Alguns automobilistas (generalizando, obviamente) estão tão acostumados a ver as ruas apinhadas de carros que acreditam ser essa a ordem natural das coisas. Para eles os ciclistas são intrusos e, por conta disso, por vezes até bem intencionados, buzinam, encostam a viatura, espremem o ciclista que circula à sua frente. Na sua inabilidade de se colocarem no lugar do ciclista, eles nem dão conta como o seu comportamento é perigoso e desestabilizador para quem depende do equilíbrio para se manter vivo. Quase todos ultrapassam sem respeitar a distância mínima de metro e meio entre o carro e a bicicleta, quase todos ultrapassam para depois virar à direita sem dar pisca, quase todos estacionam em locais proibidos e segunda fila, quase todos circulam em excesso de velocidade. Nessa cegueira de quererem ser donos e senhores das ruas, alguns automobilistas (generalizando, claramente) nem percebem o óbvio: que as bicicletas são boas para todos, são boas para eles e são boas para o mundo.
Continuando a generalizar, pensava que já nada me espantaria neste mundo de doidos. No entanto, aquela atitude do motorista dos STCP deixou-me atónito. A intimidação feita com o veículo que conduzia foi para nós, pura e simplesmente, como se nos tivesse apontado uma arma mortal. Algo deste género estar-lhe-ia a passar pela cabeça: “Como se atrevem a me atrasar, eu vou-vos ensinar”!
Se eu pudesse ter conversado com esse motorista, ter-lhe-ia perguntado: “Onde vai com tanta pressa que não pode esperar alguns segundos?” Porque eu juro que não demoraríamos mais do que o tempo que “perde” numa paragem de autocarro para a saída e entrada de passageiros. Perguntar-lhe-ia também: “Se você tivesse uma arma carregada na sua mão e estivesse com raiva de alguém, abriria fogo apenas para intimidar?”. Duvido que a maioria dos cidadãos com porte de arma faria isso, inclusive este condutor. Mas o potencial para provocar ferimentos graves ou morte são a mesma coisa. Eu descreveria o que se passou nessa tarde como “agressão com uma arma mortal”. Sejamos claros, a velocidade, impaciência, condução agressiva e distraída são as principais causas dos acidentes rodoviários, pura negligência. Aquilo foi pura agressão.
Tenho a dizer que, quando estou no meu próprio caminho, sozinho, costumo ignorar tais comportamentos, pois é apenas a minha palavra contra a outra. Mas no exemplo acima, para além de ter o meu filho perto de mim, eu estava com dezenas de amigos. Todos nós somos testemunhas. Posso estar a ficar velho, até bater mal das ideias, mas quando opto pela bicicleta para me fazer transportar pretendo chegar inteiro ao destino.
A cultura da paz começa com os nossos pequenos e pacíficos gestos, como andar de bicicleta.