a bicicleta no Delito de Opinião

Pedro Correia teve a amabilidade de me desafiar a escrever um texto para o Delito de Opinião. Como o nome indica, Delito de Opinião é um blogue apostado na reflexão e na análise dos mais diversos temas relacionados com a actualidade, em que a política, as artes e as letras, a cultura em geral, e todos os aspectos relevantes da vida quotidiana merecem atenção. De bom grado aceitei e na bicicleta pisei a passadeira vermelha que me foi estendida, deixando uma opinião, uma opção, uma alternativa revolução para dar que pensar, e pedalar.

Podem conferir aqui a minha contribuição.

De novo o meu agradecimento ao Pedro.

 

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bici’stória [1] duas rodas

… E a bicicleta em muitos momentos de inspiração!

Fotografia digitalizada daqui.

… “Afinal, há que perceber por fim que é em momentos de crise que todos nós devemos semear – e tenho certeza de que muitos estão já a fazê-lo. Esses que não têm medo de arriscar, decerto colherão os frutos das suas escolhas nos próximos anos.”


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e que tal configurares a tua própria bike?

Encontrei na net um projecto bem interessante. Beick, é um site holandês onde uma bicicleta urbana se constrói a si própria. Ou melhor, podemos criar e configurar uma bicla de cidade à nossa imagem. O site está em holandês, e como tal não entendi patavina, mas é divertido ir clicando e conferindo as várias opções disponíveis, e acompanhar o processo de construção. O desenho do quadro é único em todos os modelos. O resto, componentes, funções, inclusive as cores, é configurado ao gosto do freguês. São cinco milhões de possibilidades, dizem, mas apresentam as TOP 10 como base para se começar a brincar. Todo o processo é feito online e os valores vão de pouco mais de 400 euros a quase mil euros. A bicicleta mais simples, sem guarda-lamas, protector de corrente e outros acessórios vem a partir de € 250 mas inclui um selim Brooks de couro. E isso é muito barato. Todas as biclas têm quadro de alumínio, cubo Shimano, engrenagens e pneus Vredstein. Variam de acordo com a escolha dos bancos, garfos, travões, guidão, etc. O padrão e esquemas de cores não é pintura mas é feito pelo encaixe de componentes em plástico. Desconheço se o preço que apresenta inclui taxas de portes de envio e/ou extras.

O cérebro por trás da Beick é Angelo Jansen, que se juntou ao designer de bicicletas Batavus, Jorrit Schoonhoven, para este projecto que tem dois anos, e cujo objectivo é desenvolver conceitos de bicicletas sob medida para os ciclistas regulares, e tentar incentivar o ciclismo para os que ainda não usam a bicicleta.

Portanto, agora só tens é de arranjar um tradutor de holandês, olá Trudy, ou então fazer como eu, escolher uma bike com a tua cara, a minha escolha está na foto e fica pelos  módicos €275.50, e dar com ela um virtual e personalizado passeio.

Boa escolha.

 

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cicloturismo

Aos domingos de manhã é certinho. Faça chuva ou faça sol lá vou eu na minha bicla desportiva pedalar pela costa até à casa paterna.  Lá chegado, ainda dediquei o resto da manhã a pedalar em família.  Tivemos sorte. À tarde já chovia a cântaros. Foi quando terminava de prender as biclas ao tejadilho da viatura, para regressar ao Porto, que fui abordado…

Eram três e pedalavam desorientados, encharcados até aos ossos. Não sei de onde vinham mas sei onde queriam chegar. Não é a primeira vez que vejo alguns turistas por ali, perdidos,  à procura do parque de campismo para montar as tendas. A rua onde os meus pais residem ainda ostenta o nome de “campismo” que outrora ali existiu. Meti-me no carro e apanhei-os mais à frente, errantes mas determinados a continuar a sua pedalada. No meu inglês macarrónico indiquei-lhes o caminho certo para o Parque Orbitur da Madalena. Acompanhei-os por alguns metros Agradeceram-me e exprimiram emoções.

De volta a casa, vim a comentar com o meu filho o que os move a pedalar tão longas distâncias. Atravessar países com os pés nos pedais e nas condições mais adversas. Andar livremente em bicicletas que mais parecem mulas de carga. A adrenalina que os motiva, a realidade tranquila em comunhão com a natureza. O entusiasmo de sentir a chuva e o vento na cara. Como é agradável não ter pressa e poder apreciar, com a ajuda da aventura e da vontade, o que os olhos e pernas alcançam. São momentos mágicos que não existem em nenhum pacote turístico. Boa viagem meus amigos.

De volta à nossa realidade, faltava-me ainda limpar e arrumar estas belezas.

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dona Etielbina

A Etielbina anda a pedalar comigo há quase uma década. Conhecemo-nos há 10 anos. Juntos fizemos bem mais de vinte mil quilómetros, sei lá. Já nos perdemos, retomamos o caminho, juntos demos memoráveis trambolhões, conversámos e nos divertimos. As MTB´s dos anos 90 eram diferentes das actuais, não só nos componentes (prato triplo de 21 velocidades, mudanças nos punhos, travões cantilever), mas sobretudo na geometria. Tinha uma frente mais baixa e eixo pedaleiro mais baixo também. À Etielbina, para além do tradicional quadro de alumínio 7005 e do grupo SRAM 3.0 grip shift de 7 velocidades, pouco resta da sua forma original. Aos poucos fui completando-a, fazendo upgrades, dando-lhe uma nova personalidade, mais arrojada e condizente com a sua função polivalente, urbana/estrada/campo. Entre muitas mariquices, ganhou uma forqueta com amortecedor, pedais de encaixe, v-brake’s, selim ergonómico, e vai no terceiro jogo de pneus slick. Como possui pratos 48/38/28, roda que é uma beleza, sendo uma excelente bicicleta para escaladas e para o asfalto das estradas.

Mas com a entrada em cena da magrinha que vêm lá em cima, a Gorka, a velha companheira deixou-se de grandes aventuras (a idade também não me perdoa), e apareceram-lhe as artroses e o reumático. Os sintomas surgiram mais em força na recente bibicletada da Massa Crítica. A roda traseira gingava de uma forma estranha e emperrava manifestamente o andamento. Tinha uma colossal folga ao ponto de me fazer suar as estopinhas. O diagnóstico foi rápido, o eixo traseiro estava partido devido ao uso e abuso que aqui o je lhe tem proporcionado. Feita a reparação, e como recompensa pelos serviços prestados à comunidade, saiu da clinica com uma bagageira levezinha a ornamentar-lha a traseira. Digam lá se não está uma perfeita bicicleta urbana? Pode não ser assim tão chamativa, e nem interessa muito para não motivar a ladroagem, mas continuará a rodar por aí por muitos e bons anos, às vezes presa em postes em frente a supermercados, carregada com compras, ou simplesmente para que o pai a empreste ao filho para ir dar umas voltas.

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opções

Domingo à tarde. Orla marítima de Gaia, entre Canidelo e a praia da Madalena. Domingueiros a passo de caracol “compactam” o trânsito. É recorrente. Uns a ouvir o relato, outros com os miúdos no banco de trás de nariz colado ao vidro. Engarrafados, aqui e ali, passam uma tarde de domingo aborrecida, à procura de um lugar para estacionar a geringonça, quando poderiam estar a passear à beira mar num veículo sem motor e aproveitar esta ciclovia. E ainda se queixam que a gasolina está cara!

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viajem com emoção

einstein

Em carta ao seu filho, Einstein escreveu,
“A vida é como uma bicicleta, para manter o equilíbrio tens de continuar a pedalar”.

No inicio foi simples. Amparado por duas rodinhas extra, bastava-lhe dar aos pedais, lentamente em círculos, com a língua de fora, para trás e para a frente. Escutava os comentários do papá babado, que permanecia atento sem tirar os olhos do pequenote. O estímulo e o despique ultrapassavam qualquer fraqueza mas o cuidado e o cagaço resistiam. Cada movimento era decisivo, ganhava-se confiança e perdia-se medo. Casualmente ia-lhe elevando o moral e  diminuindo o apoio lateral. Abria-se uma brecha ao risco e deixava-o  que pedalasse à aventura, sem as tais rodinhas. Tornou-se mais complicado mas o sucesso só dependeu dele.

É uma questão de equilíbrio e percepção. O erro e o trambolhão estão garantidos mas não há que recear. O caminho é longo e às vezes tão difícil mas, se a teimosia surpreende, com coragem e vontade tudo se torna mais fácil, tudo será mais natural.

“Vai em frente rapaz, faz-te à vida”, encoraja-o o pai. “Vai devagar meu filho, tem cuidado…”, pede-lhe a mãe. E ele lá vai, quase todos os dias, a pedalar para a escola.

O Rafa na bicicletada

(viajem pela memória às primeiras pedaladas do meu filho)
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testemunho a pedal [3]

A ideia (destes “postes”) foi tentar demonstrar que não é preciso ser-se um super-herói para andar de bicicleta no Porto, nem de empreender nenhuma odisseia quando se pretende pedalar pelos arredores. Além de ser possível fazer, é bastante mais fácil do que aquilo que as pessoas julgam, e vão ver que 50km por semana não é nada de especial. Acabam por ganhar bastante tempo e poupar preocupações nestas pequenas deslocações. Tudo depende do ciclista. Eu fui aprendendo com os erros que cometi e cometi bastantes. Basta haver bom senso para se circular em segurança. Nas ruas pedalar sempre na faixa da direita e permitir as ultrapassagens, se isso não condicionar a nossa segurança. Seguir sempre no mesmo sentido dos carros. Procurar estar atento aos peões, que saltam para a estrada sem olhar, e não esquecer os carros estacionados. Soube através de sites de bike commuting que um dos acidentes mais comuns entre ciclistas acontece quando pessoas abrem as portas dos carros sem verificar se vem alguém atrás (este não experimentei!). Há que saber quando podemos andar depressa e quando devemos andar devagar. Sempre que as houver, devem aproveitar as ciclovias e evitar ao máximo pedalar nos passeios, que podem ser bem mais perigosos do que pedalar na estrada. Prever os movimentos súbitos dos transeuntes, adultos e crianças, contar com carros a sair de garagens e não esquecer os animais. Existem ruas com muitas ratoeiras. O piso pode ter buracos, tampas de saneamento altas ou fundas, pode acontecer por exemplo entalar a roda da frente no carril dos eléctricos (ai como eu sei disso). Convém avaliar as condições do piso quando está molhado e ter cuidado na abordagem a uma rampa ou subir um passeio, que por mais baixo que seja deve-se sempre tentar fazer com um ângulo aberto e com o rabo fora do selim. Depois só falta os cuidados da bicicleta, não esquecer de calibrar os pneus, verificar o estado dos travões, a iluminação, lubrificar as engrenagens. A meu ver, a bicicleta de ciclo-turismo que tem um selim e posição mais confortável, reflectores e luzes, pode ter amortecedor, guarda-lamas, alforges, tudo isso a um preço bastante acessível, é a ideal para quem se queira iniciar nestas andanças.

(Um exemplar de citybike. Não é minha mas poderia ser)

E para finalizar, demonstro com números o tempo que demoro de casa ao trabalho nas várias hipóteses à hora de ponta e pelo percurso atrás descrito (aqui o mapa do percurso) em vários meios de transporte: Carro: 40’ (20 minutos dos quais desperdiçados a procurar uma vaga de estacionamento grátis. Se o deixar nos parques posso dizer adeus a 8€)
Transportes públicos: 30’ (10´a pé + 5´de metro + 15’ de autocarro, excluindo os tempos de espera e o passe mensal)
Bicicleta: 15’, nas calmas, de graça e sem poluir.

Ou seja, há outras alternativas ao individualista automóvel. Os solitários automotorizados ocupam muito espaço nas ruas e todos nós saímos prejudicados. Temos de perceber o quanto somos dependentes de um símbolo de status que é cada vez mais dispendioso e um empecilho das cidades modernas.

* Um agradecimento especial ao Miguel Barbot pelo incentivo.

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testemunho a pedal [2]

Os meus percursos a pedal podem não ser diários mas são variados. A descoberta é ilimitada. Tanto dá para esporadicamente pedalar até à escola, para as reuniões da Associação de Pais, para ir ao Dragão actualizar a filiação, ou simplesmente para apanhar ar nas trombas, a bicicleta encurta distâncias e junta o útil ao agradável. E o passeio que mais possibilidades me garante é o que faço sempre que vou a casa dos meus pais. De minha casa, na Prelada, desço a Avenida da Boavista até ao Castelo do Queijo. Aproveitando a nortada na marginal, da Foz à Ribeira é um instantinho. Bom, aí há sempre a possibilidade de seguir o rio até à barragem e atravessá-lo lá, mas desta vez estou preguiçoso e cruzo o Douro na ponte para entrar em Gaia. Sempre com a apaixonante tela invicta a acompanhar-me, faço um sprint pela Afurada até ao Cabedelo, reencontro o mar e sigo na orla até à Praia da Madalena para visitar a famelga, ou então para ir muito mais além. Outra pedalada mais ou menos regular é para o trabalho. E para arrepiar caminho, até porque marco o ponto às oito horas, opto por um destes dois trajectos a partir da Prelada: Depois de passar pelo Hospital, viro para o Carvalhido, sigo por Oliveira Monteiro, cruzo a Rua da Boavista até à igreja de Cedofeita e, a partir daí, qualquer direcção serve para o Jardim do Carregal. Este percurso tem o inconveniente do piso ruim e ruas estreitas, mas é quase plano, simples de fazer e encontro menos trânsito; A alternativa é entrar na Rua 5 de Outubro pela Estação de Francos, seguir cuidadoso para a Rotunda da Boavista, descer e subir Júlio Dinis, no Palácio viro para a D. Manuel II e voilá, eis-me no serviço 5km depois. Por aqui as ruas são largas, o piso é melhor, sobe um pouquinho e tem sempre bastante trânsito. Mas nem tudo são rosas quando se pedala na cidade. Há muita falta de respeito por parte de alguns condutores que não conseguem seguir a vida fora das suas caixas metálicas com vidros eléctricos e ar condicionado. Essas pessoas toleram um carro a mais nos incontáveis engarrafamentos, mas não costumam ver com bons olhos um ciclista desprotegido que se locomove à sua frente sem poluir. Mesmo sendo o ciclista um carro a menos! Acredito no entanto que se formos cada vez em maior número até estes se habituarão a conviver com os “maluquinhos” das bicicletas.

 

(e a pedalada continua…)

 

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testemunho a pedal [1]

O Miguel no seu 1PNPeONP lançou o isco e eu apenas segurei o guiador com ambas as mãos, e acelerei nas teclas motivado a colaborar com o meu testemunho a pedal e “contribuir com umas linhas sobre a minha experiência, percurso realizado diariamente, principais dificuldades que encontrei e sugestões para dar aos ciclistas do Porto”.

Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40.

Era apenas mais um dos (auto)imobilizados no engarrafamento urbano. Perdia paciência e euros só para estacionar o popó perto do trabalho, bem no centro da cidade. Com o início da revolução intermodal que o Metro proporcionou à área metropolitana, e dispensado de algumas obrigações paternais, voltei a ser adepto das caminhadas e sócio dos transportes públicos. Sem querer, mas dando-me já conta disso, a obesidade e a ferrugem pesavam-me no corpo e, a partir de uma certa altura da vida, ou se começa a ter alguns cuidados físicos e abandonar maus hábitos, ou então poderá ser mais difícil nos convencermos, se nos queremos sentir mais fortes e saudáveis, que teremos de adoptar outros estilos de vida mais ousados. Vai daí, comprei duas biclas, a Etielbina para mim e Maria del Sol para a minha cara metade, aumentei a frota com a pequena para o meu pequenote e, mais tarde, tive de arranjar espaço para a Gorka lá na arrecadação. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem, é absorver todo o prazer que elas me têm proporcionado.

(e a pedalada continua…)

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