isto é Lousã

Por desafio do Rui voltei a trilhar calhaus e terra, salpicar de lama o traseiro, atirar-me de cabeça, literalmente, duas das vezes para o meio do silvado para depois ter de ser resgatado, senão ainda lá estava a servir de pasto às formigas.


Foi numa bicicleta desenrascada a preceito, na companhia do Rui, do Couto, do Sérgio e do Pimenta, bem como de outros entusiastas do bêtêtismo nacional, que participei na 4ª etapa do Circuito NGPS 2018, “Isto é Lousã”. O evento teve como principal ponto de interesse as Aldeias do Xisto e ficar a conhecer os recantos mais bem guardados da “montanha mágica”.


Voltei à Serra da Lousã, para desta vez ir mesmo ao coração da dita que pouco ou nada conhecia. Deixei-me levar por trilhos sinuosos e recônditos, saltar socalcos e escadas entre paredes de xisto, embrenhar-me pelos verdejantes vales a jorrar água por todos os poros, subir às varandas donde se pode desfrutar paisagens de cortar a respiração. Deixei-me guiar pelas geringonças orientadoras dos restantes, numa de tentar não me perder.

Foi um ziguezaguear por trilhos de prazer, pelas encostas de uma serra que esconde sorrisos de sofrimento. São subidas e descidas húmidas e sombrias, polvilhadas de beleza natural e trabalho manual, pelo labor dos que dela vivem em cada pingo de esforço tentando dar equilíbrio e amor a um modo de vida duro num chão armadilhado de xisto escuro e frio.

Foi dar ao pedal por um belíssimo traçado que retrata fielmente o que a Serra esconde. Para cima e para baixo, pelo monte de terra que nos fez explodir todos os sentidos. Abrimos os olhos de espanto com a imponência das montanhas, quase a tocar nas nuvens. Aliviamos a farda quando o sol a pique nos aquecia o lombo. Vociferamos com um granizo inesperado que furava capacetes. Aguentamos imponentes as quedas de água do céu que arrefecia os músculos. Empurrei e carreguei a burra sempre que para trás mijava a burra. Que dia fantástico, efeitos do ambiente. Não houve um único momento desperdiçado em todo o passeio.


A organização premiou os participantes com 2 percursos principais, de 53 e 89 Kms, e uma terceira opção que passou por intercalar ambos os traçados, que totalizava cerca de 60 Kms e que teve a nossa opção. Mesmo com uma arreliadora constipação trazida de véspera, a minha condição física não me deixou ficar mal. Mas nesta coisa do bêtêtê o meu ponto fraco são mesmo as descidas. É que já não tenho idade para descidas à maluca, e a falta de confiança fez-me travar o ímpeto, ao ponto de paranóia, ao ponto de cair quase parado, e não foi por uma vez, nem por duas. Caí três vezes! Acho que bati o recorde! Trouxe nos braços e nas pernas alguns pequenos arranhões, medalhas para me recordar que isto do todo-o-terreno é só para  arriscar de vez em quando.

Mesmo assim gostei bastante. Gostei de estar presente, trouxe-me memórias do passado, revi receios e terei “feito as pazes” com algo, não sei bem com o quê, talvez com uma parte de mim próprio. Obrigado aos meus amigos por me ajudarem nisso.

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Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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4 respostas a isto é Lousã

  1. Nelson Branco diz:

    Já andei por estas bandas mas a penantes… https://pedalopelacidade.wordpress.com/caminhadas/percursos-efectuados/pr1-rota-dos-moinhos-pr2-rota-das-aldeias-serranas-lousa/ paisagens bonitas e fascinantes tal como descreves. Na altura que por aí andai tive pena de não ter visto esse belo baloiço para dar umas voltas!

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  2. paulofski diz:

    Como podes ver, o baloiço de Trevim está lá bem no alto. Está junto às eólicas. onde as vistas sob a Lousã e todo o sistema montanhoso é absolutamente fascinante. A sensação que dá é que estamos a voar sob toda aquela beleza natural. Recomendo a experiência, mesmo a quem tenha vertigens.

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  3. Anónimo diz:

    Então era o Paulofski que, na companhia de outros Bêtêtíscos, estava a encanar uma “mine” quando eu cheguei com outros companheiros para fazer o mesmo? Se eu soubesse tê-lo-ia interpelado pois sou cliente costumeiro deste seu tasco.
    Mas pá, oh Paulofski, para mim, eu que ando a pedalar na serra da Lousã desde 1995, o percurso falhou em levar-nos à floresta de coníferas para os lados do Gondramaz. Aqueles sobe-e-desces pelo meio de acácias e descidas por corta-fogos com a bike às costas eram desnecessários (já o disse ao companheiro que fez os tracks – e que eu conheço). Para mim faltou a grande floresta e os estradões e caminhos longos nas cumeadas com vistas largas para as lonjuras (desde o Caramulo, à Estrela até Sul, para as portas de Rodão).
    Lá no meu tasco, caso te interesse, tenho centenas de postas sobre a serra da Lousã. Um ao acaso para dar um “flavour” da floresta:
    http://bateoventosopraachuva.blogspot.pt/2017/10/serra-da-lousa-neblinica-e-de-como-as.html

    Abraço

    João

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  4. paulofski diz:

    Viva João.

    Desde já deixa-me agradecer-te a visita. Satisfazer a clientela da tasca é fundamental 🙂 . Depois, deixa-me dizer que tens ali um belo espaço de leitura, descoberta e recheado de fotografias apaixonantes. Fiquei cliente da adega que fará parte do meu roteiro blogueiro. Espero ter lá uma mine fresquinha à minha espera 🙂

    Pois aqui o ciclista, mais habituado à floresta urbana e ao asfalto fofinho, ficou rendido à dureza dos trilhos da Serra da Lousã. Sentiu-a nas pernas e na pele, não hajam dúdivas. É como dizes, muito mais haverá por descobrir. Espero que as tuas propostas sejam atendidas pela organização em próximos eventos, levando os participantes por novos e interessantes tracks, não descurando os trilhos mais técnicos da modalidade que os amantes do bêtêtê e da natureza muito apreciam e que eu mais temo, as descidas à maluca.

    Abraço e volta sempre.

    Paulo

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apenas pedalar ao nosso ritmo.

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