textos de Marcos Paulo Schlickmann [3] O carro como serviço de transporte

A diferença entre um serviço de transporte e um património.

A Suíça, este país pitoresco que nos exporta chocolates, relógios e serviços financeiros, é provavelmente o único país onde há mais famílias vivendo em casa alugada do que em casa própria1. Atualmente lá a relação é 70/30, 70% das famílias vive em casa alugada e 30% vive em casa própria. Só para efeitos de comparação, Portugal é o oposto. 20% em casa alugada e 80% em casa própria.

Mas qual é a lógica de viver numa casa alugada? Acho que todos concordam que é sempre melhor decisão comprar uma casa, ao invés de alugar. Afinal a casa é um património (uma reserva de valor) que pode ser deixado de herança ou vendido com elevado valor residual (valor ao fim de vida). Na verdade o mercado imobiliário suíço é muito particular. As casas e apartamentos são muito caros quando comparados com outros países, a população é composta por muitos imigrantes e migrantes que se obrigam a alugar.

Ok, isso tudo é muito interessante mas qual a relação com o título “A diferença entre um serviço de transporte e um património”? A relação é a seguinte: Diferente de uma casa que é um património (reserva de valor) e que a maioria das famílias concorda que comprar uma casa é a melhor opção, um carro não é. Devemos considerar o carro como um serviço de transporte e não necessariamente como um património, uma ideia que precisa ser entendida para o bem do orçamento familiar e principalmente pelos jovens, que com menos de 20 anos de idade já têm empréstimos astronómicos por um produto (não um património!) que começa a perder seu valor assim que se coloca o pé dentro dele.

fig 1

Figura 1 – Brasil e seus carros caros e descartáveis. Fonte: http://valordosegurodecarro.com/consumo-de-combustivel-carros-gasolina-etanol

Eu não estou aqui defendendo que as pessoas não devam ter carro, muito pelo contrário, o carro pode ser um recurso importante para qualquer família. E acho que as melhores políticas são as que taxam de forma equilibrada a posse e o uso, e a consequente poluição, e não a compra do carro. Porém um dos piores exemplos que importamos dos EUA foi a lógica de que todos devem ter um carro e que um carro é um património. Não é um património! Diferente da casa, que dura muitos anos, o caro é como uma televisão, sua vida útil é curta e seu valor residual é irrisório. Logo que se termina de pagar é preciso vendê-lo e recomeçar o processo de endividamento e escravidão voluntária novamente. No fundo nós não estamos comprando um património, mas sim um serviço de transporte muito caro.

Exceto para carros de luxo que duram muito mais e são melhor construídos, os carros fabricados atualmente, de baixa cilindrada e conforto razoável, são verdadeiramente descartáveis. Essa lógica é muito boa para os governos: gera empregos na indústria automóvel, dá rios de dinheiro2 (o seu dinheiro suado) para os bancos em forma de juros indecentes e tira a obrigatoriedade de planear o transporte público com respeito, passando o dever de se movimentar ao cidadão. Esse é um dos motivos de termos, no Brasil mais que em Portugal, péssimos, vergonhosos, desumanos e decadentes serviços de transporte público, de infraestrutura para ciclistas e pedestres. Aliado a isso tudo, a indústria automóvel e o marketing fizeram um excelente trabalho desmerecendo o transporte público e a bicicleta, transformando-os em símbolos de fracasso, pobreza e infelicidade, e enaltecendo o automóvel como um símbolo de virilidade, sucesso e felicidade. Afinal todos temos direito de nos endividar.

Mas não vamos falar só mal dos EUA. Apesar de ser o país mais “Automobile-oriented” do mundo, eles foram um dos primeiros a perceber a diferença entre ter (património) e usar (serviço de transporte) o carro. E essa diferença foi transformada em dois serviços de transporte que estão em grande ascensão, os serviços de car sharing e car pooling. Tais serviços de transporte, juntamente com os demais existentes na atualidade e alguns conceitos básicos relacionados ao transporte de passageiros, serão explicados no próximo texto.

Figura 2 - Zipcar nos EUA. Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Carsharing

Figura 2 – Zipcar nos EUA. Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Carsharing

Para se ter uma noção dos custos do automóvel recomendo uma visita a estes dois sites, o primeiro para Portugal e o segundo para o Brasil:

  1. http://www.autocustos.com/;
  2. http://quatrorodas.abril.com.br/reportagens/servicos/custo-mensal-carro-752013.shtml.

Agora, cada um de nós pode se perguntar o que mais importa: ter 30.000 euros/reais na garagem a desvalorizar ou 30.000 euros/reais no banco a render.

Figura 3 - Bicicleta x Carro (O da esquerda queima gorduras e poupa dinheiro; o da direita queima dinheiro e poupa gorduras). Fonte: http://www.cycleharrogate.org/2012/05/why-cycle-harrogate-matters.html

Figura 3 – Bicicleta x Carro (O da esquerda queima gorduras e poupa dinheiro; o da direita queima dinheiro e poupa gorduras). Fonte: http://www.cycleharrogate.org/2012/05/why-cycle-harrogate-matters.html

Referências:

  1. http://www.helloswitzerland.ch/-/understanding-the-swiss-housing-market
  2. http://g1.globo.com/economia/negocios/noticia/2013/10/itau-unibanco-tem-lucro-liquido-recorrente-de-r-4-bilhoes-no-3-tri.html
Publicado em parceria público-pedalada | Etiquetas , , , | 1 Comentário

uma velocaixa com requinte

Velocaixa

Não é que faltem lá bicicletas bonitas!” Responderam-me os duendes quando fiz a vénia ao requinte de uma das novas produções da megastore do MMM. Ah pois não faltam, e a prova disso é a foto ali acima tirada numa destas tardes no “lá”, que é o bikepark improvisado no jardim da instituição onde também pico o ponto, com as motoretas em minoria.

Mal acabaram de receber as primeiras unidades das caixas de madeira que desenvolveram em mais uma colaboração com a Alice, os duendes de serviço esmeravam a Gazelle da Luísa (que podem conhecer aqui) com uma  caixinha de madeira muito bem feita, que é simultaneamente robusta e… leve (dizem eles e certifico eu)

Publicado em uma boa ideia | Etiquetas , , , , , | Deixe um comentário

all night (long)

Camo & Krooked

Publicado em abanar o capacete | Etiquetas , , , , , | Deixe um comentário

check and ride safe

pre-ride bicycle checklist

Publicado em outras coisas | Etiquetas , , , , , | Deixe um comentário

fotografia, pintura, escrita…

Vanmoof by OKERLAND /Dourobike

Vanmoof by OKERLAND /Dourobike

Marcas do tempo num Instagram com bicicleta por assinatura

“Rodrigo Meireles ou Atumacaco, como é conhecido nas poucas redes sociais que frequenta, tem a bicicleta como assinatura das fotos no Instagram. As portas e janelas estão entre as marcas do tempo que Atumacaco procura para partilhar na rede.”

(ver filme aqui)

David Pintor publica um passeio ilustrado por Lisboa

“O livro, a editar pela Kalandraka, é um passeio ilustrado por Lisboa, sem texto, com uma visão pessoal de David Pintor sobre a cidade, com elementos repetidos em todos os desenho: uma bicicleta, sardinhas que voam e o próprio autor, empunhando, por vezes, um violino.

 …

Em todos os desenhos há uma bicicleta vermelha, uma personagem que unifica as ilustrações e que dá o movimento para as paisagens desenhadas, e ainda a sardinha, “um símbolo muito próximo da cultura lisboeta”, disse.

 (continuar a ler aqui)

O tempo, esse ladrão de bicicletas

Estratos, por Rita

“Lá em casa, há uma bicicleta. Tem rodas, pneus, pedais. Não anda. Falta-lhe o ar.

É verde. Verde, da cor da esperança e não anda por faltar-lhe o ar. O tempo lho roubou. Não lho devolveu.

Devolver é palavra do Homem. (Já alguém viu um gato devolver um rato?) …”

(continuar a ler aqui)

Publicado em divulgação | Etiquetas , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

just do it

speedy

Quando se tem um trabalho onde se permanece muito tempo sentado à frente de um computador, com as pernas debaixo da secretária, para além da rotineira pedalada matinal de quinze minutinhos para o trabalho mas sem um gostoso e proveitoso regresso a casa, só porque o clima não está de feição para uma prolongada e descontraída pedalada de final de jornada ao longo da marginal, a solução é esperar pelo fim de semana e pegar na speedy gonzalez para sacudir a carcaça com uma valente pedalada.  

Só quem faz conhece a sensação de levantar antes do sol, numa manhã enevoada, comer bem, vestir o fato macaco, calibrar os pneus da bicla e sair na neblina matinal para respirar aquele ar urbano, tão fresco e puro, antes dos motores saírem ressacados das garagens. Depois, tem aquele silêncio que só as manhãs dos dias úteis, os de sábado e domingo, têm, apenas possível porque encontramos as ruas esvaziadas, sob o efeito de um viagem temporal, ou espacial, que me leva a época ou lugar que não se encontra no individualismo, na gritaria das correrias semanais.

A máquina do tempo está sempre lá, pronta e disponível, à minha espera. Qualquer bicicleta tem a vantagem e o conveniente pretexto de nos proporcionar saúde e bem-estar físico. Tem o poder de, no espaço de minutos, nos mudar o clima. Num instante envoltos na humidade do nevoeiro para logo a seguir aquecer o lombo sob um sol radioso. Qualquer bicicleta supre a rapidez de nos transportar a locais outrora coabitados, reviver momentos, conhecer pequenos recantos que de outra forma não seriam desvendados.

Volta e meia, invade-me um formigueiro nas pernas, que me atiça a rodá-las, que me leva a aproveitar o tempo, a liberdade, porque há uma estrada, um trilho, um caminho rumo a algum lugar que as rodas ainda não tocaram. Qualquer bicicleta serve a alma, a contemplação que se descortina após uma curva, o cume de uma montanha, o horizonte avistado, a sensação única de com ela termos conquistado algo com o próprio suor.

Vou mas’é desligar o computador…

Publicado em ele há coisas! | Etiquetas , , , , , , , | Deixe um comentário

vai uma volta de bicicleta?

O convite é da TSF, que ainda nos atiça a vontade de sair a pedalar partilhando uma seleção de fotografias da Reuters com bicicletas um pouco por todo o mundo, até mesmo quando o frio extremo as congela…

Fotogaleria em: http://www.tsf.pt/multimedia/galeria/Default.aspx?content_id=3523186

Publicado em fotografia | Etiquetas , , , , , , | Deixe um comentário

fotocycle [103] verão de S. Martinho

S. Martinho

quentinhas e boas no bucho

Publicado em fotocycle | Etiquetas , , , , , | Deixe um comentário

can’t miss [66] margarida.net

Nova rotina diária em bicicleta, queda, horseball e prova de vinhos!

margarida.net

“Uma das coisas que melhor me faz à saúde são… as greves do metro!

Há um ou dois anos as greves do metro permitiram-me mudar a rotina e em vez de apanhar o metro após chegar do comboio a Lisboa, fazer o percurso a pé. Ainda eram cerca de 15 minutos com passo rápido mas fazia-me muito bem e, apesar de inicialmente chegar ao trabalho com um pouco de asma, rapidamente isso deixou de acontecer.

Desta vez, a última greve do metro, permitiu-me mudar a rotina e experimentar ir de bicicleta! A pé seria um percurso demasiado longo do transporte que apanho agora e da nova localidade da minha empresa…”

(Continua a ler as rotinas da Margarida, de bicla e não só, aqui)

Publicado em can't miss it | Etiquetas , , , , , , , | Deixe um comentário

textos de Marcos Paulo Schlickmann [2] Carro x Cavalo

Muitas vezes me pergunto porquê ninguém mais usa o cavalo como meio de transporte. O cavalo até os primórdios do século XX era largamente utilizado como um meio de transporte individual, uma ou duas pessoas montadas no cavalo ou numa carroça, ou coletivo, 2 a 6 cavalos a puxarem um “elétrico”/bonde/Omnibus.

Figura 1 - Uso do cavalo como meio de transporte em Paris. Fonte: http://www.parisenimages.fr/fr/popup-photo.html?photo=211-11

Figura 1 – Uso do cavalo como meio de transporte em Paris. Fonte: http://www.parisenimages.fr/fr/popup-photo.html?photo=211-11

Entretanto os cavalos, como outros animais quaisquer, eram suscetíveis a doenças contagiosas1,2, cansaço (muitas vezes eram abatidos na rua pelo próprios condutores dos Omnibuses e deixados a apodrecer) e precisavam obviamente receber cuidados veterinários diversos, abrigo e alimentação. Porém não eram estas as principais preocupações dos donos de cavalos/empresas de Omnibus, passageiros e da sociedade em geral. A principal preocupação era a poluição!

O estrume (fezes) gerado pelos cavalos era de proporções inimagináveis. Os centros de provavelmente todas as cidades americanas (país onde o uso do cavalo como meio de transporte foi mais intenso) eram um verdadeiro esgoto a céu aberto, as ruas ficavam literalmente cobertas de estrume. No final do século XIX terrenos baldios em Nova Iorque, que tinha uma população de aproximadamente 160 mil cavalos para 2 milhões de pessoas, chegavam a ter entre 10 e 15 metros de altura de estrume3,4 que eram retirados das ruas! Aliado a isso, moscas, urina, carcaças e crueldade com os animais eram uma constante.

Porém os serviços de transporte estavam reféns do cavalo. Mesmo com a invenção da máquina a vapor e da rápida expansão dos caminhos-de-ferro trazidos pela Revolução Industrial, o cavalo era ainda essencial para fazer a ligação final entre as estações de comboio/trem e os armazéns e o centro da cidade. Esta situação começou a mudar com o aperfeiçoamento dos motores de combustão interna e com a invenção do automóvel. Esta invenção, iniciada por Carl Benz em 1886 e popularizada por Henry Ford, com a produção em massa do Ford T entre 1908 e 1927, provavelmente a maior invenção da história da humanidade, mudou drasticamente os padrões de viagem em todas as cidades do mundo, deu o descanso merecido ao cavalo, retirou a sujeira das ruas e tornou o transporte individual acessível a uma considerável fatia da população que não tinha condições e espaço para ter e manter cavalos.

 Hoje, mais de 100 anos depois do Ford T, vivemos a ilusão de que a poluição urbana ficou no passado. Antes a poluição era tão presente no meio da população que “se pisava” nela. Hoje ao invés de estar no chão ela está nos ares e nos nossos pulmões (inclusive nos pulmões de quem vai dentro do carro), em algumas cidades é visível a ponto de a cidade parar. (http://www.publico.pt/mundo/noticia/cidade-chinesa-praticamente-encerrada-por-causa-da-poluicao-1609887#/1). Mas como parar? Não era suposto o transporte transportar ao invés de parar? A OMS (Organização Mundial da Saúde) divulgou que em 2010 223 mil pessoas morreram de cancro/câncer do pulmão decorrente da poluição atmosférica5,6,7,8.

Enfrentamos agora um problema semelhante ao que nossos antepassados se depararam a um século atrás. Sem dúvida que a decisão tomada de trocar os cavalos pelos carros foi a melhor. Precisamos ser inteligentes o suficiente para saber que o automóvel não é mau, o mau uso dele que é. Portanto, temos que ter a frieza que eles tiveram ao perceberem que o mau não era o cavalo, mas sim o mau uso do cavalo, e buscar novas soluções de mobilidade tais como, veículos elétricos, incentivo aos modos suaves e transportes públicos, car sharing e car pooling. Afinal o ar, como a cidade, é de todos e é de ninguém, e preservá-lo não é nada mais que um ato de democracia!

Fontes:

  1. V. R. Vuchic, Urban Transit Systems and Technology. John Wiley & Sons, 2007
  2. http://www.thehenryford.org/education/erb/TransportationPastPresentAndFuture.pdf
  3. http://nofrakkingconsensus.com/2011/03/29/the-horse-manure-problem/
  4. http://www.uctc.net/access/30/Access%2030%20-%2002%20-%20Horse%20Power.pdf
  5. http://pt.euronews.com/2013/10/29/cancro-causado-pela-poluicao-governos-devem-agir/
  6. http://www.dailymail.co.uk/health/article-2465699/World-Health-Organisation-names-air-pollution-main-cause-lung-cancer.html
  7. http://www.who.int/gho/phe/outdoor_air_pollution/en/
  8. http://www.publico.pt/ciencia/noticia/poluicao-do-ar-causa-cancro-diz-organizacao-mundial-de-saude-1609483
Publicado em parceria público-pedalada | Etiquetas , , , | Deixe um comentário