos específicos, organizam-se movimentos e eventos de defesa deste meio de transporte – como os ‘encontros’ Cycle Chic, Bicicletada e Cicloficina –, surgem novas lojas de aluguer e venda de bicicletas e multiplicam-se os blogues dedicados ao tema.

Na região do Porto, por exemplo, é Gaia o município onde, a longo prazo, se pretende criar «um único percurso contínuo ao longo de todo o litoral» e «malhas de ligação entre a beira-mar e as zonas urbanas». Tem, actualmente, 11 ciclovias, num total de mais de 16 quilómetros. A mais recente é a da Avenida Beira-Mar, mas estão já projectados novos percursos na Madalena (Ribeira de Atiães), em Santa Marinha (Via da Misericórdia) e em Oliveira do Douro (Alameda do Areinho). A Câmara de Gaia prevê concluir «as duas primeiras até Julho e a última até final do próximo ano».

No caso do Porto, a ciclovia mais extensa tem oito quilómetros e faz parte de uma rede que, desde 2007, foi aumentada em cerca de 25 quilómetros.

«É notório, um pouco por toda a cidade, o aumento da procura por este tipo de transporte [bicicleta], cada vez mais associado às deslocações casa-escola e casa-trabalho – com especial incidência na zona da Asprela e em dias úteis», explica ao SOL fonte da autarquia. Nesta zona, onde se concentram inúmeras faculdades da Universidade do Porto, o projecto das ciclovias é mais recente, mas é também aqui que se pretende interligar todas as instituições de ensino superior.

Por outro lado, confirma fonte oficial da câmara portuense, «num contexto mais recreativo, existe um número crescente de ciclistas junto ao rio-mar, sobretudo ao fim-de-semana».

Matosinhos tem apenas três ciclovias, num total de cinco quilómetros, mas um projecto para, a médio prazo, criar «uma ciclovia ‘Atlântica’, ao longo de toda a orla costeira» do concelho, com sete quilómetros. Também neste município, a ideia é interligar os percursos numa rede.

Em relação às vias não específicas para pedaladas, Miguel Barbot, dono da loja Velo Culture, blogger e ‘activista’ do uso diário da bicicleta, aponta o Noroeste do Grande Porto como uma boa zona para pedalar. Destaca «o eixo entre a Senhora da Hora e a Boavista», por ser «uma zona muito grande, praticamente plana, onde se encontra de tudo um pouco – grande densidade habitacional, serviços, indústria, escolas, hospitais». Enorme potencial tem igualmente Matosinhos, onde «os grandes pólos habitacionais e de serviços se desenvolvem a apenas duas quotas».

Este consultor e micro-empresário pedala fervorosamente desde 2009 e vai para todo o lado de bicicleta. Diz que a sua vida mudou, a partir do momento em que a assumiu como principal meio de transporte. «Vivo a cidade a uma escala mais humana. Conheço, por exemplo, os merceeiros todos do bairro onde moro», revela o autor do blogue ‘Um pé no Porto e outro no pedal’.

Também em Lisboa, as ciclovias já estão ligadas em rede e, nos últimos quatro anos, houve uma grande evolução na criação de infra-estruturas e no uso da bicicleta na cidade. Segundo fonte do gabinete do vereador José Sá Fernandes, ao todo, a capital tem cerca de 40 quilómetros de percursos cicláveis e mais de 40 em Monsanto.

Nos últimos três anos, o município construiu três pontes pedonais e cicláveis – estando prevista a edificação de mais duas – e criou estacionamento para mais de 300 bicicletas, de forma a reforçar «uma rede ciclável contínua, de malha fechada, articulada com os transportes públicos e com o património ecológico e cultural», explica a mesma fonte.

«É um contributo para a inversão da tendência da utilização do automóvel privado em deslocações de curta distância, até cinco quilómetros, onde a bicicleta é um modo de transporte competitivo». E pode ser utilizado em deslocações diárias e de lazer.

Os troços mais recentes da ‘rede’ são a ligação entre a Rua Filipa de Vilhena e a Marquês de Fronteira, no alto do Parque Eduardo VII, e a ligação no Parque da Quinta da Granja; em curso está a obra da ciclovia de um quilómetro entre a Quinta do Alemão e o Parque da Belavista e em conclusão uma ponte pedonal e ciclável que liga as Olaias ao Parque da Belavista.

Muito por fazer

Na perspectiva de quem utiliza estes e outros percursos na cidade para se deslocar diariamente, Miguel Barroso, mentor do Lisbon Cycle Chic, refere que as Avenida Novas e a baixa pombalina «têm todas as condições para serem zonas excelentes para se pedalar», mas aponta a inexistência de ‘zonas 30’ e de medidas de acalmia de tráfego.

Miguel Barroso faz uso da bicicleta em cidade «há 20 anos» e é com agrado que vê que os «comportamentos [das pessoas] melhoraram substancialmente». Isto, porque, nos anos 90, «era uma aventura» pedalar, pois havia uma «falta de respeito gritante por parte dos automobilistas». E só no final dessa década do século passado é que «as coisas começaram a mudar».

Hoje, vê como positiva a criação de ciclovias, mas diz que «muita coisa pode ser feita» ainda. E dá exemplos: um controlo do estacionamento automóvel mais eficiente, a redução e acalmia do tráfego e a recuperação do papel do homem dentro da cidade.

Miguel Barbot concorda e diz que é preciso «controlar ainda mais a circulação automóvel, reduzindo os limites de velocidade, condenar, de forma veemente, comportamentos criminosos ao volante e sensibilizar os automobilistas».

Benefícios cardio-respiratórios

Além de ser amiga do ambiente e da carteira, a bicicleta traz benefícios à saúde de quem opta por este meio de transporte. Como explica Tiago Brito, personal trainer e coordenador de Treino Personalizado no Healthy Living Centers, em Lisboa, trata-se de «um exercício bastante completo, porque é capaz de proporcionar um bom treino aeróbio, ao mesmo tempo que tonifica e fortalece os músculos».

Quando se é iniciado, há alguns cuidados a ter, aponta Tiago Brito. Promover uma boa hidratação – sugere que se beba diariamente pelo menos dois litros de água e que se consuma sumos naturais, sopas, vegetais e fruta fresca –, aumentar gradualmente o grau de dificuldade, no que diz respeito ao tempo, à intensidade e ao percurso escolhido, e usar equipamento adequado e um cardio-frequencímetro são os conselhos do especialista.

Os benefícios ao nível da resistência cardio-respiratória e de força chegam ao fim de um mês. Isto a treinar três vezes por semana.

Fonte: Sol

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contratempo

yeeesssss…

by Lucas Arizaga

Primeiro lugar no Festival Nacional “Curta uma Bike”, realizado pelo Estado do Rio de Janeiro.

*Convidado para a mostra de videos da exposição “Bicicleta, História e Curiosidades”.
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sunday, lovely sunday

Estando eu acompanhado da minha gOrkinha, a fiel companheira dominical para uma ou outra pedalada mais vigorosa, o convite do Ricardo  deixado no FB para pedalar até Espinho numa tarde tão primaveril, até para ajudar a digerir o magnífico repasto caseiro, caiu que nem sopa no mel… vá se lá perceber a expressão!

Assim, fui ao encontro do Ricardo com o tranquilo oceano e um ventinho saboroso como companhia. Apanhado o cicloturista dou meia volta e lá seguimos serpenteando por magotes de gente que passeava distraída ao sol na ciclovia marítima de Gaia. A elegante Sophia ia atraindo os olhares de todos com quem cruzávamos e caso não olhassem com atenção, logo o Ricardo os alertava para a nossa passagem, tlintando a potente campainha da Velorbis e pregando uns valentes sustos ao pessoal. “Ei! Vejam lá se não cabem!!!”.

Não se entende como há pessoas que preferem o pára-arranca típico dos chamados dias úteis, em passo de caracol engarrafado nos carros sob este magnífico sol, quais estufas entupidas na marginal. Em certos locais mais parecia hora de ponta, e a larguíssima ciclovia de Valadares ali tão convidativa! Enfim, ainda dizem que a gasolina está cara.

Na Granja só mesmo o Alfa para nos obrigar a parar e, vai daí, aproveitei para um retrato ao boneco. Cancela aberta e bute circular um pouquinho pela barafunda da N109. Depois de gramar a pastilha no meio de outro engarrafamento masoquista, logo, logo, virámos  no Hotel Solverde e foi só aproveitar a ciclovia para Espinho e gozar a nortada que nos empurrava suavemente. Ponto de viragem na Rua 2, para relaxar na esplanada do Barco Boador e recarregar energias com cafeína e vistas desafogadas para o mar. À conta de olhares curiosos e comentários que se percebiam em surdina, não hajam dúvidas que a bicla do Ricardo era a sensação da tarde.

Há já um bom par de décadas, quando o meu país me chamou para prestar serviço militar (cof cof), passei um ano inteiro a conduzir um Unimog pelas ruas perpendiculares de Espinho. Como tal, conheço bem o seu emaranhado de arruamentos numerados e o percurso ideal para empreendermos o regresso seria pela Rua 23. A surpresa foi a certa altura perceber pela sinalização vertical que essa rua tem uma ciclovia, uma ciclofaixa, ou melhor uma oculta ciclopseudocoisa, e digo oculta porque na quase totalidade da sua extensão a rua estava ocupada por carros abusivamente estacionados.  What´s the news! (agora ao cuscar o Google Maps é que me apercebo que esse comportamento deve ser rotineiro).

O regresso foi calminho, pernas rijas e pulmões arejados pela maresia. Eu fiquei na Madalena e deixei o Ricardo a pedalar sozinho até ao Porto, mas como quem usa a bicicleta arrisca-se a encontrar um ou vários amigos a cada esquina, ou melhor, a cada pedalada, parece que a sua pedalada solitária foi por pouco tempo.  Ao que me foi dado saber, algures no seu regresso o Ricardo encontrou o Levi, a Duendedri e a Elisabete 🙂

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a plebeia do trânsito

Retirado do blogue vadebici.wordpress.com

“Milton Costa, Revista Alterosa (“Páginas Escolhidas”), Dezembro de 1960

Sempre que a encontro pela manhã, encostada à parede, cuido descobrir-lhe uma expressão de tristeza no guidão descaído. Examino-lhe os pneus, ponho as presilhas e saio. O selim, agora tão velho e apodrecido pelas chuvas e pelos sóis, faz-me pensar, amiúde, em um sapo amassado. Não há manápulas. A catraca estala na corrente, entre as conexões substituídas e os elos gastos. O eixo da frente geme nas esferas. Está velha, muito velha, a minha bicicleta.

Quando a comprei, contudo, não sabia que iria servir-me tanto. De madrugada, durante o dia ou à noite, ela está sempre à minha espera, ora semi-tombada numa sarjeta, ora apoiada num poste. Gemendo e estalando, subindo ou descendo, leva-me, paciente, pelas artérias movimentadas.

Sempre tive pena dela, como tenho pena dos pobres. Na interminável hierarquia dos veículos, uma bicicleta representa a classe menos favorecida. É a plebéia do trânsito. Tem que ir constantemente junto aos meios-fios, como quem pede esmolas nas portas das casas. É perigoso dar uma guinada à esquerda; o cadilaque luxuoso que vem atrás não a respeita e não a vê. Precisa vigiar duplamente os transeuntes, que lhe passam à frente sem receio, pois ela é pequena e leve – alguns canos, duas rodas, um selim. Várias vêzes, num só quarteirão, tem que deter sua marcha, aqui para evitar a criança que atravessa calmamente a rua, ali para não ser esmagada na sarjeta pelo Mercedes Benz que lhe fecha a dianteira sem cerimônia, acolá para não ferir o cão que a persegue latindo e mordendo-lhe os pedais.

Minha bicicleta, agora, tem biografia e experiência. Pode contar muitas histórias às bicicletas neófitas que andam aèreamente pelas ruas, como baratas tontas, como meninos pobres que não temem os ricos, menosprezando os grandes ônibus e os enormes caminhões, confiando mais nos freios alheios do que na sua própria perícia.

Fala-se, no entanto, em regras de trânsito. Mão e contra-mão. Preferenciais. Sinais semafóricos. Pura ingenuidade: uma bicicleta pode ir pela direita, que mesmo assim estará sempre contra a mão. Não há, para ela, vias preferenciais. E, conquanto os semáforos indiquem verde ou amarelo, ela pode continuar esperando que os carros passem primeiro, pois a sua côr é sempre de perigo, vermelha, vermelha, bem vermelha. As bicicletas novatas obedecem aos sinais luminosos das esquinas, mas a minha é velha e já sabe “não distinguir” as côres; é a prudência daltônica peculiar às bicicletas anciãs.

Muitas vêzes, muitas vêzes mesmo, a plebéia percebe que o FNM vem contra a mão, vem em cima dela, vai parar à porta de algum armazém para descarregar, pois de fato é muito trabalhoso, para um caminhão tão grande, fazer um “balão” na esquina próxima. Não há, então, saída para ela, senão a calçada. Ir para a frente, para o suicídio? Desviar para a esquerda? Parar? Pode bem ser que venha, atrás dela, no momento, um coletivo monstruoso. Escondida pelo FNM, prestes a surgir, é capaz de estar uma “perua” traiçoeira. Neste ínterim, enquanto a bicicleta se debate em dúvidas, o motorista do FNM, refestelado na boléia, sossegado como um animal bem alimentado, livre de riscos e incertezas, contempla o mundo com otimismo e pachôrra, como um burguês fazendo a sesta na varanda envidraçada de sua casa.

Minha bicicleta sabe que tem que se acautelar contra tudo e contra todos. Ninguém a acata. Ninguém lhe foge. Pesados veículos e fogosos semoventes passar-lhe-iam em cima se ela não saísse da frente. As motocicletas lançam-lhe insultos e ameaças no ronco dos motores. Lambretas sussuram presunções. Tudo e todos parecem querer seu fim. Um buraco na rua pode quebrar-lhe raios ou entortar-lhe um aro. Se, para seu dono conversar com alguém, ela está na calçada, os guardas a enxotam, furibundos, alegando que ela atrapalha os pedestres. Na rua, perturba o trânsito, a velocidade dos esganados de riqueza ou dos “play-boys”, a pressa das ambulâncias e da rádio-patrulha. Por que, afinal, inventaram as bicicletas?

Apesar de tudo, gosto de minha bicicleta. Velha e frágil, gemendo ou estalando, é um veículo individual e me permite, não obstante todos os impecilhos, estar comigo mesmo, sòzinho com as minhas saudades e as minhas esperanças. Posso estar sòzinho, sim, que ninguém quer ir sentado no cano, quase todos têm mêdo de cair de costas na rua…

Na grande árvore genealógica dos veículos, entre os automóveis de alta linhagem e os carros de anilina nobreza e linhas aerodinâmicas, a bicicleta é a plebéia, a plebéia do trânsito. Há, para elas, luzes vermelhas em todos os cantos, mas subsiste, conduzindo os operários ou os escolares, como uma engrenagem indispensável do progresso.”

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