Um dos muitos desafios que o ciclista tem de enfrentar é combater o frio e manter o corpo quente. O inverno ainda não chegou no calendário mas o ar está bem mais frio e antes de sairmos de casa a pedalar, especialmente de manhãzinha ou ao cair da noite noite, o melhor é estar preparado para quando o frio apertar. Seguindo algumas regras básicas quanto aos acessórios e vestimenta a adoptar, sabemos que a bicicleta não é mais que um aquecedor com rodas.
Não sei qual a origem da foto nem quem foi o artista da escultura. Sei que é em Apeldoorn, na Holanda, onde sabemos se pedala sem desculpas sob qualquer condição climatérica.
“A bicicleta é já uma certeza nos centros urbanos. Não estamos ao nível de outros países, mas aos poucos os portugueses acordam de uma letargia incompreensível, principalmente os mais novos, que parecem livrar-se de vez da ditadura dos carros. «A Gloriosa Bicicleta – Compêndio de costumes, emoções e desvarios em duas rodas» demonstra que há algo de novo a acontecer entre nós… “
A apresentação do livro “A Gloriosa Bicicleta no Porto será próximo dia 20 às 18:30 na Livraria Leya, na Latina.
Aproveitando a citação da Laura que dá título ao artigo, o Ricardo critica aqui a nova aberração cicloviária da Invicta, obra ridícula, inútil e perigosa mas que foi construída numa das fundamentais artérias da cidade.
A diferença entre um serviço de transporte e um património.
A Suíça, este país pitoresco que nos exporta chocolates, relógios e serviços financeiros, é provavelmente o único país onde há mais famílias vivendo em casa alugada do que em casa própria1. Atualmente lá a relação é 70/30, 70% das famílias vive em casa alugada e 30% vive em casa própria. Só para efeitos de comparação, Portugal é o oposto. 20% em casa alugada e 80% em casa própria.
Mas qual é a lógica de viver numa casa alugada? Acho que todos concordam que é sempre melhor decisão comprar uma casa, ao invés de alugar. Afinal a casa é um património (uma reserva de valor) que pode ser deixado de herança ou vendido com elevado valor residual (valor ao fim de vida). Na verdade o mercado imobiliário suíço é muito particular. As casas e apartamentos são muito caros quando comparados com outros países, a população é composta por muitos imigrantes e migrantes que se obrigam a alugar.
Ok, isso tudo é muito interessante mas qual a relação com o título “A diferença entre um serviço de transporte e um património”? A relação é a seguinte: Diferente de uma casa que é um património (reserva de valor) e que a maioria das famílias concorda que comprar uma casa é a melhor opção, um carro não é. Devemos considerar o carro como um serviço de transporte e não necessariamente como um património, uma ideia que precisa ser entendida para o bem do orçamento familiar e principalmente pelos jovens, que com menos de 20 anos de idade já têm empréstimos astronómicos por um produto (não um património!) que começa a perder seu valor assim que se coloca o pé dentro dele.
Eu não estou aqui defendendo que as pessoas não devam ter carro, muito pelo contrário, o carro pode ser um recurso importante para qualquer família. E acho que as melhores políticas são as que taxam de forma equilibrada a posse e o uso, e a consequente poluição, e não a compra do carro. Porém um dos piores exemplos que importamos dos EUA foi a lógica de que todos devem ter um carro e que um carro é um património. Não é um património! Diferente da casa, que dura muitos anos, o caro é como uma televisão, sua vida útil é curta e seu valor residual é irrisório. Logo que se termina de pagar é preciso vendê-lo e recomeçar o processo de endividamento e escravidão voluntária novamente. No fundo nós não estamos comprando um património, mas sim um serviço de transporte muito caro.
Exceto para carros de luxo que duram muito mais e são melhor construídos, os carros fabricados atualmente, de baixa cilindrada e conforto razoável, são verdadeiramente descartáveis. Essa lógica é muito boa para os governos: gera empregos na indústria automóvel, dá rios de dinheiro2 (o seu dinheiro suado) para os bancos em forma de juros indecentes e tira a obrigatoriedade de planear o transporte público com respeito, passando o dever de se movimentar ao cidadão. Esse é um dos motivos de termos, no Brasil mais que em Portugal, péssimos, vergonhosos, desumanos e decadentes serviços de transporte público, de infraestrutura para ciclistas e pedestres. Aliado a isso tudo, a indústria automóvel e o marketing fizeram um excelente trabalho desmerecendo o transporte público e a bicicleta, transformando-os em símbolos de fracasso, pobreza e infelicidade, e enaltecendo o automóvel como um símbolo de virilidade, sucesso e felicidade. Afinal todos temos direito de nos endividar.
Mas não vamos falar só mal dos EUA. Apesar de ser o país mais “Automobile-oriented” do mundo, eles foram um dos primeiros a perceber a diferença entre ter (património) e usar (serviço de transporte) o carro. E essa diferença foi transformada em dois serviços de transporte que estão em grande ascensão, os serviços de car sharing e car pooling. Tais serviços de transporte, juntamente com os demais existentes na atualidade e alguns conceitos básicos relacionados ao transporte de passageiros, serão explicados no próximo texto.
“Não é que faltem lá bicicletas bonitas!” Responderam-me os duendes quando fiz a vénia ao requinte de uma das novas produções da megastore do MMM. Ah pois não faltam, e a prova disso é a foto ali acima tirada numa destas tardes no “lá”, que é o bikepark improvisado no jardim da instituição onde também pico o ponto, com as motoretas em minoria.
Mal acabaram de receber as primeiras unidades das caixas de madeira que desenvolveram em mais uma colaboração com a Alice, os duendes de serviço esmeravam a Gazelle da Luísa (que podem conhecer aqui) com uma caixinha de madeira muito bem feita, que é simultaneamente robusta e… leve (dizem eles e certifico eu)
“Rodrigo Meireles ou Atumacaco, como é conhecido nas poucas redes sociais que frequenta, tem a bicicleta como assinatura das fotos no Instagram. As portas e janelas estão entre as marcas do tempo que Atumacaco procura para partilhar na rede.”
“O livro, a editar pela Kalandraka, é um passeio ilustrado por Lisboa, sem texto, com uma visão pessoal de David Pintor sobre a cidade, com elementos repetidos em todos os desenho: uma bicicleta, sardinhas que voam e o próprio autor, empunhando, por vezes, um violino.
…
Em todos os desenhos há uma bicicleta vermelha, uma personagem que unifica as ilustrações e que dá o movimento para as paisagens desenhadas, e ainda a sardinha, “um símbolo muito próximo da cultura lisboeta”, disse.
Quando se tem um trabalho onde se permanece muito tempo sentado à frente de um computador, com as pernas debaixo da secretária, para além da rotineira pedalada matinal de quinze minutinhos para o trabalho mas sem um gostoso e proveitoso regresso a casa, só porque o clima não está de feição para uma prolongada e descontraída pedalada de final de jornada ao longo da marginal, a solução é esperar pelo fim de semana e pegar na speedy gonzalez para sacudir a carcaça com uma valente pedalada.
Só quem faz conhece a sensação de levantar antes do sol, numa manhã enevoada, comer bem, vestir o fato macaco, calibrar os pneus da bicla e sair na neblina matinal para respirar aquele ar urbano, tão fresco e puro, antes dos motores saírem ressacados das garagens. Depois, tem aquele silêncio que só as manhãs dos dias úteis, os de sábado e domingo, têm, apenas possível porque encontramos as ruas esvaziadas, sob o efeito de um viagem temporal, ou espacial, que me leva a época ou lugar que não se encontra no individualismo, na gritaria das correrias semanais.
A máquina do tempo está sempre lá, pronta e disponível, à minha espera. Qualquer bicicleta tem a vantagem e o conveniente pretexto de nos proporcionar saúde e bem-estar físico. Tem o poder de, no espaço de minutos, nos mudar o clima. Num instante envoltos na humidade do nevoeiro para logo a seguir aquecer o lombo sob um sol radioso. Qualquer bicicleta supre a rapidez de nos transportar a locais outrora coabitados, reviver momentos, conhecer pequenos recantos que de outra forma não seriam desvendados.
Volta e meia, invade-me um formigueiro nas pernas, que me atiça a rodá-las, que me leva a aproveitar o tempo, a liberdade, porque há uma estrada, um trilho, um caminho rumo a algum lugar que as rodas ainda não tocaram. Qualquer bicicleta serve a alma, a contemplação que se descortina após uma curva, o cume de uma montanha, o horizonte avistado, a sensação única de com ela termos conquistado algo com o próprio suor.
O convite é da TSF, que ainda nos atiça a vontade de sair a pedalar partilhando uma seleção de fotografias da Reuters com bicicletas um pouco por todo o mundo, até mesmo quando o frio extremo as congela…