reportagem: A bicicleta não está morta

Cicloturismo a bicicleta não está morta

Este é um trabalho elaborado pela Alexandra João Martins e no qual tive o privilégio de participar há uns meses (embora tenha palavreado muito mais do tempo de antena). Podem ouvir a reportagem aqui.

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o apelo da estrada

Randonneurs, Audax, o objectivo é divulgar e estimular o ciclismo de longa distância e criar condições para que os ciclistas vençam os seus próprios desafios. A coisa começou assim.

Le Antique 2

Em 1891, as pessoas não sabiam bem onde poderiam chegar numa bicicleta. Alguns crentes, audaciosos, davam já as primeiras pedaladas em corridas de velódromo ou no cicloturismo a cobrir longas distâncias de estrada. Naquela época, aquilo a que chamavam estradas não passava de trilhos aterradores, empoeirados no calor e lamacentos depois da chuva. Algumas ruas das cidades eram de paralelepípedo, bastante agreste tanto para o esqueleto humano como para a resistência das máquinas. A história do Audax confunde-se com a história do Paris-Brest-Paris Randonneurs. Depois da Bordeaux-Paris, uma corrida de estrada de 572 kms, no Verão de 1891 ocorreu a inaugural Paris-Brest-Paris (PBP), corrida tornada mítica pois desde sempre cativou a atenção dos entusiastas das biclas. Antecessora do Tour de France, o PBP é o desafio de resistência, habilidade e determinação mais antigo ainda realizado com regularidade na estrada. Vedada aos ciclistas profissionais, cada participante tem de pedalar os mais de 1200 km num tempo limite de 90 horas. À passagem pelas “cidades controle” é exigido aos participantes parar para ser carimbado e assinado o cartão de controle, procedimento praticado até hoje. Só para que conste, o vencedor da corrida inaugural foi Charles Terront, que entrou triunfante em Paris após pouco menos de 72 horas a pedalar e sem dormir. Assim nasceu a fama do PBP. Ao longo dos anos, houve algumas mudança, o que não será de se estanhar pois o mundo actual é um lugar bem diferente que em 1891. De qualquer forma, a sua mística é perdurável e os desafios que os randonneurs de hoje encontram nos vários brevets que completam, permanecem eternos e destacam-se pela sua determinação, espírito e amor à camisola. A prova tem na realidade 1.225 km de distância e 9.539 metros de subidas acumuladas. Uma pedalada longa e extrema, contra o relógio, assegura que somente os randonneurs mais tenazes recebem a prestigiosa medalha e tenham o seu nome escrito no “Grande Livro” do evento.

no L'Antique

Há conta de um por ano, nos recentes cinco, fiz os meus “brevets privativos” entre o Porto e Fátima. Em Fevereiro, cumpri o meu primeiro brevet seguindo os regulamentos da cultura randonneur. A bordo da Alteza, uma bicla sem mudanças bem ao espírito randoneiro do antigamente, completei os 200km do L’Antique organizado pelos Randonneurs de Portugal! Depois virão os 300, os 400, os 600 (!!!)… Mas antes de qualquer outro desvairo, aceitei a proposta do Fernando para “pioneirizar” uma Flèche. E o que é isso da Flèche? Bem, são apenas 24 horas de rabo sentado num selim, a rodar pernas por mais de 360km, o que equivale a uma média de 15 km/hora. Canja, não é!? Assim, amanhã e depois da ligação por comboio, farei uma “Flèchada” com a cara ao vento, à chuva, e na boa companhia, do Jacinto, do Ricardo e do Fernando. Partiremos às 10 horas de Braga, passando por Mondim de Basto, Amarante, Régua, Lamego, Viseu, numa route pioneira pelos caminhos de Portugal até ao meeting point, em Coimbra, pelo que às 10 horas de Domingo esperamos encontrar a equipa que vem de sul.

L'Antique

Nos preparativos para a festa tenho vacilado muito na escolha da bicicleta a levar! Inicialmente pensei ir na Cosmos, bicla facilmente transformável em randoneira, com uma geometria menos racing que não iria flagelar tanto as minhas costas, só que o mesmo já não digo das pernas, pois os andamentos dela são bem durinhos. Com um acumulado de mais de 4 mil metros de altimetria, numa bicla leve, com andamentos leves, posso garantir um desempenho óptimo. Para tal tenho esta, uma bicicleta com andamentos adequados às subidas, que evita ter de levantar o rabo do selim e pedalar em pé a qualquer desnível, evitando um desgaste extenuante e desnecessário. O ciclismo de longas distâncias quer geometrias variadas, rodas robustas, pneus resistentes, equipamentos diversos, selins amigos, e pede faróis. O kit assenta-lhe bem e como é para devorar quilómetros decidi que vou na gOrka. Dá-me garantias. Além de todo o equipamento obrigatório constante dos regulamentos, nos alforges devo ter pelo menos duas câmaras-de-ar de boa qualidade, um jogo de ferramentas simples, espátulas, roupas quentes e impermeáveis, baterias, comida, papel higiénico… Não esquecer uma boa alimentação antes de uma longa pedalada. Um pequeno-almoço bem reforçado, pão, bananas, carboidratos, mas nada de alimentos que soltem os intestinos. Muita água, e quando parar num tasco junto à estrada peço sopa. Entretanto, se carecer daquela bomba de açúcar e sódio, uma coca-cola faz milagres. Estudado o trajecto, bicla nos trinques, é fundamental que me deite cedo e durma bem para acordar bem humorado e cheio de pica, a receita certa para transpor todos os obstáculos. Bora lá fazer a soneca…

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fotocycle [78] spring time

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bamgoo

bamgoobagA designer italiana Sara Urasini foi premiada recentemente com o primeiro lugar no segmento de serviços/instalação da Competição Internacional de Design de Bicicletas em Taipei. Concebido para ciclistas de países em desenvolvimento, o Bamgoo é uma espécie de multi-alforge, utilitário para a bicicleta constituído de materiais naturais, fáceis de encontrar, com uma estrutura mínima construída manualmente e com o recurso de ferramentas simples. Tem 12 bolsas posicionadas simetricamente de modo a serem práticas no transporte de produtos oriundos dos mercados ao redor das aldeias. Dois suportes simples ligados ao quadro permitem que as pessoas removam a estrutura da bicicleta e a carreguem durante a caminhada.

 

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fixa ou fixie, é fixe

foto © Daniel Vidinha

Elas são estilo, cultura, tendência. Bicicletas que não têm o mecanismo da roda livre. A opção de voltar a um design simplista, uma minúcia de ciclistas urbanos que apreciam a simplicidade de uma fixa sobre a bicicleta multi-indexada. Não há surpresas. Não há limitações. Há uma certa dose de loucura. Há a experiência, o olhar, o prazer reminiscente de um certo tempo, antepassado, que está de volta. Não é só a sensação incrivel da brisa a soprar no cabelo, pernas de aço e um sorriso no rosto. Há um culto em torno destas bicicletas. Uma cultura prática que se expande nas ruas da cidade. Esta cultura é tudo para quem sabe aproveitar as coisas simples e boas da vida. As modas vêm e vão, mas as bicicletas fixas estão cá para ficar. A sua popularidade vai crescendo e a indústria do ciclismo concentra-se em atender esta demanda. Blogs, livros e revistas. Perceber o por de  trás dessa tendência louca é, naturalmente, crescer e valorizar o design bem simplista. A facilidade da pedalada, do clássico misturado com o contemporâneo, são apenas algumas das razões para os apaixonados de bicicletas fixas. Aproveitar o tempo, derrapar e apreciar um passeio bem fixe… ou bem maluco!

O ciclista Patrick Seabase subiu até ao Col Du Galibier numa bicla de pinhão fixo e desceu do outro lado!

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ciclofilia [81] Desassossego de bicicleta

Aniversário da revista B, de bicicletas, no Grémio ao Carmo, Lisboa.
Art de Pantónio.
Photos de Joana Janeiro.
17 Março, 2013

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fotocycle [77] revira e volta

you turn me round

… you turn me round! Um ano inteiro às voltas com esta senhora.

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ciclista e peão

ciclovia da Prelada

Eu, como muitos outros amigos ciclistas, sei que ao pedalar temos uma diferente percepção do que nos rodeia. Num contexto mais amplo, tomando como exemplo quando vamos a caminhar ou a correr, o ciclismo afecta positivamente a forma como prestamos atenção a tudo: à via, aos carros, aos peões… Como o número de ciclistas tem aumentado, também tem sido ampliado o atrito entre peões e ciclistas, sendo que, a meu ver, a maior parte da animosidade se encontra do lado do pedestre. Porque a bicicleta é silenciosa, há quem tema os ciclistas. Porque ela é rápida, há quem não nos grame. Porque ela é divertida, “é coisa de crianças”! Há pessoas que desprezam o que não conhecem, o que é diferente e oposto aos seus hábitos e costumes.

Os peões não utilizam a rua da mesma maneira como os veículos, porém, são parte dela. No entanto esquecem-se muitas vezes da presença dos ciclistas. Ao atravessar a rua, fora da passadeira, viram a cabeça e o olhar confirmativo para os veículos a motor, mas distraem-se frequentemente, não dando conta que pode vir um ciclista e ficar em rota de colisão. Há dias senti na pele a aspereza do asfalto porque um peão tonto atravessou a rua a correr e parou espantado, bem à minha frente, quando me viu. Para não o atropelar, desviei bruscamente a bicla, perdi o equilíbrio e não evitei a queda. O cromo receou por mim, reconheceu a estupidez da sua acção e ainda me ajudou a limpar o casaco. Comigo estava tubo bem, a bicla é que ganhou mais uns riscos para a colecção.

Outro quiproquó é quando os peões invadem as ciclovias e vagueiam por ali, sem nenhum cagaço, como se aquilo fosse uma enorme passadeira vermelha! É evidente que alguns ciclistas mostram desconforto e reclamam com quem fica parado, caminha ou corre nas ciclovias. Esse ressentimento é quase sempre resultado da má educação latente e de bocas foleiras que ouvem de muita gente. Esses, não se incomodam se o ciclista tiver de se desviar, se colocar em perigo ao ter de fugir para o meio do trânsito, ou travar de forma insegura para evitar um tipo que, inesperadamente, entrou no seu caminho. Independentemente se é do peão ou do ciclista, causando ferimentos ou lesões graves, a culpa nestas situações imediatamente estica o dedo sobre a parte lesada, protestando contra a imprudência dos ciclistas. Infelizmente, estes incidentes alimentam a chama que incendeia a antipatia contra os ciclistas. Nesses momentos de conflito, assim como os que se verificam entre automobilistas e ciclistas, cabe ao ciclista de alguma forma descomplicar a coisa e reduzir o atrito, estando atento e antecipando as acções dos outros.

Apesar de passar muito tempo a pedalar, gasto muito mais sentado à frente de um computador. Ficar sentado por longos períodos de tempo a olhar para um monitor de computador não é bom para a saúde e, como tal, incorporo a actividade adicional de uma caminhada ou uma corridita de quando em vez. Ao chegar a um cruzamento que quero atravessar, paro, escuto e olho para os dois lados. Procuro estar atento a todos os tipos de veículos, carros, bicicletas, motocicletas, patins em linha… e também reparo nas pessoas em cadeiras de rodas. Eu vi um homem numa cadeira de rodas numa rua movimentada que por pouco não levou uma panada porque um carro estacionado em cima do passeio impedia a sua passagem e, por via disso, circulava na rua. Enfim, para evitar incomodar ou colocar alguém em perigo, enquanto peões, ciclistas ou automobilistas, tornemo-nos cientes das nossas responsabilidades, baseados no respeito mútuo e compreensão. E depois, enquanto nem todos os ciclistas são condutores, todos os ciclistas são peões!

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feita de madeira

Angel

Apresentada em Janeiro, tem hoje destaque aqui no estaminé. Baptizada de ANGEL, abreviatura de Art Now Give Energy to Live, é uma bicicleta amiga do ambiente uma vez que nasceu do reaproveitamento de desperdícios da indústria da madeira. É um objecto de design integralmente desenhado por Portugueses. Prevê-se que até ao final do ano seja produzida em série com um preço a rondar os 400€, sendo que se pretende num futuro próximo criar uma versão com um preço mais acessível. Em cima da mesa estão também propostas de versões em cortiça e com motor eléctrico, mas neste caso o valor será outro.

A ANGEL é uma bicicleta realista, com uma forte componente ambiental, onde a reciclagem é o argumento em grande destaque. Com um design agradável pelas suas formas simples, limpas e atraentes, foi pensada para aproveitar a quantidade de desperdícios de madeira utilizada em indústrias. No fim do seu percurso de utilização será totalmente reciclável. Utiliza ainda 30% de componentes em alumínio e ferro, estando prevista uma versão com 95% de materiais recicláveis numa futura versão, a lançar em finais de 2013.

Nuno Zamaro, o seu criador, não é um novato nestas andanças e aposta no desenvolvimento de projectos ligados às duas rodas. Em 2007 desenvolveu o projecto Bute – Bicicleta de Utilização Estudantil – em parceria com a Universidade do Minho e com isso venceu o Prémio Nacional de Mobilidade. O projecto ANGEL da agência WISE U, sediada em Águeda, teve início em 2009, com a denominação RYK-B, e ganhou vários desenvolvimentos ao longo dos últimos anos, até chegar ao protótipo actual. 

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