um eléctrico chamado velho [2]

(A Praia de Matosinhos) – foto: Filo Ladeira
 

 

Naqueles dias quentes e tórridos das grandes férias de verão da nossa infância, caso eu o meu irmão ainda não tivéssemos ido para a aldeia ou para um parque de campismo, havia um destino mais do que desejado. A praia. E a praia de eleição era a Praia de Matosinhos. O ponto de encontro por excelência naquele extenso areal era na Bola da Nívea. Mais tarde íamos a banhos de sal e de sol, corridas e partidas de futebol, piscar o olho às miúdas, tudo num convívio descontraído com os amigos de sempre. Um cardápio perfeito para se absorver todo aquele imenso tempo livre que tínhamos. Mas não é da praia que quero falar. Como prometi no poste anterior resolvi contar a viagem mais radical que fiz da minha inconsciente, ou inconsistente, adolescência, vivida a bordo (!!!) de um eléctrico da Linha 19.

 

(O 19 na rotunda do Castelo do Queijo, a fortaleza ao fundo. Do outro lado é visível o que restou do petroleiro Jacob Maersk, a proa encalhada nas rochas da praia) – foto: Bahnbilder.de

 

O sol baixava lentamente o seu pano prateado sobre o oceano no final de uma dessas maravilhosas tardes de praia. Era hora de regressar a casa. Com a pele temperada de sal, sandálias nos pés cobertos de areia, mochila pesada às costas, eu e o Geno seguíamos para a paragem do autocarro com a conversa solta. Íamos tão distraídos que nem demos conta que os outros estavam com pressa. O normal seria apanharmos o 88 só que o resto da malta e o meu irmão resolveram ir ao centro comercial Brasília na Boavista. Talvez nos tenhamos esquecido, já não sei. Vai daí, todos eles entraram no carro eléctrico que estava lá parado. Depois foi um corre-corre louco para alcançar o 19 que iniciava a marcha. Chegados bem perto do veículo percebi que aquilo estava pior que sardinha em lata, não cabia mais ninguém, nem mesmo nas escadas. O eléctrico a acelerar nos carris e eu a ficar para trás. Mas o Geno foi rápido a decidir. Saltou para as escadas da outra porta e atirou-me o desafio: – Anda lá, sobe para aqui. Só que eu estava prestes a perder o fôlego, instintivamente saltei, apoiei um pé no ferro do atrelado e agarrei com as duas mãos o sarilho metálico que recolhe e enrola a corda da vara de trólei, sem sequer imaginar no sarilho em que me estava a meter. Logo eu, um inexperiente na arte do pendura, estava ali em transgressão e bem lixado por sinal. Para além de umas aventuras malucas na bicicleta ou nos carrosséis de cestas, nunca antes havia experimentado tão radical desporto. E o eléctrico acelerava em direcção à rotunda do Castelo do Queijo, transferindo toda a sua energia cinética para o meu corpo. O peso da toalha molhada que carregava na mochila puxava-me para baixo, as sandálias escorregavam da barra de ferro, os braços resistiam mas os dedos ardiam de dor. Porque é que isto nunca mais para, pensava eu enquanto sentia lágrimas a escorrer no meu rosto. Só não percebi se seriam do vento ou do terror que sentia. Olhava para o Geno e ele ali, nas calmas. Olhava para os paralelos da estrada que passavam debaixo dos meus pés cada vez mais ameaçadores. Olhava para a janela em desespero mas não via nada. Eram mínimas as hipóteses de evitar cair e vir a ser passado a ferro pelo carro que vinha atrás, quando recebo um socorro inesperado de um qualquer anjo da guarda. A janela do eléctrico desceu, sairam lá de dentro duas mãos vigorosas que me agarram os braços e me puxaram para cima. Logo depois o eléctrico desacelerou nas agulhas para entrar na rotunda e parou para largar e receber passageiros. Ainda com as pernas a tremer e imobilizado de medo, prometi-me ali mesmo que voltaria a entrar nos trilhos. E entrei, entrei no eléctrico porque nunca mais andei pendurado nele.

 

(Os penduras do carro eléctrico) – foto: Museu do Carro Eléctrico

 

Mãe e Pai, eu sei que vão ler este relato pela primeira vez. Muitas das aventuras por que eu e o Tó passamos só não as contamos na altura para não vos preocupar, acreditem. E quero que se lembrem que caso reprovem este inconsciente comportamento, o que é natural, estou quase nos 45. Portanto, tenho já idade suficiente para não ficar de castigo!

 

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Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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11 respostas a um eléctrico chamado velho [2]

  1. redonda diz:

    >As minhas praias foram Francelos e Leça.Nunca andei assim de Eléctrico 🙂 E a única vez que tentei saltar do trólei em andamento caí 😦

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  2. >Fizeste bem, pois arriscavas-te a em vez de ter uma vida a bordo dele, a ter um enterro debaixo do dito.Abraço!

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  3. Laura diz:

    >Ai jasus, mas que carga de porrada não ias levar, ó meu inconsciente, isso era lá coisa que se fizesse? e essas mãos vigorosas, agradeceste-lhe? acho que a tua mãe ainda te vai puxar as orelhas ao ler isto, rapaz desmiolado, minha nossa, já imaginaste se caías? Bom, já passou…Beijinho da laura e juizinho se faz favor, tens cara de quem é capaz de arriscar outra vez…

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  4. Teté diz:

    >Oops… nunca andei à pendura num eléctrico! Quer dizer, só um bocadinho… Pronto, OK, várias vezes! Mas pelo menos tinha os pés assentes no estribo e ia agarrada ao varão lateral, porque no teu caso nem percebi onde ias pendurado… :)Bom fim de semana!

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  5. >Pendurado, nunca andei, mas desci a Av da Boavista ao volante de um eléctrico. Foi há tantos, tantos anos, que até pode parecer irreal, mas foi verdade.

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  6. paulofski diz:

    >Olá Redonda. Qualquer uma dessas já foi a minha praia. De há uns (muitos) anos a esta parte é na Praia da Madalena que estendo a minha toalha.

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  7. paulofski diz:

    >É verdade Rafeiro, e isso era um choque pior do que acabar engomado pelas rodas do carro! Abraço.

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  8. paulofski diz:

    >Olá Laurinha. Acho que a minha minha mãe ainda não leu sobre esta minha rebeldia infantil (está com um grave problema eléctrico lá em casa e sem acesso ao computador). Quanto a quem pertenciam as mãos que me salvaram nunca cheguei a saber, o mais certo por eu estar envergonhado.Beijinho.

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  9. paulofski diz:

    >Olá Teté. Pois eu agarrei o sarilho metálico que recolhe e enrola a corda da vara (se clicares na foto vê-se uma peça branca mesmo por cima do farol na frente eléctrico). O que eu não sabia era que o matal estava afiado, o que me magoava imenso os dedos. Quanto aos pés, posei-os no ferro, que se vê na parte debaixo do veículo, e que serve para engatar os atrelados. Depressa descobri que as sandálias não eram o melhor calçado para este tipo de aventura e que o peso da mochila me estava a arrastar para a queda. Mas felizmente livrei-me de boa e aprendi a lição.

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  10. paulofski diz:

    >Viva Carlos. Ao volante de um eléctrico não se se andei mas guardo na memória a imagem de estar ao lado do meu tio Farrincha (foi guarda-freios da STCP) a subir a Rua de Júlio Dinis.

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  11. FM diz:

    >Tenho que voltar a andar numa "coisa" destas… Há que anos, ou melhor, há que décadas!Abraço.

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