textos de Marcos Paulo Schlickmann [28] Conversa com um Engenheiro de Tráfego

O vídeo a seguir é muito interessante. Apesar de ser relativamente antigo (2010) e retratar a realidade americana, ele se aplica ao que se passou nos últimos anos e ainda se passa no Brasil e em Portugal, no que tange ao planejamento urbano e dos transportes excessivamente focado no automóvel.

O vídeo está em inglês e sem legendas em português. No entanto, traduzi-o e coloquei o diálogo abaixo.

Vejam então o vídeo ou leiam o diálogo e depois eu volto para fazer algumas observações.


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Engenheiro: Olá, eu sou o engenheiro de tráfego. Eu soube que você tem algumas dúvidas a respeito das obras rodoviárias previstas para o seu bairro.
Moradora: Sim. Eu soube que vocês planejam melhorar minha rua. O que isso vai significar para o meu bairro?
E: Nós vamos corrigir deficiências de nivelamento e também problemas no alinhamento existente. Nós também vamos aumentar os acostamentos/bermas com o objetivo de melhorar os níveis de segurança.
M: Então vocês vão tornar a rua mais segura?
E: Sim, com certeza.
M: E como vocês vão tornar a rua mais segura?
E: Bem, primeiro vamos corrigir deficiências de nivelamento e também problemas no alinhamento existente.
M: O que isto significa?
E: Significa que o nivelamento e alinhamento atuais não cumprem os níveis de segurança e então nós vamos corrigir isso.
M: Qual são os níveis de segurança?
E: Basicamente a rua deve ser plana e reta.
M: Então vocês vão tornar a rua plana e reta?
E: Sim
M: Como isso melhora os níveis de segurança?
E: Vai permitir que o tráfego flua melhor tornando-o mais seguro.
M: Eu não entendo.
E: Juntamente com corrigir deficiências de nivelamento e alinhamento nós também vamos alargar as vias de tráfego.
M: O que isso vai causar?
E: Vai melhorar a segurança.
M: Como alargar as vias de tráfego melhora a segurança?
E: Juntamente com corrigir deficiências de nivelamento e alinhamento, vai permitir que o tráfego flua melhor.
M: O que você quer dizer por permitir que o tráfego flua melhor? Como isso melhora a segurança?
E: Os carros vão poder passar sem se preocupar em bater em coisas e então vai ser mais seguro e por isso nós também estamos aumentando o acostamento/berma.
M: O que você quer dizer por aumentar o acostamento/berma?
E: Nós vamos remover obstáculos do acostamento/berma para melhorar os níveis de segurança.
M: O que é o acostamento/berma?
E: É a área em cada lado da rua que devemos manter livre de obstáculos caso algum carro saia da rua.
M: Que tipo de obstáculos?
E: Principalmente árvores.
M: Então vocês vão retirar as árvores do acostamento/berma para melhorar os níveis de segurança?
E: Sim exatamente.
M: Qual o tamanho do acostamento/berma?
E: O acostamento tem 7 metros em cada lado da rua.
M: 7 metros…isto é todo o meu jardim!
E: Me desculpe, mas para atender os níveis de segurança todos os obstáculos devem ser removidos do acostamento/berma.
M: Você entende que meus filhos brincam no acostamento/berma?
E: Eu não recomendaria isso, não seria seguro!
M: Mas é seguro hoje. Eu pensei que este projeto serviria para melhorar os níveis de segurança. Como uma rua se torna mais segura se meus filhos não podem brincar nela?
E: Melhorando a rua para torná-la mais segura assim permitindo que o tráfego flua melhor.
M: Flua melhor… Os carros só vão ir mais rápido, não é verdade?
E: Nós vamos colocar um limite de velocidade depois de fazer um estudo de velocidade e determinaremos a velocidade segura para a rua.
M: Mas os carros vão devagar hoje, “devagar” é o mais seguro aqui para o meu bairro, onde as crianças brincam no jardim. Como ter uma “pista de corrida” em frente à minha porta melhora os níveis de segurança?
E: Vai melhorar os níveis de segurança pois o tráfego fluirá melhor.
M: Eu não estou ciente de nenhuma morte ou acidente nesta rua e eu vivo aqui há 30 anos. Você tem conhecimento de alguma morte?
E: Não, não tenho.
M: Eu nem sequer tenho conhecimento de nenhuma ocorrência de acidentes nesta rua. Você tem conhecimento de algum acidente?
E: Não, não tenho.
M: Então porque você diz que a rua não é segura hoje em dia?
E: A rua não é segura porque não atende aos níveis de segurança.
M: Então hoje os carros vão devagar e é seguro mas você quer nivelar a rua, endireitar a rua, alargar a rua e remover todas as árvores, para os carros poderem ir mais rápido e depois colocar um limite de velocidade para então eles irem mais devagar. E você diz que isso é mais seguro?
E: Sim. Vai atender os níveis de segurança e por favor entenda que há projeções de elevado crescimento de tráfego para a sua rua.
M: O que você quer dizer: projeções de elevado crescimento de tráfego?
E: Nós projetamos que muitos carros irão passar por esta rua nos próximos anos.
M: Por que muitos carros irão passar por esta rua? Ela é pequena e estreita e de baixa velocidade.
E: Por causa disso que devemos melhorá-la, para se enquadrar nos padrões de segurança.
M: Isso não vai simplesmente encorajar mais pessoas a usá-la?
E: Nós já prevemos isso e vamos adicionar 2 vias de tráfego para comportar os futuros carros.
M: Você vão acrescentar mais 2 vias?
E: Sim.
M: Para carros?
E: Sim. 2 vias a mais vão permitir que a rua se enquadre nos níveis de segurança.
M: Deixe-me ver se entendi: você projeta um elevado crescimento no tráfego sendo que não há quase nenhum hoje e vai aumentar a rua para comportar este tráfego. Assim você não está simplesmente encorajando mais pessoas a dirigir?
E: Não. Nós estamos antecipando o crescimento e precisamos fazer esses melhoramentos para dar conta do crescimento.
M: E onde esse crescimento vai ocorrer?
E: O novo crescimento ocorrerá na zona livre de impostos.
M: E onde é essa zona livre de impostos?
E: A zona livre de impostos é na periferia da cidade.
M: Que tipo de crescimento vai ocorrer na zona livre de impostos na periferia da cidade?
E: Há propostas para uma mercearia, um restaurante drive-thru e um posto de combustível.
M: OK, Mas eu vou à mercearia aqui do bairro no outro lado da rua e eu como no restaurante subindo o quarteirão e eu não dirijo muito, logo não preciso de outro posto de combustível.
E: Sim nós sabemos, por isso nós planejamos uma passagem pedonal aérea para este quarteirão.
M: O que é uma passagem pedonal aérea?
E: É uma ponte que lhe vai permitir atravessar a rua com segurança.
M: Mas eu posso atravessar a rua em segurança agora! Meus filhos podem atravessar a rua com segurança agora! Porque eu irei precisar de uma passagem pedonal aérea?
E: Com 4 vias de tráfego você não vai conseguir atravessar a rua sem atrasar o tráfego. E atrasar o tráfego não seria seguro.
M: Mas eu não vou conseguir empurrar o meu carrinho de bebê na passagem pedonal aérea toda vez que eu queira atravessar a rua para comprar leite! Como isso me beneficia?
E: Você se beneficiará com a arrecadação extra de imposto proveniente do novo crescimento.
M: Mas o novo crescimento não é numa zona livre de impostos? Com quanto eles vão contribuir de impostos?
E: Nada atualmente, mas em 10 a 15 anos eles vão contribuir muito com impostos.
M: Por que nós vamos fazer um investimento que não vai começar a se pagar em 10 a 15 anos? Até lá a mercearia vai virar numa Loja de 1,99/Loja 300 e haverá uma outra zona livre de impostos.
E: Se nós não provermos os subsídios e não investirmos no melhoramento das ruas o crescimento não iria acontecer. Sem crescimento a cidade pode morrer.
M: Mas se eu não posso atravessar a rua a pé até a mercearia ela irá fechar. Se eu não posso caminhar até ao restaurante ele irá fechar. Ninguém vai querer comprar minha casa com uma autoestrada à porta. Você se importa que o meu bairro está morrendo?
E: Sim, é por isso que nós estamos investindo em novo crescimento, é por isso que estamos melhorando a rua.
M: Mas afinal quanto vai custar esta obra?
E: O custo total do projeto é de 9 milhões de dólares.
M: 9 milhões de dólares…nossa cidades está falida, nós não temos dinheiro para manter a iluminação pública à noite, nós despedimos 4 bombeiros e metade da força policial. De onde vamos tirar 9 milhões de dólares?
E: 7 milhões de dólares são do governo estadual e federal. Os outros 2 milhões de dólares serão coletados das propriedades beneficiadas pelo projeto.
M: O que isso significa: coletados das propriedades beneficiadas pelo projeto?
E: Significa que as propriedades que se beneficiam irão pagar uma parcela dos custos do projeto.
M: Quem se beneficia do projeto?
E: Todo mundo que está nesta rua.
M: Calma. Você está dizendo que eu beneficio do projeto e irei pagar uma parte?
E: Sim. Você é um dos proprietários beneficiados que terão de contribuir com o projeto.
M: Você deve estar de brincadeira! Eu tenho uma rua calma e sossegada hoje em dia. Meus filhos podem brincar no jardim e é seguro. Eu posso caminhar até a mercearia do outro lado da rua e ao restaurante e é seguro! Para tornar mais seguro vocês vão nivelar, alargar e endireitar minha rua e acrescentar mais duas vias de tráfego. Isso é feito por causa das projeções de tráfego porque queremos novo crescimento na zona livre de impostos na periferia da cidade. E enquanto meu bairro degrada-se e a minha casa perde valor você ainda me obriga a pagar uma parte!
E: Me desculpe, mas as projeções necessitam de 4 vias de tráfego e nós devemos cumprir os níveis de segurança.
M: E você se pergunta porque nosso país está falido! Nós precisamos parar com estes absurdos e começarmos a construir cidades fortes! Para aprender mais visite http://www.strongtowns.org.
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Como vocês puderam perceber, no vídeo uma moradora de uma rua “de bairro”, tranquila e com pouco tráfego confronta o engenheiro de tráfego responsável por um projeto de “melhoramento” na rua da moradora.

O projeto basicamente consiste numa intervenção viária com o objetivo de aumento da capacidade de escoamento do tráfego: 4 vias de tráfego, aumento dos acostamentos/bermas, melhorias ao nível do pavimento e alinhamentos. O principal objetivo do projeto é preparar tal rua “de bairro” para um futuro tráfego proveniente de novos usos do solo (que o engenheiro chama de “crescimento”) numa zona livre de impostos na periferia.

É verdade que o diálogo é um pouco absurdo. Um acostamento de 7 metros não existe e um aumento de capacidade e velocidade que obrigue a passagens aéreas numa rua de bairro é pouco provável acontecer tudo de uma vez. Mas isso não invalida a premissa principal do vídeo: Beneficia-se um desenvolvimento subsidiado na periferia, que só vai criar tráfego e não vai trazer benefícios fiscais a curto/médio prazo para a cidade, em detrimento do ambiente urbano à volta, que se estraga e perde sua amenidade, valor, permeabilidade pedestre e habitabilidade, tornando a rua em questão, antes verdadeiramente segura para adultos e crianças, “segura” exclusivamente para os automóveis.

Estes projetos infelizmente ocorreram e ainda ocorrem tanto no Brasil quanto em Portugal. A ilusão do crescimento a todo custo, da viabilização da mobilidade automóvel em detrimento dos modos suaves e da “vida de bairro” ainda persiste e é cada vez mais copiada pelos países em desenvolvimento.

Mas há outras soluções! Nos Países Baixos1 desde 1973(!!!) esse tipo de desenvolvimento é proibido. Talvez tal posição dos holandeses seja um pouco extrema, pois realmente alguns empreendimentos (tipo IKEA) precisam de terrenos grandes e baratos na periferia e com boa acessibilidade automóvel. Mas definitivamente não é justo acabar com o sossego de uns em favor do progresso de outros.

Devemos construir cidades para pessoas e não para automóveis!

Referências:

  1. Schwanen, Tim, Martin Dijst, and Frans M. Dieleman. 2004. “Policies for Urban Form and Their Impact on Travel: The Netherlands Experience.” Urban Studies. 41, 579–603.
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Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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apenas pedalar ao nosso ritmo.

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