poderia ser mais uma pedalada pelo Douro para a aldeia…

… pois poderia, mas seria sempre a mesma coisa. Vai daí, resolvi revisitar o Montemuro…

Mesmo tendo pela frente um vento persistente desde o Freixo, a manhã estava uma delicia. Pedale as vezes que pedalar os trinta quilómetros iniciais, nunca me canso da estrada Marginal. Foz do Sousa, Melres, Rio Mau… a bicicleta tem asas, mas na pastelaria da Senhora do Monte a paragem para reabastecer é fundamental e imprescindível.

Pedalar pelas curvas do Douro é pura adrenalina. A estrada empina e desempina, tão depressa se levanta o rabo do selim como se baixa o queixo e se fincam as mãos nos drops. Em alta velocidade chego à rotunda de Entre-os-Rios. O percurso é um dejá-vù, como tal, cruzado o Tâmega pela ponte do Torrão virei à esquerda e decidi ir pela alternativa chegada a Alpendorada. Fez-me recordar certas viagens em família, onde o meu pai preferia “cortar caminho”. Pronto, passei por ali, mas de bicicleta realmente não compensa.

Mais à frente volto a ter magia com a contemplação panorâmica do Douro. A antiga N108 e o rio são sempre a melhor das companhias quando sigo para o aguardado reencontro no Lugar que tem lugar cativo no meu coração, não me canso de o dizer. O Lugar do Castelo, em Frende. Só que desta vez haveria uma subtileza em relação a pedaladas anteriores. Decidi que desceria ao rio e iria cruzá-lo na Barragem do Carrapatelo. Reservei para esse dia uma viagem mais demorada e bem mais transpirada, onde o condimento especial viria depois da sobremesa.

Primeiros quilómetros a subir ainda com a companhia do curso de água, que rapidamente se vai escondendo à medida que a estrada sobe. Reencontro a N222 e, em Cinfães, paro para o essencial e merecido prato de sopa. Escalar o monte requer hidratar e reabastecer o corpinho de nutrientes e calorias. Como leitor de crónicas “cicloturísticas” e “seguidor” de gente que também gosta de disto, a ascensão em bicicleta às Portas de Montemuro pela estrada N321 estava há muito guardado no role de subidas a fazer. Rumar à aldeia da minha mãe por um caminho diferente era um objectivo no qual matutava fazia algum tempo.

A minha relação com o Montemuro já vem de longa data. Abrindo as portadas da casinha que foi dos meus avós, o monte cresce na outra banda, fazendo sentir a sua presença e o desafio. Cruzado o Douro pela Ponte da Ermida, só há uma coisa a fazer. Ascender os 8% até ao cruzamento com a N222, onde várias hipóteses se apresentam. Uma delas é escalar o muro mais a prumo, onde as estradas convergem para um dos topos míticos da serra, o miradouro de São Cristovão. Desta vez iria acordar o monstro mas por outros caminhos.

A N321, estrada nacional que em alguns troços se designa de “regional”, liga Baião a Castro d’Aire. É uma das rotas de eleição para os amantes de ciclismo que pretendem acumular quilómetros de respeito para figurar nos lembretes do Strava. O Montemuro é um bom desafio para escaladas de média montanha, especialmente pela sua vertente virada a Norte. Outras possibilidades de escolha de estradas desertas bem mais agrestes felizmente não faltam, mas terão de ficar para outras oportunidades.

O gêpêesse diz-me que tenho mais de vinte quilómetros de ascensão pela frente. Por estar a pedalar numa estrada de montanha, o declive não era suave, mas também não amedrontava. O sol da tarde é que não tinha pena de mim e, como tal, ia aproveitando cada sombrinha que me surgia. Os contornos da estrada também davam para algum descanso do vento, no entanto quando não sentia a sua força também não podia usufruir da brisa para arrefecer o motor. Já não sabia bem o que queria, mas sabia que precisava de mais água, e foi no Parque de Laser de Barrondes que encostei por uns minutos a admirar velhos moinhos d’água.

Serpenteando pelos recantos da serra, ia observando Bustelo e Alhões, aldeias encaixadas na zona dos 1000m de altitude, lá na outra banda do rio Bestança. Depois de muito desafiar o alcatrão inclinado, já perto do cume sou brindado com a espectacular visão panorâmica do maciço do Montemuro, o que impõe desde logo muito respeito. Lá em cima não ventava e felizmente a temperatura estava bem mais fresca. Estacionei no miradouro e pude me espreguiçar ao sol, tendo o privilégio de apreciar a incrível paisagem virada a sul, até onde a vista alcança.

Dei-me conta que já havia ultrapassado a centena de quilómetros, o que significava, caso tivesse feito o percurso tradicional, que eu já teria chegado ao Lugar do Castelo. Só que muito ainda haveria para prevaricar, inclusive a crueldade de obrigar uma bicicleta de estrada a carregar-me por uma espécie de carreiro lunar até ao cume da serra, aos 1382m de altitude. Juro que tentei lá ir. Ainda pedalei uns mil metros por aquele piso crocante, subindo aos 1260m de altitude, mas para bem da saúde dos pneus da gOrka, após os registos fotográficos obrigatórios tive o bom senso de voltar para o conforto do alcatrão.

Recompensado com um gelado, fui descendo lentamente, absorvendo todo o panorama à minha volta, até surgir o desvio para a Gralheira. Aí a estrada empina de novo, praticamente não há carros, apenas silêncio e vestígios da presença de alguns animais. Entro na Grande Rota da Transumância (GR52), onde começa o sobe e desce. O Montemuro tem a particularidade de conter verdadeiras montanhas, dentro da montanha. Agora iria planar pelo cocuruto da serra e passo ao largo da aldeia da Gralheira. Não vou lá pois tinha na mente ir conhecer a famosa Ponte da Panchorra. Uma vez na aldeia da dita, na dúvida pergunto a um habitante local se teria de descer muito para lá chegar. Como a resposta veio com um “Uiiii… e depois você vai ter de voltar a subir aquilo tudo!”, então achei melhor lá não ir!

O perfil é agora mais descendente. Por quilómetros não atravesso nenhuma localidade, mas a estrada é de boa qualidade. Na aldeia de Talhada avisto uma pequena capela que não me é estranha, mas estranho quando a geringonça me indica um itinerário diferente do que estava indicado na placa. Confio no desenho do percurso pré-estabelecido, elaborado com uma ideia em mente. Sigo por ali, numa via estreita que mergulha no recorte da montanha. Curvas e contracurvas, num declive alucinante, onde tento ter a devida cautela, apertando constantemente os travões para não ser apanhado desprevenido. Com um piso bastante irregular e inclinado, mais de 17%, todo o cuidado é pouco.

Nunca menosprezando a magnífica paisagem que me é apresentada do vale do Douro, teria ainda o interesse adicional de ir visitar locais míticos das encostas voltadas para Resende. Mais um pequeno engano, mais uma pequena subida, coroada por uma diferente panorâmica do vale. Fui atravessando pequenas aldeias desertas até avistar o desvio para o Mosteiro de Cárquere. Como dizia, decidi passar por lá com o intuito de revisitar o histórico monumento românico, desta vez, e pela primeira vez, de bicicleta. Após um par de fotografias rapidamente voltei ao percurso descendente, que se iria prolonfgar até aos arredores da cidade, onde decidi fazer alterar a abordagem à N222 para ir fazer umas compritas no hipermercado mais à mão.

Com o pequeno alforge e os bolsos do jersey cheios de víveres, não esquecendo o saco de plástico que levava amarrado ao guiador e me destabilizava a direcção, os soldados da GêeNeéRre devem ter estranhado um tipo de bicicleta em posição aerodinâmica quando passou pela operação stop em excesso de velocidade. Atravessada a Ponte da Ermida, virando à esquerda e ultrapassada a curta rampa sempre feita a pé com a corrente na avozinha, por entre pequenas casas de pedra eis-me a entrar num pequeno paraíso recebido por beijos e sorrisos.

Foi um dia em cheio. O tempo esteve bastante agradável e não podia ter escolhido melhor dia para desvendar alguns dos segredos de uma das mais exigentes montanhas do nosso país tem para nos oferecer. Pronto, costumo dizer que Douro não desilude, e mesmo que me afaste da sua presença para subir, e subir, e subir… vem o desejo de descer tudo aquilo e torná-lolo mais desejado e gratificante,

Nos dias seguintes, depois de uma voltinha circular e habitual quando lá estou, depois de bons mergulhos no rio, de receber os mimos dos meus tios, de sentir o inconfundível “cheiro a Castelo”, dois dias depois estava de volta ao Porto, desta vez sem variações de percurso.

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About paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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apenas pedalar ao nosso ritmo.