textos de Marcos Paulo Schlickmann [9] O caminho para a escola

Hoje em dia é difícil encontrar crianças sozinhas nas ruas, indo a pé ou de bicicleta para a escola. Tanto no Brasil quanto em Portugal o meio de transporte mais usado para levar os filhos à escola é o automóvel.

Mas o que aconteceu? Houve sem dúvida uma mudança1 de 20 anos para cá. Antigamente as crianças iam para escola a pé ou de bicicleta, junto com o vizinho ou o amigo. Buscar e levar o filho de carro para a escola era coisa “de rico” ou de quem morava muito longe. A insegurança rodoviária e o medo que os pais têm de deixar uma criança sozinha foram os principais fatores para essa mudança.

A questão do medo é válida. Hoje em dia proliferam histórias de pedófilos. Num país desigual como o Brasil onde muitos se sentem inseguros mesmo dentro de casa, deixar uma criança sozinha pode ser considerado um ato de loucura. É importante mudar isso, percebendo verdadeiramente até que ponto é realmente inseguro e até que ponto é fantasia.

Já a insegurança rodoviária é um verdadeiro paradigma, um contrassenso. Pergunte para uma mãe porque ela não deixa o filho (mais crescido claro, não vamos falar aqui de bebês) ir para escola a pé ou de bicicleta, acompanhado de um amigo ou mesmo acompanhado por ela. Ela vai dizer que é muito perigoso, os carros são muito rápidos e não respeitam os pedestres/peões, logo a única solução segura é ir de carro. Como diz na foto abaixo: “Há muito tráfego para o Billy ir a pé para a escola; portanto nós o levamos de carro.”

Figura 1- Tráfego induzindo tráfego. Fonte: http://www.planetizen.com/node/56017

Figura 1- Tráfego induzindo tráfego. Fonte: http://www.planetizen.com/node/56017

A única solução segura encontrada pela mãe, que se preocupa com a segurança do seu filho, alimenta o problema. Um ciclo vicioso no qual estamos presos e que é preciso muita coragem para lutar contra, pois estamos a falar no bem mais precioso de uma família, os filhos. Infelizmente os pais se esquecem que estão preservando a segurança presente da criança mas comprometendo o seu futuro e o de outras pessoas, através da poluição e dos demais custos inerentes a essa solução. E para agravar esse problema e condicionar os pais ainda mais a esta escolha temos a questão das distâncias. A noção de “escola de bairro” está a desaparecer. Com o mundo competitivo que temos hoje, onde cada vez mais e mais cedo se exige excelência das crianças, os pais não se importam em colocar o filho para estudar numa instituição 10, 20 km de distância, pois estão a buscar o melhor para seus filhos.

E o ápice desse contrassenso são os carros tipo SUVs. Estes carros são comprovadamente os que mais ameaçam a segurança de uma criança que atravessa a rua, pois devido à posição elevada do motorista e à baixa estatura da criança o motorista simplesmente não vê a criança que atravessa na sua frente. Ou seja, uma mãe decide comprar um SUV para levar o filho com segurança para a escola mas esquece que está a ameaçar as demais crianças que vão para esta mesma escola.

É estranho, no mundo cheio de soluções que vivemos, as famílias se restringirem somente ao automóvel como solução única de mobilidade, quando existem tantas outras opções. Ao mesmo tempo que confiamos cegamente no automóvel como solução ótima, nos tornamos reféns dele. Quem nunca ficou “na mão” de manhã no caminho para o trabalho? Com o carro quebrado ou o pneu furado? Ao invés de ser uma solução o automóvel se torna um problema.

Há ainda uma outra questão. A relação entre a saúde das crianças (e dos adultos também), os transportes e a distribuição espacial da cidade. Fugindo do foco já batido da poluição, até que ponto nossas opções de mobilidade e de localização afetam o nosso nível de atividade física, nosso peso e nossa saúde. Um tema para outro texto.

Para finalizar deixo aqui dois exemplos interessantes: O “Walking Bus2”, uma solução presente na Austrália e Reino Unido, e o “Bicycle Bus3”, uma solução holandesa.

Referências:

1         http://www.saferoutesinfo.org/sites/default/files/resources/NHTS_school_travel_report_2011_0.pdf (apesar de retratar a realidade americana acredito que é válido)

2         http://atitudesustentavel.com.br/blog/2012/03/08/indo-a-pe-para-a-escola/

3         http://atitudesustentavel.com.br/blog/2012/02/14/bicycle-school-bus-leva-criancas-para-a-escola/

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a todos um Bom Natal, que seja mesmo um Feliz Natal…

Feliz Natal

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textos de Marcos Paulo Schlickmann [8] A rua e as crianças

Neste texto e no próximo irei abordar o papel das crianças na cidade. Hoje vou escrever sobre o uso da rua pelas crianças como espaço público de lazer e no próximo sábado a respeito das crianças e o caminho para a escola.

Uma das “classes de usuários” da rua que mais sofreu com a obsessão pela fluidez do tráfego a qualquer custo (uma das várias obsessões que compõem o chamado rodoviarismo) foram as crianças.

fig1

Figura 1 – Uma imagem cada vez mais incomum. Ou não. Fonte: http://goo.gl/pz77r4

A rua é o verdadeiro espaço público. É o espaço público por excelência. Durante toda a história da humanidade a rua, conjugada com as praças e parques, serviu e ainda serve de palco para revoluções, manifestações e passeatas. E, claro, para o tráfego. Tais eventos são sempre grandiosos e acabam por invariavelmente tomar à força o direito temporário pelo uso da rua. Esses eventos têm um início e um fim, tem um propósito específico, são esporádicos e “atrapalham bastante” durante um determinado período, porém não chegam a roubar a rua do tráfego, basicamente emprestam-na. Mas há outro evento que perdeu o direito à rua e talvez nunca mais o recupere: o ato de brincar na rua.

Eu ainda brinquei na rua. Joguei bola, taco, andei de bicicleta (como forma de lazer), brinquei de carrinho com os vizinhos e amigos. Hoje em dia a rua é perigosa, é lugar de pessoas apressadas, um lugar de passagem e não de paragem.

Mas qual o impacto na formação de um adulto a privação do uso da rua pelas crianças1? Tem algum impacto? Devemos mesmo nos preocupar com isso2,3? Afinal hoje em dia já somos todos ricos e as crianças vivem cada vez mais em mundos virtuais, como os adultos. Com 7 anos já têm iphone, ipad e motorista particular (os pais). Desde pequenas essa obrigação de “diversão controlada” é-lhes incutida. Elas brincam em espaços privados: em casa, na casa do amigo, no clube, na escola ou na Internet, um “espaço” que os pais podem facilmente controlar.

Uma mãe que deixa o filho brincar na rua com o amigo ou com o vizinho, nos dias de hoje, só pode ser louca! A rua é para os carros caramba!

Mas devemos ser racionais. Qualquer um que tirou a carta de condução/carteira de motorista percebe que há ruas e ruas. É claro que é inseguro para uma criança brincar numa avenida com duas faixas, corredores de ônibus/autocarro e velocidade máxima de 60km/h. Eu não estou questionando isso. Mas aquela obsessão que falei no início tornou muitas ruas em lugares inóspitos! Ruas residenciais que antes eram calmas se tornaram lugares perigosos onde o motorista acha que tem o direito supremo de passar. Que egoísta! Quando ele era criança de certeza que brincou na rua.

Figura 2 - O que a velocidade faz com as ruas. Fonte: http://goo.gl/ETwXjA

Figura 2 – O que a velocidade faz com as ruas. Fonte: http://goo.gl/ETwXjA

No entanto as pessoas estão a mudar. Não foram todos que caíram no engodo da fluidez de tráfego e muitos estão agora a perceber que existem coisas mais importantes que isso. A cidade de Freiburg4, Alemanha tem uma política que reconhece o real papel da rua e sua importância para as crianças. Nessa cidade é muito famoso o bairro de Vauban5,6 pelo seu modo peculiar de ver o automóvel. As zonas 307 são um conjunto de soluções de acalmia de tráfego (que irei explicar num próximo texto) que buscam também resgatar a rua como espaço de lazer.

fig.3

Figura 3 – Vauban, Freiburg. Fonte: http://goo.gl/ZxTfoj

Para finalizar recomendo uma vista de olhos neste vídeo e link (http://goo.gl/PQiqHm) que mostra crianças holandesas a lutar contra o tráfego, reclamando a rua de volta… em 1972(!!!!) Acho que temos muito que aprender com eles.

https://www.youtube.com/watch?v=YY6PQAI4TZE#t=212

 Retomem as ruas!

Referências:

1 – http://www.tvi24.iol.pt/503/iol-push—sociedade/criancas-ar-livre-estudo-brincar-tvi24/1469219-6182.html

2 – http://www.dm.com.br/texto/155899-que-falta-faz-aquelas-brincadeiras-de-rua

3 – http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=2902135

4 – http://www.freiburg.de/pb/,Lde/231709.html

5 – http://en.wikipedia.org/wiki/Vauban,_Freiburg

6 – http://www.apocalipsemotorizado.net/2010/06/02/vauban-e-o-uso-racional-do-automovel/

7 – https://www.facebook.com/notes/zona-30/podem-as-crian%C3%A7as-adaptar-se-ao-tr%C3%A1fego-rodovi%C3%A1rio/506903862687287

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via MUBI, Nelson Nunes apresenta o CycleOurCity

cycleourcity

“Bom dia a todos,

Gostava de vos dar a conhecer um novo sistema de planeamento de deslocações de bicicleta  na área de Lisboa. Este sistema teve origem no meu trabalho de Mestrado, no âmbito de um projecto de investigação no Instituto Superior Técnico e INESC-ID.

O CycleOurCity tem uma característica muito especial: é actualizado pelos próprios utilizadores de bicicleta, numa vertente comunitária.

Quem conhece bem e pedala regularmente em alguns bairros da cidade, classifica os respectivos troços segundo escalas de inclinação, segurança e tipo de pavimento.

Dessa forma, o sistema aprende e passa a ser capaz de recomendar os trajectos mais cicláveis aos utilizadores que precisem de se deslocar de bicicleta por esses bairros, mas não sabem por onde devem ir.

Vemos o CycleOurCity como um projecto que unirá a comunidade de pessoas que usam a bicicleta numa cidade. Permitindo que quem conhece alguns bairros como a palma da sua mão torne essa informação útil a outros utilizadores de bicicleta na mesma cidade.

Depois de uma cuidada fase de testes e experiências com utilizadores voluntários, o CycleOurCity é hoje lançado ao público: http://cycleourcity.org/

Contamos com a vossa ajuda de diferentes formas:

  • criando uma conta no sistema e classificando os troços que melhor conhecem;

  • experimentando o sistema e enviando-nos sugestões de melhorias;

  • divulgando o sistema a outros.

Uma última palavra a quem não é de Lisboa: caso achem que faria sentido ter o CycleOurCity na vossa cidade, entrem em contacto connosco. Numa primeira fase, queremos manter a experiência em Lisboa apenas, mas assim que sintamos o sistema estável e afinado, será possível estendê-lo a outras cidades.

Obrigado a todos!”

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fotocycle [107] às compras

às comprasno comércio tradicional

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do novo Código da Estrada

Foto4ESER
Autoridade de Segurança Rodoviária ainda não tem pronta edição do novo Código da Estrada

…
“Foi o próprio presidente deste organismo, Jorge Jacob, quem anunciou o atraso, durante uma acção de divulgação das novas regras para os automobilistas realizada esta quarta-feira, em Lisboa. “Não está pronto, está na tipografia. Mas temos folhetos”, referiu. Questionado sobre as razões do atraso, não soube responder. “Foram diferentes vicissitudes”, limitou-se a dizer um técnico do núcleo de apoio à presidência da ANSR para o qual Jorge Jacob remeteu mais esclarecimentos, Pedro Miguel Silva.
…
Jorge Jacob confessa-se particularmente intranquilo com estas as alterações: “Preocupam-me os ciclistas, que actualmente são bastante indisciplinados”. Outra preocupação do presidente da ANSR relaciona-se com a redução da taxa máxima de alcoolemia permitida de 0,5 para 0,2 gramas por litro, regra que apenas se aplica aos novatos na estrada e aos os condutores profissionais. É preciso que uns e outros se adaptem às novas restrições – até porque as estatísticas da sinistralidade mostram que mais de uma em cada três pessoas mortas na estrada apresentam mais álcool no sangue do que o permitido.”…

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Bicicletas com mais direitos na estrada

“A partir do dia 1 de janeiro, os condutores de bicicletas podem circular a par nas estradas portuguesas, excepto em vias de reduzida visibilidade ou nos casos em que exista grande afluência de trânsito.
…
“Se se verifica o aumento dos direitos, também há uma maior responsabilidade dos utilizadores de bicicleta”, lembrou esta quarta-feira o secretário de Estado da Administração Interna, Filipe Lobo D’Ávila, durante a discussão das alterações ao código da Estrada, em Lisboa, dando como exemplo o uso das luzes à noite. Estas alterações ao código devem, por isso, “significar um comportamento responsável e, para as forças de segurança, uma maior fiscalização”, concluiu.”…

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O eco em Copenhaga do novo Código da Estrada português

Artigo de opinião de Pedro Madruga (pmadruga@occamdk.com)

“Alguém disse um dia: “implementar mobilidade ciclável começando pela infraestrutura, é começar uma casa pelo telhado”. O novo Código da Estrada (CE) português, aprovado a 24 de Julho de 2013, é uma fundação sólida para uma verdadeira cultura da bicicleta. E estes direitos ganhos pelos ciclistas não são de geração espontânea – é preciso agradecer a todos os que permitiram atingir este marco.

Não são pequenas alterações ao CE. As mudanças são tão sonantes que ecoaram de uma forma nunca antes ouvida pelos cantos da mobilidade ciclável. Incluindo no estrangeiro. Não me vou debruçar sobre elas pois é algo já está bastante escrutinado, como ilustra este texto  da MUBi.

Aqui em Copenhaga, o meu trabalho na área da mobilidade ciclável permite-me interagir com uma network atenta a tudo o que se passa. Graças ao novo CE, a caixa de correio eletrónico da Occam DK teve várias mensagens dessas mesma rede: as que não foram de apoio, foram de elogio. Ainda que o mérito não seja de todo meu, é um motivo de orgulho saber que a comunidade ativista portuguesa existe, exige, age, fala e é ouvida.”…

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no meu Porto de abrigo

Porto de abrigo

Ali o tempo passa devagar, mudo, ritmado pela serenidade do Douro, que se move espesso numa sinuosa sinfonia a caminho do mar. Dali, a cidade parece calma, ausente, distante, e ela afinal está ali tão perto. Entre luzes turvas sonoramente conduzidas pela música das aves, da cor que cria o silêncio, e do final do dia que me traz a noite. As palavras ecoam na minha cabeça como batidas fortes e quentes vindas do coração, reflectem-se descoloridas num espelho que encandeia e incendeia o meu pensamento, em tons rosados de um azul profundo. Ali, o silêncio e a tranquilidade imperam voláteis como o aroma quente de um café numa noite de Outono. Ali, no meu Porto de abrigo.

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can’t miss [74] bicicletanoporto.blogspot.pt

Voltas na minha terra

Sérgio Moura de bicicleta no Porto

“Quem gosta de ler sobre viagens acaba sempre por deixar pingar saliva no livro ou teclado enquanto viaja virtualmente pelos olhos e pernas de outra pessoa.

A vontade de fazer algo parecido aperta, mas infelizmente nem todos podemos largar tudo e passar um ano (ou mesmo um mês) a percorrer o planeta.

A vantagem de viver em Portugal (se esquecermos a crise e gostarmos de andar bicicleta) é que não é preciso muito para sentir um pouco da sensação de liberdade que pedalar para longe nos transmite (ainda que perto), bem como descobrir novas paragens.”…

(a volta continua aqui)

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“e esta, hein!”…

… foi a expressão popularizada por Fernando Pessa, o mais idoso jornalista repórter português, que  me ocorreu ao ver isto esta manhã, fria e tremida tal como a foto!

carro na ciclovia

Hoje, saí de casa atrasado, mais atrasado do que é habitual. O início do meu percurso para o trabalho é feito em parte da ciclovia da Prelada. Àquela hora, o mais normal é desviar-me de pessoas que caminham / correm no tapete avermelhado da ciclovia. Poucos são os utilizadores de bicicleta com quem me cruzo tão cedo. Assim que galgo a rampa e começo a subir para o viaduto sob a VCI deparo-me com um automóvel estacionado em plena ciclovia. Passo e reparo que é a equipe de repórteres estagiários da Correio da Manhã TV (Argh!), que costumam fazer a reportagem do trânsito em cima da VCI, em cima do viaduto.  Já é rotineiro vê-los por ali, em cima da ciclovia, câmara apontada aos engarrafados, e a menina de micro em posição. O popó de serviço também já o vi por ali bem estacionado numa das muitas vagas de estacionamento existentes. Talvez para a chuva não lhe estragar o penteado, ou para evitar queimar os fusíveis à electrónica, estavam ali plantados, estacionados onde não deviam, a aguardar o momento do directo! E se me apeteceu estragar-lhes o directo televisivo? Ahhh, lá isso me apeteceu… carago!

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