raios e coriscos

meu avô Zé Maria, eu , o Tó e o macho

Embora até dê pra encontrar algumas cenas em comum, à primeira vista as bicicletas e os cavalos nada terão de comparável. As biclas, por exemplo, não param para mordiscar aqui ali algumas ervas e raminhos suculentos, não enchem o bandulho de palha, não relincham e, não cagam o chão em qualquer lugar. Mas, como ultimamente a dona Etielbina me tem cobrado os seus prestimosos serviços com uma insólita birra, isso fez-me recordar com saudade o tempo em que eu e o meu irmão passávamos as férias na aldeia dos meus avós, em Mós do Douro, e íamos passear no lombo do macho. Sim, do macho!

Tal qual as mulas, o macho é da espécie muar, que resulta do cruzamento híbrido de outras duas espécies, no caso o de um asinino (o burro) com um equídeo (a égua), e do qual deriva o género masculino do bicho. Estes animais, perfeitamente adaptados a terrenos de topografia acidentada, e os burricos eram uma das principais fontes de riqueza das aldeias de toda a região transmontana. Com eles se lavravam as terras de xisto, transportavam-se pessoas, produtos agrícolas e água. Nesse tempo, havia pelo menos um desses animais em cada casa da aldeia. Bicicletas haviam muito poucas, e carros, para além do táxi do senhor Fernando e das furgonetas de venda de pão e peixe que chegavam a buzinar, só se viam no verão com o regresso dos filhos da terra para umas semanas de férias, pelo menos até às festas da freguesia em Setembro.

Pois então, nas bicicletas e nos quadrúpedes distingo pelo menos três coisas em comum: Transportam pessoas e carga, são teimosamente irrequietos e têm cornos! Sim, têm cornos. Acabei por chegar a essa surpreendente conclusão ao recordar um praguejar habitual que ouvia da boca do meu avô sempre que resmungava com o seu macho. Ou era quando o animal lhe desobedecia às ordens ou sempre que as ferraduras do bicho resvalassem nas pedras e tropeçava, o meu avô no alto da sua sabedoria refilava-lhe: Arre macho… raios te partiram os cornos! E agora deu-me para também para resmungar da mesma forma mas com a minha Etielbina. O diacho da bicla anda-me a empenar os nervos e a carteira. Em menos de um mês já vai no terceiro raio partido. Arre bina… raios te partiram os cornos!

Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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Uma resposta a raios e coriscos

  1. Pingback: da série: dona Etielbina vai para a aldeia [parte I] | na bicicleta

apenas pedalar ao nosso ritmo.

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