“O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda
e de vez em quando olhando para trás…”

de Alberto Caeiro em “O Guardador de Rebanhos”
“O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda
e de vez em quando olhando para trás…”

de Alberto Caeiro em “O Guardador de Rebanhos”
Vou de regresso a casa e paro para desfrutar desta vista agradável. Sorvo da minha garrafa de água e procuro me refrescar um pouco. O dia está a findar, a brisa é leve mas os níveis do mercúrio continuam bem acima do costume para a estação do ano. O tempo quente e o sol inclemente que me acossa, acompanha o destino da centenária ponte que está ali, silênciosa, bem à minha frente.

Foi em 1877 que o primeiro comboio por ali passou. Se puxar pela imaginação, o eco da sua passagem faria agora ricochete no betão da ponte de São João, que lhe faz companhia vai para mais de um quarto de século. Nessa época, Eiffel ainda não tinha erguido a sua torre, que só assomaria os telhados de Paris 12 anos depois. A Torre Eiffel é o símbolo de uma cidade, de um país, um dos monumentos mais procurados do mundo, uma fonte gigantesca de receitas e um guia inabalável para atrair turistas.
A nossa Dona Maria, estrutura de uma extraordinária leveza, é inexplicavelmente um monumento esquecido, empecilho dispendioso segundo os que nos governam, e mesmo a sua fama, granjeada à custa da sua idade, elegância, e sobretudo da assinatura de quem a concebeu, é-lhe tantas vezes roubada em detrimento da ponte Luíz I, de Teófilo Seyrig.
O Porto Oriental é muitas vezes assim. Esquecido, incompreendido, injustamente desvalorizado. Temos ali uma estrutura valiosíssima, com a assinatura de um nome de importância mundial da arquitectura do ferro, e, por aqui, nem serve de atracção turística. Permanece hirta, exposta ao tempo e aos cliques dos turistas que de barco cruzam sob o seu belo arco metálico. Não tem serventia para nada, nem de apoio à circulação, nem ao serviço das suas cidades. Se não é possível outra adaptação, ferroviária ou rodoviária, porque não fazer dela uma via de circulação pedonal e de bicicletas?
Diz o calendário que estamos no Verão, mas ao que parece o gajo tem se borrifado prá gente e pirou-se lá prós paises nórdicos. O anticiclone açoreano tem andado por lá a espalhar brazas e a tonificar a cútiz pálida das moças loiras.
Chegamos a Agosto e o calor dá finalmente um ar da sua graça. Para contentamento do pessoal que já está a banhos, e para os que começam agora as férias, os termómetros vão bater no vermelho. Os bombeiros e os velhinhos que se lixem.
O estio é para todos, mesmo para aqueles que trabalham e não podem estender a toalha na piscina, à beira mar debaixo de um guarda-sol. A anunciada onda de calor, qual vaga de migrantes oriundos do norte de Africa, já se faz sentir. As poeiras do deserto vêm logo a seguir.
O fenómeno das altas temperatura não é de agora, são ciclos naturais que se repetem ao longo dos anos, e quando os incêndios fustigarem de novo o nosso país cá estarão os especialistas tudólogos cá do burgo prontos para incendiar as hostes.
Bem, mas sendo este um blogue dedicado à bicicleta e ao pessoal que lhes dá uso, cá vão umas dicas quentes e boas.
Com sol forte e calor de derreter a alma, o ciclista não tem ar-condicionado mas tem a possibilidade de pedalar ao ar livre, ir pela sombra, parar e se refrescar numa esplanada à beira rio. É claro que isto sou eu pr’aqui a reinar, mofado na estufa deste gabinete enquanto miro o relógio e vou contando os minutos para me pôr na alheta. Quando despegar daqui, vou pegar na bicla e ir direitinho à barraca de praia.

É quando o calor aperta que mais gosto de pedalar por ali, nas calmas, por um caminho mais longo e saboroso no regresso a casa. Isto meus amigos é qu’é qualidade de vida.
Pedalar debaixo do sol forte e um calor sufocante não é o ideal, mas algumas vezes é inevitável. O melhor é não exagerar. Chapéus… há muitos, e um capacete bem esburacado ajuda a arejar ao mesmo tempo que te protege a moleirinha do sol.
Espalhar camadas de protector solar na pele descoberta é sempre uma boa ideia. Mas já sabes, ciclista que é ciclista gosta de exibir o seu bronzeado à ciclista. Se puderes pedalar por caminhos arborizados melhor ainda, não só por que te livra dos raios ultra-violetas mas também porque a brisa tende a ser mais fresca. Podendo, leva uma abençoada garrafa de água. Hidratar bem, antes e durante as pedaladas, é essencial.
Considerando os inconvenientes do calor, pedala com calma e aproveita as descidas, mais do que as subidas. Se tiveres a possibilidade de mudar de roupa no trabalho, não abdiques de usar roupa de licra, daquelas que os “prós” costumam usar. Para além de serem muito confortáveis absorvem o suor do corpo e secam mais depressa.
Ah… e faz um pit stop sempre que sintas necessidade de te hidratar, e de ingerir suplementos alimentares, como tremoços.

* post patrocinado pela Super Bock e pelo grupo da sueca da barraca / esplanada na Rua do Ouro
Prontes, assim de repente são as dicas que me lembro. Agora vou me pôr ao fresco.

Optar pela bicicleta para a mobilidade na cidade, para ir e vir do trabalho, para os afazeres diários, para um passeio lúdico ou um treino físico, tem se tornado mais popular entre as pessoas. Há muito boas razões para que eu possa recomendar e essas razões são tão variadas quanto os tipos de ciclistas e bicicletas existem no mundo.
Apesar de algumas dificuldades enfrentadas pelos ciclistas, os bons exemplos multiplicam-se a cada dia. É o caso aqui do vosso amigo. Na minha saudável rotina, todos os dias deixo o popó estacionado à porta de casa (não é o da foto mas gostaria que fosse) e saio a pedalar uma das minhas biclas para o trabalho no centro da cidade. A minha residência fica distante cerca de quatro quilómetros do emprego e, para chegar ao serviço, levo aproximadamente 15 minutos. “Se eu fosse fazer o percurso de carro levaria mais tempo”.
O uso da bicicleta tem muitos outros benefícios e é exactamente isso que testemunho por malta que também opta pelas pedaladas. A escolha da bicicleta para a mobilidade melhora a saúde, o bem-estar e a qualidade de vida. Pedalar uma bicicleta nas rotinas diárias é uma forma de economizar. É um carro a menos que circula e isso pode contribuir para o meio ambiente. O número de automóveis a circular nas cidades aumentou muito e pedalar tem se tornado uma alternativa importante.
De qualquer forma, não digo que um tipo pegue numa bicicleta e se torne automaticamente num mestre zen. Na rua temos que lidar com os peões, automobilistas, subidas, furos e outros ciclistas, no entanto, comparar isso a ter que suportar horas de seca ao volante, viajar de pé no autocarro, no comboio, ou ser empurrado para entrar no metro nas horas de ponta, a nossa bicicleta permite que viajemos ao nosso próprio ritmo e escolher o nosso caminho.
Mas esta minha opção não é compreendida por algumas pessoas. Também acredito que não fossem algumas dificuldades muitas outras pessoas fariam como eu. Argumentam que não existem ciclovias suficientes na cidade e as poucas que existem apresentam imensos defeitos. Outra dificuldade apontada é a falta de estacionamento para bicicletas. Realmente circular de bicicleta nas estradas e ruas entre os veículos motorizados pode se tornar uma aventura, mesmo assim a pedalada vale a pena. Se rolares entre 5 a 10 km por dia, informo que é muito provável que a bicicleta é o meio de transporte que te levará mais rápido ao seu destino.
Depois já sabemos que no selim da bicicleta podemos desfrutar da paisagem, a partir de uma perspectiva privilegiada, e reconhecer lugares que de carro é de todo impossivel perceber. O carro em si é uma bolha, que supostamente visa proteger, mas, ao mesmo tempo, isola tudo à nossa volta, e nesse isolamento não vamos notar muitos detalhes bonitos das nossas cidades.

Boas pedaladas.
Diariamente vadio pela minha cidade no selim da minha bicicleta. Não há vidros fumados, interior climatizado ou cromos da rádio. Entre a sinfonia de ruídos urbanos e o vento nas fuças, ouço conversas, risos e espirros. Sente-se o cheiro da chuva na terra, dos charmes perfumes e das sardinhas assadas. Com o corpo em movimento, quase todos os sentidos são seduzidos. Descubro os pontos turísticos, as expressões nos rostos e os confins do horizonte. É das mais simples e agradáveis formas de explorar a cidade, especialmente a que amamos. Aproveito cada momento.

Eu já nem me lembrava da última vez que tive de vergar a mola à beira da estrada para trocar a câmara de ar a uma das minhas binas.
Sorte, ou talvez não, foi na volta doméstica do sábado passado que tive honras do primeiro furo de 2018.
Sorte, ou talvez não, subitamente o pneu perdeu o ar da sua graça depois de pisar o chão esburacado da avenida dos frondosos plátanos e dos chalés e solares antigos da Praia da Granja.

Contabilizados que estão quase cinco mil quilómetros de pedalada na conta corrente do eStrava, do corrente ano 2018 de sua graça, o facto de ter pisado tanto chão sem um furinho para amostra não tem só a ver com a sorte, mas também com a opção dos últimos espécimes de borracha preta. Schwalbe de seu nome tem sido a minha escolha, mais que acertada.
Posto isto, e posta a roda em su sítio, lembrei-me de remecher nos arquivos deste mofado blogue para uma revisão da matéria dada, no que a furos e remendos diz respeito, reciclando este postal educativo.
“Oh pai, o pneu da minha bicla furou! Posso levar a bicicleta da mãe?”
O telefonema já me prevenia que mais tarde iria despender uns minutinhos de puro entretenimento. Em casa dei conta que estava em rotura de stock, no que a câmaras-de-ar virgens dizia respeito, e aproveitei para reciclar a câmara furada, tirar umas fotos à operação e reciclar também uma resma de dicas sobre um assunto que é sempre chato.
Consoante a possibilidade e necessidade, vira a bicicleta de rodas para o ar, só porque pode dar jeito e facilitar a operação. Neste caso foi a da frente, a mais fácil de tirar, o que para o efeito apenas desapertei o aperto rápido. Se porventura as rodas estiveram apertadas com um parafuso, terás de estar munido com a respectiva chave inglesa. Outro pormenor é aliviar os travões. No caso, a bicla como tem V-brakes foi necessário soltar os braços que sustentam as pastilhas do travão. Com a roda fora e um jogo de alavancas de pneus, retirei o pneu do aro, parte por parte, até que um dos lados do pneu ficou solto do aro. Depois de sacar a câmara é bom não esquecer de tactear a parte interior do pneu, pois o causador da massada, um espinho, um caco de vidro ou de plástico, pode ainda estar lá e voltar a causar danos. Caso encontres alguma coisa roga-lhe uma praga e atira-o para bem longe.
Com a câmara cá fora e a bomba na mão, é dar umas bombadas de ar lá para dentro para encontrar o furo. Quase sempre se encontra com facilidade mas o velho truque de mergulhar a câmara em água e procurar a fuga pelas bolhinhas é infalível. Faz uma marca sobre o orifício e depois raspa com lixa até deixares de ver a marca. A finalidade de lixar é deixar a borracha rugosa para mais facilmente fixar a cola que se vai aplicar logo em seguida. Aplicada uma generosa dose de cola em cima e à volta do furo, numa área maior do que o remendo que irá aplicar, deixa-a secar um pouco. Aplica também um pouco de cola na parte interior do remendo e coloca-o sobre o furo, pressionando com firmeza durante alguns minutos.
Antes de voltares a colocar o pneu é aconselhável que verifiques também o aro e a fita de protecção, assim como dar outra apalpadela no interior do pneu de modo a não haver nada esquecido lá dentro. Volta a inserir a câmara no pneu, introduzindo primeiro a válvula no orifício do aro. Depois, bombeia um pouco de ar na câmara, apenas o suficiente para dares um ajuste do pneu no interior do aro com os dedos e certifica-te que a câmara não ficou torcida ou trilhada. Volta a colocar a roda na forqueta, ajusta a patilha do aperto rápido e o travão. Finalmente enche o pneu na pressão indicada e, caso tenhas vontade, sai e vai dar umas valentes pedaladas de satisfação.
… aqui o menino idolatra a sua bicla, a boa vida e a calma vastidão do oceano. Um refugio para o bulício enervado da urbanidade. Na bicicleta aproveito cada momento.


Diz que o verão está aí mas só mesmo no calendário. Ao sair de casa, para uma espécie de treino / commute dominical, para a casa paternal, olho para cima e um céu pardacento me cumprimenta. Primeiro dia de Julho e ainda não fiz um dia de praia. Tsss…
Diante dos meus olhos as nuvens parecem irritadas e aí me lembro da má previsão do dia. Um vislumbre de tempestade iminente faz-me acelerar a pedalada. Não é esta atmosfera amorfa e gelatinosa que me deixa de pé atrás. Começo mais lento do que o normal, inspiro e os pulmões que se enchem de ar húmido.
Em pouco tempo tenho a companhia do mar. O vento rodopiante me abraça e derrete levemente as gotas de suor que escorrem pela testa. Perdido em pensamentos, na luta desigual contra a ventania, a visão da intempérie pairando no horizonte parece-me ainda distante. Praias desertas de gente, maré vaza e um mar estranhamente calmo.
Passo pela meta mas não detenho a pedalada. Apesar do risco, ainda é muito cedo para parar. Tenho tempo para continuar e dar meia a volta na Granja. Sem hesitar mantenho a cadência, à bolina, contra o vento e em direcção à tempestade.
Com os sentidos em alerta máximo, cheiro a presença da chuva que promete abater-se sobre mim, em breve, a qualquer momento. Desafio o São Pedro para uma corrida. O suor escorre pelas minhas costas. O calor e a transpiração retida no spandex, faz o meu corpo se sentir como numa panela de pressão.
Chego ao ponto de retorno e detenho-me o minuto suficiente para um gole de água e uma fotografia. Quando aquele vento me chicoteia, meio de lado, do lado do mar, uma espécie de pânico a roçar o medo me surge. Uma espécie de formigueiro desce pelo corpo enviando choques eléctricos que activam as pernas.
Estando agora a pedalar para norte, o boost energético é tal que parece ter sido atingido por um raio. Com a estrada aberta à minha frente sinto a fúria da natureza a empurrar-me. A tempestade lambe as minhas costas, e aquele vento sulista a ajudar gasto menos de metade da energia.
Faço uma careta desafiadora à tempestade. Só mais um quilómetro o céu enche-se de fúria. O primeiro estrondo de um trovão faz tremer o céu e nisto chego, mesmo a tempo de vencer a tempestade e de me esconder. A vitória é minha. Ufa… Livrei-me da chuva mas não me livrei do chuveiro.

Era assim aos domingos à tarde. Sempre que o sol convidava e o meu dono estava de folga, eu os levava a passear por estradas sinuosas, para lugares distantes, desconhecidos e cheios de histórias para lhes contar. Roncava e rodava, carregado a subir montanhas e a descê-las sem medo. E quando vinham os primos eram sete, bem apertadinhos. Acelerava até onde podia, até onde o motor ia porque aquecia, até que parava à sombra para me arrefecer e os deixar esticar as pernas. Ficava estacionado a observá-los com os meus redondos faróis, fazendo companhia nas brincadeiras dos irmãos e dos seus carrinhos de plástico. Os catraios pareciam alegres, entretidos nas suas brincadeiras de faz-de-conta. Em poucos minutos o chão de terra ganhava desenhos de estradas que levavam para todos os lugares que a imaginação lhes permitisse, só não voavam porque afinal um carro não voa, ou voa? Eles eram engenheiros de miniaturas, construtores de estradinhas com os seus carrinhos viajantes de mil e um lugares.
Um dos meninos é chamado para ajudar a tirar as cestas de dentro de mim. Contrariado por ter que parar os seus jogos, o Paulo lá cedeu reclamando baixinho…
– Porquê eu, sou sempre eu!
O raio dos pássaros embirravam comigo ou eu embirrava com eles. Um deles chegou mesmo a pousar na minha branca e reluzente capota, e acho que com segundas intensõe…
– Ouve lá, e se fosses pousar as patas no… Buzinadela com ele!
– Não vês que me lavaram esta manhã!?
Não é que seja vaidoso, e nada convencido, mas tenho a certeza que aquela carrinha top model que acabou de estacionar me deu um pisca-pisca. Quem sabe se não trocamos umas buzinadelas ou uns sinais de luzes! Mas, e se ela for como as raparigas que não gostam de brincar com carrinhos. Vendo bem ela nem é para a minha cilindrada!
Ouço um chamamento familiar e os rapazes correm para o desejado lanche. Na manta estendida no relvado estão as guloseimas e todas as coisas boas que a mamã lhes preparou com tanto carinho. Não, não vou ficar para aqui a babar-me porque sei que no regresso me vão encher o depósito. Acho que vou aproveitar o ponto morto e tirar uma boa soneca…
Oupa… já estou a trabalhar e mal tive tempo para escovar o pára- brisas. Já estão todos cá dentro! De primeira engatada, faço-me de novo à estrada. Os miúdos não se calam, todos falam e cantam, mas não perdem pela demora. Já, já, vão estar todos a dormir, embalados pelas curvas, na calma da minha pequena potência. E não tarda nada, eles estarão de volta a casa e eu de volta à minha garagem.
