roteiros a pedal [2] a Ribeira…

… fervilha de gente que emborca fluidos debaixo da brisa fresca de Verão a acomodar o estio. Sorrisos e poses para máquinas fotográficas que passam de mão em mão. Os ares do rio douram as pedras e ecoam sons que ressoam nas arcadas. Há um certo misticismo na ambiência pouco lavada e cuidada das lages das labirínticas e estreitas ruas. Tudo parece um sonho em que ninguém te conhece mas alguém pode ousar meter conversa contigo. Podemos navegar no Douro nos seus muitos barcos de recreio e apreciar as suas margens repletas de turistas, de cor, de artistas, de movimento. Podemos passear a pé, admirando o casario colorido de roupas estendidas ao vento que assiste indiferente a tudo o que se passa. Podemos apreciar as várias bancas e lojas de artesanato abertas ao público com muitas peças artísticas de interesse. Podemos até descansar à sombra e degustar uma típica francesinha e um fino esperto numa das muitas esplanadas do cais. Saborear um cimbalino bem tirado e deliciar a vista acompanhado dum cálice de Porto. Sentir a história desta bela cidade tendo sempre a noção que ali algo de mágico pode acontecer.

E qual a melhor forma de lá chegar? A pedalar.

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“com pouco esforço, o Porto podia ser mais amigo dos ciclistas”

bicicletada à moda do Porto

No Porto24 destaque para um artigo tripartido entre ilustres tripeiros utilizadores da bicicleta que procuram demonstrar por palavras o quanto a cidade imbicta é uma cidade adequada ao uso da bicicleta.

Com pouco esforço, o Porto podia ser mais amigo dos ciclistas
 
Com “investimentos reduzidos” seria possível transformar o Porto e as cidades limítrofes em zonas bastante mais “cicláveis”, através da criação de zonas de aparcamento e caixas para bicicletas nos semáforos, por exemplo, defende o ciclista Miguel Barbot, envolvido no lançamento de um grupo de trabalho para sensibilizar os poderes públicos.
 
“Estou a falar de investimentos de baixo custo: sinais a avisar os automobilistas de que andam ciclistas na cidade, zonas de aparcamento, caixas para as bicicletas pararem nos semáforos… uma série de coisas que melhorariam a ciclabilidade da cidade”, descreve.
Para sensibilizar os poderes públicos, o consultor de 35 anos resolveu cruzar os vários percursos usados pela comunidade de ciclistas urbanos da zona do Porto para perceber quais as áreas de “maior pressão”.
 
A zona da Avenida Fabril do Norte e a dos “Produtos Estrela”, na Senhora da Hora, e a zona industrial do Porto são alguns dos eixos que têm “muita gente a andar de bicicleta” e que, sendo zonas planas, “podem ser trabalhadas com investimentos reduzidos”.
Miguel Barbot foi colocando os vários percursos no blogue Um pé no Porto e outro no pedal e a comunidade já lhes deu outro destino. “Estamos a criar um grupo de trabalho que está a estudar a criação de um mapa com percursos cicláveis, indicação das zonas de aparcamento, de oficinas, do tipo de piso existente em determinada zona, etc.”, revela.
 
A cidade é “amiga” dos ciclistas
 
O consultor alerta que o Porto é uma cidade “amiga” das bicicletas e que até o clima ajuda.
 
“Tirando as subidas de ligação da cota do rio à cota superior, quase não há grandes declives. E no Porto temos um clima quase ideal. Não chove assim tanto, não faz muito calor e também não há períodos de frio intenso”, observa, garantindo que no último inverno apenas trocou a bicicleta pelo autocarro “durante 3 dias”.
 
Sérgio Moura, arquitecto de 35 anos, autor do projecto Ciclistas Urbanos, considera que não há desculpas para não andar neste veículo no Porto, embora a cidade precise de “alguns corredores para bicicletas nas vias de maior velocidade e tráfego e mais estacionamento dedicado”.
 
“Muitas pessoas tentam justificar a sua preguiça criticando a cidade pela sua falta de ciclovias ou declives excessivos, mas acho que até é simpática para pedalar. Setenta por cento da cidade é quase plana, e com bicicletas com mudanças é simples vencer as zonas com mais declives. Muitas pessoas associam a bicicleta a desporto, mas para a usar como forma de transporte devemos fazê-lo de forma a minimizar o esforço e tornar o percurso o mais suave possível”.
 
Também  Paulo Almeida, funcionário público de 45 anos, (aqui o je), considera que “o Porto é das melhores cidades para o uso da bicicleta”, porque “embora tenha uma topografia complicada, se houver um bom planeamento dos percursos certamente que se encontrará um bom compromisso entre a distância e os declives”.
 
Quanto às condições da cidade, considera que “poucas” das ciclovias existentes “são realmente funcionais” e as “restantes apenas servem para segregar o ciclista”.
 
A “grande revolução” que melhoraria a vida aos ciclistas seria “uma eficaz actualização e adaptação do Código da Estrada à utilização das bicicletas”.
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ciclofilia [4] Tweed Ride 2011

São Paulo

Victória

trrrriiiiiinnnnnn… trrrriiiiiinnnnnn…

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ao fotofinish

A denotar a imensa falta de um momento pernoléu da semana na Adega, aqui fica uma cooperativa imagem para motivar as massas, recorrendo a perna-de-obra internacional, nomeadamente dos países baixos, em binas nacionais de aluguer.

ontem à tarde no recinto das Marés Vivas, Gaia
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refinado prefiro o humor ou o açucar


Há dias resolvi ir bolinar contra a nortada para Leça da Palmeira. A certa altura apeei-me das pedaladas para registar em imagem aquilo que considerei uma série de absurdas contradições. Uma notícia de hoje faz-me então rebuscar a foto e tirar as minhas conclusões.

Como se pode ver a tarde estava convidativa para pedalar. Encostei a bicla ao poste que segura um sinal azul, indicador do início de uma via reservada às bicicletas, que do meu ponto de vista e neste caso, não passa de uma extensão do passeio pedonal à beira mar plantado. Permiti que em primeiro plano ficasse um outro sinal, este de proibição, que julgo saber na teoria limita a velocidade dos veículos motorizados a 20 km/h. Quanto à prática já estamos conversados.

Primeira conclusão a reter: pedalar é mais veloz do que acelerar, até numa via que em princípio seria dedicada às bicicletas mas que têm de coabitar com outros seres e objectos.

Ao fundo vislumbra-se uma floresta de tubos de escape virados para o céu. Para quem não sabe pertencem a uma refinaria que motiva a notícia do dia e que alimenta a combustão de motores que, à partida, pois caso contrário estariam a infligir as regras de trânsito, não podem circular ali mais rápido que um corredor da maratona. A refinaria da petrogal, para além de empestar o ambiente, é uma bomba relógio pronta a explodir a qualquer momento. Em 2004 e a propósito de graves acidentes então surgidos com o pipeline que a liga às instalações do Porto de Leixões, surgiram notícias de que haveria a intenção de, a prazo, encerrar a refinaria. Parece que mais uma vez de boas intenções se encheu o inferno pois tudo permaneceu na mesma. Como sempre não se teve em conta as preocupações da população local, obrigada há décadas a viver com a espada oscilando em cima da sua cabeça devido aos riscos de acidente na refinaria. Ontem a população voltou a não ganhar para o susto com explosões audíveis e visíveis a vários quilómetros de distância. Dizem as más línguas que é obra do terrorista da Noruega!!! Agora fora de brincadeiras, nem é preciso relembrar o perigo que ela representa pois os inúmeros incidentes ao longo dos anos falam por si.

Em jeito de questão, a segunda conclusão a reter será: precisaremos assim tanto daquilo?

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o prometido é devido

A determinada altura do ano lectivo ele ficou a saber que caso tivesse boas notas seria premiado. E foi, o Rafa transitou para o 12º ano e como tal cumpri o prometido.

“Qual é o prémio pai?”
“Parabéns pá, tem calma que logo saberás”.

Neste último ano, e com o nosso apoio, ele teve a iniciativa de alargar as suas pedaladas diárias, comutando a ida para a escola com as deslocações para os treinos de judo, os ensaios de teatro, longas pedaladas para a casa dos avós ou simplesmente, who knows, “bisitar a chabala”. Todas essas voltas têm sido feitas na bicicleta da mãe, uma Del Sol toda fixólas mas com aquele ar não-sei-quê-de-bicicleta-da-mamã. Um modelo de 2003, bem construída e equipada, e que pr’além de muito bonita é perfeita para a função que tem tido. Mas era chegado o momento de aumentar o stock bicicletário da família – por este andar terei de alugar outra arrecadação lá no prédio!.

Calculado o budget e a par das preferências do jovem, procurei em primeira instância na net a bicicleta que tivesse o principal compromisso do preço e da qualidade. Entre várias possibilidades houve uma que me acenou e que parecia a escolha acertada. Na semana passada fiz um detour no meu percurso e fui vê-la ao vivo. A menos de duas semanas de completar 17 anos, informei então o Rafa qual seria o seu prémio, que de imediato rasgou um sorriso de orelha a orelha, e ontem levei-o ao “stander”, uma loja especializada para os lados de Bessa Leite.

Assim que entramos, olhou para as bicas perfiladas. Havia de todos os feitios e para outros bolsos, mas os seus olhos fitaram logo uma entre várias. “É esta”.

Epá, por sinal apontou logo para aquela que eu havia palpitado – só não me sai o totoloto!. A sua escolha foi a Crosstrail, uma bicicleta polivalente que combina um quadro muito eficiente, bonito e leve com as rodas 700c x 45. Tem tudo o que é necessário para a cidade, tem a capacidade para circular rapidamente no asfalto, para as aventuras todo-o-terreno, tanto para fazer uma longa viagem como para passear descontraidamente. É confortável, bastante prática e tem a possibilidade de, aos poucos, ser dotada de vários apetrechos utilitários. Notei a estranheza do vendedor notar a falta de interesse deste jovem adolescente pelas radicais bêtêtês xpto! Deve estar habituado a clientes menos habilitados, talvez não sei! Alguns minutos depois já estava a pedalar nela para casa.

para ele a bicicleta tem apenas um handicap, despentea-lhe as franjas!

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é que não aprendem!

Alguns conhecidos e colegas de trabalho, que tal como eu não estão de férias e têm de vergar a mola no mês de Agosto, regozijam-se com o facto de neste período estival as ruas da cidade estarem praticamente vazias de carros, possibilitando-lhes chegar a horas ao trabalho e facilmente encontrarem espaço público para estacionarem a lata. Ok, desta vez a minha vizinha ganhou vantagem e chegou primeiro à garagem. Lá terei de dar o braço a torcer, o esquerdo não que ainda está lesionado,  e admitir que pelo menos neste mês a bicicleta pode perder aos pontos para o carro. Mas como a desforra não perde pela demora depois é vê-los KO nos restantes onze meses do ano.

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ciclofilia [3] How it’s made

Num dos meus zappings televisivos nocturnos calhou de ver no Discovery Channel o programa “How it’s made” como se faz uma dessas bicicletas desdobráveis. Se bem me lembro a minha primeira bicla, uma Orbita verde bisga, era um modelo protótipo das desdobráveis de hoje. Após um download à má fila, o corte e cose do episódio 8 da série 15 e respectiva edição no tio Youtube, aqui têm à vossa disposição como se faz uma Brompton.

“… After a final inspection, this folding bicycle it’s ready for the big city, and when dodging traffic becomes too much of the hassle it´s owner can always fold and take public transit.”
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crónica do pedal a Santiago


Três dias, cinco bicicletas, muitas mochilas, duas ladies e três ciclistas malucos. Começava assim o “Plano Ciclístico até Santiago de Compostela” ou “Uma Trip do Carago”, como lhe preferiu chamar o tasqueiro. Poderia dizer que tínhamos resolvido finalmente fazer alguma coisa, que o nosso lado aventureiro falou mais alto que a preguiça, que o cagaço e todas as outras desculpas (para cruzar os braços) juntas, mas a verdade é que mais alto o que falou mesmo foi a vontade de andar de bicicleta, da conversa fiada, de amigos que ficamos, já que eu pouco os conhecia, do tempo de ignorar o relógio, o telefone, a esposa e o filho, raras chances de ficar à toa por um caminho em nada aleatório. De chegar lá, afinal. Por alguma razão se desiste mas nós fomos e vencemos, as subidas, as pedras, a sede, a lentidão. Nada que se pareça com aquela sensação que temos do objectivo alcançado. Não somos melhores nem piores, fomos capazes. Não quero convencer ninguém a nada, nem dar palmadinhas nas nossas próprias costas, quero mesmo é convidar todos a percorrer o mesmo caminho. Como foi? Incrível.

Engraçado, que antes da viagem descobri existirem perguntas padronizadas e que me foram feitas. Antes de mais nada, vamos a elas e às suas respostas politicamente correctas:

1 – Vais pagar alguma promessa?

Não, decidi viajar de bicicleta por prazer, para experimentar novas sensações e conhecer pessoas e lugares.

2 – Quanto tempo de viagem?

O tempo é relativo. Sabe-se que na física t = d/v, ou seja, quanto maior a velocidade, menor o tempo, até mesmo porque a distância é uma constante, relativa mas é. Logo, o nosso plano foi cumprir parte do Caminho nos dois dias disponíveis. No primeiro de Viana até Redondela e no segundo até Compostela.

3 – Quantas horas de pedal?

Isso aí só saberíamos no dia. Contas mal feitas, foram… muitas!

4 – E como voltarão?

De comboio, isto é, se nos deixarem colocar as bicicletas no porão da carruagem e se a CP mantiver a ligação de Vigo ao Porto.

5 – Vocês são loucos!

Sim, se querer viver a vida e gozar dela é ser louco, então somos!

Mas vamos ao que interessa…

Então, e por imperativos logisticos, preservar os espíritos e as forças do grupo, tivemos de alterar o plano. Assim, em vez de cumprimos a rota tradicional, decidimos ir por Viana, entrando no Caminho propriamente dito em Valença.

Após uma curta noite de sono, a minha foi em claro, o despertador dispara,  era hora de levantar. Corpo ainda pesado de sono porém a alma levitou-me, eufórico pela novidade. Banhos tomados, estômagos forrados, hora de prender os últimos penduricalhos na bicla e partir no nevoeiro, cumprindo o trajecto num ritmo bem tranquilo entre Viana e Valença, paralelo ao mar e ao Rio Minho. Uma vez chegados a Cerveira, haveríamos de fazer uma pausa em casa dos pais de um dos companheiros de route, para almoçar, refrescar e degustar meia melancia que já nos havia proporcionado boas risadas.

Demoramos a retornar à estrada, e antes de chegar a Valença tivemos um ensaio da beleza e dureza do que iríamos encontrar em cima de uma bicicleta cheia de tralha. Despedimo-nos de terras lusas e entramos na Galiza, iniciando o Camiño propriamente dito pelas ruas íngremes e medievais de Tui. A minha bicicleta era agora um veículo internacional.

Podem crer, foi bom sentir o peso da bicla nos braços quando fui obrigado a descer as escadas e passar o pequeno túnel do Convento das Clarissas Enclausuradas. Depois o caminho passou a ser feito por belas trilhas rurais, bosques, pontes medievais, subidas e descidas por atalhos de pedra, gravilha e pó. Após sair de Porriño chegou a pior parte do Caminho, uma longa e feia recta que rasga uma horrível zona industrial. Neste ponto do percurso o grupo já se havia desagregado porque a diferença de ritmos entre os bravos do pelotão e as majoretes era abismal.

Antes da descida alucinante para Redondela, vai Lau, onde iríamos pernoitar, tivemos o primeiro grande prémio de montanha com um metro de língua para fora e o milagre do dia. Após uma longa e extenuante subida que nos deixou de rastos, vários quilómetros percorridos mais a empurrar a bicla do que a pedalar, assim, no meio do nada, eis que surge o milagre. Não, não era uma visão, era mesmo real. À beira da estrada uma máquina de bebidas frescas esperava a nossa chegada que, à custa duns euritos, nos retribuiu com o justo prémio pelo nosso esforço. A chegada a Redondela fez-se já com as luzes ligadas, em velocidade e ferocidade. Após a chegada das ladies, e finalmente com a fome saciada, fomos então dormir e repor um pouco das energias para encarar o dia seguinte cheios de pica.

Com mais de 90 km nas pernas, saltamos da cama com uma disposição magnifica para atacar bem cedo os oitenta e tal que ainda teríamos pela frente. Depois das trouxas, as nossas e a das majoretes, arrumadas e amarradas às biclas de carga, que eram basicamente duas, a minha e a do Lau, após um pequeno almoço reforçado, o objectivo passava por impor um ritmo mais forte do que o do dia anterior. Portantos, combinamos que o grupo seguiria a dois ritmos diferentes, nós na nossa onda e elas até onde as pernocas as levassem, tendo como ponto de encontro Santiago, ou Vigo, onde iríamos dormir. Nesta parte do percurso, mais do tipo bêtêtê, encontramos trilhos exigentes, de sobe-e-desce cansativo porém recompensado com uma vista lindíssima. Quem está numa bicicleta pode parar, observar, ouvir os sons, sentir os cheiros e realmente experimentar cada sensação do momento. A Ria de Vigo, a Ilha de S. Simon, Árcade e a medieval Ponte de Sampayo, paisagens lindíssimas, povoados medievos de encantar e descidas perigosas.


Depois, bem, depois é que foram elas. Estes Romanos eram mesmo loucos, disso não tive dúvidas. Num dos bosques mais bonitos do caminho, de Canicouba até Briallos, a estrada romana deu-nos cabo do toutiço. Pedras enormes gastas pela erosão do tempo que não nos deram tréguas. Se as biclas já pesavam toneladas as baterias depressa estavam a descarregar. A determinada altura paramos para descansar e comer, e na busca por amendoins ou bolachas Maria demos conta que afinal nas pesadas trouxas das senhoras carregávamos cremes e utensílios de beleza! Mas, enfim, somos cavalheiros e por elas esperamos para continuar a empurrar as burras de carga, calçada acima e por bastante tempo. Depois as trilhas amenizaram um pouco o nosso esforço dando uma certa tranquilidade e um certo ar bucólico ao local.

Encontramos muitos peregrinos que prosseguiam o Caminho a pé. Mais tarde decidimos parar para tomar um café, e acabámos também por aconchegar a alma com um pouco de humildade ao conviver com dois peregrinos, pai e filho, oriundos da longínqua região de Natal, no Brasil.

Depois de um constante sube-sube, sígue-sígue, bendita a hora que avistamos a Taberna “O Muiño” à entrada da vila termal de Caldas de Reys. Era chegada a hora de atestar o depósito, deixar as bichas descansar e desenferrujar um pouco o portinhol.

“Precioso, ballé. Bem, e agora como é que me levanto!”

Mas o que tem de se ser tem muita força, e logo, logo, tivemos de recomeçar o caminho e a sequência: pedala um pouco, desce e empurra a bicicleta, pedala um pouco, desce e empurra a bicicleta… Pedala mais um pouco e empurra novamente, e assim vai até ultrapassar outro obstáculo. Talvez esse trecho tenha sido o mais cansativo da viagem, fisicamente e emocionalmente. Fisicamente pelo relatado anteriormente, e emocionalmente porque as majoretes, deixadas para trás fazia tempo, nos ligaram entretanto a informar que não iriam ter pedalada até Compostela. Foram direitinhas para Vigo.

Incrível era ver aquela plaquinha indicando o caminho e a distância remanescente, que renovava o ânimo no espírito, pois progredíamos e conseguiríamos ir até aonde nossos sonhos permitissem. Pausa para mais um descanso e algumas fotos.

“Falta pouco! Ufa!”

Eis que, após mais alguns minutos de pedalada, finalmente chegamos ao nosso destino. Passamos a Porta da Faxeira que dá acesso à Rua do Franco, onde o fervilhar de peregrinos e forasteiros que circulam pelas ruas é animado, entre tasquinhas e restaurantes com tapas de encher o olho. Calmamente circulamos pelo meio do maralhal com aquele sorriso e ar de satisfação, até que desmonto da “Etielbina” tiro os sapatos sujos e ponho os pés de molho na Praça do Obradoiro repleta de gente.

O que ganhei com a viagem?

Momentos com amigos, momentos divertidos, convertidos. Experiências novas. Novos lugares, novas sensações. Vi e vivi que quando se quer se consegue. As dificuldades existem, como as que encontramos, o segredo é saber como lutar contra elas.

Existem caminhos que só se descobrem vivendo e eu segui pelo mesmo caminho. O próximo já vem a caminho. Até lá.

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“avoiding the pregnant pause”

Anna Semlyen

Can you cycle when pregnant, and is it a good idea? ANNA SEMLYEN discusses the issues with mothers who did it.

Tradução de um artigo escrito por Anna Semlyemn em 16 de Julho de 2000 para a Bicycle Magazine.

Este interessante artigo, que já tem uma boa década, descobri-o numa das minhas olhadelas pelo mundo das bicicletas nos meandros da Internet. Achei-o deveras curioso e com gosto dei-me ao trabalho de o traduzir para o postar aqui nabicicleta. Não tendo essa linda experiência de carregar um ser vivo no abdómen, nem enquanto pedalo, sendo também este um assunto pouco falado/comentado, os testemunhos aqui contidos são extremamente valiosos
 

“Prevejo que o meu primeiro bebé nasça daqui a seis semanas. Alguns amigos e familiares têm me perguntado nervosamente se eu ainda pedalo. Deus os abençoe – eles estão preocupados com a minha saúde. Contudo, eu sou “carro-independente” por opção e andar de bicicleta é para mim algo tão corriqueiro que não me posso imaginar parar sem que haja um motivo bem forte. Então, será responsável pedalar estando grávida? Claro que sim – apesar de ser uma escolha muito pessoal!

Mudanças
A gravidez transforma rapidamente o corpo. Como Daniel Stern disse em The Birth of a Mother (O nascimento de uma mãe), “Seus seios crescem e têm um peso diferente. Sua barriga aumenta mudando o centro de gravidade de forma que você anda, para, senta e levanta da cadeira de uma maneira diferente.” Felizmente é apenas temporário.

Cansada?
A energia extra usada para criar um novo ser é extenuante. A minha dica principal é restringir ao máximo os movimentos – uma vez que é cansativo, custoso e apenas um meio, não um fim. O transporte viabiliza o acesso ao trabalho, à saúde, à diversão e ao convívio social. Porque não fazer pedidos para entregar em casa, usar o telefone, escrever mais cartas/e-mails ou pedir/pagar alguém para resolver alguns dos nossos assuntos pendentes? É proveitoso localizar a alternativa mais próxima e vai sobrar algum tempo para as indispensáveis sonecas! Se estiver a planear umas férias, a 20ª e a 27ª semana é a melhor época. Nessa altura já deverão ter passado os enjoos, mas a barriga ainda não vai estar muito grande.

Pedalar é energeticamente eficiente – cinco vezes mais do que caminhar. Prepare-se para pedalar mais devagar no segundo e terceiro trimestres e ficar sem fôlego. Porém, andar de bicicleta ainda é mais rápido do que andar a pé e com menos esforço. Swea Sayers, mãe de quatro filhos, quando era uma simples estudante sem bicicleta caminhou durante a sua primeira gravidez. Mas pedalou nas outras três e confirma que “pedalar é muito mais fácil do que andar para qualquer lado”. Becky Field também descobriu que pedalar é mais confortável do que andar quando estava prestes a dar a luz.

As queixas pré-natais mais comuns incluem varizes, pés e pernas inchados. Pedalar alivia o peso e ajuda a prevenir esses problemas, assim como levantar suas pernas numa cadeira ou contra a parede.

Estudos comprovam que, em média, as bicicletas são mais rápidas que o autocarro nos primeiros 10 km’s. Além disso, você pode carregar as coisas mais facilmente numa bicicleta do que a pé, considerando que use cestas, bagageiros e alforges adequados. Swea afirmou que “fazer compras é particularmente bom com uma bicicleta”.

A concentração de fumo dos escapes é três vezes maior dentro dos carros do que na rua ou para os ciclistas. Se você está fraca ou é asmática, você irá respirar mais facilmente fora do que presa num veículo.

Mantenha-se em forma e saudável
O trabalho de parto é exactamente o que parece – trabalho extremamente pesado. Quanto mais em forma estiver melhor. Exercícios regulares, suaves, baratos e saudáveis como pedalar aumenta a sua disposição para o “empurrão final”. Talvez apenas a natação e o yoga sejam mais recomendados – mas assim terá de frequentar uma piscina ou aulas pré-parto.

Resultados de testes feitos pela palestrante Dra. Jean Rankin da Universidade de Paisley mostram que os exercícios durante a gravidez são bastante positivos. Porém, não se deve iniciar um novo desporto, ou qualquer actividade extenuante que vise basicamente o desenvolvimento muscular durante a gravidez. Continue a fazer exercícios que você já gosta enquanto se sentir confortável. Lembre-se também que a gravidez afecta os seus processos psicológicos de juízo. Por exemplo, a sua concentração é menor e a memória de curto prazo é reduzida, isso pode afectar as tomadas de decisão.

A Doutora Becky Field acha que “mulheres grávidas são geralmente recomendadas a não fazer esforços. Eu recomendo que as mulheres escutem o seu corpo e descubram o que elas podem ou não fazer”. A senhora Mieke Jackson, uma treinadora ciclista, foi aconselhada pelo seu médico a não correr, não praticar ski aquático nem escalada, mas não tinha problema algum pedalar durante toda a gravidez.

Pedalar aumenta a tonificação e a força das pernas e músculos pélvicos, facilitando assumir posições de joelho ou de cócoras que podem ser necessárias. Exercitar esses músculos e articulações vão mantê-los flexíveis. Isso ajuda a abrir a cavidade pélvica – crucial para um parto mais suave e menos doloroso. Pedalar também aumenta a função cardíaca e respiratória, facto importante quando o maior músculo do corpo feminino – o útero – está a ser utilizado. Além disso, pedalar também trabalha o abdómen, deixando-o mais forte e reduzindo as hipóteses de obesidade, incontinência urinária e pele flácida após parto.

Posição de pedalada
As duas pedras extras (mais de 20% do peso corporal no meu caso) podem causar dores nas costas e no nervo ciático quando as mulheres tentam contrabalançar. Portanto, uma posição ideal ao pedalar é a erecta, semelhante ao modelo holandês de bicicletas urbanas e às dobráveis, bem melhor do que curvada, apoiando-se no guiador.

Sara Robin do grupo York CycleWorks afirma que “nos quatro primeiros meses eu pedalei curvada sobre o guiador e depois tive que trocar por uma bicicleta leve com postura erecta. Eu recomendaria às mulheres que escolham bicicletas com selins baixos, com suspensão, confortáveis, largos e com gel.” Já existem selins próprios para mulheres – alguns com um furo no meio para reduzir o atrito em áreas sensíveis e mantê-la mais arejada.

Evidentemente que subir para uma bicicleta feminina ou dobrável é mais fácil do que passar a perna por cima de um quadro alto e também tem que ter espaço para o “barrigão”. Talvez ajustar o banco numa posição mais baixa? Achou Sara que “conduzir é incrivelmente desconfortável, por outro lado, de bicicleta, eu só tive problema para subir ladeiras íngremes a partir do oitavo mês. Também me senti menos isolada na minha bicicleta do que no carro “. Dra Becky Field diz que “as minhas pernas tinham que ficar meio de lado para evitar bater na barriga enquanto pedalava “.

Quando (ou se) parar
A preocupação com a segurança e a sensibilidade emocional aumentam ao proteger o filho ainda no ventre. Eu passei a fazer uma rota bem mais longa para ir às minhas aulas de ioga quando parei de levantar a minha bicicleta bem no início da gravidez. É certo que a futura mãe precisa de uma bicicleta bem afinada e assegurar-se de usar roupas coloridas e para ser bem notada.

O equilíbrio físico pode ser afectado na gravidez. Se for o caso, pedalar pode não ser recomendável a não ser por caminhos livres de trânsito ou num triciclo. Contudo, nas suas duas gestações, Sara Robin pedalou até entrar em trabalho de parto. Jane Henshaw (da revista A to B) em Castle Cary pedalou até ao hospital para ter o bebé. A minha parteira contou-me de uma senhora que foi de bicicleta até ao hospital após ter rompido a bolsa. Como ela se tinha esquecido de algumas coisas importantes em casa, voltou a casa e pedalou uns 5 km’s para buscá-las! Ela alegou que o ritmo regular das pedaladas era uma distracção para as dores do parto iniciais. Swea Sayers também ainda pedalava no dia após o início do trabalho de parto. Todos seus filhos foram tardios, mas perfeitamente normais.

Pedalada pós-natal
Em quanto tempo está de volta a pedalar depende de como se sente fisicamente e se está feliz a andar de bicicleta com um bebé. Se tiver sido um parto difícil, com episiotomia e/ou rasgos, deve tomar muito cuidado! Sara Robin disse: “após o nascimento do meu segundo filho eu voltei a pedalar em menos de duas semanas e voltei ao meu peso normal em dois ou três meses, amamentando e pedalando”.

Pedalar melhora a atenção, reduz o stress e reduz a depressão, proporcionando uma sensação geral de bem-estar. Uma pedalada para lazer (talvez deixando o bebé aos cuidados de outra pessoa) oferece uma oportunidade de se sentir libertada se se estiver a sentido em baixo ou aprisionada pela maternidade.

Trailer para bebé
Claro que é natural proteger o recém-nascido. Desconfio que muito pais não pesquisem as opções de acessórios de bicicletas para bebés e evitam pedalar com o pequenito, excepto em locais sem trânsito. A enciclopédia (Internet!) é um bom lugar para se procurar soluções para pedaladas em família. O Bike Best ou o sling são as únicas maneiras de carregar o bebé que encontrei até agora, que podem apoiar o frágil pescoço de um recém-nascido.”

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