
Durante vários anos, para a grande maioria dos rapazes da minha idade, o prazer de sair à rua a pedalar uma bicicleta resumia-se praticamente a dar a volta ao bairro e, às vezes, arriscar aventuras pelos bosques. Era uma festa formidável. Um mini-pelotão de ciclistas sem prática reunia-se em frente a minha casa e pedalava horas a fio, pelo empedrado, pelo cimento dos passeios, por terras de pó e lama. No dia seguinte estávamos de rastos mas era uma ressaca saborosa. Aquele dia era o primeiro dia das férias grandes.
Pedalar naquela época, anos 70 e 80, era maravilhoso. Havia pouquíssimos carros nas ruas e os espantados automobilistas tinham um cuidado redobrado com aqueles loucos. E apelidar-me de louco é pouco. Eu era como as minhas bicicletas, rijo como o aço. A minha segunda bicla oferecida pelo meu pai era de corrida, uma Vilar vermelha roda 24, pesadona, de cinco velocidades. Nela eu simplesmente perdia a noção do perigo e a busca de adrenalina algumas vezes não encontrava limites. Alegria, felicidade, prazer em procurar caminhos novos, alguns deles tortos, e não raro o tombo que se dava no meio do trajecto. Fica um exemplo: Já passava da hora de jantar e a noite caía num crepúsculo de Setembro. Pedalávamos a todo o gás. Ultrapasso o Ernesto num contra-relógio irracional pela Rua Dr. Oliveira Lobo, a oposta à minha. Não tive a mínima hipótese. É que nem enxerguei o animal a saltar do passeio e surgir por entre os carros estacionados à esquerda. Quando dei por ele já a roda lhe acertava em cheio no lombo. Desamparado, caí sobre o meu braço e coxa direita. Do cão só lhe ouvi um estridente ganido de dor. Estatelado no chão em cima da bicicleta, surgiu ao pé de mim o esbaforido Ernesto com as seguintes palavras de encorajamento: “Xiiii Paulo, até fez faísca!!!”. Invariavelmente esse era o meu estado de espírito corpo, aqui e ali tatuado de mercurocromo.
Anos mais tarde, a suave Altis cor de laranja do meu pai entrou na festa. Aos poucos foi me passando de mão, e de pés, e simplesmente me concedeu a noção de que lado da vida se encontrava a minha própria realidade. Subíamos com a adrenalina a mil. “no pain, no gain“, sem dor não há ganho. No caminho de ida não raras vezes encontrava um amigo e a pedalar juntos nos ríamos dos momentos divertidos. Havia uma fé que um dia os problemas seriam resolvidos e na bicicleta construiria uma vida feliz. Assim foi, mas ela acabou abandonada no sótão, entregue às teias do esquecimento. Certa vez perguntei ao meu pai o que seria feito dela. Tinha-a oferecido aos Emaús. Que pena!
Então por que não relaxar e deixar que os que têm outras competências nos guiem? Sentei o rabo no conforto do carro e senti um novo prazer, o da condução. Foi uma compra fácil de fazer. A necessidade condizia com a realidade, tirava o carro da garagem e parava à porta do destino. Fechada a porta, os barulhos da rua diminuem, os comandos estão à mão, a música pode ser tocada, não se sente mais a chuva, calor ou frio na cara, Em caso de um acidente pode-se estar mais seguro. Era mais um dos entorpecidos pelo vício do automóvel. Nos últimos anos já não era tão fácil circular e encontrar lugar para estacionar. Era praticamente sair da garagem e ficar parado no meio da estrada. Não há mais previsibilidade de tempo de viagem. A comodidade tem o seu preço.
O que é bom acaba, mas ninguém quer largar. A visão do que é trânsito é individual, onde ninguém tem nada a ver com a vida do outro. Onde cada um faz o que quer: “Eu pago impostos, paguei pelo carro, tenho direito.” É muito difícil olhar-se ao retrovisor e mudar velhos hábitos, sejam eles bons ou maus. Sair da casca do automóvel é praticamente impossível para a grande maioria. Andar a pé, de autocarro, pedalar! “Que coisa mais ridícula, isso é de gente pobre!”. Será? Todos os caminhos para uma vida mais equilibrada e pacífica revelam-se longos e complicados. Felicidade imediata não existe, e dizem existir um preço, não raras vezes alto, muitas vezes grato. Muito já não me agradava. Era um bom sinal de fim de festa. O conceito do Metro é uma maravilha.
Na Etiel encontrei as bicicletas dos meus olhos, comportáveis ao meu bolso. Uma para mim, outra para a minha amada. Investi e ganhei. Busquei o bem-estar com insistência e com todas as ferramentas possíveis. É o nosso dever! Se o que nos é dado não é suficiente, vamos ao próximo passo, pagamos o preço e lucramos. A desintoxicação dos nossos vícios é um processo que tem o seu custo e os seus benéficos resultados. Alguns que há muito não se sentam o rabo numa bicicleta reclamam pelo menos da dor nas nádegas. O selim sempre foi um problema e a maioria volta para o carro, rapidinho. Para esses a bicicleta continua a ser um paradigma. Mistura o benefício com a fadiga, tentação e repulsa. Mas há uma crença. O que é difícil pode tornar-se no que é fácil? Pedalar é um processo cansativo, dorido, mas a persistência da pedalada vicia e é fascinante. Afinal, se quer conforto senta no sofá, para isso foi inventado o selim de gel.
O que comutou a minha rotina diária? À medida que fui ficando mais velho, o papel desempenhado pelas minhas bicicletas deixou de ser apenas o passeio pelo parque, o treino ao domingo, as aventuras para lugares inexplorados. Tornei-me suficientemente fino para levar a bicicleta a expandir os meus horizontes e usá-la como meio de transporte. O que mudou? A mentalidade e todo o benefício que advém desta alternativa e que a bicicleta promove: Não gastamos tanto e ganhamos tempo. Pobres e tontinhos ficam aqueles que permanecem engarrafados no tempo.