o Lado B do BRM L’Antique 200

Quando em 2013 participei no meu primeiro Brevet dos Randonneur de Portugal, coincidiu com a primeira edição do BRM L’Antique 200. Desde então, este Brevet é considerado o mais enigmático que pedalamos, por variadas razões e também porque é o Brevet que não falha no calendário “randonneureiro” português. A cada ano que passa vem atraindo cada vez mais participantes e um número crescente de novatos nestas “pedalanças breveteiras”. A edição deste ano bateu todos os recordes, com 75 ciclistas participantes, randonneurs de diferentes nacionalidades, sendo o destaque dedicado à valorosa participação feminina com nove randonneuses.

De lá para cá repeti em quatro ocasiões, sempre em anos impares, o que até poderia dizer que é uma espécie de “vira o disco e toca o mesmo”, só que não! Desta vez tocou o Lado B do disco. Girei os pedais numa rotação contrária do percurso que era habitual. No ano passado já se havia percorrido o L’Antique nesta versão. Eu não tive figura presente e foi com imensa curiosidade que voltei ao Ribatejo, para desta vez lhe dar a volta numa prespectiva diferente.

Outro excelente motor para voltar a pedalar pela lezíria ribatejana foi a bamBina Pinarello. Durante a semana antecedente, a escolha da bicicleta esteve em suspense devido às previsões de chuva, sendo que a decisão final foi tomada mesmo em cima do joelho mantendo assim a tradição, que para mim o L’Antique tem de ser cumprido a bordo de bicicletas clássicas, durinhas com’ó aço.

Assim já foi na Cósmica, na Tripas iNBiCLA neste Brevet, e por duas ocasiões fui lá girar a única roda pedaleira de Sua Alteza. Este ano coube à bambina Pinarello dar-me o prazer do seu charme, mesmo que o cabo se tenha partido a determinada altura e a tenha obrigado pedalar, a partir do quilómnetro quaranta e tal, sempre no prato pequeno.  

Depressão vai, depressão vem, as previsões foram melhorando ao longo da semana, para no dia previsto uma janela climática escancarar as portadas e deixasse o sol entrar e nos presentear com um dia em cheio. Cheio de luz, cheio de peripécias e cheio de um espírito breveteiro fantástico.

A benesse climática com que São Pedro nos brindou permitiu que fosse um Brevet sequinho… quer dizer, quase sequinho, porque em muitas ocasiões as pingas de água vinham de baixo, frias e com lama à mistura. Alguns troços da estrada estavam completamente inundados, o que foi para muitos uma experiência diferente, pedalar sobre as águas sem ver onde as rodas pisavam. Mesmo as bicicletas com guarda-lamas borrifaram-se para quem atrás seguia e soltavam autênticos repuxos à pressão no alcatrão. Os vários troços de terra batida reavivaram na mente de todos a razão do cognome deste Brevet. “À moda antiga”.

Ao longo das “estradas de outros tempos” os coletes amarelos e cor-de-rosa iam-se espalhando em pequenos grupos, reagrupando à paragem nos postos de controlo. Em pontos estratégicos do caminho paramos para responder ao questionário de passagem, para descansar as pernas, para algumas fotografias. Nos postos mais importantes, paramos para que os voluntários registassem a passagem com o carimbo no cartão e aproveitar para comer uma bucha. De salientar a abnegação e dedicação dos voluntários que nos esperaram pacientemente nos PêCês e que dessa forma permitem que os eventos BRM se realizem.

Ao longo do percurso a minha mente rebobinava lembranças das paisagem e sítios por onde passava. Prespectivas diferentes, pontos de vista distintos que recordava e, é claro, imagens e cenários alternativos, que no movimento inverso ficavam para trás e nem me dava conta. Por outro lado, ia fazendo uma espécie de contagem decrescente, das distâncias entre aqueles locais e pontos de interesse. Óbvio que é algo que faço com frequência em muitas das minhas clássicas “bate e volta”, mas neste Brevet isso marcou uma abordagem mais bisbilhoteira da minha parte, por ser a primeira vez que fazia o percurso nesse sentido, contrário aos ponteiros do relógio

Exemplo disso foi, após a travessia da Ponte sobre o Tejo, a aproximação a Constância por uma estrada ainda desconhecida, de sentido único e que, nesse sentido, permite uma panorâmica belíssima do casario enquadrado com o vale e com o Tejo. Mas o relógio não pára e o almoço não espera.

Depois da sopinha e da bifaninha, revigorados para enfrentar a restante centena de quilómetros, viramos a poente e levamos com um ventinho que soprava de Norte, às vezes com veemência diretamente nas fuças. A visita à abandonada Quinta da Cardiga teve a variante de se fazer após do quilómetro e meio de lamaçal e do ziguezague às poças d’água.

Ao chegarmos mais perto das margens do Tejo dava para perceber a força do caudal. Nesta altura do ano há sempre o risco de encontrarmos alguma estrada encerrada devido ao nível das águas do Tejo, mas este apenas alagava alguns campos agrícolas sem tocar o alcatrão. O sol de frente e o efeito dos espelhos de água ia conferindo um contraste de uma beleza única à paisagem.

Ao longo do Vale de Santarém, lá no alto da cidade, a varanda das Portas do Sol era cada vez mais visível. Para um lugar ao sol e a pausa do lanche para recuperar energias, para lá chegarmos tivemos de cumprir a única subida do dia por uma estrada exigente, não que seja mais durinha por esse lado, mas porque àquela hora da tarde seguimos com atenção redobrada ao trânsito, mais intenso e confuso, e às direcções que a geringonça ordenava para não nos enganarmos nos atalhos.

Depois de Porto de Muge, e de assinalar no cartão a última questão exigida, o percurso era já sobejamente conhecido. Planície, mosquitos, sol poente, estradas desertas, a par nas conversas, dar as boas noites à noite, preparar o regresso do frio, voltar à estrada nacional, aguentar o trânsito… Vila Franca de Xira no foco e a conclusão de mais um Brevet realizado com sucesso e satisfação. Tenho a dizer que gostei mais desta versão do disco “Long Play”.

O meu agradecimento aos organizadores, aos voluntários, aos companheiros de pedal, o Miranda e o Pawel, na partilha de bons momentos e belas fotografias ao longo de mais um memorável BRM L’Antique 200. Para o próximo, se lá chegar em 2027, espero voltar e, quem sabe, com outra bicicleta. A gOka, embora uma mescla de alumínio e carbono, e embora não parecendo é uma clássica. Afinal, é a bicicleta mais velhinha do meu harém.

Fica a promessa. Até breve(t).

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estradas seguras para todas as pessoas

Recordo, e partilho, o texto da Petição / Carta Aberta “Cidades Seguras para todas as pessoas”, que a Estrada Viva, “rede de associações, designada oficialmente por EV – Liga de Associações pela Cidadania Rodoviária, Mobilidade Segura e Sustentável” (publicada no jornal Público no dia 21 de novembro de 2021), dirigiu ao Presidente da Assembleia da República e ao Primeiro Ministro de então, dando assim o mote para este postal.

“O que nos define como sociedade evoluída é o modo como tratamos os mais vulneráveis: as crianças, as pessoas mais velhas e as que têm mobilidade reduzida. O espaço público é o espelho das nossas escolhas: se os mais vulneráveis entre nós podem mover-se com liberdade, independência e segurança, todos teremos os mesmos direitos. Mas as nossas cidades têm sido desenhadas para dar prioridade ao automóvel, com vias que convidam ao excesso de velocidade, que não é fiscalizado, criando graves situações de insegurança para todos. Portugal tem dos piores indicadores de segurança rodoviária dentro das localidades da União Europeia [1]. Temos que mudar esta situação.

Em 2019, morreram em Portugal, por atropelamento, 134 pessoas a pé e 26 em bicicleta, a maioria dentro de localidades [2]. Um peão atropelado a 50 km/h só tem cerca de 20% de probabilidade de sobreviver, enquanto a 30 km/h tem cerca de 90% de probabilidade de sobreviver [3].

Em 2017, os Ministros de Transportes da União Europeia assinaram a Declaração de Valeta, que inclui o objetivo de reduzir a zero o número de mortes nas estradas europeias. Como consequência a Comissão Europeia e o próprio Estado Português adotaram a “Visão Zero”: todas as mortes na estrada são eticamente inaceitáveis. A promoção da segurança rodoviária só é eficaz quando assenta num pressuposto básico da ”Visão Zero”: errar é humano. Temos, por isso, de garantir que os erros que inevitavelmente serão cometidos, não sejam erros mortais. O primeiro passo é reduzir a velocidade.

Em 2020, Portugal assinou a Declaração de Estocolmo. Nela se estabeleceu claramente que os Estados signatários deverão priorizar a gestão da velocidade como uma intervenção chave de segurança rodoviária, em particular para “fortalecer a aplicação da lei, para prevenir o excesso de velocidade e determinar uma velocidade máxima de 30 km/h conforme apropriado nas áreas onde utilizadores vulneráveis e veículos se misturam … ”. A Declaração de Estocolmo ressalta ainda que os esforços para reduzir a velocidade têm um impacto benéfico na qualidade do ar e nas alterações climáticas – não haverá mobilidade sustentável sem segurança, nem segurança sem mobilidade sustentável.

Em maio de 2021, a Organização Mundial da Saúde (OMS) patrocinou a 6ª Semana Global de Segurança no Trânsito da ONU, a destacar os benefícios de ruas de baixa velocidade em áreas urbanas e apelando aos países a limitar as velocidades a 30 km/h nas ruas partilhadas entre peões, utilizadores/as de bicicleta e o tráfego motorizado. A OMS, baseada em inúmeros estudos epidemiológicos, é muito clara: o risco de morte e ferimentos reduz consideravelmente quando as velocidades praticadas são abaixo dos 30 km/h.

O Parlamento Europeu, em outubro de 2021, aprovou – com 90% de votos a favor – a recomendação da adoção de uma velocidade máxima de 30 km/h “em zonas residenciais e com um elevado número de peões e utilizadores de bicicleta”, argumentando que o excesso de velocidade é um fator determinante em cerca de 30% dos sinistros rodoviários mortais.

Também queremos zero mortes nas ruas e estradas de Portugal. Vimos, assim, apelar à Assembleia da República e ao Governo que Portugal cumpra a Declaração de Estocolmo, as recomendações da OMS e do Parlamento Europeu e altere o limite máximo de velocidade de 50 km/h para 30 km/h em áreas urbanas, onde o tráfego motorizado interage com peões e utilizadores/as de bicicleta (definido no Código da Estrada como “dentro das localidades” com a excepção de “vias reservadas a automóveis e motociclos”).”

Ainda janeiro vai a meio e já soma um registo trágicio de cinco pessoas mortas no exercício do seu modo de transporte em bicicleta. Têm vindo a aumentar de um modo assutador o número de vitimas resultantes de acidentes rodoviários e atropelamentos nas estradas e ruas do nosso país. É demasiada gente que sai e não chega a casa ou ao destino onde se propunha chegar. É urgente alertar, conciencializar, para evitar este “genocídio” rodoviário. É urgente, reduzir, acalmar, refletir… Fazer qualquer coisa para modificar certos comportamentos nas estradas. O excesso de velocidade, as manobras perigosas, o uso do telemóvel durante a condução. Nós que pedalamos diáriamente para diversos fins e destinos tentaremos ser mais atentos e cuidadosos na estrada.

No domingo passado, numa manhá gélida e chuvosa, mais de 90 ciclistas, homens, mulheres, crianças, animais, acompanhados por vários agentes de autoridade em bicicleta e pela comunicação social (RTP, SIC e TVI), percorreram em desfile algumas ruas do Porto manifestando-se e sendibilizando para segurança e prevenção rodoviária, para a necessidade de melhores infra-estruturas urbanas exclusivas para a circulação das bicicletas, estradas seguras para todos os utilizadores vulneráveis das vias públicas. No nosso pensamento estava a memória das pessoas falecidas em desastres de viação, sobretudo aqueles que como nós se deslocavam neste simples modo de locomoção que é a bicicleta. De igual forma, prestamos a devida homenagem às equipas de emergência, aos profissionais de saúde e agentes de autoridade que diariamente lidam com as consequências traumáticas da sinistralidade.

Vamos lá, partilhem a estrada com segurança.

Nota: Poderão ver os videos e mais fotos do movimento na actividade (clicar para ver) que registei no Strava.

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fotocycle [276] com a bicla e o queijo à mão

Anos atrás, após passar a fasquia dos cinquenta, fui diagnosticado com Diabetes tipo 2. Sem ficar admirado com isso, aqui o factor hereditário, de pai para filho, imperou de facto. Reconheço que fiquei um pouco assustado. O meu médico prescreveu medicação diária e me disse o que poderia ou não comer. Zero de açúcar. Meti na cabeça um plano dietético rígido e aumentei a actividade física que incluía a corrida. Só que detesto correr. Se eu já pedalava bastante, as rotinas diárias na bicicleta acabariam se tornando mais necessárias e alargadas. Em seis meses perdi seis quilos. O meu estado físico alterou significativamente mas percebi que o meu corpo reagia de forma repentina, mediante as exigências físicas face às necessidades calóricas. Por diversas vezes tive encontros imediatos com o “Homem da Marreta” e percebi que já não me sentia invencível.

O equilíbrio é delicado. A longo destes anos a bicicleta tem-me proporcionado o melhor remédio para encontrar esse equilíbrio. Para além do óbvio, o ciclismo é de facto uma metáfora quase perfeita para o “equilíbrio”. Estou ciente da importância da alimentação a ter e a manter esse tal equilíbrio, entre carbo-hidratos, proteínas e a ingestão de calorias. Demasiados carbo-hidratos e o meu açúcar no sangue sobe, muito poucos e eu “bato na parede”. Se o exercício diário e prolongado é parte da equação, saber dosear as necessidades é uma importante aprendizagem. Aprendi a “ler”o meu corpo.

A bicicleta é uma coisa maravilhosa. A sua mecânica depende do “motor”, ou seja, do ciclista, e o motor depende do combustível. A bicicleta é a minha rotina saudável, que torna os meus dias de pedalada longa em dias de batota. Naqueles dias que eu acho que tenho desculpa e posso enganar os “diabretes”. Naqueles dias que eu acho que posso consumir à vontade o pão que me apetecer, uma coca-cola e um pastel de nata só para desenjoar. Não é que eu ande a comer muito queijo, mas nesses dias permito-me conquistar castelos e esquecer a maldita doença.

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Évora 200, um Brevet bem alentejano

Mal saiu o calendário dos Randonneurs Portugal para o próximo ano, recheado de boas e desafiantes novidades, assinalei o Brevet Évora 200. O primeiro evento da época breveteira para 2025, que se realiza no último dia de Novembro de 2024, fez-me logo pensar que poderia juntar o útil ao agradável. Pedalar e passar um par de dias com a minha cara metade numa cidade onde já fomos felizes.

Mais do que revisitar Évora num fim-de-semana, pedalar 200 km em boa companhia, por estradas ondulantes, esburacadas q.b. e com poucos carros a chatear, era por demais aliciante. Depois de toda a logística tratada com antecedência, na sexta-feira à tarde fiz-me à autoestrada mais a Maria, com a bamBina Pinarello amarrada no tejadilho da viatura rumo à capital do Alentejo, O extra seria o de, pela primeira vez, participar no BRM Évora 200.

“Cicloturistar” pelo Alentejo é sempre uma experiência gratificante. Já tinha dito isto, não já? É que a memória ainda guarda momentos fantásticos da minha travessia pela N2. Das paisagens ondulantes, das estradas silenciosas, das pessoas e do modo de vida secular da região. Desta vez, porém, teria a companhia de sessenta e seis outros ciclistas, a pedais, com máquinas infernais e de coletes fluorescentes.

Sábado de manhãzinha, depois de percorrer estreitas ruas de paralelos rombudos e escorregadios, o pessoal foi-se juntando para o inevitável bikechecking, proporcionando encontros e reencontros, conversas de circunstância, apreciações das bicicletas em exposição, até que se deu início ao bike tour, saindo em pequenos magotes pelos arruamentos históricos da cidade considerada património mundial da UNESCO.

Enquanto a suave neblina se ia dissipando, o sol nascente espreitava dando um tom luminoso fenomenal ao asfalto e aos descampados. Depressa nos livramos das cercanias urbanas e nos vimos envolvidos pelas soalheiras planícies alentejanas, ideais para qualquer tipo de ciclismo, onde a beleza natural é um constante panorama à nossa volta. Não resisti a parar para captar um momento fotográfico, suficiente para de imediato me obrigar a dar bem à perna se queria apanhar os fugitivos.

Uma brisa fleumática, misturada com aquela ânsia de calcar os pedais, tornou o meu ritmo veloz e, só passados uma vintena de quilómetros, à entrada de Machede, consegui finalmente alcançar as rodas do Pawel e do Nelson, formando assim um trio ciclista por todo o brevet. “Breveteiros” vindos do norte para participar no brevet mais a sul, éramos poucos mas eramos bons. Cof…cof…

Embora planos, os quarenta quilómetros seguintes não nos permitiam uma pedalada tranquila. O asfalto remendado, e em alguns locais bem esburacado, obrigava o ciclista a cuidados redobrados. Atentos aos poucos carros que surgiam, fomos rodando tranquilamente, até que por nós passa zunindo um dos três Velomobiles, tão rápido que nem tive tempo de o fotografar. Passada a localidade de Montoito prosseguimos para Reguengos de Monsaraz, onde faríamos o primeiro controlo num pequeno café.

Carimbado o cartãozinho amarelo, bastou a necessidade de ir verter águas para, entretanto, voltar e me deparar com um pelotão esfomeado rodeando o balcão do café. Felizmente, mesmo ali ao lado na praça, uma confeitaria bem fornecida providenciou o meu primeiro abastecimento sem grandes demoras. Fotografias e reajustes na vestimenta, logo retomamos a pedalada para ir admirar o Alqueva e a vila fortificada de Monsaraz, bem lá no cimo do lago.

A escalada do dia estava em acção. Boquiaberto com as lonjuras a perder de vista, note-se que a respiração e o coração acelerado não tiveram nada a ver com isso – certo!? – novo posto de controlo no miradouro junto ao icónico monumento de homenagem ao Cante Alentejano. Rápido se reagruparam alguns breveteiros, ofegantes da curta mas exigente subida. Depois dos cliques fotográficos ao Alqueva e a outros, prosseguiu-se para a descida, deixando uma visita à vila e ao castelo para outras núpcias/férias.

Recomendado pelo Nelson, fizemos uma breve paragem em Telheiro para apreciar e fotografar o seu original e belíssima fonte e chafariz azul e branco. Bem ao estilo alentejano. Informação recolhida posteriormente, pelas inscrições na fonte podemos confirmar a sua existência desde tempos remotos. “O chafariz foi contruído em 1422, mais tarde em 1723 foi construída a fonte atual, e em 1930 esta foi alvo de obras de recuperação.” Com isso, fomos alcançados e acabamos engolidos por um minipelotão, que montados nas suas máquinas modernas seguiam a bom ritmo, atravessando montados de sobreiros e azinheiras.

Diz que o Alentejo é todo plano! Pois é, excepto quando não é. A ondulação do asfalto da estrada M514 passou a ser o prato forte, mesmo antes da hora de almoço. O grupo revezava-se, uns iam entrando, outros iam saindo, conversas de circunstância, quando dei por mim estávamos às portas da Vila do Redondo. Com metade do brevet concluído, era chegado o momento sempre desejado de confortar as barriguinhas.

Numa esplanada da praça da vila ficava o terceiro posto de controlo, onde um dos voluntários, essenciais na realização dos brevets, se encarregava de registar a chegada dos participantes. Carimbado o cartão, fui de imediato tratar do mata-bicho e engrossei a bicha no Beldroegas Bar, à espera da sopinha e da sandes de presunto. Até deu tempo para reparar nas paredes do estabelecimento estavam decoradam com vários motivos tauromáquicos e monárquicos, o que revela muito dos costumes saudosistas desta terra.

O Alentejo é uma região repleta de aromas, cores e património cultural. Seja pelas paisagens verdes e douradas intocadas, pelas colinas ondulantes, pelas casinhas de cal branca com retoques azulados, das aldeias medievais e cidades históricas, dos castelos, igrejas, palácios e conventos, agora convertidos em alojamentos requintados, seja qual for a razão e motivação, um passeio de bicicleta por aquelas paragens é sempre deslumbrante. As milenares tradições, história e cultura que esta região vinícola tem para oferecer, torna este pedaço de Portugal um local pitoresco e cheio de charme.

O que não é nada charmoso é ter de percorrer parte da estrada nacional nº 4. Se os bons argumentos paisagísticos estavam ainda presentes, a sujidade desta estrada, aliado ao bulício rodoviário, veio a revelar-se algo problemático. Espalhados pela estrada, restos de pneumáticos de camiões eram um perigo eminente para os pneumáticos fininhos das nossas biclas. Pedalávamos nós a bom ritmo até que se escuta o gutural berro de alguém: “FURO”, e rapidamente se acionaram os travões. O recanto junto aos portões da Quinta das Cerejas tornou-se assim um providencial refúgio para a nossa paragem forçada.

Se a fama do pneu Continental 5000 à resistência ao furo é sobejamente conhecida pela malta das biclas, já a resistência do pneu para sair do aro é desesperante. Passados longos minutos de uma luta desigual, só mesmo com a força bruta conjunta de seis mãos se obteve sucesso. Um pedaço de arame espetado na borracha denunciava o móbil do crime. Escusado será dizer que, trocada a câmara, voltar a colocar o pneu no aro foi outro filme… de suspense!

Continuamos então para norte, rumo a Estremoz, famosa pelo mármore branco e pelo seu castelo. Ao longo da estrada outros dois grupetos que jaziam parados, também vítimas da EN4, a reparar furos. Estremoz é mais um bom spot para reabastecer energias, “num posto de controlo onde a doçaria vale mesmo a pena”, diz no site dos RP, mas que me desculpe o senhor do café. Bolo Jesuíta tem de ser o de Santo Tirso, que é bem diferente daquele que comi, mas, a bem da verdade, digo-vos que estava mesmo fresquinho.

Até Evoramonte a estrada volta à calmaria natural da região, mas a topografia vai aumentando, gradualmente. Avistamos o inconfundível e imponente castelo lá no cimo. Diz que as vistas que a vista de lá alcança são espantosas, mas não o fomos visitar. Tivemos de parar no centro da vila para novo controlo de passagem, num café com uma questão sobre o café que deveríamos assinalar no papelucho amarelo. Vai daí, aproveitei a pausa para tomar outro café. Pois com certeza que teria de ser Delta.

Recomeçamos a bom ritmo, descendo. O percurso segue agora por estradas mais planas, com pequenas ondulações e campos abertos,a que já nos havíamos habituado. Reagrupamos com outros randonneurs e fomos entabulando conversas, sobretudo abordado pela persistente curiosidade dos meus companheiros de circunstância sobre a minha montada, recebendo vários elogios à beleza da bamBina Pinarello.

Uma viragem à esquerda e entramos no Vimieiro, uma pequena e típica aldeia alentejana que se diz ser terra de músicos. Não fomos recebidos com honras musicais, mas de novo obrigados a fazer um pit-stop para responder a outro quiz no cartãozinho do Brevet. Rapidamente a noite ia caindo, tornando cada vez mais visíveis as luzes vermelhinhas das nossas bicicletas, que se iam espalhando ao longo da estrada.

As estradas quase sem trânsito e a luminosidade do fim do dia davam uma atmosfera especial à pedalada. Avisam-me que fiquei sem a luz traseira. Pois um calculo mal efectuado no carregamento da bateria e o facto de me ter esquecido da luz suplente, fez com que fizesse a parte final desse modo. Embrenhado no grupeto sentia-me mais seguro, o que não me passou despercebido foi um rato cruzar-se mesmo à frente do potente feixe de luz dianteira da minha bicicleta. Não acabou esmagado por sorte, a dele!

Rodando em formação, martelavam-se os pedais a bom ritmo, em concentração máxima. Não tardou muito a que avistássemos a placa indicadora da nossa entrada no concelho de Évora. Logo, logo, estávamos a calcar de novo os paralelos rombudos e escorregadios, primeiro ao redor e depois dentro das muralhas. Batiam as 18 horas e o transito em direcção ao centro entupia as estreitas ruelas evorenses. A chegada foi algo atribulada, mas com sucesso total. Todos os “concorrentes” chegaram ao final, felizes e contentes.

O Alentejo é sempre um dos destinos a revisitar e uma experiência de pedal a não esquecer, e este Brevet é muito mais do que um loop de 200 quilómetros. É um excelente convívio com outros da mesma espécie e que como eu apreciam o desafio das longas distância. É uma volta pela história que vale a pena desfrutar. Totalmente diferente de estar num carro ou até num comboio ou autocarro. Ali não olhamos a paisagem pela janela. Eu e os meus amigos Pawel Pesz e Nelson Vaz fizemos parte dela.

Foto: Pawel Pesz

Até Breve(t)

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fotocycle [275] quentinhas e boas na brasa da bamBina

Por estes dias, por estas noites, quem passa numa praça, avenida ou rotunda, quem simplesmente pedala pelo passeio, é envolvido e transportado pelo delicioso e persistente cheiro das castanhas a estalar nas brasas. É um aroma que cada português transporta desde a infância e que associa a momentos próprios desta época do ano. É um “cheirinho” que se liberta da carreta fumarenta e que nos invade inebriante as narinas. Irresistíveis e tostadas, as castanhas passam das mãos enegrecidas do assador para as nossas, envoltas num confortante cartucho de papel. Assim, muito boas e ainda quentinhas quando chegaram a casa, as castanhas deram calor e perfume às pedaladas. Só me faltou o copinho de jeropiga, que logo, logo, tratamos de a provar e as castanhas empurrar.

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a Ecopista é Tua e de quem nela pedalar… ou caminhar

Antes de entrar no tema que me traz de volta, devo reforçar a minha opinião pessoal sobre o aproveitamento da adaptação dos abandonados canais de linha ferroviária em vias pedonais e cicláveis. A forma como nas décadas de 80 e 90 do século passado foram encerradas muitas linhas de bitola estreita, meramente pelo quero, posso e mando político, sem dar cavaco aos interesses do povo, e que foi bastante prejudicial em termos sociais e económicos para as populações e para o comércio que do comboio se servia, foi crime de lesa pátria. Nesses anos os governos cavaquistas arrasaram por completo a maior parte das infraestruturas ferroviárias do país, argumentando com interesses economicistas, o que permitiu a delapidação do património ferroviário pelos interesseiros da clientela de pacotilha.

Evidentemente que seria necessária uma restruturação e modernização da rede ferroviária nacional face ao investimento e desenvolvimento de infraestruturas rodoviárias, associada à lentidão do comboio perante o concorrente rodoviário, mas temos de admitir que alguns encerramentos foram injustos e funestos para as populações, no combate à interioridade e no desenvolvimento económico dessas regiões. Parece haver agora alguma vontade política para reverter alguns desses erros e reabrir algumas linhas, como tem sido a eterna promessa de recolocar os carris, reconstruir as estações e apeadeiros degradados, abrir as pontes deixadas ao abandono, da antiga Linha do Douro, no troço entre o Pocinho e Barca d’Alva! Só que nada de concreto se tem feito.

O percurso da Ecopista do Tua, desenvolve-se pelo canal da antiga Linha Ferroviária do Tua, que em Foz-Tua fazia a ligação com a Linha do Douro e dali levava os passageiros em linha estreita para o interior transmontano. Em 1887 foi inaugurado o primeiro troço até Mirandela e em 1906 foram completados os seus 133 kms de extensão até Bragança. No seguimento dos encerramentos unilaterais de muitas linhas férreas deste país, em 1991 o troço entre Bragança e Mirandela foi definitivamente encerrado. Os carris e o material circundante foram sendo retirados, mesmo perante a oposição e os protestos das populações. Em 1995 foi reaberto o troço entre Mirandela e Carvalhais para o Metropolitano de Superfície, sendo a exploração do serviço de passageiros realizada pela empresa “Metro de Mirandela”, serviço que já foi desactivado. A circulação ferroviária manteve-se entre Mirandela e Foz-Tua, entrando sucessivamente em declínio, resultando em graves acidentes ocorridos entre 2007 e 2008. Os carris são então arrancados e é iniciada a construção da barragem de Foz-Tua, o que leva ao encerramento definitivo desta linha de comboios, considerada por muitos (infelizmente nunca a percorri) como uma das mais belas do mundo.

A reconversão em ecopistas, ecovias e ciclovias destes antigos canais ferroviários é uma forma dos municípios aproveitarem e preservarem parte deste património abandonado. O investimento para fins recreativos e turísticos permite ao novo utilizador conhecer o remanescente património paisagístico e arquitectónico das antigas linhas de comboio. Desta forma pode-se conhecer, ou recordar, quase à mesma velocidade das viagens do passado, o traçado serpenteante destes canais rasgados pela força do Homem. Contemplar paisagens magníficas sobre os vales escarpados dos rios. Conhecer a riqueza cultural, a natural e das populações. Visitar recantos deste património da humanidade entre socalcos e serras. Divulgar a cultura de um Portugal profundo e que era tão bem servido por este magnifico meio de transporte. 

Nesta epopeia de três dias, o cicerone Manuel Couto e este que se fez convidado viajamos com as nossas companheiras de duas rodas no comboio Miradouro ao longo do rio Douro para, no Pocinho, iniciarmos a pedalada, tendo como destino final a pequena aldeia transmontana de Romeu. Ao invés da primeira vez que lá fui, e que percorremos de bicicleta o que resta da antiga Linha Ferroviária do Corgo entre a Régua e Vila-Real, desta vez aproveitando o asfalto da EN102, em lugar de reviver o gradual esplendor panorâmico da Ecopista do Sabor, encurtamos de sobremaneira a pedalada, sem, no entanto, acumularmos um bom esforço para lá chegar.

O primeiro contacto que tive com a ciclovia da antiga Linha do Tua foi no curto troço asfaltado dentro da cidade de Macedo de Cavaleiros. No centro, a antiga estação foi remodelada e reparei no cuidado que tiveram em construir uma espécie de “estação de serviço” para os ciclistas, com biciparques, ponto de carregamento para e-bikes e uma estação para lavagem e pequenas reparações. Ponto negativo que tenho a apontar são os inúteis balizamentos existentes ao longo da ciclovia. Certamente que estruturas deste tipo se justificam para a segurança dos ciclistas, sobretudo no cruzamento com as estradas, mas no caso, muitas delas não se justificam e só dificultam a passagem dos ciclistas, especialmente aqueles que viajam em modo bikepacking com alforges laterais nas bicicletas. Depois, o ciclista mais afoito para evitar entrar nestas “ratoeiras” passa à volta em algumas delas!

Após o jantar, e de iluminação ligada pela estrada afora, fomos dormir a Romeu para continuarmos a jornada no dia seguinte.

(aqui o registo “stravico” da jornada)

Antes de darmos ao pedal, juntou-se o Joel e assim se formou um trio ciclocurioso, um numa bêtêtê pura, outro numa espécie de motocross a pilhas e eu numa aspirante a gravel bike e que se fez grande. Seguindo a primeira sugestão do Couto, fomos revisitar e dar a conhecer ao Joel as memórias de Clemente Menéres, industrial portuense que nos finais do século XIX revolucionou a região, especialmente na exploração da cortiça. Abandonámos as bicicletas no mato e subimos a fraga granítica onde se tem um dislumbre mágico da Natureza envolvente.

Pelo caminho confirmou-se estar aberto à circulação o ultimo troço recuperado do antigo canal ferroviário da Linha do Tua e assim se decidiu rumar a Macedo de Cavaleiros. O traçado em gravilha está inserido na mata do Quadrassal, uma extensa mancha natural de sobreiros e bosques de sobreiro e zimbro. Território integrado na Rede Natura 2000, uma área protegida tutelada pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, que abrange a União de Freguesias de Avantos e Romeu, as freguesias de Cedães e de Vale de Asnes, no concelho de Mirandela, e a freguesia de Cortiços, no concelho de Macedo de Cavaleiros.

Depois de um reforço calórico decidimos ir pedalar junto às calmas águas da Albufeira do Azibo, por um trilho suave, local de grande beleza e importância turística, mas sobretudo ecológica. Depressa chegamos à famosa praia fluvial, onde nos detivemos para um bom almoço e dali traçarmos os objectivos para o resto do dia, antes do regresso à aldeia de Romeu para o repasto no Restaurante Maria Rita.

Ficou logo decidido que iriamos fazer o trilho em “loop” de 25km à volta da albufeira, mas ainda antes dessa aventura, e para se fazer uma boa digestão, demos uma saltada a Podence para algumas tropelias. A aldeia estava muito mais calma, tendo em conta a última vez que por lá andei, e depois de umas fotos e explorações, os caretos não quiseram saber de nós, e nós descemos de novo à praia, para o inevitável mergulho antes da boa da suadela.

Ainda envolvidos pela serenidade das águas azuis da albufeira e pelas margens arborizadas que a rodeiam, aos poucos a rota tornou-se desafiante. O trilho sai das margens e à passagem junto à aldeia de Santa Combinha dá-se o inicio a um sobe e desce sem misericórdia. A minha Maneirinha não se fez rogada, nem aos declives e muito menos ao terreno inóspito para uma bicicleta com pneus de 30mm! Claro que, para o meu bem-estar físico, respeitei o terreno e apeei nos pontos mais complicados do percurso, especialmente quando tinha demasiada areia e pedras soltas.

À medida que fomos explorando uma das joias naturais de Portugal, deixamos de vislumbrar as águas e ficamos embrenhados pela mata de sobreiros, pela solidão e pela vida selvagem. Consultando o traçado no GPS, mergulhados na beleza da natureza e desfrutando de vistas deslumbrantes, descemos de novo à tranquilidade das águas da albufeira e a um céu repleto de nuvens lenticulares. Por alturas da barragem do Azibo seguimos por estrada para Vale da Porca, onde após um lanchinho e pedalada mais rápida, junto ao antigo apeadeiro de Castelãos retomamos o alcatrão da Ecopista. Deste local em diante, na direcção de Bragança, o antigo troço da Linha do Tua permanece abandonada e à espera da reconversão. Recolocamos os pneus no asfalto da ciclovia e mais à frente a terra batida da Ecopista em direcção a Romeu.

Definitivamente esta rota é perfeita para caminhantes e amantes da natureza, para o lazer de um dia em família, para ciclistas de todos os níveis de habilidade usufruírem de uma experiência agradável, que tanto pode ser um passeio tranquilo ou uma aventura deslumbrante.

(aqui o registo “stravico” da jornada)

No terceiro dia da nossa jornada, com o bacalhau do Maria Rita bem digerido mas com a mousse de chocolate com azeite ainda no pensamento, arrumadas as trouxas fizemo-nos à estrada e retomamos o troço de Ecopista que ainda faltava percorrer, de Romeu para Mirandela. Antes disso, o Couto levou-me a um dos pontos altos da, também conhecida como, aldeia das rosas: o Santuário de Nossa Senhora de Jerusalém, pequena capela rodeada de olivais e que fica bem no alto, de onde se pode desfrutar de uma paisagem sublime.

A história de Jerusalém do Romeu está intimamente ligada à história da família Menéres, ao fundador e descendentes que aqui investiram na agricultura e criaram postos de trabalho e condições à fixação dos seus trabalhadores e famílias. O fundador Clemente Menéres foi também o grande impulsionador da construção do caminho de ferro, principalmente para o escoamento da cortiça. Velho edifícios, como a antiga escola primária, os armazéns da Quinta do Romeu e a abandonada estação de comboios, são construções que resistiram ao tempo e preservam o passado. Outro local de muita e surpreendente história, que juntamente com o Restaurante Maria Rita atraia visitantes, era o Museu das Curiosidades, que duplamente tive a oportunidade de visitar mas que infelizmente foi encerrado.

Passada a antiga passagem de nível, onde se atravessa a EN15, uns metros mais à frente, temos a primeira interrupção na progressão pela Ecopista. A antiga ponte ferroviária de Jerusalém do Romeu ainda não foi restaurada, fazendo com que para se retomar a pista da outra banda do vale, o cicloturista ter de fazer um pequeno desvio, primeiro com uma suave descida, para, posteriormente, enfrentar a correspondente e exigente subida.

A partir deste ponto da Ecopista, a paisagem muda radicalmente, fazendo com o que o ciclista cruze terrenos agrícolas e vinhedos. O trilho segue ao lado da estrada nacional até que, após passar ao lado da povoação de Vale de Lerda, volta a ver interrompida a passagem por outra ponte ferroviária com a data de restauro em suspenso. Novo desvio e novo cruzamento numa desactivada passagem de nível, a Ecopista da extinta Linha do Tua segue agora a EN15 pela berma esquerda até ao cruzamento/rotunda para Carvalhais. A partir deste ponto para se entrar em Mirandela o ciclista poderá recorrer às faixas cicláveis desenhadas no asfalto, enquanto pode ir observando o troço agora abandonado do antigo Metro de Mirandela até à estação de comboios no centro da cidade.

Preparados para forrar os estômagos com o tradicional rancho à transmontana, com os bilhetes comprados para o autocarro das 18 e tal, fomos de barriga cheia fazer uma sesta para a relva refrescante da praia fluvial de Mirandela. Entretanto, e na incerteza quanto às exigências de transporte de bicicletas pelas transportadoras rodoviárias diz respeito, fizemos uma tourné ciclística pela cidade, visitando lojas dos chineses à procura dos maiores sacos de lixo do mercado. À hora marcada, na estação rodoviária, chegava o autocarro da FlixBus proveniente de Bragança e com destino ao Porto, abordamos o simpático motorista que, exibindo a sua proeminente barriguita, nos convidou a colocar as bicicletas sem requisitos no porão do autocarro. Depois disse-nos que também ele, em tempos, havia pedalado bicicletas!

(aqui o registo “stravico” da jornada)

Obrigado pelo convite amigo Couto. Venha a proxima aventura.

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N + uma Maneirinha

A proporção de bicicletas que possuímos é, como todos sabemos, N + 1, onde N é o número de bicicletas que temos e o +1 é aquela que sonhamos vir a ter. A simples troca de bicla não se aplica aqui.

Esta ânsia de encontrar uma boa justificação para ter mais uma bicicleta é evidente na mente da maioria dos ciclistas.

Longe vão os dias quando uma bicicleta servia para todas as ocasiões. Usada e abusada, no processso de aprendizagem, nas voltinhas ao bairro com os amigos, compartilhada entre os irmãos, passada de pais para filhos.

Hoje em dia o mercado é cada vez mais variado e as bicicletas são mais especializadas, criadas de acordo com algo mais específico e que supostamente necessitamos. Agora não é tanto o caso de nos adaptarmos a elas, mas escolher a “máquina” que melhor se adequa à necessidade do utilizador.

Há uma bicicleta certa para cada função, seja para um trilho de cascalho, estradão enlameado, para utilização urbana ou rodar por longas horas em alcatrão lisinho. A bicicleta é escolhida especificamente para dar o melhor rendimento ao exercício que desejamos, à segurança, ao ritmo e finalidade da pedalada.

As marcas e designers vêm nisto do N + 1 uma boa razão para manter activas as necessidades e sobretudo os caprichos individuais. É um desafio permanente de evolução tecnológica, que acontece bem na frente dos nossos olhos e que estimula querer o mais sofisticado. O mercado faz o seu papel no incentivo para o “upgrade”, reforçando o desejo de expandirmos horizontes e tentarmos algo diferente.

“Qual será a tua próxima bicicleta?” É quase certo que a resposta esperada é “o último modelo”, mas uma coisa é o que queremos e outra é o que podemos ter. O factor económico é preponderante e na mente do pretendente, para fazer novo investimento só precisa se certificar junto da sua “cara metade”. Ou então não, e parte destemido para o elemento surpresa. “Querida…”

No “parque velocipédico” lá de casa tenho uma Del Sol LXi comprada em 2003 na ETIEL, aka Ciclo Coimbrões. De acordo com as especificações da minha “cara metade”, esta bicla de alumínio, tipo beach cruiser, fê-la voltar ao selim e durante alguns anos a acompanhar-me em passeios à beira-mar, até que um tal de síndrome vertiginoso apareceu e obrigou-a a pôr termo às pedaladas.

Ficou guardada, sendo oportunamente adoptada pelo herdeiro e que o ajudou a fortalecer tanto o seu crescimento bem como a desenvoltura das suas pedaladas recreativas / escolares. Entretanto o rapaz botou os olhinhos em algo mais cross e mais trail, e a velha bina voltou para o banco de suplentes.

A Maria Del Sol é uma ótima bicicleta e fui incapaz de me desfazer dela. Aproveitei as suas potencialidades para a tornar numa espécie de rain cruiser, sobretudo para ser usada nas minhas pedaladas “commutianas” diluvianas. Com pneus mais largos e guarda-lamas à maneira, um resistente porta-couves a apoiar um volumoso par de alforges, inevitavelmente ficou muito mais pesada, mas a lentidão da pedalada nunca me desencorajou a investir nela, sobretudo em calços de travão.

Depois de vários anos e quilómetros de bons serviços estava a pedir nova manutenção geral. A idade, a dela e a minha, começavam a pesar, e assim que me deparei com este modelo “Roadlite CF8” da Canyon, achei que seria uma boa oportunidade para a Maria Del Sol passar à reforma.

As dúvidas em comprar uma bicicleta via online eram bastantes, no entanto foram sendo afastadas com a ajuda da competente assistência de comunicação com a marca, bem como no processo de compra e posterior envio e preparação da bicicleta.

Especialmente estimulado pelo preço promocional, pelas características híbridas desta fitness bike, depois de muito pesquisar e matutar mandei-a vir, sem sequer a ter experimentado. Segundo os critérios da marca, estando eu na fronteira de tamanhos entre um XS e um S, veio o XS, não só porque era o único tamanho disponível, mas no que diz respeito ao quadro de bicicleta, o mais pequeno torna-se sempre mais fácil de configurar para o nosso corpo acomodar.

Assim que chegou o caixote, a desembalei e montei, permiti que fosse o herdeiro a dar-lhe os primeiros giros dos pedais. Muitos minutos depois o Rafa lá voltou e o seu entusiasmo era por demais evidente: “Pai, posso ficar com ela?” Eh pá!… Parece que acertei nisto!

Não sabia bem o que esperar quando, pela primeira vez, passei a perna sobre a esta pequena máquina. Pensada para uma utilização sobretudo urbana, para circular em todas as condições climatéricas, a Roadlite CF8 é, ao fim e ao cabo, uma bicicleta de estrada, leve e rápida que, por acaso, tem um guiador plano em vez do dropbar tradicional. A geometria do esbelto quadro e dos periféricos em carbono, fornecem um excelente comportamento e o ajuste que se espera de uma “estradeira” de alto desempenho.

O prato único de 46 dentes é suficiente e competente na transmissão de potência ao SRAM NX Eagle. A simplicidade mecânica do escalonamento das 12 velocidades, do 11 aos 50 e vice-versa, é bastante rápido e suave. Com facilidade se trocam as velocidades, não comprometendo a eficácia e o desempenho em relação a uma transmissão tradicional, o que oferece maior amplitude de andamentos, especialmente para ajudar as pernas nas subidas mais íngremes.

Os travões de disco eram uma novidade para mim. Não sendo topo de gama, são hidráulicos, dando-me a garantia e confiança necessária que exercem cabalmente a sua função, especialmente nas pedaladas à chuva. As rodas 650b que a Canyon equipou neste modelo, tornam esta bicicleta ainda mais manobrável e eficiente. Os pneus tubeless de 30mm, G-One Speed da Schwalbe, são excelentes para uma pedalada eficaz na estrada, confortável no paralelo, sem sacrificar a tracção em estradões de terra e gravilha. Os originais guarda-lamas para o inverno também vieram e que nela serão instalados no devido tempo.

O guiador plano acrescenta um nível de conforto e versatilidade para as pedaladas urbanas que é difícil de encontrar numa bicicleta de estrada convencional. A posição de condução facilita o equilíbrio e desempenho sem sacrificar a velocidade. A estabilidade e a manobrabilidade, tornam a Roadlite bastante versátil nas deslocações diárias, na disputa com o trânsito na hora de ponta, já para não falar da simples alegria de percorrer estradas rurais tranquilas ou caminhos de cabras pela Natureza.

Desde há coisa de um mês aos comandos desta minha ultima aquisição, só agora faço a sua apresentação e o relatório de boas vindas porque, para além das rotineiras voltas diárias pela cidade e arredores, esperei para fazer um longo e completo test ride à Maneirinha, como lhe chamo.

No passado feriado acompanhei um grupo de amigos em parte dos caminhos de Santiago pela costa portuguesa, para depois fazer o consequente regresso por asfaltadas estradas interiores. Esta voltinha proporcionou fazer uma completa e exigente rodagem em diferentes tipos de terreno, numa distância considerável. Resumidamente, a bicicleta teve nota positiva com distinção.  

A direção rápida e estável torna mais agradável percorrer sinuosas estradas rurais e contornar curvas apertadas, bem como nos trilhos de gravilha e areia. Pedalar com uma pressão pneumática mais baixa permite receber todo o conforto e segurança dos pneus, seja no paralelo mais manhoso, seja no fofinho asfalto. Aprecei bastante a leveza do conjunto, especialmente quando fui obrigado a carrega-la em ombros pela praia. Nunca me imaginei subir com desenvoltura a ingreme e agressiva Rua do Ferraz e a resposta rápida à força nos pedais foi brutal. Também apreciei o guiador plano e a posição um pouco mais vertical que desfruto aos comandos da bina, o que ajuda a gerir e melhorar a postura, tornando mais fácil manter-me atento ao trânsito à minha volta, sobretudo quando cruzamos alguns centros urbanos.

O selim é definitivamente o ponto fraco da bicicleta. Sofrível para os commutes curtos, é absolutamente desconfortável para o rabo suportar as longas horas a pedal. Valeu-me a carneira dos calções! Este é porventura o único componente que definitivamente será substituído num futuro próximo.

Concluindo. Gosto bastante da versatilidade da Maneirinha e tenho a certeza que foi uma excelente aquisição para o parque velocipédico lá de casa. Embora não pense trocar nenhuma das outras minhas beldades pedaláveis, Sua Alteza, a gOrka, a bamBina, por uma bicicleta de plástico carbono, que não é uma coisa nem outra, mas tudo numa bicla só, é fácil perceber a afeição que ganhei por esta biclazinha.

Maneirinha, uma bicla à maneira

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já diz o povo, “há chuva que seca e sol que refresca”

Este dia estava programado há semanas, verificar in loco o trajecto que desenhei para um possível brevet 200 dos Randonneur Portugal, com saída e chegada ao Porto.

O meeting point no Jardim do Calem, á hora marcada, para além do Miranda, do Pawel e do Jorge, a chuva também marcou presença! Mas onde estava o apetecido dia maravilhoso banhado pelo sol de Julho? Pois… encolhidos, sob uma morrinha “bué da chata”, foi a maneira de se começar a pedalada. Ao longo da manhã, a chuvinha “molha-tolos” deixou estes quatro tolos molhados até aos ossos.

Rumamos ao longo da costa, e um suave, mas desgastante, vento de sul misturado com o ar grosso e húmido não mostrou sinais de aliviar até à nossa investida para o interior. O Jorge seguiu outro rumo, e foi bem para lá da nossa passagem pela engalanada Terra de Santa Maria, e do seu imponente castelo, que a viagem foi, pouco a pouco, ficando mais seca e luminosa.

O objectivo é explorar o território e a fórmula é a certa: estradas sinuosas, a maioria com mau piso, povoações quase desertas, no meio do nada, aromas e testemunhos em busca do prato do dia. Aqui está o segredo do ciclismo, o gosto de ir descobrindo, na pedalada lenta ao ritmo do nosso próprio esforço. Procurar um petisco que possamos saborear, desvendar os segredos que as mães apaixonadas pela sua terra preparam com tanto carinho e dedicação. É verdade, a barriga já dava horas, e quando se pode aliviar o rabo do selim, ouvindo os sinos do início da tarde, é não só um pretexto mas sobretudo um alívio.

Com alguns erros no desenho do percurso, que doravante será coisa para se ir afinando no papel, a tournée prosseguiu calma. As estradas são geralmente tranquilas e sem muito tráfego. A geringonça ia-nos guiando na direcção certa, supostamente, mas o nosso sentido de orientação ia lançando alertas quando se avistavam inesperadas e ingremes rampas que nos apareceram pela frente. E foram algumas.

Agora está sol. Arouca seria o prato seguinte, sem, no entanto, acrescentar a Serra da Freita à sobremesa. O rumo seguiria serpenteando o fundo do vale, palmilhando quilómetros de suaves subidas e descidas, sem qualquer agressividade. O sol polvilhava o seu calor, e para usufruirmos do ar fresco pedalamos de peito aberto, secando a roupa na corda bamba.

Em plena época de romarias, a balburdia dos festejos e os cortes de estrada atrapalham de alguma forma. Abrandamos e espevitamos a curiosidade com o pé no chão. Sair dali resultou em grande desacerto. Consultada a bussola retomei definitivamente o rumo certo e apanhei os compinchas mais à frente, em plena subida ao Monte de Santo Adrião. Se formos devagar pela sombra e sem o frenesim rodoviário, o maior presente que podemos receber é o de poder ver tudo.

Nestas longas e extensas pedaladas, há quem as interprete como um desafio para si próprio, quem percebe a viagem como um mero passeio, parando para conversar sempre que pode, talvez com a desculpa para roubar uma laranja, esperar a malta para reagrupar, tirar mais uma fotografia a paisagens que só precisam de ser admiradas. Só desculpas!

Podemos sentir o cheiro do monte, daquelas flores que crescem espontaneamente nas bermas entre uma estrada esburacada e o mato rasteiro. Nas retas há sempre oportunidade para uma boa conversa, escutando o balido das ovelhas seguido do chilrear dos pássaros. Nas curvas, o tempo de repente fica em silêncio e entra-se num vórtice, girando os pedais em modo automático, com as costas ao vento.

Os atalhos sugeridos pelo planeador de percursos tem por vezes o condão de nos levar a pequenos tesouros escondidos. Nas vielas das aldeias, aquele empedrado que faz a corrente chacoalhar no metal e o selim cada vez mais tormentoso. Cores que logo se uniformizam com as casas. As tradições que não se diluíram ao longo do tempo, que saltam à vista pintando molduras do modo de vida de homens e mulheres do campo.

O céu parece parvo… pardo, todo escurecido e eu me pergunto se vai morrinhar ou chover! É certo que vai. Novelos ásperos de nuvens sombrias e o vento espiam-nos por cima do horizonte. Pedalamos ao vento. subindo por Capela, asfalto que sempre pedalei, descendo para a velha estrada ao longo do rio. Eis a chuva prometida, aborrecida, intrometida, para o final da corrida.

Ao Porto chegamos, encharcados da cabeça aos pés, e aí eu penso que na bicicleta cada vez é diferente. Um dia inteiro a viajar de bicicleta tem uma certa incerteza (!). Primeiro estamos um pouco desconfiados do tempo, depois começamos a descobrir coisas, entretanto desafiamos a escalada e ganhamos. Experimentamos um atalho e perdemos. O calor escaldante e a chuva inclemente. A oportunidade de tentar outro caminho.  E colocar o coração em paz. Mil coisas novas a cada vez.

Foi agradável.

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a Via Nordeste e os seus 32 sobreiros

Um dos meus habituais percursos pós-laborais passa pela quietude dos parques Oriental e Urbano de Rio Tinto, para depois ter de gramar com o reboliço rodoviário da Estrada Exterior da Circunvalação (N12) a caminho de casa.

Uns metros antes de eu desembocar na Circunvalação contorno o nó de Rebordãos (N12-1), do qual uma nova e larga estrada, “rasgada” e inaugurada recentemente, sai em direção ao interior de Rio Tinto. Como essa via não segue na minha direcção, ainda não me havia aguçado a curiosidade de ir por ali à descoberta, até que um destes dias decidi virar a bicicleta a norte e finalmente conhecer aquilo.

Não fui muito longe. O trânsito circula naquela via apenas nos seus 300 metros iniciais, entre o nó e a nova rotunda da Rua da Castanheira. A partir daí a Via Nordeste, assim chamada, está bloqueada ao trânsito e com a obra parada a meio.

A futura Via Nordeste (pedonal e ciclável), entre Rebordãos e a Rua da Granja, encarada como “uma das principais vias do concelho com vista à promoção de uma melhor fluidez de trânsito, para o interior e exterior de uma das freguesias do concelho de Rio Tinto”, ligará, nesta fase, o nó de Rebordãos à Rua da Granja numa extensão de 2,2 km, com um prazo inicial de execução de 730 dias. Posteriormente será feita a ligação à Via Estruturante Norte-Sul, permitindo criar um anel rodoviário em torno de Rio Tinto e Baguim do Monte, assim como a ligação à A4.

A Câmara Municipal de Gondomar (CMG) ainda não obteve autorização para cortar os 32 sobreiros que estão a impossibilitar a conclusão da Via Nordeste. Parada a construção, entretanto abandonada pelo empreiteiro, esta paragem da obra já gerou prejuízos de cerca 4 milhões de euros ao município de Gondomar, segundo a imprensa. Este impasse burocrático dura há dois anos e, sem fim à vista, o presidente da CMG, Marco Martins, enviou entretanto uma carta à nova ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, a pedir ajuda.

Na origem da situação, diz o autarca, está um desentendimento entre o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e a Agência Portuguesa do Ambiente (APA).

Explicação:

“Desde abril de 2022, duas entidades sob tutela do Ministério persistem em solicitar informação contraditória. O município sempre considerou que a Via Nordeste não necessitava de Avaliação de Impacte Ambiental (AIA) por ter uma extensão de cinco quilómetros (inferior a dez quilómetros que é a extensão a partir da qual é exigível AIA”, descreve Marco Martins. O presidente refere que “o ICNF exige uma declaração da APA de pronúncia do enquadramento no âmbito do Regime Jurídico da Avaliação de Impacte Ambiental, declaração que o município tem vindo a solicitar desde março de 2022, com várias insistências que a APA nunca esclareceu, confundindo os troços da Via Nordeste”.

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fotocycle [274] assim vai a Primavera

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