reciclando [23] ciclista e peão

ciclovia da Prelada

Eu, como muitos outros amigos ciclistas, sei que ao pedalar temos uma diferente percepção do que nos rodeia. Num contexto mais amplo, tomando como exemplo quando vamos a caminhar ou a correr, o ciclismo afecta positivamente a forma como prestamos atenção a tudo: à via, aos carros, aos peões… Com o número de ciclistas em crescendo, tem sido ampliado o atrito entre peões e ciclistas, sendo que, a meu ver, a maior parte da animosidade se encontra do lado do pedestre. Porque a bicicleta é silenciosa, há quem tema os ciclistas. Porque ela é rápida, há quem não nos grame. Porque ela é divertida, “é coisa de crianças”! Há pessoas que desprezam o que não conhecem, o que é diferente e oposto aos seus hábitos e costumes.

Os peões não utilizam a rua da mesma forma como os veículos, porém são parte dela. No entanto esquecem-se muitas vezes da presença dos ciclistas. Ao atravessar a rua, fora da passadeira, viram a cabeça e o olhar confirmativo para os veículos a motor, mas distraem-se frequentemente não dando conta que pode vir um ciclista e ficar em rota de colisão. Certa vez senti na pele a aspereza do asfalto porque um peão tonto atravessou a rua a correr e parou espantado, bem à minha frente, quando finalmente me viu. Para não o atropelar, desviei bruscamente a bicla, perdi o equilíbrio e não evitei a queda. O cromo receou por mim, reconheceu a estupidez da sua acção e ainda me ajudou a limpar o casaco. Comigo estava tubo bem, a bicla é que ganhou mais uns riscos para a colecção.

Outro quiproquó é quando os peões invadem as ciclovias e vagueiam por ali, sem nenhum cagaço, como se aquilo fosse uma enorme passadeira vermelha! É evidente que alguns ciclistas mostram desconforto e reclamam com quem fica parado, caminha errante ou corre nas ciclovias. Esse ressentimento é quase sempre resultado da má educação latente e de bocas foleiras que ouvimos de muita gente. Esses, não se incomodam se o ciclista tiver de se desviar, colocar-se em perigo, ao ter de fugir para o meio do trânsito ou travar de forma insegura, para evitar um tipo que, inesperadamente, entrou no seu caminho. Independentemente, se a culpa do acidente pertence ao peão ou ao ciclista, imediatamente se estica o dedo acusador contra a suposta imprudência dos ciclistas. Infelizmente, estes incidentes alimentam a chama que incendeia a antipatia contra os ciclistas. Nesses momentos de conflito, assim como os que se verificam entre automobilistas e ciclistas, cabe ao ciclista de alguma forma descomplicar a coisa e reduzir o atrito, estando atento e antecipando as acções dos outros.

Apesar de passar muito tempo a pedalar, gasto muito mais sentado à frente de um computador. Ficar sentado por longos períodos de tempo a olhar para um monitor de computador não é bom para a saúde e, como tal, incorporo a actividade adicional de uma caminhada ou uma corridita de quando em vez. Ao chegar a um cruzamento que quero atravessar, paro, escuto e olho para os dois lados. Procuro estar atento a todos os tipos de veículos, carros, bicicletas, motocicletas, patins em linha… e também reparo nas pessoas em cadeiras de rodas. Cheguei a assistir à triste cena de um homem numa cadeira de rodas por pouco não levar uma panada de um carro numa rua movimentada porque um automobilista gordo deixou a viatura estacionada em cima do passeio, impedindo a  sua passagem e que por via disso circulava na rua. Enfim, para evitar incomodar ou colocar alguém em perigo, enquanto peões, ciclistas ou automobilistas, tornemo-nos cientes das nossas responsabilidades, baseados no respeito mútuo e compreensão. Nem todos os ciclistas são condutores, mas os ciclistas também são peões!

 

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Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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2 respostas a reciclando [23] ciclista e peão

  1. Manuel Santos diz:

    Gosto muito de receber suas opiniões. São tudo de bom, e eu quero ser ciclista um pouco como voçe, por enquanto só em sonhos… E sei que as cidades são das pessoas, pelas pessoas, e para as pessoas, e as bicicletas são um elemento estranho que está a aparecer, e ocupa (quanto a mim erradamente) tb os passeios, e eu tb o farei, mas só pode ser a velocidade reduzida e qq peão, por principio, e na duvida, tem de ter prioridade. Não dá para fazer ciclismo misturado com pessoas; só dá para passear, e sempre com atenção, mesmo nas passadeiras exclusivas de bicicletas. Prefiro desviar-me toda a vida do que ter um acidente cheio de razão. Já é o que faço diáriamente a andar de moto, e continuarei a fazer de bicicleta. A segurança de todos é essencial para as bicicletas vingarem.
    Obrigado por partilhar suas experiências,
    Manuel Santos

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  2. paulofski diz:

    Antes de mais, Manuel, obrigado pelo seu comentário.

    As bicicletas são peças fundamentais nas cidades do futuro e nunca foram um elemento estranho no passado. Desde a sua invenção que a bicicleta é utilizada essencialmente como veículo. Dando o exemplo dos holandeses e dos dinamarqueses, que utilizam a bicicleta como o veículo por excelência, poderá se dizer que é uma questão cultural, certo, mas é sobretudo uma questão de escolha.

    Como ciclista reivindico a estrada como o meu meio natural de circulação. Aquilo que é uma necessidade para mim, pedalar, é uma questão de experiência e de coragem. Não me intimido com os potenciais perigos que andar de bicicleta no trânsito pode representar. Adquiri uma abordagem mais prática e orientada para pedalar em segurança. Defendo a prática do ciclismo veicular, incentivando outros a pedalar em consonância e respeitando as regras de trânsito. Defendo a ideia da bicicleta ter um lugar prioritário no código da estrada.

    Mas, o que também sinto infelizmente é ainda a incompreensão de certos automobilistas que estou a estorvar. E isso acontece com os menos experientes que, empurrados para o passeio, são depois considerados perigosos, porque assustam o peão! Eis que surge o outro tipo de “ciclista”, indivíduos, novos ou velhos, experientes ou não experientes, que pedalam em locais inapropriados, sem medir as consequências das suas acções. Com o seu comportamento dão azo a comentários negativos, mas dão também a entender que as ruas não foram concebidas para as bicicletas. E, a bem da verdade, não o foram. Assim como não foram uma grande parte das “ciclovias”. Quase todas as vias ciclaveis não passam da extensão do passeio. Outras são partilhadas, onde tanto o peão como o ciclista se sentem vulneráveis, sendo que pedalar pode ser mais perigoso que andar na estrada. Algumas pessoas censuram o ciclista que circula no passeio. Dou-lhes razão, em parte, mas custa-me aceitar que identifiquem qualquer um como o todo. Ninguém espere que todos os ciclistas vejam as coisas da mesma maneira. Não duvido que alguns desrespeitem como norma, e têm opiniões divergentes quando são recriminados.

    Manuel, olhe bem para a fotografia que emoldura o post e me diga o que está de errado?! Sei bem que em algumas situações não temos culpa, e a solução é “empurrar” o invasor. Eu faço-o constantemente, mas também assumo que prevarico, porque de outra forma não entraria em casa. Um pouco de respeito e boa vontade de ambas as partes não faz mal a ninguém.

    Obrigado pelas suas palavras e volte sempre. Abraço.

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apenas pedalar ao nosso ritmo.

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