Já escrevinhei algures que pratico todos os dias aquilo a que gosto de chamar pedalar no cardume, “car doom” em estrangeiro. Quase sempre prefiro praticar um ciclismo veicular do que pedalar pelas ciclovias, ciclopistas, vias cicláveis, etc. A meu ver, para que a bicicleta seja eficiente na mobilidade urbana é necessário que a mesma seja considerada um veículo, com o ciclista exigindo os seus direitos e cumprindo as suas obrigações, conforme prevê o Código de Estrada. Uma vez exigidas as ciclovias, tornou-se muito fácil, e até cómodo, para quem administra as vias urbanas, tirar a bicicleta do seu espaço conquistado no trânsito como um veículo e colocá-la em cima de passeios, calçadas, caminhos quase sempre partilhados, nivelando a bicicleta nas mesmas condições de mobilidade dos peões e deixando as vias públicas exclusivamente para os veículos motorizados. Como quase sempre as bicicletas atrapalham o trânsito, e existindo mesmo ali ao lado uma via pintada com uma tinta colorida, o legislador encontrou aí um pretexto para tirar as bicicletas da rua. Eu próprio já tive a prova que o automobilista não tolera um ciclista ao seu lado, na rua, achando que o meu lugar seria no passeio, ou na tal ciclovia!
A bicicleta no passeio perde o respeito, a agilidade e a sua importância como um veículo eficiente na mobilidade urbana, transformando-se apenas numa opção de lazer, sujeitando-se ao direito dos peões em utilizar o seu espaço. Um exemplo típico acontece quando as ciclovias são tomadas por pessoas a caminhar, jovens de patins e até em bicicleta a ziguezaguear, animais de companhia, veículos estacionados. A ciclovia compartilhada é um jeito elegante de expulsar o ciclista urbano da rua. Quem utiliza a bicicleta diariamente sabe que a ciclovia compartilhada não é a melhor solução.
Claro que existem ciclovias onde há mais vantagens do que desvantagens, mas a meu ver, nas raras que existem não é justificação suficiente para a segregação das bicicletas. A demarcação de ciclo faixas, com uma largura mínima nos dois sentidos da pista, é um investimento de baixo custo e que permite a inserção da bicicleta no seu espaço natural, no trânsito, resultando daí um deslocamento mais rápido e com maior nível de segurança. Falar da segurança dos ciclistas, justificando a sua criação, a segregação dos ciclistas com a justificação para evitar que sejam atingidos por um automóvel, a mim não pega.
Começando então por falar da segurança dos ciclistas, visto ser esta a justificação que é mais apontada para a criação de ciclovias, torna-se premente circular com cuidados mais que redobrados. Na maioria das vezes as ciclovias são usadas por pessoas que nem sequer andam de bicicleta. É fundamental que todos saibam compartilhar o espaço com precaução, velocidade moderada, e acima de tudo com uma atitude defensiva. Os acidentes com ciclistas que ocorrem com maior frequência acontecem nas ciclovias, nos passeios e vias compartilhadas, onde os automóveis não entram.
Quando eu opto por aproveitar o caminho tranquilo e livre de uma via ciclável, no passeio ou no parque, eu sei que estou a entrar num espaço comum. Se modelo o meu comportamento, espero de todos o mesmo modo de atenção e cuidado. Dependendo quase sempre do momento, e claro que também da bicicleta que esteja a usar, eu gosto de ser livre de poder escolher onde circular, até pela minha segurança, e não é por acaso que às vezes me sinta melhor pedalar na rua, no meio do cardume. E por alguma razão será, penso eu de que…