cena do quotidiano


Passo a explicar. Encontro-me em frente ao monitor, refastelado na cadeira e numa viagem virtual. Aproveitando a boleia do Astra do Tio Google,  passeio errante pelas ruas do Porto. Sem o mínimo esforço, salto, instante a instante, a cada clique no rato. Escalo em marcha a ré a Rua de D. Pedro V e é quando percebo, aproximando-me lentamente, o ciclista.

Por alguma razão a sua figura me chama a atenção. Caminha rua acima, empurra nas mãos uma bicicleta que, se não me iludir a vista, poderia até dizer muito boa. Ele, por sua vez, completa uma condição de solidão, mas parece determinado. Como leva o bagageiro vazio e carrega uma mochila volumosa às costas, poderia supor tratar-se de um estudante. Algo me diz no entanto que vem da labuta, como cantoneiro, pedreiro ou algo assim. Aparenta ter vários anos, talvez mais, e veste roupas de trabalho.  Ali, o estaleiro de umas obras de Santa Engrácia rouba-lhe o passeio e arreda-o para o asfalto, onde alguns carros passam rente. O curioso, no entanto, é que apesar desta rua ser muito íngreme, ele resguarda uma espécie de humildade e mesmo cansado consegue sobressair. São as pessoas muitas vezes humildes que fazem da bicicleta um instrumento de brio.

Fiquei por momentos a matutar, melhor, a tentar entender o que tanto me atraiu na cena. Pode ter a ver com o anonimato do ciclista, com sua condição desfavorecida, com a fragilidade das suas forças físicas e o peso da bicicleta para enfrentar os obstáculos que muitas vezes enfrenta pelas ruas da vida. Pequenas coisas que também me fazem pensar, por um instante, na nossa insignificância contra as leias da natureza e dentro dos nossos limites, que é pedalar uma bicicleta. Ou quando o obstáculo é maior do que nossas forças, surge sempre a honrosa opção de desmontar e seguir a pé, levando-a pela mão, até chegarmos ao destino.

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Sobre paulofski

Na bicicleta. Aquilo que hoje é a minha realidade e um benefício extraordinário, eu só aprendi aos 6 anos, para deixar aos 18 e voltar a ela para me aventurar aos 40. Aos poucos fui conquistando a afeição das amigas do ambiente e o resto, bem, o resto é paisagem e absorver todo o prazer que as minhas bicicletas me têm proporcionado.
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9 respostas a cena do quotidiano

  1. O passeio do outro lado… é por onde costumo subir. 🙂

    Um abraço, bela posta.

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  2. Já para não falar que na faixa contrária vemos a circular antítese do relatado…

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  3. paulofski diz:

    É Miguel, é mais fresca a subida no passeio do outro lado. Já o car wash mais acima é que não havia necessidade.

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  4. paulofski diz:

    Vê-se Sérgio, mas também é bom sentir um certo arrepio na espinha e cabelos ao vento quando a gravidade nos puxa para o rio. Haja fé nos travões da bicla.

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  5. Travões? Acho que não tenho isso.

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  6. paulofski diz:

    Mas tem buzinas!

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  7. Pingback: ciclista misterioso | na bicicleta

  8. bem seleccionado este momento! desmontar e levar a bicla a mão não é vergonha nenhuma. já subi algumas vezes esta rua de bicla, só para ter o prazer de descer a rua dos moinhos, uma rua paralela a esta…

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  9. paulofski diz:

    onde certamente encontras um excelente enquadramento fotográfico 🙂

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apenas pedalar ao nosso ritmo.

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