Se havia coisa que me picava fazia tempo era não ter tido ainda a possibilidade audácia de pedalar até ao ponto mais elevado de Portugal Continental, até à Torre na Serra da Estrela.

Aconteceu que por estes dias o meu amigo Jorge lançou-me o isco. Empurrou-me para fora da minha zona para, numa manhã confortável de domingo, sair em grupo e enfrentar a épica subida que só conhecia das transmissões televisivas da Volta a Portugal e das viagens de carro com a família à neve.
Este domingo, integrado num evento da Cycling District, escalei finalmente a Serra da Estrela até ao topo, desde Seia até à Torre, e posso dizer que foi das mais agradáveis sensações que tive num selim, mesmo estando ainda em recuperação de uma dor na lombar, que nem vos digo!

Após duas horas de viagem com o Juan, CEO da Bike Nomad, o Jorge e o Luis, amigo colombiano que fiquei a conhecer, chegamos bem cedo a Seia, muito antes da hora combinada. Com o grupo reunido, estavam alinhados à partida vinte corajosos trepadores, sendo que a maior parte dos intervenientes montava máquinas carbónicas, algumas do último modelo com tecnologias xpto e andamentos super-leves.
“É a 1ª vez que vou subir á Torre”

Eles não me conheciam, e logo de início tive aquela sensação que fitavam a minha bicicleta com um certo olhar desconfiado, se eu iria realmente chegar “naquilo” lá acima. Ok, se poderia ter trazido uma bicla bem mais apropriada para o frete, podia, mas, é claro que não seria a mesma coisa. Meti na cabeça que, para dar o real valor ao meu esforço, a subida teria de ser feita à moda antiga, a bordo da clássica bamBina Pinarello.

Antes ainda do inicio das hostilidades, e após um curto aquecimento, o Juan confesava que estava com a convicta convicção que, em algum momento da subida, iria dar meia volta e esperar por nós na carrinha.

Das múltiplas variantes que ligam a base da serra ao “tecto” de Portugal Continental, há pelo menos uma dezena delas à escolha. A cénica EN339 que liga Seia quase até à Torre é das subidas mais longas e duras, fazendo a sua seleção natural logo nas primeiras rampas. Meti um ritmo certinho e fui sem problemas de maior. na roda do primeiro grupo que se formou,

Logo à saída de Seia temos um belo rebuçado. Ao longo dos primeiros 10 quilómetros a elevação vai variando, e nem se nota muito pois as pernas estão frescas e a paisagem que se abre ao nosso lado vai nos distraindo. Ao longo da ascensão beneficiamos de curtas zonas de descanso, sendo a maior delas algo como dois quilómetros de descida para o Sabugueiro. Depois de atravessar a aldeia e até passar a Lagoa Pequena a estrada empina e bem. São à volta dos 5 quilómetros com uma constante e respeitável pendente, variando entre os 9 e os 14%.

“Essa é a verdadeira” ouvi alguém comentar à minha passagem. Autêntica pelo peso do aço, do alumínio, e autenticada pelas minhas pernas, lá encaramos de espírito leve os 30 quilómetros de ascensão quase contínua com os seus enganadores 5.6% de média de elevação. Para quem tem uma desmultiplicação mais leve não tem de penar tanto como eu com a relação mínima disponível de 39-28, que, em comparação ao compacto 34-34 que alguns tinham de proveito, já diz alguma coisa!
Relevante nesta fase foi ter notado que durante boa parte da subida não passou um carro por mim, nem para cima nem para baixo, o que permitiu realmente desfrutar do momento e da paisagem única das encostas envolventes.

A certa altura fui, como diz o pobo: “devagar, devagarinho e andando”. Reduzi o meu ritmo, distraindo-me para não pensar e não sofrer muito, captando fotografias em andamento e fazendo a contabilidade aos quilómetros dos mecos na berma da estrada. Entretanto alguns dos “jovens” nas suas biclas modernas que comigo se meteram nisto, foram por mim passando e gradualmente se afastando.
“Vocé está a andar bem! Foi difícil de o alcançar!”

Era já evidente que não estava com a mesma energia inicial. Alimentei-me e reforcei a luta, tanto de força de pernas como psicológica. Da Lagoa Comprida em diante é uma subida constante, com pendentes mais simpáticas e alguns falsos planos, mas sem grande margem para descanso. À passagem do cruzamento para Vide e Loriga entra-se na EN338 e uma placa informa-me que estou nos 1.700 metros de altitude, tenho ainda 8 difíceis quilómetros pela frente.

Numa curva à esquerda, na linha do horizonte, tenho pela primeira vez o vislumbre dos antigos radares da Força Aérea e que me dá aquela sensação do “está quase”. Concentro-me agora na estrada, pois o trânsito rodoviário aumentou consideravelmente, sobretudo dos motards que descem a serra em sentido contrário. A cada curva da estrada os radares vão crescendo, só que ainda estão lá, bem longe.
Depois de apontar a teleobjectiva ao teátrico Vale Glaciário de Loriga, espreito o relógio e, para espanto meu, verifico que levo quase um par de horas a dar ao pedal. E porquê o espanto? Pois, se a princípio ficava todo contente se concluísse a escalada nas 3 horas de empreitada, estava desta forma a superar largamente as minhas espectativas.

Passo pela estância de esqui, depois pelo cruzamento para Manteigas e para a Covilhã, baixo a cabeça ao vento e finco as pernas nos pedais para um último esforço, quando, de repente…. cheguei!
2h e 11 minutos! Fiz de estalo, sem paragens, toda a subida até ao ponto mais alto de Portugal Continental. Mesmo sendo constantemente estimulado a dar uma folga às pernas para enquadrar a bamBina com as vistas fantásticas que ia admirando, todas as fotos foram captadas sem tirar pousar os pés no chão. Cheguei lá acima dentro do “top tem”. Não devo fazer muito melhor com esta bicla.

A Meteorologia também ajudou. Não estava calor. Não estava frio. Um manto de nuvens altas e algum vento que apenas se sentiu mais intenso nos 1993 metros de altitude. Uma mega sandes de presunto com queijo da serra e uma coca-cola foram redentores para repor os níveis, mas a sandes era tão grande que metade foi para o bornal. Entretanto chegou o Jorge e esperamos mais um pouco pelo Luis para registar o momento da conquista em fotografia de conjunto. Ei-nos.

Por falar em estreias, esta é para mim a mais reveladora e marcante de todas. A Serra da Estrela é a mais espectacular das montanhas, psicologicamente a mais desafiante de encarar e fisicamente das mais exigentes de superar. Das subidas míticas do ciclismo nacional, e porque não dizer mundial, foi e continua a ser palco de grandes momentos de ciclismo. Só faltou estar coberta de neve e, se não estivesse levantado um vento frio, teríamos ficado por ali a apreciar tudo por mais tempo. Fecho o zip do corta-vento, volto a montar na bamBina e iniciamos a descida.

A descida foi longa e das mais tranquilas, sempre com cautela redrobada devido à inclinação e às curvas apertadas, escutando o chiar dos calços nos aros das rodas. Descer numa bicicleta com travões convencionais convém ter algum cuidado e antecedência nas decisões. Mas não se pense que fui sempre a travar. Se na subida tivemos pontos que foram de descanso, quando a estrada se aprumava os dois quilómetros a 4% do Sabugueiro tiveram a audácia de fazer acordar os letárgicos músculos das pernas.

De novo em Seia e pronto! Esta está feita e outras vertentes da Estrela estão na forja. Realizar isto aos sessenta, numa bicicleta à maneira, posso dizer que foi um feito na minha “carreira”, desportiva e amadora.



















