inverno

 

Vagueio vadio num espaço que me limita a existência. Desperto num lugar comum, entre sorrisos e carinhos, de afagos e delicadas brisas que me acalmam o alento. É o indefinido de mim que se apresenta reflectido no firmamento, cujo luzir da manhã me revela o presente. Não me detenho em águas tumultuosas, cujas ondas beijam ferozmente as areias da vida. Não me sinto dormente pelo gélido vento que me tolda os sentidos num caminho de aflição e desassossego. Percorro o caminho, saboreando cada partícula da chuva com uma sofreguidão e avidez como se me tivesse transfigurado numa criança de desejos incontidos. A estrada que me move está forrada de algodão doce, abençoada brandura que me intoxica os humores. Não lhe sinto azedume, travo amargo ou dificuldade. Não lhe vejo obstáculos que me firam o rodar. Miro um horizonte límpido, cuja linha do infinito me cumprimenta num aceno feliz e convidativo. Prossigo, liberto de tudo o que me apoquenta, numa pedalada segura, firme onde os pormenores da vida se aparentam cristalinos como as águas de um rio feliz e calmo.

 

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um país em duas rodas

Encontrei um filme que mostra um quotidiano e estilo de vida notáveis. Remonta aos anos 50 e a um país do norte da Europa, à Holanda, o país das tulipas. Assim que o vi, esbocei um sorriso pelos insólitos modos (aos nossos olhos) que dão ao uso de um meio de transporte tão básico. Fiquei fascinado e fui logo pesquisar sobre a intimidade que os holandeses têm com as bicicletas. Até parece que eles já nascem sentados num selim a rodar os pedais. Muito provavelmente até aprendem a pedalar antes mesmo de saber andar. Na Holanda, andar de bicicleta é tão espontâneo como caminhar. Para se ter uma noção, actualmente existem cerca de 18 milhões de bicicletas, uma média de 1,1 bicicleta por habitante. Resulta que para eles, de todas as gerações, é natural fazer em cima de uma bicicleta aquilo que eu só aprendi aos 6 anos, deixei aos 18, e voltei depois dos 30, tudo o que pudesse sequer imaginar. Aquilo que para mim é hoje a minha realidade e um benefício extraordinário.

 

 

A Holanda é um país muito chato. É claro que quando digo chato digo plano, estão a ver!? A maior “montanha” terá uns 300 metros e é um país pequeno, com tudo perto. Da paixão que os holandeses nutrem em pedalar desenvolveram toda uma cultura impressionante, a 10 km à hora. As “fietsen” (“fiets” é bicicleta em holandês) estão por toda a parte. Um dos maiores clichés de Amesterdão, juntamente com os canais, as drogas e a prostituição legalizada, são as bicicletas que dominam o trânsito e as paisagens. São mais de 400 km de vias exclusivas às biclas. Se estiver a chover, ou a nevar, eles põem uma capa de plástico em cima do lombo e pedalam sem medo. As crianças vão nas cadeirinhas, à frente e atrás, para a escola. As mamãs vão depois ao mercado e regressam a casa carregando as compras do dia. Também são exímias em segurar o guiador com uma mão e com a outra escreverem mensagens no telemóvel. O pai já saiu a pedalar a sua bina para o escritório, de fato e gravata, e a segurar uma pastinha sem problemas. A senhora volta a sair de casa a pedalar, cabeça levantada estilo executiva, vestido da moda e salto alto para deslumbrar no caminho. E todos vão sem capacete porque ali, ali eles sabem andar de bicicleta… E eu que nunca estive na Holanda!!!… 

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um eléctrico chamado velho [2]

(A Praia de Matosinhos) – foto: Filo Ladeira
 

 

Naqueles dias quentes e tórridos das grandes férias de verão da nossa infância, caso eu o meu irmão ainda não tivéssemos ido para a aldeia ou para um parque de campismo, havia um destino mais do que desejado. A praia. E a praia de eleição era a Praia de Matosinhos. O ponto de encontro por excelência naquele extenso areal era na Bola da Nívea. Mais tarde íamos a banhos de sal e de sol, corridas e partidas de futebol, piscar o olho às miúdas, tudo num convívio descontraído com os amigos de sempre. Um cardápio perfeito para se absorver todo aquele imenso tempo livre que tínhamos. Mas não é da praia que quero falar. Como prometi no poste anterior resolvi contar a viagem mais radical que fiz da minha inconsciente, ou inconsistente, adolescência, vivida a bordo (!!!) de um eléctrico da Linha 19.

 

(O 19 na rotunda do Castelo do Queijo, a fortaleza ao fundo. Do outro lado é visível o que restou do petroleiro Jacob Maersk, a proa encalhada nas rochas da praia) – foto: Bahnbilder.de

 

O sol baixava lentamente o seu pano prateado sobre o oceano no final de uma dessas maravilhosas tardes de praia. Era hora de regressar a casa. Com a pele temperada de sal, sandálias nos pés cobertos de areia, mochila pesada às costas, eu e o Geno seguíamos para a paragem do autocarro com a conversa solta. Íamos tão distraídos que nem demos conta que os outros estavam com pressa. O normal seria apanharmos o 88 só que o resto da malta e o meu irmão resolveram ir ao centro comercial Brasília na Boavista. Talvez nos tenhamos esquecido, já não sei. Vai daí, todos eles entraram no carro eléctrico que estava lá parado. Depois foi um corre-corre louco para alcançar o 19 que iniciava a marcha. Chegados bem perto do veículo percebi que aquilo estava pior que sardinha em lata, não cabia mais ninguém, nem mesmo nas escadas. O eléctrico a acelerar nos carris e eu a ficar para trás. Mas o Geno foi rápido a decidir. Saltou para as escadas da outra porta e atirou-me o desafio: – Anda lá, sobe para aqui. Só que eu estava prestes a perder o fôlego, instintivamente saltei, apoiei um pé no ferro do atrelado e agarrei com as duas mãos o sarilho metálico que recolhe e enrola a corda da vara de trólei, sem sequer imaginar no sarilho em que me estava a meter. Logo eu, um inexperiente na arte do pendura, estava ali em transgressão e bem lixado por sinal. Para além de umas aventuras malucas na bicicleta ou nos carrosséis de cestas, nunca antes havia experimentado tão radical desporto. E o eléctrico acelerava em direcção à rotunda do Castelo do Queijo, transferindo toda a sua energia cinética para o meu corpo. O peso da toalha molhada que carregava na mochila puxava-me para baixo, as sandálias escorregavam da barra de ferro, os braços resistiam mas os dedos ardiam de dor. Porque é que isto nunca mais para, pensava eu enquanto sentia lágrimas a escorrer no meu rosto. Só não percebi se seriam do vento ou do terror que sentia. Olhava para o Geno e ele ali, nas calmas. Olhava para os paralelos da estrada que passavam debaixo dos meus pés cada vez mais ameaçadores. Olhava para a janela em desespero mas não via nada. Eram mínimas as hipóteses de evitar cair e vir a ser passado a ferro pelo carro que vinha atrás, quando recebo um socorro inesperado de um qualquer anjo da guarda. A janela do eléctrico desceu, sairam lá de dentro duas mãos vigorosas que me agarram os braços e me puxaram para cima. Logo depois o eléctrico desacelerou nas agulhas para entrar na rotunda e parou para largar e receber passageiros. Ainda com as pernas a tremer e imobilizado de medo, prometi-me ali mesmo que voltaria a entrar nos trilhos. E entrei, entrei no eléctrico porque nunca mais andei pendurado nele.

 

(Os penduras do carro eléctrico) – foto: Museu do Carro Eléctrico

 

Mãe e Pai, eu sei que vão ler este relato pela primeira vez. Muitas das aventuras por que eu e o Tó passamos só não as contamos na altura para não vos preocupar, acreditem. E quero que se lembrem que caso reprovem este inconsciente comportamento, o que é natural, estou quase nos 45. Portanto, tenho já idade suficiente para não ficar de castigo!

 

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um eléctrico chamado velho [1]

(Dentro do 22 à espera do 18 para o transbordo de passageiros) 

Li ontem na imprensa que no Porto os eléctricos andam mais cheios. Congratulo-me que este meio de transporte colectivo urbano e tradicional se mantenha em franca actividade. Em 2010, viajaram a bordo das três linhas de carros eléctricos da STCP (Sociedade de Transportes Colectivos do Porto) 390.000 passageiros, um aumento de cerca de 30% relativamente a 2009. Trata-se de um número recorde de pessoas transportadas desde a abertura ao público da Linha 22. O carro eléctrico é um meio de transporte recordado com saudade por muitos tripeiros. É com nostalgia que muitas vezes entro no 22, ao Carmo, atravesso o jardim da Cordoaria, desço os Clérigos, passo na Praça, subo a 31 de Janeiro, Santa Catarina, e desço na Batalha ou nos Guindais.

(Dentro do 22 a descer a Rua dos Clérigos)

A primeira linha de eléctricos da Península Ibérica foi inaugurada no Porto a 12 de Setembro de 1895. Nestes 116 anos, a rede de linhas de eléctricos teve um importante desenvolvimento, cobrindo praticamente todo o território da cidade e chegando aos concelhos limítrofes, a que se seguiu um processo de declínio que, designadamente na década de 80, levou a que este tipo de transporte passasse a ser praticamente marginal. Aos poucos, os eléctricos foram sendo postos de lado, desaparecendo das ruas. Começaram a aparecer os tróleis, depois os autocarros e o metro. Apenas o 18 se manteve em circulação, entre o Carmo e Massarelos, fazendo ligação com a Linha 1 que circula na Marginal do Douro, entre o Infante e o Passeio Alegre. Fica entretanto, e infelizmente apenas pela vontade, o desejo de ver o eléctrico chegar ao Castelo do Queijo, de o 19 voltar a subir e a descer a Avenida da Boavista, e a ligação entre o Infante e a Estação de São Bento pela Mouzinho da Silveira.

(O Turístico outra vez “bloqueado” em frente ao Hospital de Santo António)

O ressurgimento da Linha 22 e a Linha T, a turística Tram City Tour, foram uma mais-valia para a cidade. Costumam dizer, e com razão, que o “velho” torna a cidade mais bonita. Este é um meio de transporte muito agradável, não poluente e arejado, contemplativo, adequado ao turismo e à fruição de importantes espaços paisagísticos do Porto. Permite que as pessoas se movimentem no centro, melhorando a mobilidade e ajudando a retirar os carros dos passeios… quer dizer, isso quando os xôres automobilistas não se lembram de deixar os seu popós sobre os trilhos (o que é recorrente), estorvando ou mesmo impedimento a circulação. Em 2009 esse comportamento desadequado teve como consequência a imobilização dos veículos que totalizou 372 horas, o que corresponde a uma perda efectiva de 647 viagens de carro eléctrico.

(Ali um Audi devidamente “electrificado” com um “bilhetinho” lá para casa)

Para terminar só informar que anualmente o Museu do Carro Eléctrico organiza um belo cortejo com carros eléctricos históricos que desfilam pela linha da marginal relembrando assim o passado.

No próximo poste contarei a viagem mais radical da época da minha inconsciente, ou inconsistente, adolescência, vivida a bordo (!!!) de um eléctrico da Linha 19.

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cultivando a amizade

A amizade é um sentimento que prevalece quando sincero. Deve ser um dos sentimentos mais autênticos que se pode ter por alguém, com entrega e partilha autênticas. Muito se fala deste nobre sentimento, práticas muitas vezes preenchidas de falsidade. Usa-se e abusa-se do valor da amizade com um descaramento tal que por vezes até enjoa. Ser amigo de alguém é ser companheiro sobretudo nas alturas menos boas. É ser conivente e dar apoio. É sentir felicidade quando os amigos estão felizes. Nem sempre se consegue isso, a vida obriga a uma dispersão de atenções, mas que nunca seja perversa e interesseira, caso contrário a palavra amizade estará desprovida de sentimento. Temos duas mãos, uma para dar e outra para receber, que dispensam outro tipo de interesses, e a isso é que eu chamo amizade.

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a encher pneus também serve

Não ter a mínima ideia do que escrever e tentar escrever, é como sair de bicicleta e só resolver aonde ir quando já estiver a caminho. Se bem que sair a pedalar assim é bem mais fácil, pois só se está condicionado à escolha do destino. Numa página em branco, o/a ciclista das palavras não tem esse poder. Ele/a não pode decidir aonde ir. Limita-se a uma combinação de oportunidades que é mais difícil de acontecer se não tiver uma bicicleta para pedalar. É preciso que tenha audácia, aventura, capacidade, dom, prática, inteligência, conhecimento, ânimo e café, todos ao mesmo tempo (pronto, o café pode ser com adoçante ó faxabôre). Se esses atributos não surgirem combinados, então só dá para encher chouriços. Como é muito difícil de surgir aquela combinação do nada, encher chouriços com alguma desenvoltura também vale. E é um excelente trunfo para encher uma página em branco (ou um post). Creio até que a maioria das crónicas geniais que leio por aí saíram de uma página branca de ideias e, naturalmente, saíram do enchimento de chouriços.


n.d.r.: a relação entre página em branco e o acto eleitoral de Domingo é pura coincidência.Have a nice weekend.
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delírio

Já estou bem melhor, obrigado pelo vosso cuidado. 

Ontem, na minha quarentena forçada, descontraído na arte de não fazer nada e quase a atingir a fase Zen, delirei sobre o que poderia fazer quando não se tem nada para fazer! Aliás, para dominar esta técnica é necessário alguma preparação prévia e passa por não fazer nada. Mas afinal, se não tinha nada para fazer, não podia ou deveria fazer nada porque, nesse caso, sempre teria alguma coisa para fazer! Como se pode ver, não ter nada que fazer é mais complexo do que se poderia imaginar! Pois neste momento, gostaria de dizer que não tenho nada para fazer, mas estaria a delirar novamente porque tenho imensa coisa para fazer e, no entanto, encontro-me a blogar, o que leva a crer que pelo menos uma coisa tenho de fazer! Acabar o poste e recomeçar a trabalhar!

 

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possibilidades

Choveu muito durante estes dias e em quase todos eles o sol esteve longe. Hoje espreitou-me à janela, clareou o meu nicho de conforto, temperou o meu corpo dormente, e deixou-me um convite para abalar ao seu encontro. E sempre que posso vou buscá-la, triste no seu canto, e pedalo nela, brindando-me de consolo para o qual foi feita. Era muito suave a brisa que me balouçava na manhã fina, nas margens do Douro. Apoiado, estico-me para a frente para ver a estrutura da ponte e a força da corrente, que por baixo de mim corre para o mar.

Baloucei errante na plataforma rodada que alberga certezas e ficções, junto à melancólica marginal criando a sensação de estar em Veneza, mesmo ali, no Porto, enquanto do lado de lá, em Gaia, se sente o silêncio e a tranquilidade que imperam voláteis como o calor entre tonalidades frias. Não é só a intensa coloração dourada, nem a natural impetuosidade que o define. O Douro desliza encorpado, quase gelatinoso, sob a atmosfera luminosa deste tormento invernal.

Aqui o tempo passa depressa, ritmado pela própria cadência do Douro, que parece contrariar o marasmo da cidade. E ela, ignóbil bisbilhoteira, adora lá estar, a viajar suavemente pela cósmica visão do caminho das estrelas, sem para-quedas nem passaporte, invadindo o espaço cósmico e levando-me consigo, alapado no seu selim, como se fosse num qualquer satélite buscar o desejo, o despique do vento e a conquista das ladeiras, nesta elevada e deslumbrante liberdade que é pedalar.

Inspirar o aroma da maresia que se sente, a pureza e a braveza das águas rebeldes ou a educação de um iluminado motorista que passa por trás de mim, buzinando e acordando-me da sensação de estar num lugar estranho, coberto por lençóis e cores desbotadas de ilusão.

É melancolia, mas também um impulso, o que sinto quando passeio por estes caminhos de solidão e aprecio o casamento perfeito do rio e das azáfamas. Das gentes, das peixeiras, dessa nobre e descomplexada paixão pelo mar e pelo que é religioso. Dessa simplicidade de uma vida que estende os trapos entre o pestanejar sonolento de um dia de prazer.

E sentei-me quedo e calado junto ao mar, a assentar ideias e pensamentos, deixando-me empurrar pelo movimento das ondas e pelo sussurrar da rebentação. De me alongar um pouco mais sobre este cruzeiro portuense. Mas o relógio não me deixou envolver pela preguiça e me desopilou dos pensamentos para retomar o meu caminho…

…rumo ao Sol.

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de passagem

Com a insignificante excepção dos anos bissextos, todos os anos duram o mesmo tempo? Relativamente, sim. Mesmo que no final de cada ano achemos que esse “sim” foi um ano que passou rápido? Tecnicamente, a resposta é não. De cada pessoa com quem falo, de algumas conversas que ouço na paragem do autocarro ou nas mesas do café, o que mais se diz por aí é que o ano passou devagar. Ora, eu tenho a ideia que um ano parece durar mais ou menos do que outro, ou porque um gajo andou entretido, ou então por que o viveu de uma forma aborrecida, entediado a fazer contas à vida. Um minuto, um segundo, pode durar mais do que outro, pode ser mais bem aproveitado se for vivido de uma forma intensa e apaixonada. É verdade que isso não passa de uma teoria, mas para mim 2010 passou a voar. Aliás, todos somados, fica aquela sensação que, porventura, os anos passam sempre depressa demais. De que o tempo corre quanto mais velho se vai ficando. Parece acelerar e ganhar balanço à medida que avança. O que é deprimente quando se sabe o que nos espera no fim da linha. Então, para variar, mais vale aproveitar os segundos todos que temos pela frente e acelerar ou diminuir a cadência para aproveitarmos a viagem, porque senão a vida é uma monotonia. Oh meu filho, nós estamos só de passagem, já dizia a minha avó.

Na passagem d’ano:

– Oh pá, boas entradas.
– Ahhh, obrigado… Mas olha que ainda não perdi muito cabelo!

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mobilidade que contagia

Assim que vi este cartaz no metro pensei cá com os meus botões: “olha pá, chegas atrasado 30 anos”. No tempo em que eu calcorreava Fânzeres e Rio Tinto, de casa para o colégio na camioneta da Gondomarense e do colégio para casa de autocarro e troleicarro, ou então era assim, fazia longas caminhadas, entre aventuras e coisas de rapaz, só para poupar umas moedas para gulodices. Nesse tempo é que o metro me teria dado jeito, pensei eu! Bom, é certo que agora também me dá, e que jeito, só que a viagem é na direcção oposta. A finalidade da mobilidade, de um sistema de transportes eficaz nas cidades, é a movimentação de pessoas e não de veículos. É sempre bom saber que a mobilidade urbana se está a expandir para um dos concelhos mais populosos da área metropolitana e muito deficitado em meios de transporte.

Segundo a Metro do Porto, ao longo de cerca de 60 quilómetros de extensão da rede, nestes oito anos o metro transportou 275 milhões de passageiros e percorreu cerca de 32,7 milhões de quilómetros, o que corresponde a 2.500 voltas ao diâmetro da Terra. A nova Linha Laranja (Linha F), a sexta linha do Metro do Porto é inaugurada e entra em operação comercial regular no próximo Domingo, dia 2 de Janeiro, ligando O Estádio do Dragão a Fânzeres e passando a servir o concelho de Gondomar mas, conforme se previa, não chega ainda à sede do concelho. Com o novo percurso, que representa um investimento de 135 milhões de euros, a Metro do Porto totaliza 80 estações ao longo de 67 quilómetros de linhas. As estimativas indicam que a Linha Laranja implicará mais de 12 milhões de passageiros por quilómetro, apontando benefícios sociais e ambientais na ordem dos 176 milhões de euros, ao longo de 20 anos.

Durante esta semana, entre o Natal e o Ano Novo, as viagens são gratuitas nos sete quilómetros de extensão e visam permitir à população das zonas servidas pela nova linha um primeiro contacto com o metro. As composições circulam sobre um tapete de relva, projectado pelo arquitecto Bernardo Távora, tendo sido criados 123 mil metros quadrados de zonas verdes. Estão a ser plantadas 2241 árvores e 3693 arbustos e trepadeiras ao longo da nova linha. O objectivo é sempre aumentar a qualidade de vida e a mobilidade de toda a população da zona envolvente. Hoje mesmo vou experimentar esta nova linha e voltar a calcorrear alguns dos locais da minha infância. E muito provavelmente, um destes dias voltarei lá com mais calma a passear na minha bicla.

 

 

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