textos de Marcos Paulo Schlickmann [2] Carro x Cavalo

Muitas vezes me pergunto porquê ninguém mais usa o cavalo como meio de transporte. O cavalo até os primórdios do século XX era largamente utilizado como um meio de transporte individual, uma ou duas pessoas montadas no cavalo ou numa carroça, ou coletivo, 2 a 6 cavalos a puxarem um “elétrico”/bonde/Omnibus.

Figura 1 - Uso do cavalo como meio de transporte em Paris. Fonte: http://www.parisenimages.fr/fr/popup-photo.html?photo=211-11

Figura 1 – Uso do cavalo como meio de transporte em Paris. Fonte: http://www.parisenimages.fr/fr/popup-photo.html?photo=211-11

Entretanto os cavalos, como outros animais quaisquer, eram suscetíveis a doenças contagiosas1,2, cansaço (muitas vezes eram abatidos na rua pelo próprios condutores dos Omnibuses e deixados a apodrecer) e precisavam obviamente receber cuidados veterinários diversos, abrigo e alimentação. Porém não eram estas as principais preocupações dos donos de cavalos/empresas de Omnibus, passageiros e da sociedade em geral. A principal preocupação era a poluição!

O estrume (fezes) gerado pelos cavalos era de proporções inimagináveis. Os centros de provavelmente todas as cidades americanas (país onde o uso do cavalo como meio de transporte foi mais intenso) eram um verdadeiro esgoto a céu aberto, as ruas ficavam literalmente cobertas de estrume. No final do século XIX terrenos baldios em Nova Iorque, que tinha uma população de aproximadamente 160 mil cavalos para 2 milhões de pessoas, chegavam a ter entre 10 e 15 metros de altura de estrume3,4 que eram retirados das ruas! Aliado a isso, moscas, urina, carcaças e crueldade com os animais eram uma constante.

Porém os serviços de transporte estavam reféns do cavalo. Mesmo com a invenção da máquina a vapor e da rápida expansão dos caminhos-de-ferro trazidos pela Revolução Industrial, o cavalo era ainda essencial para fazer a ligação final entre as estações de comboio/trem e os armazéns e o centro da cidade. Esta situação começou a mudar com o aperfeiçoamento dos motores de combustão interna e com a invenção do automóvel. Esta invenção, iniciada por Carl Benz em 1886 e popularizada por Henry Ford, com a produção em massa do Ford T entre 1908 e 1927, provavelmente a maior invenção da história da humanidade, mudou drasticamente os padrões de viagem em todas as cidades do mundo, deu o descanso merecido ao cavalo, retirou a sujeira das ruas e tornou o transporte individual acessível a uma considerável fatia da população que não tinha condições e espaço para ter e manter cavalos.

 Hoje, mais de 100 anos depois do Ford T, vivemos a ilusão de que a poluição urbana ficou no passado. Antes a poluição era tão presente no meio da população que “se pisava” nela. Hoje ao invés de estar no chão ela está nos ares e nos nossos pulmões (inclusive nos pulmões de quem vai dentro do carro), em algumas cidades é visível a ponto de a cidade parar. (http://www.publico.pt/mundo/noticia/cidade-chinesa-praticamente-encerrada-por-causa-da-poluicao-1609887#/1). Mas como parar? Não era suposto o transporte transportar ao invés de parar? A OMS (Organização Mundial da Saúde) divulgou que em 2010 223 mil pessoas morreram de cancro/câncer do pulmão decorrente da poluição atmosférica5,6,7,8.

Enfrentamos agora um problema semelhante ao que nossos antepassados se depararam a um século atrás. Sem dúvida que a decisão tomada de trocar os cavalos pelos carros foi a melhor. Precisamos ser inteligentes o suficiente para saber que o automóvel não é mau, o mau uso dele que é. Portanto, temos que ter a frieza que eles tiveram ao perceberem que o mau não era o cavalo, mas sim o mau uso do cavalo, e buscar novas soluções de mobilidade tais como, veículos elétricos, incentivo aos modos suaves e transportes públicos, car sharing e car pooling. Afinal o ar, como a cidade, é de todos e é de ninguém, e preservá-lo não é nada mais que um ato de democracia!

Fontes:

  1. V. R. Vuchic, Urban Transit Systems and Technology. John Wiley & Sons, 2007
  2. http://www.thehenryford.org/education/erb/TransportationPastPresentAndFuture.pdf
  3. http://nofrakkingconsensus.com/2011/03/29/the-horse-manure-problem/
  4. http://www.uctc.net/access/30/Access%2030%20-%2002%20-%20Horse%20Power.pdf
  5. http://pt.euronews.com/2013/10/29/cancro-causado-pela-poluicao-governos-devem-agir/
  6. http://www.dailymail.co.uk/health/article-2465699/World-Health-Organisation-names-air-pollution-main-cause-lung-cancer.html
  7. http://www.who.int/gho/phe/outdoor_air_pollution/en/
  8. http://www.publico.pt/ciencia/noticia/poluicao-do-ar-causa-cancro-diz-organizacao-mundial-de-saude-1609483
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Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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